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sexta-feira, 14 de maio de 2010

O voo 777 "aterra" em Bristol 67 anos depois

No próximo dia 1 de Junho vão ser recordados, no Aeroporto de Bristol, os passageiros e tripulantes (17 no total) que pereceram no dia 1 de Junho de 1943 a bordo do Voo777. O avião tinha saído de Lisboa em direcção a Whitchurch, mas sobre a Baía da Biscaia foi atacado por aparelhos alemães. Já no ano passado tinha sido descerrada uma placa no Aeroporto de Lisboa para recordar este acontecimento que continua envolto em algum mistério. Tratou-se de um abate acidental ou propositado? Esta é uma questão que continua a ser colocada.

O programa em Bristol começa por volta das 10 horas da manhã e, além da colocação da placa, incluí ainda uma visita ao velho aeroporto de Whitchurch, há muito desactivado, e que se encontra mesmo ao lado de Bristol. Entre os presentes vão estar alguns descendentes de pessoas que seguiam no Voo777.

Se alguém estiver interessado pode contactar-me que passarei as informações a quem de direito. Segundo sei a organização está a tentar encontrar hotéis mais baratos entre outras facilidades.

Para quem não sabe durante toda a II Guerra Mundial, Portugal continuou a receber aviões civis oriundos de todos os países beligerantes.




A foto foi-me cedida por Patrick Gerassi. À esquerda está a mãe dele – Helen Gerassi - seguem-se Leslie Howard, Alexander Gulbekian e Chenalls.

A descrição do abate do Voo 777, que se segue, foi retirada do livro que dá nome a este blogue: “Aterrem em Portugal”, entre as páginas 39 a 45.

(…) O incidente ocorreu no primeiro dia de Junho de 1943. Entre os passageiros que nessa manhã entraram para o voo 777, encontrava-se Leslie Howard, um actor no pico da fama, depois da participação em clássicos como a “Pempinela Escarlate” e “Tudo o vento Levou”.

Acompanhavam-no mais 12 passageiros e três tripulantes, de origem holandesa, que haviam fugido com o avião para Inglaterra depois dos alemães invadirem o seu país. O ataque deu-se já sobre a baía da Biscaia e foi realizado por oito JU-88´s da V esquadrilha do Grupo de Combate (Kampfgeschwader – KG) 40, com sede em Bordéus -Mérignac.

Segundo o livro “Bloody Biscay” de Chriss Goss, que aborda a história da esquadrilha alemã, o ataque foi acidental. Nas entrevistas que realizou, seis pilotos envolvidos na acção, asseguram que o ataque só aconteceu porque confundiram o aparelho com um avião militar.

O objectivo da missão era proteger dois submarinos alemães, que se encontravam naquela zona. Devido ao mau tempo não foi possível localizá-los, mas a patrulha continuou e, perto das 12.45 horas, avistaram a silhueta de um avião com o perfil de um aparelho inimigo.

Os aviadores afirmaram não ter conhecimento de que aquela rota era utilizada por voos civis. O avião da BOAC foi atacado de duas direcções diferentes. Um dos motores e uma asa incendiaram-se. Só nessa altura o comandante, Herbert Hintze, se terá apercebido que estavam perante um avião civil e mandou suspender o ataque, mas já era tarde demais.

“Estou a ser seguido por aviões desconhecidos. Estou a acelerar.... estamos a ser atacados.
Tiros de canhão e balas tracejantes estão a atravessar a fuselagem. Estamos a rezar e a fazer o nosso melhor”. Estas foram as últimas palavras emitidas, através do rádio, por Quirinus Tepas, o comandante do voo 777. Em seguida despenhou-se no mar matando as 17 pessoas que seguiam no seu interior.

Poderia ser apenas mais um incidente numa guerra onde se repetiam, quase diariamente, os combates aéreos sobre a Baía da Biscaia, mas logo depois dos acontecimentos avolumaram-se as suspeitas que apontavam para um ataque deliberado. Uma teoria, que o próprio Winston Churchil sustentou na sua autobiografia, até porque acreditava que poderia ser ele o alvo da operação.

No aeroporto da Portela concentravam-se espiões de todas as nacionalidades para acompanhar, de forma bastante atenta, os embarques e desembarques que ocorriam. O que alguns defendem é que nesse dia terá existido um engano na identificação dos passageiros.

Sabia-se que Churchil estava em viagem. Deslocara-se ao Norte de África, para se encontrar com o General Eisenhower, e o regresso à Grã-Bretanha poderia ser uma oportunidade única para o eliminar. Desde o mês anterior que circulavam rumores apontando para a possibilidade do regresso se fazer através de Lisboa. Na Portela, embarcou, nesse dia, um homem que correspondia à descrição do fleumático primeiro-ministro Inglês.

Alfred Chenhall tinha o mesmo perfil que Winston e também gostava de fumar charutos. Era contabilista particular de Leslie Howard que, por outro lado, correspondia à descrição de um dos guarda-costas mais conhecidos do primeiro ministro. Tudo pormenores que, segundo os defensores da teoria do abate intencional, poderão ter causado a confusão de que resultou a destruição do voo 777.

Existem ainda outras teorias que tentam justificar o incidente e apontam para a suspeita de que Howard era um espião. Durante a sua digressão por Espanha e Portugal, para promover a carreira, teria recolhido informações importantes, que os alemães não queriam ver chegar a Inglaterra. Outros passageiros são também apontados como potenciais espiões ao serviço da causa aliada.

Estava também a bordo Wilfrid Israel, um judeu e activista anti-nazi, com ligações muito próximas ao governo britânico e que há muito denunciava a existência dos campos de concentração. A sua presença é para muitos uma das possíveis razões para este acontecimento. O principal objectivo seria o de afastar uma voz incómoda para Hitler.

A morte de Howard e dos restantes passageiros teve repercussões em Portugal. A teoria de uma conspiração parece ter-se enraizado entre alguns responsáveis do Governo de Salazar que, logo em Outubro de 1943, trataram de expulsar uma das figuras chave da espionagem alemã no país.

Kuno Weltzein é apontado como o homem que terá enviado a informação relatando a suposta presença de Churchil no aparelho.
(…)

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