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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Suplemento especial "Invasão - Dia D" com 70 anos

Os portugueses souberam do desembarque na Normandia ainda no dia 6 de Junho, com diversos pormenores a chegarem nos dias seguintes.

Diversos jornais realizaram edições suplementares, para acompanhar a sucessão de notícias que os serviços de imprensa – especialmente aliados - foram libertando ao longo das horas.



Após a confirmação do sucesso do desembarque, a máquina de propaganda não esperou muito para colocar nas mãos dos portugueses imagens e esquemas que descreviam a invasão.

Algum desse material saiu em diversos jornais e revistas nacionais, mas seriam as publicações de propaganda próprias a capitalizar o manancial de material que estava disponível.

“A Guerra Ilustrada” era uma das várias publicações de propaganda aliadas, impressas em português, que saiam periodicamente para a rua.

 Não consegui confirmar a data concreta em que saiu este suplemento especial (se alguém sabe agradeço a informação), mas não terão passado muitos semanas após a ofensiva.

Pessoalmente tenho dúvidas de que as fotografias sejam todas do “Dia D”, até porque foram poucos os fotógrafos que estiveram na linha da frente, nas primeiras horas do desembarque.

Talvez o lote de imagens na última página (contra-capa) sejam de 5 e 6 de Junho, mas nas restantes páginas nota-se uma grande descontracção dos soldados. Outras imagens são nocturnas e o desembarque principal aconteceu durante a manhã.

Possivelmente parte do material foi recolhido durante os longos exercícios a que as forças de desembarque foram sujeitas nos meses que antecederam o dia" Dia D", mas estavam prontas para utilização logo que se confirmasse o sucesso da operação.

Clique sobre a imagem para ver as páginas deste suplemento especial publicado em 1944.

Setenta anos passados trata-se de um documento que marcou uma época.

Carlos Guerreiro 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Carta da frente Russa para amigo português

A carta de um soldado alemão ao seu “condiscípulo” português, foi publicada na edição de Junho/Julho de 1942 da revista “A Jovem Europa”, uma publicação com sede em Berlim, e editada em doze línguas.

A carta que surge nesta edição da revista está assinada por Georg B., soldado na frente Russa em 1942, e membro da comunidade germânica em Portugal.

No livro de Reinhart Schwarz, no seu livro “Os alemães em Portugal 1933-1945”, uma obra que caracteriza a vida daqueles cidadãos e das suas instituições no país, durante o período em referência,  existe uma lista de militares e civis mortos ou desaparecidos na sequência de combates ou bombardeamentos de cidades alemãs.

Georg B. não é referido nessa lista e, segundo foi possível apurar, sobreviveu ao conflito.

Nove outros elementos da colónia alemã de Portugal morreram em combate e oito outros - entre eles civis - desapareceram ou faleceram na sequência dos bombardeamentos aliados.

Schwarz faz também no seu livro uma análise à colónia alemã. Uma comunidade relativamente pequena, comparada com a inglesa. Na I Guerra Mundial tinham sido expulsos de Portugal e expropriados seus bens.

Aqueles que regressaram viram-se sozinhos na luta para recuperar as vidas que tinham perdido.

A república de Weimar deixou as comunidades expatriadas entregues a si próprias.

O Nazismo traz uma nova política em relação às comunidades alemãs fora do país. Rodeia-as de atenções, dinamiza actividades e integra hospitais, centros culturais, escolas e outras as instituições na estrutura do partido.

Para muitos alemães que residiam fora do seu país, este interesse era muito bem-vindo e o nazismo representou também um renascer do seu interesse pelo país. Quando rebenta a guerra foi por isso natural para muitos jovens integrar os exércitos de Hitler…






 Esta é a única imagem a ilustrar toda a revista. Encontra-se nas páginas de abertura e é um fotografia da escultura
 "Camaradagem"
de Arno Brecker.














A "Jovem Europa" era uma revista que tinha como alvo os jovens académicos e os soldados da Europa fascista/ nacionalista.

Continha cartas, citações ou extractos de diários de soldados alemães e combatentes de outras nacionalidades nas várias frentes onde se encontravam tropas do Reich, dando um enfâse especial à frente leste.

Era uma forma de chegar aos milhares de jovens, de vários países, que integraram formações militares germânicas ou simpoatizavam com a luta contra o comunismo.

As suas páginas eram ainda preenchidas com artigos de “mestres da cultura, da ciência e filosofia”, refere Reinhard Schwarz, no seu livro.

A publicação pertencia à AKA - Akademischer Kulturaustausch (Intercâmbio Cultural Académico) - e tinha como representante em Portugal Siegfried Graf zu Dohna e como redactor Franz Blumberg.

A revista era composta em Berlim e depois enviada para Portugal onde era traduzida. A impressão era parcialmente realizada na Alemanha e completada na capital portuguesa pela Sociedade Astória de Lisboa.


Apresentação  dos objectivos da publicação e a primeira página da carta de Georg B.


Fica a transcrição da carta de Georg B.:

Carta de um Soldado Alemão ao seu condiscípulo português João Bravo, em Lisboa

Crimeia, 17/3/42

Correio de Campanha nº 31.268


Meu caro camarada João:

O teu bom amigo Georg envia-te, da extensa e distante Rússia, muitas saudades para ti e para os teus queridos pais.

Os meus camaradas estão sentados em torno de uma mesa, jogando em grupo um «skat» (jogo de cartas). Por cima das camas estão penduradas espingardas e capacetes de aço prontos a serem utilizados.

Há um ano estávamos nós na zona do Canal da Mancha a montar linhas telefónicas, sendo nessa altura alvejados por caças e vedetas inglesas. Hoje encontramo-nos na Crimeia, nas margens do Mar Negro, praguejando quando as horrendas «Ratas» avançam para nós a roncar.

Os russos atacam-nos da maneira mais vil que se possa imaginar; eles vêm disfarçados em trajes civis, em uniformes alemães etc. Numa luta nas ruas, cortaram as orelhas, espetaram os olhos e partiram os ossos a camaradas feitos prisioneiros, matando-os assim lentamente.

Eu próprio assisti a estas cenas; um deles foi por tal forma desfigurado, que não o pudemos identificar: estava feito numa massa disforme. Assim pereceram muitos camaradas que jaziam no chão uns ao lado dos outros; alguns tinham apenas 18 anos. Haviam dado pela Pátria pela Europa o que de mais caro possuíam.

Sim, meu caro João, eles deram também a vida por ti e pela tua pátria e religião.

Porque é que havemos de ser sempre nós???

Sempre nós a salvar a Europa???

Sempre o nosso sangue e dos nossos camaradas!

Com certeza que eu perdia a cabeça se me pusesse a pensar nisto! Durante o Inverno tivemos uma luta como nunca tínhamos tido até aqui. A uma temperatura de 40º negativos, fomos obrigados a deter multidões sobre multidões de russos, que investiam contra as nossas linhas com armas terríveis e montanhas de carros blindados.

Nós detivemo-los, mas quando acontecia passarem por cima de camaradas que se mantinham no seu posto, eram cercados e aniquilados.

Todos agradecemos a Deus que o Inverno esteja quasi a despedir-se, pois foi de incrível dureza. Os nossos geniais dirigentes e soldados fizeram malograr o plano dos russos, mantendo-nos nos nossos postos.

Se eles tivessem furado as nossas linhas, pobre da nossa pátria! Estes selvagens teriam destruído e assassinado tudo e todos e teriam mesmo chegado até aí… até vocês.

E ainda há padres, como na Inglaterra e outras partes, que fazem preces pelos cristãos bolchevistas! Quedo-me perplexo ante tal humanidade e tal igreja!

Eu posso em qualquer altura declarar a minha opinião, pois fui testemunha ocular deste «paraíso» através do qual marchei de olhos muito abertos. Protegei o vosso país contra os horrores da guerra, sede sensatos; sabei que a nossa força armada dispõe agora de um poder incrível.

Estou aqui lutando juntamente com romenos. A camaradagem é excelente!

Porquê não estou com vocês, portugueses?

A Rússia é um país extraordinário; em todas as cidades há uma rua magnífica com lindos parques, mas, atrás disto, é tudo uma miséria indescritível, que não quero tentar descrever, nem saberia como.

Acredita-me ou não, como quiseres. As igrejas foram todas transformadas em celeiros ou fábricas de «Vodka».

Um velho padre que andou sempre escondido, celebra agora a sua missa católico-ortodoxa numa das igrejas por nós reparadas e beija a mão de todos os soldados que nela penetram.

Num lazareto tomado de surpresa pelos russos, estes atiraram pelas janelas os feridos de gravidade. Foi-nos possível, usando de rara coragem, salvar ainda muitos deles. Mas os russos perdem diariamente tanta gente, que é impossível que dentro em breve não achem demasiado o castigo que lhes infligimos.

E agora basta de «paraíso» de miséria, de selvagens e de baixeza moral!

Assim que vier o Verão, aí de vós, meus russos!
É malhar neles que vai ser um consolo!

Hão de pagá-las olho por olho e dente por dente!

Os uniformes dos soldados que lutam estão em farrapos e cor sumida, mas quando tocar a avançar e tiver abrandado o frio, o coração de cada soldado alemão palpitará com dobrada força.

E tu como estás, João? Eu vou bem de saúde.

Não tardes a escrever-me uma longa carta sobre essa minha segunda pátria.

Olha! Ouve-se trovejar agora mesmo… são os russos que nos atiram com «ovos».

Os meus camaradas estão cada vez mais entusiasmados com os seu jogo e «skat».

Quando nos tornaremos a ver, meu caro João? Esperemos que seja em breve.

Mil saudades te envia o teu velho amigo

Georg B.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A herança de Tiago Gomes

As encadernações reúnem parte da herança de um avô que Tiago Gomes nunca conheceu. São versões em português de revistas de origem americana - a “Victory” e a “Em Guarda” – que durante a II Guerra Mundial foram veículos de propaganda para as mensagens do governo de Roosevelt.  

Foi a mãe de Tiago Gomes que as reuniu depois do falecimento do pai em 1964 e as passou depois ao seu filho, que nasceu dez anos depois – por acaso ano de revolução dos cravos. 

Capas das revistas de propaganda americana "Em Guarda" e "Victory"

Para além das revistas Tiago acabou por “herdar” também muitas das histórias que ficaram na memória da família.

Nascido perto de Vila Nova de Ourém em 1900, Manuel Lopes Alexandre, órfão de pai, chegou a Lisboa com apenas 14 anos para trabalhar numa mercearia, que acabaria por comprar duas décadas depois.

Hoje, no velho edifício da mercearia, na rua de Dona Estefânia, funciona o restaurante “Morgadinha da Estefânia”. No andar de cima António criou a família.

O pai de Mário Soares terá também encontrado refúgio nessa casa num período em que andou fugido ao Estado Novo. É pelo menos uma das muitas histórias que Tiago recorda.

Nunca conseguiu, no entanto, confirmar a sua veracidade. É certo que em frente ao 99 da Estefânia morou um irmão do ex-Presidente da República. 






Artigo sobre os caças Brasileiros 
envolvidos em combates 
durante a II Guerra Mundial 











 
 Identificado como republicano e pró-aliado, não era anormal colecionar as revistas que eram distribuídas, muitas vezes, de forma gratuita na rua ou nos estabelecimentos comerciais. A “Victory” era um a revista em português para portugueses e fazia referência a vários temas, que não só a guerra, que obviamente ocupava a maior parte das edições.

A “Em Guarda” era uma edição mais virada para o mercado brasileiro, país aliado dos americanos, tendo mesmo chegado a participar nos combates na Europa (ver "Acidente Brasileiro no aeroporto de Lisboa" ) .

Apesar de mais vocacionada para o mercado sul-americano, vários exemplares desta publicação encontraram o caminho até Portugal.

Uma herança em papel… com história.

Carlos Guerreiro