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quinta-feira, 31 de março de 2011

Jornal "Público" revela operação secreta que abalou o Alentejo

Campo Maior, 1944

"A polícia política de Salazar montou uma operação para eliminar uma das muitas bolsas de refugiados espanhóis existentes na fronteira. A colaboração da Guardia Civil e a participação activa do exército português levaram à captura de mais de duas dezenas de homens cujo destino ainda se desconhece. Documentos inéditos até agora permitem finalmente reconstituir o que aconteceu..."

O artigo vem impresso na revista "Pública" de domingo, dia 3 de Abril, e é da autoria do jornalista Carlos Pessoa, que nos últimos anos realizou várias reportagens sobre o tema da Guerra Civil de Espanha, e as ligações a Portugal...

Boas leituras
Carlos Guerreiro

sábado, 26 de março de 2011

A primeira “fuga”

O rebocador saiu do porto de Leixões a coberto da noite e, a cerca de quatro milhas da costa portuguesa, ficou à espera. O encontro - a que não queria faltar - tinha sido combinado entre as duas e as quatro da manhã.

A bordo encontravam-se quase dezena e meia de passageiros. Onze eram homens da Royal Air Force (RAF) que esperavam, finalmente, regressar a casa. Aquela madrugada de 26 de Março de 1941 marcava o final de uma operação envolvendo meios diplomáticas, serviços secretos, gente sem nome e um planeamento... à portuguesa: poucos meios, mas muito boa vontade.


O Sunderland em Setúbal (Foto Olinda Couceiro)

A operação tinha começada um mês antes. A noite de 14 para 15 de Fevereiro desse ano deixou o país virado do avesso. Durante horas um violento ciclone destruiu culturas, casas, embarcações e bens diversos. Morreram mais de uma centena de pessoas e o número de feridos ultrapassou o meio milhar...

Foi uma das maiores tragédias naturais a atingir Portugal no século passado.
Apanhado por este fenómeno foi também um hidroavião Sunderland da RAF com destino a Àfrica. Pouco antes da meia-noite descolaram das proximidades de Plymouth, esperando encontrar o vento fraco prometido no briefing.

Às cinco da manhã o aparelho era violentamente abanado. “O navegador, Jack Banfield, decidiu medir a velocidade do vento e ficámos surpreendidos quando percebemos que atingiam velocidades acima das cem milhas por hora”, explicou em 2001 Roy Booth, um dos tripulantes, numa entrevista a Neil Owen, que tem procurado contar as histórias dos aviões e dos homens que passaram por Oban – a sua terra natal – durante a II Guerra Mundial.

Com rajadas que terão chegado às 155 milhas era impossível manter o aparelho no ar. Tinham de aterrar pois estavam a esgotar o combustível porque voavam contra o vento.
Um rápido olhar para os mapas mostrou a costa portuguesa como a mais próxima.

“As ondas tinham dez metros de altura e o piloto “Shorty” Evison realizou um verdadeiro milagre ao amarar. Sempre pensámos que o avião se iria desfazer com aquelas condições meteorológicas”, explicou Roy Booth que mantinha viva a imagem a imagem do piloto a sair do cockpit depois de operação “com lágrimas a correr-lhe pela face, devido à tensão nervosa”.

A grande confusão

O aparelho encalhou numa praia perto do meio dia, mas não receberam qualquer assistência, nesse dia e nessa noite, devido à tempestade que varria o país. Só na manhã seguinte seriam levados para Setúbal.

Foram a primeira tripulação aliada a aterrar em Portugal. As “Leis da Guerra”, apesar de pouco claras, apontavam para que ficassem “internados” até final do conflito, mas nunca terá existido grande vontade para o fazer.

Documentos britânicos da época garantem que a guarda sempre foi reduzida. Era quase um convite à evasão que encontrava impedimentos noutros níveis. A correspondência trocada entre várias entidades revela a encruzilhada em que se encontravam.

Os serviços secretos britânicos propunham uma operação de resgate aproveitando o facto dos homens – então na Figueira da Foz – se encontrarem pouco guardados.
Seriam metidos em carros e embarcados num dos navios que realizavam patrulhas ao longo da costa portuguesa a partir de Gibraltar.

Avançam até com pormenores para um embarque no Algarve, longe dos mares mais movimentados da costa atlântica.

A Embaixada em Lisboa não discorda, mas não quer saber pormenores. Teme a reacção de Salazar e pesa as implicações no relacionamento futuro com o governo português. Se nada souber não precisará de mentir caso seja chamada à responsabilidade.

O Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros) desaconselha a operação e não quer sequer que se faça um pedido oficial para a libertação dos homens. Isso abriria um precedente não só em relação a Portugal, mas também a outros países neutrais. È preferível, garante, que se cumpram as regras estabelecidas internacionalmente.

Fica também expresso que é “pouco aconselhável” o envolvimento de portugueses numa possível operação de resgate. Afinal seria um português a desbloquear a situação.

Um pedido de ajuda

O Major António Dias Leite, da Aeronáutica Militar, era um “entusiasta pela sorte dos aliados”, e não estranhou o convite para um cocktail na Embaixada Britânica. Entre os convidados viu uma cara não lhe era estranha, mas que só conseguiu identificar quando foi abordado.

Tratava-se do Squadron Leader Lombard. Era comandante da esquadrilha 95, a que pertencia o Sunderland, e, ele próprio, um dos internados pois também vinha a bordo. Tinham-se conhecido em 1938 num curso avançado de instrutores no Reino Unido. Lombard pedia-lhe ajuda para encontrar uma saída.

Uma tripulação alemã que aterrara no Alentejo na mesma altura tinha “escapado” para Espanha. O país vizinho não era solução para eles, mas precisavam de uma solução.
Dias Leite mostrou-se sensível aos argumentos mas não tinha poderes para organizar uma operação desse género. Não passava de um Major da Aeronáutica Militar. A conversa ficou por ali, até que dias depois foi novamente contactado, agora pela embaixada. Decidiu tentar…


A tripulação do Sunderland em Aveiro. Atrás encontram-se os membros da tripulação. À frente, à esquerda, está o dono da casa Augusto Cunha, a mãe, e o S/Ldr Lombard. À direita está o Major Dias Leite e Olinda Couceiro. (Foto Olinda Couceiro)

Num documento com quatro páginas, que a família do oficial português preserva, ele conta os pormenores da operação. Contactou “Alguém” (a maiúscula é do documento original) para lhe explicar o problema. Tratava-se certamente de “Alguém” bem colocado no governo, pois acabou por dar luz verde á operação, desde que fossem cumpridas algumas condições. Existia a garantia de que as autoridades iam desviar os olhos, mas, se alguma coisa corresse mal, o Major teria de assumir todas as responsabilidades.

Dia Leite assumiu o risco. Contactou amigos que tinham barcos e foi delineado um plano. Um dos navios britânicos de Gibraltar ia aproximar-se da costa portuguesa para assegurar o “rendez-vouz” com os operacionais portugueses.

A “evasão”

Alguns dias antes da data marcada os aviadores “fugiram” dos seus guardas na Figueira da Foz em direcção a Aveiro. Na sua entrevista Roy Booth relata esta fuga com a uma perseguição de carro e tiroteio, coordenada põe elementos locais da Gestapo (a polícia secreta Nazi).

António Dias Leite garante que tudo correu como planeado com os homens a esconderem-se em Aveiro, na casa de um médico amigo, Augusto da Cunha.

“O tio avisou a minha mãe e a minha avó de que iam chegar uns aviadores ingleses, mas que ninguém poderia saber disso. A minha avó ficou em pânico quando ele lhe disse que os alemães nos cortariam o pescoço se isso se soubesse”, conta a rir Olinda Couceiro, sobrinha de um dos organizadores da fuga.

Olinda Couceiro lembra várias histórias relacionadas com a presença dos homens em casa e destaca o medo que se instalou quando o padeiro começou a fazer perguntas. “Ele queria saber se tínhamos familiares em casa porque de repente começámos a comprar pão para mais 11 pessoas e também se ouvia piano, que um dos rapazes sabia tocar”, explica.

No dia 25 de Março, à tarde, dirigiram-se a Leixões onde embarcaram já a noite ia alta. Além dos 11 homens da RAF seguiam também a bordo Dias Leite e Augusto da Cunha.

Perto das quatro da manhã um navio de guerra britânico iluminou-se da proa à popa, aproximando-se do rebocador. Estava consumada a primeira “fuga” de aviadores aliados do nosso país. A palavra fuga viria a ser repetida ao longo dos anos seguintes em documentos oficiais e em jornais sempre que se referiam às saídas de Portugal.


Esta adaga cerimonial nazi foi um dos objectos oferecidos pela tripulação ao Major Dias Leite. (Foto Maria Leite)

Ainda houve tempo para um porto de honra e uma garrafa mais azarada caiu da mesa, partindo-se. Uma “grande perda”, garantiram todos, mesmo num tempo como aquele.
Esta rota de fuga seria utilizada por dezenas de outros aviadores nos anos que se seguiram. Segundo Dias Leite quase 300 “escaparam” assim.

Segundo Maria leite, a filha do Major Português, que guarda vários objectos que os aviadores deixaram de recordação, Dias Leite reencontrou um dos homens que ajudou a fugir anos mais tarde na comitiva da Rainha de Inglaterra, quando esta visitou o nosso país...

Para saber mais sobre o Sunderland clique aqui.

Para saber mais sobre o avião alemão que aterrou na mesma época clique aqui.

(Agradeço a colaboração de Neil Owen, Maria Dias Leite e Olinda Couceiro)

Carlos Guerreiro

domingo, 13 de março de 2011

Os orgulhosos salvadores do "Sines"

Por Carlos Guerreiro


A fotografia saiu na edição de 23 de Março de 1943 do "Século Ilustrado", numa página com várias outras imagens e uma legenda muito simples: “A tripulação do vapor Sines que salvou 71 náufragos dum barco americano torpedeado no Atlântico”.

Tratava-se de uma pequena nota de rodapé num conflito que trouxe até portos portugueses centenas de náufragos de todas as nacionalidades. Não é por acaso que logo em Abril de 1940 se instala em Lisboa o “British Seaman Institute”, com o objectivo de dar apoio aos marinheiros britânicos - diga-se aliados - que passavam pelo porto da capital e, especialmente, aos náufragos que iam chegando aterras portuguesas trazidos por navios de guerra, comércio ou pesca.

Os 71 homens salvos pelo Sines não chegaram à capital e foram transportados para o porto da Horta, ilha que se encontrava bastante mais próxima do local onde foram atingidos pelo torpedo do submarino alemão U-172, cerca de 450 milhas a oeste dos Açores.

Pertenciam ao cargueiro “Keystone” de 5,5 toneladas que seguia integrado num comboio constituído por 45 navios, denominado UGS-6. Partira dos Estados Unidos da América (12 de Março) com destino a Gibraltar (19 de Março).

O “Keystone” seria a primeira vítima de uma “alcateia” de submarinos alemães que patrulhava o Atlântico nas imediações dos Açores. Logo após a partida teve problemas na casa de máquinas que o atrasaram e quando foi atingido por um torpedo – às 22.28 horas do dia 13 - já se encontrava a 50 milhas do resto do comboio (cerca de 100 quilómetros).

A primeira explosão matou dois dos homens a bordo e incapacitou-o de imediato. Após o abandono por parte dos tripulantes um segundo torpedo partiu-o ao meio e ele afundou-se em poucos minuto.

Mas este não seria a única vítima deste confronto. Entre os dias 13 e 18 de Março os submarinos conseguiriam afundar quatro embarcações e danificar outra, apesar da escolta constituída por sete “destroyers” americanos.

Os orgulhosos tripulantes do Sines encontrariam as balsas com os sobreviventes sete horas após o afundamento e cumpriram as regras dos homens do mar, recolhendo todos os que encontraram.

Não seriam os únicos portugueses a fazê-lo... mas merecem o ar orgulhoso que mostram na fotografia.

Para saber mais sobre o comboio USG-6 clique aqui.

Para saber mais sobre o "Keystone" clique aqui.

Fontes: www.uboat.net / Século Ilustrado - Arquivo Municipal de Portimão / War Diaries 1942-1945 - NARA

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Os senhores que mandavam no rádio…

Por Carlos Guerreiro

“A medida é violenta mas indispensável porque – digo-o com a maior das preocupações e desgosto – em quase todo o Algarve não se cumprem as ordens do Governo da Nação, relativamente às emissões radiofónicas de propaganda dos países beligerantes, seus aliados e simpatizantes, que foram expressamente proibidas”.

Anúncio da Philips mostrando vários modelos de rádio daquela companhia. Publicado no "Diário de Lisboa" em Setembro de 1939. 
(Diário de Lisboa/Fundação Mário Soares)

Este é apenas um dos parágrafos de circular enviada às várias câmaras do distrito pelo Governador Civil de Faro, Armando Monteiro Leite, em 5 de Maio de 1943. Com a circular seguiam cópias de um edital a ser colocado nos locais públicos exigindo a entrega de todos os aparelhos de rádio às autoridades para serem selados.

Num tom, por vezes quase irado, o documento salienta que o momento se “reveste de extraordinária gravidade, porquanto a indiferença da maioria das autoridades revela afinal que não é suficientemente avaliada a responsabilidade moral assumida por Portugal ao declarar e definir a sua posição de neutralidade em face da horrorosa tragédia que vive a humanidade”.

Desde o princípio do conflito que as várias facções da guerra bombardeavam o país com propaganda. Diversas publicações – como por exemplo a “Signal” (alemã) ou a “Neptuno” (britânica), entre outras começaram a circular, especialmente, a partir de 1940.



A BBC foi uma das primeiras estações de rádio a realizar, em onda curta, transmissões para Portugal. Este é um dos muitos anúncios publicados na imprensa portuguesa diária.  Fernando Pessa era um dos "radialistas" mais conhecidos e ouvidos.
(Diário de Lisboa/Fundação Mário Soares)











Os “sagrados interesses da Pátria”

A rádio é um dos mais poderosos meios de propaganda da época e cedo emissoras alemãs, britânicas, italianas, soviéticas e americanas criam programas em português. A procura de informação por parte da população juntava multidões nos locais onde existiam rádios. Tabernas, agremiações sociais, culturais e de recreio eram muito procurados pois os aparelhos em residências particulares eram escassos.

Destas aglomerações resultavam manifestações públicas que preocupavam o regime. O aumento do número de emissões levou o governo a publicar diversos editais. Um, em Maio de 1941, é acompanhado de um documento onde Armando Monteiro Leite esclarece que o objectivo é evitar “actos que se prestem a criar embaraços ao Governo”, até porque “acima de simpatias e antipatias de ordem pessoal estão os sagrados interesses da Pátria”.



Os muitos interesses da Alemanha em Portugal não deixaram o regime hitleriano descurar a propaganda para o país.
(Diário de Lisboa/Fundação Mário Soares)












Esta “Circular Confidencial”, enviada aos autarcas, explica que “infelizmente, na sombra, elementos suspeitos procuram prejudicar a unidade nacional, explorando ódios e paixões, levando a confusão a espíritos locais e incultos, tentando (…) contrariar a acção do Governo”.

Fica, a partir daquela data, proibida a audição em locais públicos de emissões “que captem postos estrangeiros (…) para retransmissão de notícias e comunicados de guerra”.





Com entrada dos Estados Unidos da América na Guerra chegou também a Portugal uma das mais poderosas máquinas de propaganda do mundo.
(Diário de Lisboa/Fundação Mário Soares)










São anunciadas ainda outras restrições como a colocação de cartazes, “revistas fotográficas” ou outro tipo de propaganda dos beligerantes em montras. Proíbe também que os populares “usem emblemas e insígnias representativas ou alusivas a países beligerantes”, e a sua venda em estabelecimentos portugueses.

Proibido… mas não muito

Dois anos depois, e em relação à rádio, poucas destas imposições eram cumpridas. Mais grave era o facto do desrespeito pelas normas ser feito à vista de todos, como confirmam vários exemplos referidos na circular “que denotam a brandura de algumas autoridades que conduziram a abusos de ousadia que podem originar situações melindrosas”:

a) Numa vila, sede de concelho, chegou-se a utilizar alto-falantes para retransmissão pública de notícias divulgadas por postos estrangeiros;

b) Numa cidade, defronte de um largo público, determinada casa particular abria de par em par as janelas, para que uma massa confusa de pessoas de rudimentar cultura e obcecado facciosismo escutasse as emissões de terminados postos estrangeiros.

c) Em *todas as associações de recreio - algumas tendo como directores *autoridades – se permitem as emissões de notícias de guerra de postos estrangeiros de radiodifusão.

d) Tendo-se reprimido em uma ou outra Casa de Povo o uso de aparelhos de rádio para a audição de notícias estrangeiras (…), os seus sócios deixaram de frequentar as sedes para assistirem nas tabernas locais às audições de programas de notícias e propaganda de guerra, feitas por postos estrangeiros de radiodifusão, inclusive os da Rússia Comunista.

Estas são algumas das razões que levam à selagem e ao envio de uma relação dos aparelhos existentes na região para o Governo Civil.

De fora ficam apenas os locais onde seja possível exercer um “eficiente vigilância”. Também poderão ser desbloqueados alguns rádios, depois de se averiguar a “idoneidade moral e política dos requerentes”.

As ordens são para cumprir de imediato, mas a vontade de ferro do Governador Civil é vencida com alguma rapidez.






Todos os beligerantes tentaram passar a sua mensagem, incluindo os Italianos. Não podemos esquecer que comunidade italiana em Portugal era bastante grande. Em, Olhão, no Algarve, onde os italianos dominavam a indústria de conservas, existiu mesmo um núcleo de "Camisas Negras", onde só se podia entrar com convite.
(Século Ilustrado/Arquivo Municipal de Portimão)













À boa maneira portuguesa, apenas 22 dias passados, as ordens são suavizadas, num novo edital. Continua proibida a audição de emissões em “tabernas, cafés, hotéis e restaurantes”, mas nas associações de recreio, “desde que os seus directores se responsabilizem” e prometam não ouvir postos estrangeiros poderão ser devolvidos os aparelhos.

* - sublinhado no documento original

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Algumas perguntas a Robert Wilson

Por Carlos Guerreiro

Robert Wilson é um escritor britânico que vive em Portugal há muitos anos. Neste momento reside no Redondo, no Alentejo, onde escreveu as suas últimas obras. Dos dez livros que publicou, dois estão relacionados com Portugal: “O ÚLTIMO ACTO EM LISBOA” (original de 1999) e “A COMPANHIA DE ESTRANHOS” (original de 2001). Ambos centram parte da sua acção no Portugal da II Guerra Mundial, razão para uma conversa com o autor.
No centro desta conversa está especialmente o primeiro destes livros que se concentra na mal conhecida “guerra do volfrâmio”, uma tema que só recentemente começou a ser conhecido, mesmo entre nós. Este é também um dos mais importantes livros da carreira de Wilson pois recebeu o “1999 Crime Writers Association Gold Dagger” (Prémio Adaga de Ouro da CWA de 1999) e o “2003 International Deutsche Krimi Prize” (Prémio Internacional Alemão de Crime de 2003).

Aterrem em Portugal: Parte da acção dos livros que escreveu, relacionados com Portugal, têm como pano de fundo o período da II Guerra Mundial. Porquê a escolha deste tema?

Robert Wilson: Escrevi quatro livros que tinham como cenário África, e nessa altura África não era um tema de leitura muito popular.

Quando terminei esses livros vivia em Portugal há cerca de 10 anos. Nessa altura pensei: as pessoas conhecem melhor Portugal, estão mais identificadas com o país e talvez seja um bom tema sobre o qual devo escrever.

Como já cá vivia há alguns anos, sentia-me mais confortável a escrever sobre o país. Conhecia alguma coisa sobre as pessoas e sobre a linguagem.

Faltava apenas encontrar o tema. Estávamos nos anos 90 e nos jornais lia muito sobre o ouro nazi. Julguei que talvez encontrasse a minha história: a forma como o ouro vinha da Alemanha, através de Espanha, até Portugal para depois desaparecer misteriosamente na América do Sul.


Estranhamente, e quanto mais pensava no assunto, menos excitante a história me parecia. Realizava pesquisas com a minha mulher em Londres, para um outro livro, e pedi-lhe para cruzar as palavras ouro com Portugal e ver o que acontecia.

Ela voltou muito depressa e disse-me que grandes quantidades de ouro entraram em Portugal durante a governação de Salazar, durante a II Guerra Mundial, por causa do volfrâmio.

O que é volfrâmio?, perguntei-lhe.

“Não faço ideia”, respondeu-me.

Descobrimos depois que volfrâmio era tungsténio e que, quando Hitler invadiu a Rússia, cortou a rota do principal do seu abastecedor que era a China. Isto queria dizer – por causa do tipo de conflito em que estava envolvido, um conflito de blindados – que era preciso muito aço e um dos componentes da liga é o tungsténio. Por isso ele tinha de encontrar um fornecedor alternativo.

Havia um pouco na Suécia – apenas cerca de 300 toneladas – e a maior parte estava em Portugal. Nessa altura existiam talvez cerca de 3000 toneladas no país. Pareceu-me que esta era um possibilidade de história muito mais interessante…


 
"Último acto em Lisboa", na edição da Dom Quixote de 2009 (ISBN: 9789722037297).














 

Aterrem em Portugal: Pesquisou o tema e falou com portugueses para compreender o que estava a acontecer no país nesse período. Que imagem tem de Portugal dos anos quarenta?


Robert Wilson: Em Inglaterra as pessoas escrevem diários e mantêm registos diversos sobre os acontecimentos. Há relatos pessoais e esse tipo de coisas. Em Portugal estamos a falar do período de Salazar e a população tinha medo, por isso não fazia, nem guardava, esse tipo de relatos. Isso foi o mais difícil, encontrar informação sobre o que se passava no país.

No Fundão, por exemplo, pedi a um jornalista os jornais dos anos 40 para a minha pesquisa. Disse que mos dava, mas que não iria servir-me de nada, por causa da censura.

Foi necessário encontrar pessoas que tivessem vivido essa história. Conhecer uma ou duas foi suficiente para ficar com uma imagem sobre o que se passava: aldeias inteiras do Alentejo deixavam os campos agrícolas e seguiam para a Beira, porque uma rocha de volfrâmio podia valer um mês de ordenado. Criou-se uma febre que atravessou Portugal.

De repente surgiu a oportunidade de todos poderem fazer uma fortuna.

Aterrem em Portugal: Quando se começa a pesquisar este período encontramos informação contraditória. Este era um país fascista e existia um forte controlo sobre a população. Mas parece, em vários momentos, que houve um afrouxamento nesse controlo. É pelo menos um período estranho.

Robert Wilson: Essa foi certamente a impressão com que fiquei.

Existiam centros de controlo, como Lisboa. Sentimos que a cidade estava controlada. Lembro-me de encontrar relatos de estrangeiros que comentavam o barulho que se ouvia todas as noites, por volta das nove horas. Soava como se fossem tiros. Depois ficavam a saber que a população só estava autorizada a bater os tapetes durante a noite, e era esse o barulho que se ouvia.

Nestas pequenas coisas percebemos que se tratava de uma sociedade muito controlada.
Na Beira esse controlo não existia, e existiam ainda muitas influências no terreno. Estavam lá os britânicos. Estavam lá os alemães. Estavam lá homens de negócios - portugueses e espanhóis.

Havia também muito contrabando.

Nesta zona não existia um controlo muito apertado e havia dinheiro. Por dinheiro as pessoas fazem coisas que normalmente nunca fariam.

Lembro-me de estudar num mapa as possíveis rotas que o contrabando poderia utilizar. Para mim a zona da Serra da Malcata seria um bom local para isso acontecer. Desloquei-me àquela zona e percebi que ainda hoje ali existe contrabando, não de volfrâmio, mas de tabaco.

Desembarcam os cigarros na costa perto de Aveiro e depois transportam-nos por ali.





"Na companhia de estranhos" também foi reeditado pela Dom Quixote em 2009 (ISBN: 9789722037303)













Aterrem em Portugal: O que mais o surpreendeu nesta pesquisa?
Robert Wilson: Fui surpreendido e fiquei impressionado com Salazar. Ele tinha um jogo muito difícil para fazer.
Estava entre os Aliados e o Eixo. Faziam ambos uma grande pressão sobre ele.
O Eixo ameaçava-o. Basicamente diziam que teria de fazer o que lhe pediam ou haveria problemas, como o ataque a embarcações portuguesas, por exemplo.
Os Aliados lembravam-lhe que tinham o tratado de aliança mais antigo do mundo – desde 1386 – e que por isso tinham de ser amigos.
Salazar fez um jogo muito cuidadoso. Tentou satisfazer ambos os lados e, ao fazê-lo, ainda conseguiu juntar uma fortuna com o volfrâmio.
Esta foi uma das maiores surpresas que tive. Salazar saiu da II Guerra Mundial como uma história de sucesso, e eu não esperava isso. Era um fascista, um grande admirador de Mussolini. Pensava que ele sairia queimado devido a essa associação, mas não foi isso que aconteceu. Ele saiu muito bem da II Guerra mundial…


Sinopse oficial de "Último acto em Lisboa"

1941
Klaus Felsen, o proprietário de uma fábrica em Berlim, é forçado a alistar-se nas SS e a dirigir-se a Lisboa, cidade de luz, onde ao ritmo dos dias convergem nazis e aliados, refugiados e especuladores, todos dançando ao compasso do oportunismo e do desespero. A sua missão é infiltrar-se nas geladas montanhas do Norte de Portugal, onde se trava uma luta traiçoeira pelo volfrâmio, elemento essencial à blitzkrieg de Hitler. Aí encontra Manuel Abrantes, o homem que põe em movimento a roda de ambição e vingança que irá girar até ao final do século.
Final dos anos 1990.
O inspector Zé Coelho, da Polícia Judiciária, investiga o crime sexual cometido contra uma jovem adolescente em Lisboa. Esta pesquisa conduzirá Coelho por terrenos lodosos da História a um crime mais antigo - enterrado com os ossos de um passado de fascismo - e a um pavoroso motivo enterrado ainda mais fundo. E, uma vez à superfície, o passado e o presente irão convergir com implicações arrepiantes e consequências insondáveis.



Sinopse oficial de "A companhia de estranhos"

Lisboa, 1944. No calor tórrido do Verão, as ruas da capital fervilham de espiões e informadores, enquanto os serviços secretos disputam em silêncio a última partida. Os alemães dominam a tecnologia dos foguetões e a pesquisa atómica. Os aliados estão decididos a impedir que a ameaça da «arma secreta» venha a concretizar-se.
Andrea Aspinall, matemática e espia, entra nesse mundo sofisticado pela mão de uma abastada família do Estoril. Karl Voss, adido militar da Legação Alemã, abalado pela implicação no assassinato de um Reichsminister e traumatizado pelo desastre de Estalinegrado, chega a Portugal com a missão de salvar a Alemanha do aniquilamento. Na tranquilidade mortal de um paraíso corrupto, Andrea e Voss encontram-se e tentam viver o seu amor num mundo em que não se pode acreditar em ninguém. Depois de uma noite de terrível violência, Andrea fica na posse de um segredo que vai ligá-la para sempre ao mundo clandestino, do repressivo regime fascista português à paranóia da Guerra Fria na Alemanha. E aí, numa Berlim gelada, descobre que os maiores segredos não estão nas mãos dos governos, mas em mãos muito próximas de si, e é forçada a fazer a derradeira e dilacerante opção.



Site oficial de Robert Wilson aqui.

sábado, 29 de janeiro de 2011

“Heil Hitler” nas ruas de Lisboa

“Uma outra categoria de estrangeiros chama de forma mais insistente a atenção dos portugueses. São os muitos membros, empregados e funcionários da Legação da Alemanha e dos seus serviços de consulado, de imprensa, de informação e demais departamentos. Esta categoria indesejada de estrangeiros impõe-se de uma forma que causa espanto entre os visitantes de Lisboa. Não é raro, quando passeamos pela rua, ou nos sentamos num café, ouvir – em voz alta – o cumprimento ‘Heil Hitler’. O seu aspecto saudável, de faces bem alimentadas, carteiras recheadas e a sua roupa perfeitamente vincada deixa a suspeita justificada de que estes beneficiários do nacional-socialismo têm passado ali uma vida muito mais rica que os seus concidadãos na Alemanha.”


"Die Zeitung" foi uma das várias publicações distribuídas entre a comunidade alemã exilada após a chegada de Hitler ao poder. Este jornal, semanal, tinha a sede no Reino Unido. (Deutsche Nationalbibliothek)

Este é um dos parágrafos que descreve a capital portuguesa numa publicação distribuída em Inglaterra entre refugiados de origem alemã, em Dezembro de 1943. O jornal - “Die Zeitung”, no seu título original - publicou entre Outubro e Dezembro daquele ano artigos assinados por Bernd Ruland, que percorreu o caminho entre o sul de França e Lisboa para conseguir escapar ao regime Nazi.


O campo de concentração em Espanha

Refugiado ainda antes da guerra foi um dos muitos que acreditaram que o regime de Vichy não se iria dobrar às exigências de Hitler, entregando Judeus e opositores a viver em França. Após a invasão escaparam para o sul do país, a zona livre, onde pensaram estar em segurança.

Em 1942 Vichy retira as licenças de residência e as autorizações de circulação. Bernd e a mulher, percebem que mais tarde ou mais cedo serão “devolvidos à procedência”.

 Apátridas, pois o Governo alemão retirou a nacionalidade a quem não interessava, conseguem passar a fronteira para Espanha onde são detidos e internados no campo de concentração de Miranda del Ebro.

Só são libertados após a invasão do Norte de África pelos aliados em finais de 1942. Os espanhóis percebem quem vão ser os vencedores da guerra e fecham o complexo que reúne, no mesmo espaço, refugiados, civis e militares aliados encontrados em território espanhol.
 
Bernd chega a Lisboa no Lusitânia Expresso que liga as duas capitais Ibéricas “sem paragens em apenas 12 horas, quando antes se levavam 20”, explica. Prepara-se depois para uma longa espera que o levara até ao Reino Unido.

No conjunto de artigos a que chamou “Flucht nach England” (Fuga para Inglaterra), Ruland vai descrevendo os ambientes e os locais por onde passa. O nosso país merece o título de um destes artigos: “Leben in Portugal” (Vida em Portugal).

Ingleses e americanos cumprimentados na rua

Fala sobre os milhares de refugiados que passeiam pelas ruas e sobre o facto das autoridades portuguesas lhes fixaram residência em cidades dos arredores para evitar o caos na capital.

Fala do desejo de partir.

Fala de um Tejo cheio de navios que saem em direcção a diversos destinos – especialmente para a América -, mas vazios, pois não há vistos ou dinheiro para comprar um bilhete rumo à liberdade.

 Uma refugiada entrando num navio no porto de Lisboa, a porta para liberdade. Imagem do filme "Fantasia Lusitana".

A Ruland fica ainda a impressão que o governo português se prepara para ceder a neutralidade, tendo em conta as preparações militares e os dispositivos de defesa que são visíveis em vários pontos.

Por outro lado refere como generalizada a simpatia pela “centenária” aliança britânica, enquanto existe alguma antipatia pela causa alemã e, especialmente, pela japonesa, devido à invasão de Timor e às tensões em Macau.

Para reforçar esta ideia relata a atitude dos portugueses face ao anúncio da rendição italiana (assinado a 3 de Setembro, mas tornado publico apenas a 8): “(...) magotes de pessoas juntaram-se junto às bancas dos jornais. Falava-se do assunto de forma animada e, se viam alguém com aspecto de ser inglês ou americano, apertavam-lhe a mão, congratulando-o. Esta atmosfera representou uma mudança radical para pessoas que, como eu, vieram de países do eixo ou simpatizantes do eixo.”
 
O artigo continua neste tom: “E há mais um aspecto que me tocou de forma muito forte. Nos portugueses o ódio racial, quer ao judeu, quer ao negro, é completamente desconhecido”.

“No país que há 400 anos expulsou todos os judeus do seu território existem hoje pequenas associações, protegidas por lei, e os judeus são aceites em todas as profissões não sendo visível qualquer propaganda anti-semita”, termina, no seu tom admirado, o artigo de Bernd Ruland, antes de referir a chegada a Inglaterra, através de um voo civil da BOAC, que partia periodicamente da Portela em direcção a Witchurch, em Bristol.

Carlos Guerreiro

sábado, 18 de dezembro de 2010

Reportagem sobre Voo 777

Finalmente está on-line.

A reportagem sobre o Voo 777, abatido pela Força Aérea Alemã, em 1 de Junho de 1943 sobre a Baía da Biscaia, passou no dia 12 de Dezembro, na Antena 1.

Acrescentei umas imagens de vídeo para tornar a coisa um pouco mais interessante...

Ouvir as vozes de familiares e amigos que vinham dentro do aparelho já é interessante... ver quem e de quem se fala ainda mais...



Carlos Guerreiro
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