Patricia Martinez di Vicente publicou em 2010, em Espanha, “La Clave Embassy”, um livro que recorda a história do pai, um médico de Madrid, que durante a II Guerra Mundial construiu um rede que se encarregava de passar, de forma clandestina para Portugal, detidos no campo de concentração espanhol de Miranda del Ebro.
Nesse campo – que funcionou até 1943 – as autoridades espanholas reuniam refugiados, apátridas e até militares dos países beligerantes – especialmente dos aliados.
O pai de Patrícia, o médico Eduardo Martínez Alonso, passou atestados médicos falsos que permitiram a libertação de muitos destes detidos, e ainda montou um sistema de fuga que passava pelo norte do país.
“La Clave Embassy” foi editado por “La Esfera”. Não existe uma tradução portuguesa, mas pode-se adquirir um exemplar em http://www.amazon.es/ por cerca de 23 Euros.
A descoberta desta parte da história familiar ficou a dever-se a um diário de Eduardo que a filha acabou por descobrir já depois da sua morte. Patricia Vicente completou a investigação consultando a mãe – a sua principal fonte de informação – e também os arquivos britânicos, que mantêm um ficheiro sobre este seu agente do Special Operation Executive (SOE).
No final da guerra Eduardo Martínez Alonso recebeu a “King George Medal for Courage” do Reino Unido e também a Cruz de Ouro polaca, pois muitos dos que ajudou a escapar de Miranda del Ebro eram desta última nacionalidade.
Aterrem em Portugal: Quem era e o que fazia o seu pai?
Patricia Martinez di Vicente: O meu pai era um médico espanhol que trabalhava para a cruz Vermelha espanhola e na Embaixada britânica em 1939, quando rebentou a II Guerra Mundial. Tinha estudado medicina em Liverpool e em Madrid sendo completamente boolingue em inglês e em espanhol. Tinha uma casa de solteiro em Madrid e uma casa de família em Redondela, a 15 quilómetros de Vigo.
O pai, a mãe e Patrícia de Vicente numa foto nos
anos 40.
anos 40.
Aterrem em Portugal: Como se apercebeu que o seu pai tinha estado envolvido em actividades dê espionagem durante a II Guerra Muandial?
Patricia Martinez di Vicente: Desde muito cedo intuí que os meus pais não tinham ido em “lua-de-mel” a Londres em 1942, regressando a Madrid em 1946.
Tinha de haver mais qualquer coisa. Sempre tive amigos ingleses e até aos anos 60 sempre recebemos visitas de gente da embaixada britânica em Madrid. Nós vivíamos mesmo em frente.
O que me fez suspeitar dói a sua longa presença em Londres onde eu também nasci. Não pensavam em voltar e não era culpa de Franco, mas sim dos nazis.
Quando terminou a II Guerra Mundial, acabaram os problemas e por isso voltaram.
Aterrem em Portugal: Há um diário que foi importante para perceber o que ele fazia como o fazia?
Patricia Martinez di Vicente: Sim o diário está em meu poder e é importante por causa dos nomes que aparecem. Encontrei-o durante uma mudança de casa em Madrid durante o ano de 1986 e graças à minha mãe, consegui perceber a qual pertenciam aqueles nomes.
Mapa da fronteira, na zona de Tui, desenhado por Eduardo Martínez Alonso. A sua rota clandestina passava por aqui.
Patricia Martinez di Vicente: Sou antropóloga social. Licenciada em estudos latino-americanos pela Universidade de Portsmouth, em Inglaterra.
Fui ajudante do professor Julian Pitt-Rivers, durante 15 anos em Espanha m festas populares e taurinas. Nada tem a ver com este tema, mas aprendi com ele a rebuscar arquivos.
A minha principal fonte de informação foi a minha mãe e o diário do meu pai. Também os “Public record’s Office de Londres (em Kew) que estão abertos ao mundo.
A actividade do meu pai no SOE – provavelmente um dos primeiros activos em Espanha – não aparece em nenhum arquivo espanhol e tenho dúvidas que aparece noutro qualquer do mundo, mas o britânico tem pelo menos 200 páginas dedicadas a ele e às suas actividades.
Eduardo Martínez Alonso
e a mulher em Lisboa.
Aterrem em Portugal: Como funcionava a rede em que esteve envolvido o seu pai?
Patricia Martinez di Vicente: O meu pai actuava directamente em ligação com a embaixada britânica em Madrid e por isso não pertenceu a nenhuma rede.
Foi um sistema particular de resgate e evacuação de presos de Miranda del Ebro – com saída através da nossa casa na Galiza.
A certa altura teve de fugir – recém-casado com a minha mãe – e daí vem a conversa da lua-de-mel em Janeiro de 1942, perseguido pela Gestapo.
Essa fuga nada teve a ver com Franco ou com anti-franquismo. Ela era franquista, democrata, liberal e monárquico.
Carlos Guerreiro
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