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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Leituras de Verão 2011 (não-ficção em inglês)

Fica mais uma leitura de Verão, mas esta em inglês.
Já há alguns meses que o José Carias Silva me emprestou o livro e já deveria ter colocado um nota no blogue. A edição é de 2010 e é um livro que importa guardar apesar de lhe faltarem alguns detalhes que ajudariam a completar a informação: a lista de perdas de navios e aviões, por exemplo, transformaria este trabalho muito bom num livro extraordinário.

FW 200 CONDOR Vs ATLANTIC CONVOY de Robert Forczyk


Edição de Osprey Publishing, 2010 (ISBN 9781846039171)

Atravessada de forma regular por comboios de navios que ligavam a Inglaterra aos vários teatros de operações espalhados pelo mundo - e vice-versa - a costa portuguesa foi um activo palco da batalha do Atlântico.

Num constante jogo do gato e do rato encontramos os submarinos alemães, acompanhados dos Fw200 Condors, contra os comboios de navios e respectivas escoltas aéreas e navais.

É o confronto entre o bombardeiro da Luftwafe FW 200 Condor – baptizado pelo próprio Churchil de maldição do Atlântico - e os seus alvos que merecem a atenção do autor deste livro com cerca de 80 páginas.

Nas primeiras páginas são detalhadas as características dos dois adversários. Primeiro conta-se a história do FW 200, desde o pedido da Lufthansa para um aparelho civil de longo curso até à sua transformação em bombardeiro de longo alcance.

Avaliam-se os pontos fortes e fracos deste quadrimotor de linhas elegantes.

Do outro lado da barricada encontramos os comboios britânicos e todas as medidas defensivas que implementarem para dificultar o trabalho do inimigo.

O autor compara a evolução das tácticas e das técnicas de parte a parte ao longo do conflito. Sistemas de ataque e de defesa, armamento, radares, caças lançados de catapulta ou de porta aviões de escolta entre outros aspectos são apresentados e dissecados, apontando os efeitos imediatos e a prazo da sua introdução e aperfeiçoamento.

Também importante é o facto de ficarmos a conhecer muitas das pessoas que, de um lado e do outro, se destacaram ao longo do conflito.

Para os portugueses existe um atractivo suplementar. Vários recontros que aconteceram ao longo da nossa costa são referidos e – em alguns casos – são acrescentados detalhes interessantes, resultantes do cruzamento de informações obtidas em arquivos dos beligerantes envolvidos.

Merecem referência os Fw200 que terminaram as suas viagens no Alentejo e na Apúlia. Outras perdas em mar alto – que serão incluídas no site do "Aterrem em Portugal" numa próxima actualização – são também salientadas.

O livro está muito bem ilustrado, com desenhos artísticos e técnicos, apresenta muita infografia, fotografia e mapas. Tem um leitura fácil e muito completa que recomendo - apesar de algumas falhas - a todos os que se interessam por este tema.

Carlos Guerreiro

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Leituras de Verão 2011 (Ficção 1)

Com a chegada das férias o "Aterrem em Portugal" deixa um apontamento sobre alguns livros que nos chegaram ou foram lançados nos últimos meses e que têm a época da II Guerra Mundial e Portugal como palcos.

Começamos com duas obras de ficção. Editados já este ano, são em português e têm como pano de fundo a Lisboa dos refugiados. Um é de um autor português, conhecido das lides televisivas, e o outro de um autor argentino que conhece Portugal muito bem.

Pelo facto de não ter tido oportunidade de ler qualquer das obras ficam as sinopses oficiais...


POR TI, RESISTIREI de Júlio Magalhães


Edição "A Esfera dos Livros" (ISBN: 9789896263256)

Sinopse Oficial:

Carlos e Nicole conheceram-se nas ruas de Paris. As tropas alemãs avançavam em passo forte e determinado, mas todos acreditavam que a capital francesa estava a salvo da loucura de Adolf Hitler. Enganavam-se. Em poucas semanas, as tropas nazis estavam às portas de Paris e milhares de refugiados procuravam salvação. Nicole encontrou-a em Bordéus pelas mãos do embaixador Aristides de Sousa Mendes que lhe entregou um visto para chegar até Portugal, onde finalmente cairia nos braços do seu amado. Longe da guerra, longe do perigo, longe do estigma de ser judia, seria finalmente feliz. Mas há preconceitos que são difíceis de quebrar e mais uma vez os dois amantes são obrigados a seguir caminhos diferentes. Carlos fica em Lisboa, entre os negócios do pai, um homem influente na sociedade salazarista e a doença da mãe. Nicole parte para Londres, uma cidade que vive dias dramáticos sob a ameaça de ser bombardeada pela aviação alemã. Participa no esforço de guerra da melhor forma que sabe, vestindo a farda de enfermeira, pondo em risco a sua vida para ajudar os outros. Na esperança de conseguir esquecer Carlos. Contudo no meio dos escombros da Segunda Guerra Mundial há um amor capaz de resistir a tudo.



LISBOA, UM MELODRAMA de Leopoldo Brizuela


Edição da Dom Quixote (ISBN: 9789722043977)

Sinopse Oficial:

17 de Novembro de 1942. Lisboa. Portugal. Numa única e interminável noite, enquanto refugiados de toda a Europa esperam a partida do navio Boa Esperança para se porem a salvo dos nazis, a gesta do Cônsul argentino é o crivo em que se entrecruzam, como num folhetim, as «histórias mais secretas» de um período sem par na História. Pode uma longa e intensa noite marcar e mudar irreversivelmente a história de um conflito? Podem a fadista Amália, o casal Tânia e Enrique Santos Discépolo, o Cônsul argentino, o misterioso Ricardo De Sanctis que assegura ser banqueiro e «refugiado pessoal» do Patriarca de Lisboa, ser personagens principais do momento em que tudo parece mudar? Encrespado de sentimentos, emoções e paixões, excessivo como todos os melodramas, prodigioso na criação de ambientes e intensamente atractivo nas confissões que as personagens vão Trocando, Lisboa. Um Melodrama tem a precisão arquitectónica de uma ambiciosa peça teatral e musical, de cujo imenso coro emergem os solistas para fazer ouvir os seus desejos e padecimentos. Uma verdadeira ficção que parte de personagens reais e vibra com a cadência sentimental e melancólica do fado e do tango.


Informação sobre outros livros AQUI

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Algumas perguntas a José António Barreiros


A espionagem em Portugal durante a II Guerra Mundial é o tema central de vários livros publicados por José António Barreiros. O mais recente “Traição a Salazar” resulta de uma investigação sobre a história, de uma organização inglesa desmantelada pela PVDE (antecessora da PIDE).

A rede Shell – uma organização da Special Organization Executive, (SOE) - estendia-se clandestinamente a todo o território continental e também a algumas colónias. Significava a violação da neutralidade e uma traição pois em Londres decorriam conversações oficiais destinadas a prever o que seria feito a nível oficial caso acontecesse uma invasão os alemã – A Operação Félix.

Aterrem em Portugal: Os dados que vão surgindo nas suas pesquisas confirmam que Portugal foi um dos grandes centros de espionagem durante a II Guerra Mundial?


José António Barreiros: Penso que é inclusivamente um dos mais importantes, tal como Berlim o foi durante a Guerra Fria. A neutralidade portuguesa ajudou a que o país fosse o local ideal de «rendez vous» para os agentes das potências estrangeiras envoltos na Guerra Secreta.


AP: Como é que o regime, que tinha aptidão e meios para controlar a vida dos seus cidadãos, conviveu com a presença e as acções dos agentes que as várias potências em guerra enviaram para Portugal?


JAB: Ao jogar no equilíbrio geométrico entre as forças contendoras Salazar deixava que impunemente se espiassem. Geria o melhor que podia as queixas do Embaixador Hoyningen-Huene e do Embaixador Campbell, respectivamente alemão e britânico. A tolerância consentida nesta matéria fazia parte do seu jogo de poder.


O mais recente livro de José António Barreiros aborda história da rede britânica Shell, desmantelada pela PVDE. A obra tem 145 páginas e é da editora Cofina.

AP: O seu mais recente livro aborda o caso que ficou conhecido como o desmantelamento da rede Shell. Trata-se de um operação que marcou as relações entre Salazar e as várias potências, mas também o imaginário dos portugueses.


JAB: A rede chama-se Shell devido ao envolvimento de empregados da Companhia numa operação clandestina destinada, através da sabotagem e da propaganda, deter um possível avanço alemão sobre Portugal. Na data em que foi montada a rede já essa possível movimentação, prevista por Hitler como a "operação Felix" estava cancelada. Como se sabe a rede seria descoberta pela PVDE e desmantelada mas ficou como memória discreta em muitas famílias portuguesas.


AP: Uma das personalidades portuguesas envolvidas na rede foi Cândido Oliveira, que inclusive dá nome a um importante troféu do futebol português. Foi preso e esteve no Tarrafal. Como é que um homem destes aparece envolvido numa rede deste tipo?


JAB: Cândido era jornalista desportivo e escrevia para a "Stadium" uma publicação subsidiada pelos ingleses. Era anglófilo. Tinha a seu cargo a organização da rede no campo dos clubes de futebol. E como era inspector dos correios controlava a rede postal e ma organização clandestina de radio-comunicações. Era o homem certo no lugar certo. Ademais casapiano.


AP: O cérebro britânico da organização "Jack" Beevor é referido muitas vezes como um amador e um ingénuo, razão porque a rede acabou por ser desmantelada de forma relativamente fácil. As suas investigações também apontam nesse sentido?


JAB: Beevor não via que o tenente Ribeiro Casais, dos serviços secretos da Legião estava a dar-lhe o "abraço do urso" quando ofereceu os serviços legionários para a organização da rede que o britânico montava com o apoio de gente hostil ao regime. Foi a rivalidade entre a PVDE e a Legião que fez com que aquela tivesse o maior gosto em denunciar este arranjo "contra natura".


Carlos Guerreiro

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Um abraço para o Bill

Em 1999 conheci Bill Littlejohn, um dos pilotos americanos que em finais de 1942 aterrou no Aeroporto de Lisboa num caça P-39. Foi um dos muitos que se envolveram emocionalmente na preparação do meu livro que só sairia em 2008. Deu-me todo o apoio que pode e ajudou-me nas diversas dúvidas que iam surgindo.

Esteve para vir a Portugal aquando do lançamento mas um problema cardíaco levou os médicos a proibir a viagem. Mesmo assim gravou um pequeno vídeo onde contava a sua história, que volto a reproduzir aqui…

Desde o final do ano passado que não recebia notícias suas. Soube agora, através da mulher, que faleceu no dia 28 de Novembro de 2010, com 89 anos.

Adeus e obrigado, meu amigo…

sábado, 25 de junho de 2011

Fatos de banho e a imoralidade de costumes

“É manhã. Uma manhã luminosa que dá alegria de viver. Grandes chapéus de sol parecem flores gigantescas à sombra das quais crianças brincam na areia. (…) Barcos à vela passam ao largo semelhantes a asas de gaivotas roçando o mar. Tudo é azul, azul, azul. No céu não corre uma nuvem e o mar reflecte a cor do céu. Mas se desviando os olhos do céu e do mar os pousamos sobre praia, que contraste! Faz pena o espectáculo que se nos depara: tanta nudez sem pudor a exibir-se em maillots inconvenientíssimos e tanta imoralidade de costumes a ostentar-se nos banhos de sol!

Julgava que teria de deixar a Figueira da Foz com esta triste impressão de que, afinal, estrangeiras e portuguesas se não distinguem pois em quàsi 15 dias nunca vi um único fato de banho que obedecesse às regras da moral. Que tristeza!

Mas esta manhã, com que alegria eu vi aparecer algumas raparigas com os fatos de banho aprovados pela Mocidade Portuguesa Feminina. ”



Carta publicada na edição do boletim do MPF de Setembro de 1941.
(Blogue Ilustração Portuguesa - http://revistaantigaportuguesa.blogspot.com)



São apenas algumas das linhas assinadas por uma Maria Joana, publicadas – com destaque de página - no boletim oficial da Mocidade Portuguesa Feminina (MPF), de Setembro de 1940.

Não é fácil perceber se se trata de uma carta real ou de uma “publicidade” disfarçada, já que após o texto principal pode ler-se, num suposto post-scriptum, a morada e o local onde os fatos de banho da MPF “poderão ser requisitados”.

Real ou forjada a carta reflecte preocupações da época. Nos meses anteriores ao Verão de 1940 o país assistiu ao primeiro fluxo – que se intensificou depois - de refugiados que traziam consigo novos modos de vida e costumes.

As mulheres invadem as esplanadas. Bebiam e fumavam. Traziam saias justas, mostravam os joelhos e deixavam muita gente incomodada. Seria, no entanto, nas praias que a “moralidade” portuguesa sofreria o maior choque.


Publicidade ao Estoril publicada em Setembro de 1939.
(Blogue Ilustração Portuguesa - http://revistaantigaportuguesa.blogspot.com)



Muitos refugiados trouxeram fatos de banho demasiado “avançados” para os costumes do português. Outros nem os tinham e no calor de Verão tudo serviu para ir à água, despertando o voyeurismo e o sentimento de pudor entre os dirigentes portugueses.

Não é assim de estranhar que, no ano seguinte, surgissem medidas para “zelar pela moralidade pública e (…) evitar a corrupção de costumes”.

No dia 5 de Maio de 1941 era publicado no “Diário do Governo” o decreto n.º 31 247, regulamentando o uso de fatos de banho nas zonas balneares.

 
Capa do Século Ilustrado de 1940. Um ano depois este fato de banho seria considerado imoral.
(Século Ilustrado - Arquivo Municipal de Portimão)

O relatório que precedia o decreto-lei começava logo por explicar que “que factos ocorridos durante a última época balnear mostraram a necessidade de se estabelecer, com a precisão possível, as normas adequadas à salvaguarda daquele mínimo de condições de decência que as concepções morais e mesmo estéticas dos povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam”.

O legislador tenta aplacar os medos de um moralismo demasiado espartano garantindo que não se pretende “destituir às praias o aspecto do século passado”, nem impor modelos “rígidos que destoem completamente do movimento da vida moderna”.

“Quem estudou os modelos estava orientado, ao mesmo tempo que por princípios de ordem moral, por princípios de ordem estética: estética individual e colectiva”, salienta, reforçando que o legislador “procurou uma fórmula que conduzisse ao menor sacrifício de uns e de outros”.

O trabalho era considerado tão completo que o relatório concluía que “quem, neste caso, se queixar da fiscalização desperta logo a ideia de que não teve os cuidados bastantes para evitar ser multado”. Em poucas palavras a possibilidade de uma reclamação ser reconhecida como válida era… nula.

De facto a única forma de contestar a aplicação das coimas passava por uma “prova fotográfica” tirada em circunstâncias muito especiais. “A fotografia será tirada no próprio acto do levantamento do auto; o agente certificará que o foi e declarará no julgamento se a reconhece como a própria”.


Fatos de banho da MPF.
 (Blogue Ilustração Portuguesa - http://revistaantigaportuguesa.blogspot.com)


Em traços gerais o fato de banho masculino tinha de cumprir os seguintes critérios:

“Fato inteiro em que o pano anterior se prolonga cobrindo toda a frente do calção, de costura a costura lateral. O calção deve ser justo à perna, de corte direito e terá um comprimento de perna mínimo de dois centímetros. A frente do fato, qualquer que seja a forma do decote, deve cobrir a parte anterior do tronco, tapando os mamilos. As costas podem ser decotadas até à cintura.
(...)

Não é permitido o uso de fatos que se tornem imorais pela sua transparência e pela excessiva elasticidade do tecido. (…)


No caso das mulheres as imposições não eram menores, antes pelo contrário:


“O fato de banho para senhoras deve ser inteiro e ter saiote fechado. O calção interior é justo à perna, de corte direito e deve ter o comprimento de perna mínimo de dois centímetros.
O saiote, que pode ser independente do corpo do fato, terá o comprimento necessário para exceder, pelo menos de um centímetro, a extremidade inferior do calção depois de vestido.
A frente do fato deve cobrir a parte anterior do corpo, não podendo o decote ser exagerado, a ponto de descobrir os seios. As costas poderão ser decotadas até dez centímetros acima da cintura, sem prejuízo do corte das cavas que devem ser, quanto possível, cingidas às axilas.”

As penalizações para o não cumprimento destas regras obrigavam ao pagamento de uma multa entre 30$00 a 5.000$00 (0.15 Euros a 25 Euros). Caso esta não fosse paga de imediato podia ser substituída por pena de prisão, nunca superior a um mês.

Quem vendesse fatos de banho que não respondessem às exigências também podia ser punido.

Outras alíneas restringiam o uso de fato de banho a praias, piscinas “e outros locais destinados à natação, sendo rigorosamente proibido ostentá-los fora desses lugares”.


Jovens com fatos de banho aprovados e que cumprem as regras da moral pública. Capa do Boletim da MPF de Setembro de 1941. 
 (Blogue Ilustração Portuguesa - http://revistaantigaportuguesa.blogspot.com)

O decreto acabaria por receber algumas críticas que tiveram eco na imprensa, onde eram alvos de crítica directa e mordaz. Foi isso que fez o “Diário de Lisboa”, na sua edição de 7 de Maio de 1941.

Na primeira página, numa coluna com noticiário breve e comentários, surgem algumas linhas que resumem o pensamento vigente.

“Os novos fatos de destinam-se a afastar para longe o impudor. A decência fica bem, mesmo nas praias. O nu, apesar dos que o aplaudem, encerra elementos de tentação suspeita, estendendo até às almas desprevenidas o perigo que as perturba e desencaminha.

Em oposição a estes princípios basilares duma sociedade que não abdica dos seus títulos de glória, escreve-nos alguém que nos dias mais ou menos isto:

«O pudor é um sentimento que não deve ser defendido com grades de ferro; está dentro de nós, enraizado no nosso coração, sem que seja necessário considerá-lo exposto a assaltos e profanações».

Tudo isso se afirma mas também não oferece dúvida que todos os povos, em qualquer época, que consentiram no desenfreado prazer dos sentidos acabaram por entregar a lama ao diabo.”

Carlos Guerreiro

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Algumas perguntas a Thomas Hamilton


O director e produtor Thomas Hamilton lança em Setembro um documentário sobre o actor Leslie Howard. “The Man who Gave a Damn” reúne filmes pessoais do actor que fazem parte do espólio da família e testemunhos – alguns recolhidos em Portugal – sobre a vida de um dos principais personagens do filme “E Tudo o Vento Levou”.

Thomas Hamilton está também a preparar um outro documentário onde aborda o desaparecimento do actor a 1 de Junho de 1943, quando num voo entre Lisboa e Bristol o avião em que seguia foi abatido sobre a Baía da Biscaia por caças da Luftwaffe.


Aterrem em Portugal: O que o atraiu neste projectos?

Thomas Hamilton: Na realidade começou por ser apenas o projecto para um documentário - “The Man who Gave a Damn” (O homem que se preocupava) – sobre a vida e a carreira de Leslie Howard.

Tudo aconteceu quase por acidente. Estava com a minha mulher em Toronto, num festival de cinema, a tentar preparar alguns projectos. Por acaso encontrámos a neta de Leslie Howard, Vicky, numa galeria de arte. Não sabia quem era e estávamos a falar do meu interesse em filmes antigos quando ela referiu que o avô tinha feito muitos filmes pessoais nos anos 20, 30 e 40 em Hollywood, na Riviera, na Broadway e noutros locais. Quando me disse quem era o avô julgo que não esperava que reconhecesse o nome – e ficou tão satisfeita que me convidou a conhecer a mãe - a filha de Leslie chamada Doodie - no fim-de-semana seguinte.

Menos de 48 horas encontrávamos a maravilhosa Doodie e ouvíamos algumas histórias, interessantíssimas e em primeira mão, sobre Hollywood.

É uma grande contadora de histórias e interessei-me cada vez mais naquele pai que se escondia atrás da estrela de cinema. Claro que Leslie era muito mais do que apenas uma estrela de cinema e quanto mais me contava sobre a vida pessoal e sobre a faceta de pai, mais me apetecia preservar as suas palavras.



Leslie Howard (ao centro) e o empresário Alfred Channels (à direita) durante a estadia em Portugal em Maio de 1943.
(Foto Século Ilustrado/ Arquivo Histórico de Portimão)

Parte da razão para o convite era o meu interesse nos filmes caseiros que Leslie fizera. Eles não tinham projector, mas percebi que vários filmes estavam a ficar degradados.

Rearranjei os meu voos e ficámos mais umas semanas até encontrarmos um projector para vermos os filmes. Quando os conseguimos ver ficámos maravilhados e comecei a pensar numa forma de preservar aquelas preciosidades.

Percebei que a única forma de justificar o investimento da transposição das fitas para outro formato (entre cinco e seis mil libras) era a sua utilização em algum projecto – e foi nessa altura que comecei a pensar seriamente num documentário construído à volta dos filmes de Doodie.

Ela sempre recusou envolver-se em biografias do pai feitas por outras pessoas, mas julgo que percebeu que os meus motivos eram diferentes e que isso permitiria que os filmes fossem preservados sem que ela gastasse dinheiro.

Pensei que tinha ali um bom e rápido projecto. Ainda tenho e-mails onde digo que espero terminar tudo em cinco ou seis meses. São de Outubro 2006 e já estamos em Junho de 2011!!!

Descobri depressa que um projecto destes deve ser feito como deve de ser e acabou por crescer.

É obvio que a forma como morreu interessa a muita gente – também a mim – mas queria que o filme tratasse da vida e não da morte.

As questões que rodeiam o abate do IBIS são intrigantes e reparei, durante as entrevistas, que muita atenção era dada ao que aconteceu nesse dia. É por isso que muito cedo, durante a produção de “Man Who Gave a Damn”, percebi que teria de fazer um segundo filme para abordar o seu desaparecimento.

Esse filme chama-se “The Mystery of Flight 777” (O mistério do Voo 777) e será um trabalho complementar onde posso também concentrar-me noutras pessoas que estavam dentro daquele voo.

Esse filme está ainda a meio pois concentrei as minhas energias em “The Man Who Gave a Damn”, mas agora que está quase completo, vou avançar com o filme sobre o Voo 777.

AP:O que procura mostrar num e noutro documentário?

TH: "Leslie Howard: The Man who Gave a Damn" é um filme sobre a vida, a carreira e as paixões de Leslie Howard. Vamos conhecer a carreira em Hollywood, em particular a participação em “E Tudo o Vento Levou”, mas vamos também conhecer um Leslie mais informal, - através dos filmes pessoais e das memórias filha Doodie.
O filme também lança um olhar profundo ao papel e à importância que teve no esforço de guerra britânico e aos acontecimentos que levaram ao seu desaparecimento em 1943.

Leslie Howard é uma daquelas estrelas que parecem estar esquecidas – sendo apenas recordado por um papel e pela participação no filme que menos gostou: Ashley Wilkes em “E Tudo o Vento Levou”. Nos últimos dois, três anos saíram bastantes livros novos que são inspirados na vida dele e tenho esperança que o meu filme faça renascer o seu nome para as audiências mais jovens.


Publicação na imprensa portuguesa em Agosto de 1943 anunciando a estreia do filme "E tudo o Vento Levou" 
(Diário de Lisboa , 7 de Agosto de 1943)

A filha Doodie escreveu uma excelente biografia de Leslie (A Quite Remarkable Father) publicado nos finais dos anos 50. É uma excelente leitura, mas pelo facto de ter sido escrito naquela altura deixou de fora muitos detalhes sobre os casos extraconjugais – especialmente porque a mãe ainda estava viva.

Recentemente Doodie escreveu novos capítulos que lançam um olhar mais franco sobre os seus casos – e um olhar mais profundo sobre aquilo que fazia Leslie entusiasmar-se. Li esses capítulos e posso confirmar que dão uma perspectiva nova ao livro. Há bastantes editores interessados e, se conseguirmos ligar o lançamento do documentário com a nova edição do livro de Doodie, isso poderá atrair um grande interesse dos media.

Para além de Doodie entrevistámos o assistente de Leslie nos filmes “Pimpinela Escarlate “ e “O Sexo Delicado” Norman Spencer; o especialista em II Guerra Mundial Professor Doug Wheeler; o historiador de cinema britânico Matthew Sweet; o guionista e fan Mark Burgess; o biógrafo Quentin Falco; o especialista em propaganda, professor Nick Cull, e Maude Queirós Pereira, com quem falei no Hotel Ritz em Lisboa.

Maude era uma adolescente quando Leslie esteve em Portugal e assistiu às suas conferências em Lisboa. Recorda-se também de Leslie quando o pai convidou o actor e o empresário dele para um lanche em casa deles.

O narrador é obviamente Derek Partdridge – em cuja vida Leslie Howard desempenhou um curto mas importante papel – pois foi ele que cedeu o lugar ao actor para este poder voar de regresso a Inglaterra no dia 1 de Junho de 1941. Derek tem sido um verdadeiro tesouro neste longo período que tem sido a produção do filme, nunca faltando com o seu apoio. Até no dia em que respondia a estas questões (03 de Maio 2011) gravou mais uma parte da narração para ser utilizado no filme. Neste momento posso dizer que a produção está terminada.

Em “The Mystery of Flight 777” olharei apenas para as circunstâncias que rodearam o abate do Ibis – e também as implicações mais alargadas sobre o que se passava naquele tempo em Lisboa.

Vamos incluir material até agora desconhecido, como uma entrevista gravada com Herbert Hintze (um dos pilotos dos Junkers que abateram o Voo 777) e também conhecer melhor o trabalho que andavam a fazer Wilfred Israel e Ivan Sharp.


Leslie Howard no papel de Ashley Wilkes no filme "E Tudo o Vento Levou".


Doug Wheeler desempenha um importante papel com mais de 25 anos de pesquisa sobre o tema. Vamos ainda ter entrevistas com Ben Rosevink (filho de Engebertus Rosevink, o navegador do Voo 777) e Frank Plugge, outra criança que por pouco não viajou no Voo 777. Salvou-se porque teve uma súbita inflamação dos adenóides. Ele lembra-se de forma muito clara de uma das outras crianças que viajou no aparelho: Petra Hutchence.

Ainda há muito trabalho para fazer neste projecto e espero, com o lançamento de “The Man who Gives a Damn”, reunir os apoios necessários para o terminar depressa.
Há também o aspecto mais pessoal deste acontecimento, o das famílias que foram atingidas pela tragédia. Frank Plugge lembra-se de visitar o pai de Petra Hutchence, um homem que esperava ver a filha - pela primeira vez em dois anos - e o filho bebé que nunca conhecera.

AP: Leslie Howard é a ligação entre os dois documentários. Para além de actor quem é este homem?

TH: É um enigma, uma figura multifacetada e muito difícil de caracterizar. A filha era próxima dele como poucas pessoas o eram, e admite que há facetas dele que nunca conheceu. Julgo, no entanto, que em “The Man Who Gave a Damn” mostramos facetas do seu carácter que o público desconhece.

Por um lado era muito modesto – uma pessoa que gostava de ficar na sombra e que se sentia pouco à vontade como actor. Por outro tinha uma forte personalidade, contrariando os grandes da indústria de Hollywood como Jack Warner (da Warner Brother’s) para concretizar uma ideia ou um projecto. Foi uma das poucas estrelas freelancer dos anos trinta.

Era também alguém com grande criatividade. Durante os anos 20 escreveu artigos muito engraçados para a “Vanity Fair” e várias peças de teatro – algumas que ele próprio produziu – fazendo tudo para provar que era mais do que apenas um actor.

Ganhou ainda o apoio de importantes colaboradores. Toda a gente sabe dos contactos que teve com Bernard Shaw no final dos anos trinta, mas já em princípios dos anos 20 criara uma produtora de filmes com apoio de figuras como HG Wells e AA Milne – numa altura em que era um actor praticamente desconhecido.

A empresa – a Minerva Filmes – faliu, mas Howard voltaria à produção de filmes nos anos trinta, apesar de considerar ridículo o “star system” de Hollywood.

Admiro também a forma como abandonou uma carreira lucrativa em Hollywood para se dedicar ao esforço de guerra britânico.

AP: Houve alguma coisa que o tivesse surpreendido durante a preparação dos documentários?

TH: Quando comecei este projecto conhecia pouco da vida de Howard. Sabia da maioria dos seus filmes e da ajuda que deu a Humphrey Bogart. Julgo que a maioria das pessoas sabe que “Bogie” deu o nome Leslie à sua filha em homenagem a Howard, mas descobri que ainda antes do filme “A floresta petrificada”, ele ajudara outros actores como William Gargan – que chamou ao filho Leslie Howard Gargan - ou Ilka Chase para nomear apenas alguns.





Algumas notícias publicadas no Diário de Lisboa após o abate do Voo 777.











Claro que os filmes pessoais trouxeram também muitas revelações, mostrando um lado informal, brincalhão e malandro que talvez não se esperasse de um homem que desempenhou o papel de Rhett Butler.

AP: Conversou com portugueses que contactaram com Leslie Howard durante a estadia em Portugal. Há alguma história que o tenha surpreendido?

TH:A maior parte das histórias descreve Leslie Howard como um homem muito sofrido em 1943, por nunca ter recuperado da morte da amante. Mesmo o filho e a filha o descrevem como distante e preocupado com questões espirituais. Quando Maude Queirós Pereira falou comigo descreveu um homem entusiasmado com a ideia para realizar um novo filme – uma co-produção luso-britânica sobre Cristóvão Colombo.

Foi uma surpresa e sugere que a aventura em Lisboa lhe reavivara o apetite pela vida e pela criatividade.

AP: Mantém-se a discussão sobre o abate do Voo 777. Um acidente ou um abate intencional. Chegou a alguma conclusão no decorrer das suas pesquisas?

TH: Não consegui chegar a nenhuma conclusão, especialmente porque tenho ainda entrevistas e pesquisas para realizar para o documentário sobre o Voo 777. Ouvi o testemunho de Herbert Hintze – um dos pilotos envolvido no abate do avião – onde insiste que foi uma coincidência ter encontrado o aparelho.

Assegura que o sol a camuflou as marcas do Ibis e que dispararam antes de perceberem que se tratava de um aparelho civil, sendo a ordem para suspender o ataque sido dada tarde demais.

Por outro lado há documentos – que apareceram recentemente – onde pilotos alemães capturados se gabam de o ter abatido de propósito. Mesmo entre os alemães as mensagens são contraditórias.

Uma coisa é clara. O tempo que separa as mensagens do Ibis – antes e durante o ataque – é de muitos minutos. Acho que longos o suficiente para os Junkers identificarem o aparelho.

Acredito que só saberemos toda a história quando todos os documentos sobre o caso forem desclassificados.

AP: Há alguma data definida para a estreia dos documentários?

TH: Estamos a planear a primeira apresentação de “Leslie Howard: The Man who Gave a Damn” neste momento. Iremos apresentá-lo a meio de Julho numa conferência de imprensa especial na antiga casa de Leslie Howard em Stowe Maries, em Dorking, onde os actuais proprietários esperam colocar uma placa em honra de Leslie. Esperamos ter uma convidada muito especial nesse acontecimento – se a saúde deixar – mas para por agora não posso dizer muito mais.

Depois do lançamento do filme vamos entrar em alguns festivais que consideramos importantes para garantir a sua distribuição. A Turner Classic Movies nos estados Unidos vai exibi-lo, provavelmente, no final do ano - talvez perto do Natal – mas para as televisões fora dos Estados Unidos ainda temos de ver o tipo de distribuição que vamos ter.

Espero que “The Mystery of Flight 777” seja concluído mais depressa do que “The Man Who Gave A Damn”, mas por agora é cedo apresentar datas.

Carlos Guerreiro

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terça-feira, 7 de junho de 2011

Ivan Sharp, o homem do volfrâmio

“Sabemos que ele tinha viagem marcada num outro voo, mas alguém desistiu para gozar mais uns dias de sol e de praia. O meu avô tinha terminado o seu trabalho em Portugal, ocupou essa vaga e desapareceu quando o avião foi abatido sobre a Baía da Biscaia”, explica Ivan Sharp, que herdou o nome do avô, um engenheiro de minas de 44 anos, envolvido no comércio e tráfico do volfrâmio entre Portugal e Inglaterra.




Ivan Sharp era engenheiro de minas e estava envolvido, em Portugal, no negócio do Volfrâmio.  
(Foto Ivan Sharp)













Ainda hoje Ivan não sabe bem qual era o trabalho desenvolvido pelo avô em Portugal. “A minha avó era muito à moda antiga. Por vezes conseguíamos sentá-la e perguntar-lhe umas coisas. Ela contava umas histórias, mas depois calava-se e não conseguíamos arrancar mais nada dela”, refere.

Mas a soma de memórias da avó, da mãe e da tia levam Ivan a concluir que o familiar desaparecido estava envolvido numa actividade importante durante a guerra. Sabe que o Volfrâmio foi uma das mercadorias mais disputadas entre aliados e eixo e que ainda hoje sobrevivem estranhas histórias de riqueza quase instantânea em algumas zonas de Portugal.


Ivan Sharp tem o mesmo nome do avó e foi o principal mentor das homenagens em Lisboa e Bristol.

Em 2009 assistiu à cerimónia de homenagem aos passageiros e tripulantes do Voo 777 em Lisboa e encontrou um governante português que tinha também um familiar que vivera “o outro lado do negócio”.

“O sogro dessa pessoa do governo português esteve também envolvido no negócio e vendia tanto para os britânicos como para os alemães. Ele contou-me que uma vez ele se tinha enganado a colocar uma casa decimal. Quando se apercebeu do erro pensou que ia ser morto, mas os alemães limitaram-se a pagar o que ele pediu”, adianta sem esconder que gostaria de saber um pouco mais do que foram esses tempos em Portugal. “Ainda há muitos segredos e será preciso escavar esta história onde ela aconteceu”.

Sobre as estranhas voltas da “guerra do volfrâmio” Ivan recorda ainda outra história que foi sendo contada pela tia. “Uma vez ela viu um pequeno saco em cima da mesa e ela foi mexer-lhe. Sentiu umas coisas duras lá dentro e pensou que eram berlindes, só quando o despejou é que percebeu que se tratavam de diamantes em bruto. Julgamos que eram usados para pagar o volfrâmio”.


Telegrama enviado à família após o desaparecimento de Ivan Sharp no Voo 777.  
(Colecção Ivan Sharp)

Bem mais alegres são as recordações dos regressos do engenheiro de minas a casa. “Ele trazia sempre fruta fresca. A minha mãe e a minha tia distribuíam depois essa fruta pelos amigos da rua. Toda a gente ficava abismada com essas ofertas, porque a fruta era um bem muito escasso durante guerra e a maior parte das pessoas não tinham qualquer acesso a esse luxo”.

Um homem ligado à actividade desportiva o engenheiro Ivan Sharp fazia parte da equipa da Sledge&Trust, uma empresa que foi comprada mais tarde pelo grupo “Rio Tinto”, um dos maiores grupos ligados à mineração no myndo. “Ainda hoje pensamos no que poderia ter acontecido às nossas vidas, se ele tivesse sobrevivido à guerra. Estaríamos certamente muito melhor”, salienta o neto que olha com desconfiança para o abate do aparelho.

“Não compreendo a razão porque no dia seguinte ao abate os alemães reagiram de forma tão violenta colocando toda aquela zona sob patrulhamento apertado. Porque quiseram eles impedir os britânicos de procurar sobreviventes. Porque se empenharam tanto nisso. Essa é uma resposta que gostaria de ter”, revela.

Os sucessivos “mistérios” que foram envolvendo o caso também não lhe causam menos estranheza. “No final da guerra foi divulgado publicamente que o Regimento de Dorset tinha na sua posse um álbum de fotografias onde se via o aparelho a ser abatido. Sem se saber porquê ou como essas fotografias desapareceram. Se só tinham as fotografias do avião a ser abatido porque desapareceram?”.


Ivan terá utilizado diamantes para negociar o Volfrâmio.  
(Foto Ivan Sharp)


“Por outro lado seguiam pessoas importantes daquele voo. Um actor muito conhecido, gente ligada a meios militares e de espionagem. Se os alemães estivessem mesmo interessados em alguém teria sido mais fácil desviar o avião e obrigá-lo a aterrar em França. A Gestapo teria muito que perguntar a essas pessoas”, questiona Ivan Sharp, que é um dos principais responsáveis pela realização das duas cerimónias de homenagem realizadas em Lisboa e em Bristol.

Acompanhe o que diz Ivan Sharp do avó...



Durante muito tempo alimentou a ideia de realizar uma homenagem aos ocupantes do aparelho. Depois de vários telefonemas conseguiu interessar os responsáveis pelo Aeroporto de Bristol e depois também os do Aeroporto de Lisboa. Em 2009 e 2010 conseguiu realizar esse sonho.

Carlos Guerreiro
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