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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Morte nas águas do Oriente

A explosão aconteceu a estibordo e foi tão violenta que os homens do Sado, que se encontravam na ponte de comando, bateram com as cabeças no tecto e quando voltaram a pôr-se de pé só conseguiam ver o pó negro do carvão que transportavam a chover sobre a frente do navio.

Afundamento de um navio fotografado 
pelo periscópio do USS Tresher.
(Foto: http://www.submarinewarfare.uk/silent6.html)

O impacto partiu o navio em dois, com a ré e a cabine de comando – que ficava a meio – a derivarem para um lado e a proa para outro. Mal se conseguiram pôr de pé na ponte, o comandante José de Matos, o telegrafista Vitor Miguel Pereira, o contramestre de serviço e segundo piloto Fernando Augusto Ferreira Miguel correram em direcções diferentes para tentar organizar o abandono do cargueiro.

José de Matos correu para a sua cabine com a intenção de vestir o colete salva-vidas e dar ordens para parar as máquinas. Vitor Pereira correu ao posto de comunicações para enviar um SOS, mas não o conseguiu porque a explosão tinha danificado o rádio. Fernando Miguel saltou até ao convés, onde estava o armário dos coletes de salvação, para se equipar e coordenar o abandono do Sado.

Noutros pontos do navio os tripulantes não precisaram de receber ordens para perceber que o navio estava condenado. Enquanto vestiam os coletes de salvação, tentavam soltar os salva-vidas das talhas, uma operação dificultada pelo facto das embarcações não estarem prontas para serem lançadas à água numa emergência.

O comandante ainda voltou à ponte e, antes de se lançar à água, gritou qualquer coisa que ninguém compreendeu. O telegrafista saltou atrás dele com o colete debaixo do braço porque não tinha conseguido vesti-lo.

Fernando Miguel foi arrastado para o fundo com o cargueiro e ficou entalado na porta que dava acesso à cozinha. Enquanto se tentava soltar sentiu alguém agarrar-se “fortemente” a si. Afastou-o do corpo, mas puxou-o com uma das mãos enquanto com a outra tentava chegar à superfície o que conseguiu com dificuldade.

Quando conseguiu respirar apercebeu-se de que o marinheiro que arrastara consigo pedia chorando que não o largasse pois não sabia nadar. Por pouco não matava os dois pois “agarrou-se (…) com pernas e braços” e a sorte foi estar a flutuar perto um bocado da ponte que se tinha soltado do navio, ao qual o segundo piloto se agarrou “sempre com o homenzinho encavalitado”.

O Sado, um cargueiro a vapor de três mil toneladas brutas, registado no porto de Macau, tinha partido de Tsingtao, na China, no dia 3 de Abril de 1942 e deveria entregar em Kawasaki, no Japão, quatro toneladas de carvão. A viagem estava próxima do fim quando, no dia 10, pouco depois das 11 horas o navio foi atingido por um torpedo disparado pelo USS Thresher, um submarino americano que desde as primeiras horas da manhã caçava à entrada do Golfo de Tóquio.

Os americanos já tinham disparado dois torpedos horas antes, tentando atingir um grande cargueiro, mas tinham falhado o alvo. A chuva e o mau estado do mar tinham-no impedido de descobrir novos alvos, apesar do sonar detectar a presença de objectos grandes nas proximidades. O Sado foi avistado, através do periscópio, cerca de 10.30 horas, rumando em direcção ao submersível. O torpedo foi disparado às 10.56 e a explosão aconteceu pouco depois.

O USS Tresher

O sonar do Tresher continuou a detectar a presença de uma unidade de grandes dimensões, mas, devido ao mau tempo, a tripulação só conseguia ver um pequeno veleiro de pesca. Sem o saberem encontrava-se nas imediações um torpedeiro japonês que poucos minutos após o afundamento do Sado lançava cargas de profundidade na tentativa de afundar o submersível. Este escaparia ao primeiro ataque e a dois outros que sucederam durante do dia, mas não conseguiu evitar um sem número de danos que o obrigaram a abandonar a missão e regressar à base.

Ferido, exausto e com um marinheiro em pânico que não o largava, Fernando Miguel esteve agarrado ao destroço da ponte de comando durante cerca de 40 minutos até que a baleeira do destroyer japonês o recolheu.

Após tratamento médico foi informado por um oficial japonês que tinham sido afundados por um submarino americano. Dos 54 homens que seguiam a bordo apenas o segundo piloto, o telegrafista Vitor Pereira e nove tripulantes chineses escaparam com vida. Do comandante também não havia sinal.

Já a recuperar em Yokohama Fernando Miguel recebeu os restos de alguns coletes e bóias de salvação, tendo percebido porque tinham sido os tripulantes que não os tinham usado a salvar-se: “verificámos serem feios de bocadinhos de cortiça muito velha e já podre pregados uns aos outros com pregos de madeira, embora tivessem por fora a aparência de novos”.

No inquérito o segundo piloto declarou ainda que o comandante tinha pedido ao proprietário, no início da guerra do Pacífico, que colocasse paus de atracação no costado para os salva vidas, mas que este tinha recusado alegando que se tratava de um navio português, neutral, que “não corria perigo nenhum”, e por isso não precisava de trazer as embarcações atracadas ao costado.

Para além do pouco cuidado colocado nos meios de salvamento o Sado também não cumpria as normas impostas pelo Estado Maior Naval desde o início do conflito para facilitar a identificação, uma situação denunciada no relatório do capitão do porto de Macau, o tenente Andrade e Silva: “Verifica-se que, a pedido dos fretadores japoneses, e com o consentimento do proprietário e do Exmº Cônsul de Portugal em Shangai, o navio se encontrava inteiramente pintado de cinzento, como um navio beligerante, sem o nome pintado no costado, nem a bandeira nacional, que apenas era hasteada à popa durante o dia; durante a noite, o navio mantinha-se na maior escuridão, sem trazer acesos os faróis regulamentares”.

Esta chamada de atenção para o incumprimento das normas de identificação e iluminação parecem ter caído parcialmente em saco roto pois passado pouco mais de um ano o Wing Wah, da companhia Tai Lee, também sediada em Macau, era afundado em condições muito semelhantes. Apesar de ter as cores portuguesas pintadas no casco e ostentar a bandeira nacional, viajava – por ordens da empresa – com as luzes completamente apagadas. O ataque aconteceu na noite de 2 de Junho de 1943 e a chacina foi superior a qualquer outra registada entre navios portugueses afundados durante o conflito.

O Wing Wah era um vapor misto de 650 toneladas que realizava carreiras regulares entre Macau e os portos da Indochina. Nesta viagem seguiam a bordo 76 tripulantes, 53 passageiros, 46 toneladas de carga e 37 sacos de correspondência. O navio partiu de Fort-Bayard (actualmente Zhanjiang, na China) a 31 de Maio e tinha como destino Haipong, no Vietnam.

Os comandante Isaac de Lemos tinha acabado de se deitar, às primeiras horas da madrugada, quando ouviu a forte explosão e sentiu um abalo que o atirou para fora da cama: “Meio atordoado com a queda, (…) precipitei-me sobre a ponte a vi tudo despedaçado, o suporte da bússola totalmente deslocado e a cúpula fendida.”

O barco fora atingido na frente, a bombordo, e depressa o castelo da proa ficou submerso. Ainda mal estavam refeitos do primeiro susto quando o Wing Wah voltou a ser atingido por novo torpedo, que causou uma explosão “ tão estrondosa como a primeira”. “Foi tal o efeito da deslocação do ar que a cobertura da ponte de comando, (…) foi bruscamente arrancada e expelida para o mar”, relatou Isaac de Lemos que subitamente se encontrou na água, tentando chegar à superfície rodeado de destroço de metal e madeira. Sufocado pela água e pelos gazes da detonação conseguiu agarrar-se a uma bóia que lhe salvou a vida.

Com o segundo impacto as luzes interiores apagaram-se e o navio inclinou-se “pesadamente para a frente apressando a submersão que durou cerca de dois minutos”.

Na água o comandante ouviu as vozes do radio-telegrafista e do primeiro-oficial e depois de os chamar, ficaram os três agarrados à mesma bóia. Um marinheiro tinha conseguido soltar uma das baleeiras utilizando uma machadinha e foi essa única embarcação de emergência que reuniu os poucos sobreviventes do Wing Wah. Dos 76 tripulantes o salva vidas conseguiu recolher 15 e dos 53 passageiros apenas 1 foi metido a bordo. Quatro outros passageiros seriam recolhidos mais tarde por outro navio.

A eficácia do ataque e rapidez com que o navio se afundou impediu qualquer ajuda concertada aos passageiros e tripulantes que dormiam no interior do casco. O segundo torpedo atingiu a casa das máquinas, facilitando a entrada de água que terá bloqueado todas as saídas. A falta de luz e a confusão que se seguiu condenou 114 pessoas à morte.

A recolha dos poucos sobreviventes pela baleeira foi feita a medo pois dois projectores – afastados um do outro cerca de 200 metros – iluminavam continuamente o local do sinistro. Isaac de Lemos acreditava que eram luzes dos dois submarinos que tinham realizado o ataque e, temendo que os metralhassem, deu ordem para escapar do local.

Os náufragos encontravam-se a cerca de 38 milhas a Sudoeste do Farol Norway, perto de Haipong, e manhã do mesmo dia avistaram as ilhas da costa de Tonkin. Não puderam, no entanto aportar a nenhuma delas porque com a chegada de uma nova noite temiam encalhar o salva-vidas. Dormiram encostados uns aos outros e na manhã seguinte encontraram-se perdidos num labirinto de ilhéus na baía d’ Allong. Já temiam não conseguir sair daquele emaranhado quando foram recolhidos por uma pequena embarcação de pesca tripulada por “quatro homens, três mulheres e duas crianças”. 36 horas depois do desastre desembarcavam finalmente na cidade Hongai, no Vietname.

O USS Tambor

As luzes de que Isaac Lemos quis escapar logo após o ataque não eram dos submarinos que o tinham atacado, mas de navios japoneses que tentavam localizar o USS Tambor, um submarino americano, comandando pelo comandante Kofauver, que tinha disparado não dois, mas três torpedos em Direcção ao Wing Wah. Pouco depois de ter realizado o ataque foi também alvejado por dois torpedos inimigos, dos quais conseguiu escapar sem sofrer danos.

Nos registos americanos estes dois navios são referidos como presas pertencendo ao Japão e não é anormal encontrá-los referenciados como "Sado Maru" e "Wing Wah Maru" (ou também Eika Maru), mas o facto é pertenciam a companhias registadas em Macau, tinham tripulação portuguesa e chinesa, e os relatórios dos afundamentos encontram-se no Arquivo Histórico da Marinha.

O mesmo não aconteceu num outro caso. Para além do Sado e do Wing Wah, também o navio motor Guia foi afundado em 30 de Novembro de 1942, mas não se encontrava já sob ordens de uma companhia portuguesa. Tinha sido “aprisionado” pelos japoneses em Junho de 1941 e estava ao serviço destes desde então.

Carlos Guerreiro

segunda-feira, 24 de abril de 2017

«Escaparate de Utilidades»
Casa Maple (2)

Programa Cinema "Águia de Ouro", 1 a 7 de Abril 1940

quarta-feira, 29 de março de 2017

Guerra em Timor e Macau são temas para filme e livro

O livro “O Diário de Tenente Pires”, que relata a ocupação japonesa de Timor, vai servir de inspiração ao realizador português Francisco Manso quer fazer uma longa-metragem de ficção sobre o tema.

Tenente Manuel Pires
À Agência Lusa o realizador disse que pretende relatar "aquela barbaridade terrível. Os japoneses mataram milhares de timorenses, criaram campos de concentração para os poucos portugueses que ali viviam na altura, sem defesa nenhuma, porque quando pediram armas ao Salazar, ele ficou caladinho, porque não queria ali levantar problemas".

A resistência foi garantida por cerca de 300 australianos que "conduziram uma luta de guerrilha contra milhares de japoneses". 

Os australianos contaram com o apoio de timorenses e também de portugueses, "que foram considerados lesa-pátria em Portugal e foram exilados em Timor, mas esses é que eram verdadeiros patriotas porque tentaram defender Timor contra uma ocupação estrangeira", explica Francisco Manso.

O tenente Pires, português, "morre lá", depois de aprisionado pelos japoneses e de ter estado num campo de concentração.

A obra, acrescentou, "mostra o que aquele pequeno território sofreu ao longo de tempo, com estas sucessivas ocupações de gente musculada e bruta e de potências regionais". 

Para Francisco Manso, é "um prodígio como é que conseguiram resistir a tudo isto".

O argumento está escrito e os custos elevados do projeto deverão levar ao envolvimento da Austrália na produção. No próximo ano deverão ser realizadas as primeiras abordagens e levantamentos.


Rodrigues dos Santos escreve sobre Macau

“A Porta do Cerco” é o nome do romance que o jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos está a escrever que tem como cenário Macau durante o período da II Guerra Mundial.

A ideia surgiu quando participou na primeira edição do festival literário Rota das Letras, em Macau, onde este ano é novamente convidado: "Há cinco anos estive em Macau e tive a ideia de fazer um romance que tocasse em Macau durante a II Guerra Mundial", disse o autor à Lusa.

Tal como todos os seus romances, "A Porta do Cerco" -- inspirado no nome da principal fronteira terrestre entre Macau e a China, chamada Portas do Cerco -- será alicerçado em factos históricos e centrado num século que o jornalista considera "muito interessante" por ser "de conflitos de ideologias". 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Macau durante a II Guerra em Seminário

Realiza-se amanhã (23 de Março) na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa, um Seminário dedicado ao tema "Imperialismo(s) e anti-imperialismo na Ásia durante a Segunda Guerra Mundial: O caso de Macau". Este é o sexto seminário integrado no ciclo 'Marcas do Império'.


Síntese:

A Segunda Guerra Mundial marcou o pico e o princípio do fim do imperialismo estrangeiro na China no período contemporâneo.

Diferentes cidades chinesas assistiram a uma interacção complexa de pessoas, ideias e acções imperialistas e anti-imperialistas durante a guerra na Ásia. Uma dessas cidades foi Macau, então sob administração portuguesa.

Tendo em conta o contexto da história de imperialismo(s) na China desde meados do século XIX, a que será feita uma introdução, esta apresentação irá explorar a experiência de Macau como espaço de coexistência de diferentes dinâmicas imperialistas e anti-imperialistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Através de uma abordagem transnacional, esta sessão irá reflectir sobre a relevância de se procurar superar análises eurocêntricas daquele conflito, assim como a sua importância para compreender acontecimentos recentes na região da Ásia-Pacífico.

Este Seminário conta com a presença de Helena F. S. Lopes, licenciada em História pela FCSH/NOVA, doutoranda em História no St. Antony's College, University of Oxford, , mestre em Estudos Chineses e em Métodos de Investigação

quarta-feira, 15 de março de 2017

Livros...
Na Toca do Lobo

Larry Loftis faz o retrato biográfico de Dusko Popov, um dos mais importantes espiões da II Guerra Mundial, que passou diversas vezes por Lisboa e aqui contactou com amigos e agentes de ambos os lados.

Popov foi um espião duplo que, por exemplo, avisou os americanos do ataque a Pearl Harbour e foi peça central no esquema que enganou os alemães no Dia D em 1944. Foi um mulherengo e jogador inveterado que apontando como tendo servido de base ao mais conhecido espião do mundo ficcional: James Bond, o agente 007.


"Na toca do Lobo", de Larry Loftis.
Saiba mais AQUI.

Sinopse Oficial:

CASINO ESTORIL - MAIO DE 1941

O ambiente no casino estava ao rubro. Um misterioso jogador sérvio não dava qualquer hipótese aos seus adversários. Tratava-se de um agente duplo britânico, Dusko Popov, e o dinheiro que apostava pertencia aos súbditos de Sua Majestade. Ian Fleming, que alcançaria a fama enquanto escritor das aventuras do famoso agente secreto 007, assistia com interesse ao desenlace de tamanha proeza.

Desde muito cedo, Popov destaca-se como um rebelde playboy.
É expulso da escola preparatória de Londres e, mais tarde, preso e banido da Alemanha por fazer declarações desfavoráveis ao Terceiro Reich. Começa então a verdadeira aventura da sua vida ao transformar-se no mais charmoso e bem-sucedido dos espiões, servindo três poderosos mestres de guerra: Abwehr, MI5 e MI6 e FBI.

A 10 de agosto de 1941, os alemães enviaram Popov aos EUA para construir uma rede de espionagem e reunir informações sobre Pearl Harbor. Desiludido com J. Edgar Hoover, que ignorou os seus avisos sobre o interesse dos japoneses em Pearl Harbor, regressou à sede dos serviços alemães em Lisboa. Mantendo o jogo duplo, conseguiu ajudar o MI5 a lograr a Abwehr sobre a invasão do Dia D.

Sob a máscara de diplomata jugoslavo, viveu intensamente as mais perigosas aventuras e saiu ileso de todos os conflitos.
Na Toca do Lobo é um relato incrível de espionagem, mentiras e altos riscos. É uma história de subterfúgios e sedução, patriotismo e coragem. 

É a história de Dusko Popov - a inspiração para James Bond.

Carlos Guerreiro

terça-feira, 7 de março de 2017

Sete anos e 250 mil visualizações


Foi quase sem dar por isso que o "Aterrem em Portugal!" ultrapassou as 250 mil visualizações...

A primeira mensagem foi colocada em Março de 2010 e, sete anos depois, existem cerca de 770 textos com um quarto de milhão de leituras. Pode não parecer muito, mas dá algum gozo ver uma brincadeira chegar aqui...

Obrigado a todos por sete anos de apoio e incentivo.

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 2 de março de 2017

Duas notas sobre uma bomba

Recebi nos últimos dias alguns e-mails sobre a bomba que foi pescada pelo arrastão "Mar Salgado" na zona da Nazaré. O facto de vários órgãos de informação terem referido que se poderia tratar de uma bomba da II Guerra Mundial resultou nalguns contactos que fui respondendo como pude, pois encontrava-me longe de casa e com acesso condicionado à Internet e às fontes de informação.


Passados alguns dias sobre o acontecimento e depois de aceder a diversas notícias gostava de deixar duas notas sobre o tema:

1 - Não se pode excluir a possibilidade de serem encontradas nas nossas águas bombas, munições ou outro material pertencente a aviões da II Guerra Mundial. Entre 1939 e 1945 foram diversos os aviões alemães ou aliados que realizaram ataques a navios ou submarinos ao longo da nossa costa. Como exemplo deixo três artigos onde o tema é referido, nomeadamente, "O Junho Quente de 1943", "Pescadores Debaixo de Fogo" e "Quando o São Vicente se Afundou".

A possibilidade de um dos explosivos utilizados não ter deflagrado é maior do que se possa pensar. Segundo alguns especialistas podem não ter explodido até 10 por cento de todas as bombas lançadas durante o conflito. De resto pode existir material deste tipo que foi perdido, largado em resultado de uma avaria ou parte do arsenal de um aparelho que desapareceu. Há vários, tanto alemães como aliados, que se esfumaram sobre mar o português sem deixar rastro.

2 – Em várias notícias que surgiram a bomba era referida como sendo uma MK-82. Mesmo não sendo um especialista neste tipo de equipamento militar foi fácil encontrar informação sobre a série Mk-80. O modelo foi desenvolvido depois da II Guerra Mundial e teve ampla utilização na Coreia e no Vietname, sendo uma unidade de uso comum em vários países NATO...

Baseando-me nestes elementos, e se de facto se trata de uma Mk-82, é difícil - senão impossível - que pertença ao período da II Guerra Mundial.

Carlos Guerreiro

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Postalinho...
A balança da Vitória


Postal de propaganda britânico de 1942 ou data posterior que é, simultaneamente, uma mostra de força perante a Alemanha e uma denúncia contra o nazismo.

Este postal deverá integrar uma vasto conjunto de materiais elaborado pelo "Central Office of Information", um organismo que funcionou com agência de propaganda para as forças aliadas, produzindo filmes, postais, brochuras e outros materiais que era distribuídos por Inglaterra, colónias, e países de Commonwealth, ocupados ou neutrais.

Veja outros postais AQUI...

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Fotografias do afundamento do U-581

As fotografias do afundamento do U-581 junto à ilha do Pico pertenciam a um tripulante do Westcott, o contra-torpedeiro britânico que abalroou o submarino alemão depois deste ser obrigado a emergir devido a uma avaria na madrugada de 2 de Fevereiro de 1942.

Imagem que mostra os tripulantes do U-581 na água,
avistando-se também a torre do submarino um pouco mais à frente

(Fonte: World War Two-The War at Sea)
A história deste combate em águas portuguesas ganhou relevo na última semana, altura em que passavam 75 anos sobre o acontecimento, depois dos destroços do submarino terem sido descobertos a 800 metros de profundidade pelos técnicos da Fundação Rebikoff-Niggeler.


Sobreviventes do U-581 a serem recolhidos pelos Westcott.
(Fonte: World War Two-The War at Sea)
Após a publicação do relato do afundamento, na última semana, foi possível descobrir estas fotografias num outro site dedicado à II Guerra Mundial. As imagens foram cedidas pelo filho do tripulante, Alan Chitty, que deixou também algumas memórias do pai.

Alan adiantou a Mike Kemble, autor do site "World War Two - The War at Sea", que o pai, falecido em 2009, não falava muito da guerra mas que a memória do abalroamento foi repetida diversas vezes...

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A batalha que afundou o U-581 junto ao Pico

Passavam poucos minutos das nove da manhã do dia 2 de Fevereiro de 1942 quando dois marítimos da ilha do Pico, nos Açores, tiraram do mar o enregelado Walter Sitek, um oficial da marinha alemã, que nadara em direcção à ilha portuguesa durante mais de três horas, depois do submarino em que seguia – o U581 - ter sido afundado por um contratorpedeiro britânico.

O Llangibby Castle pouco depois de chegar ao porto da Horta.
É bem visível o rombo causado pelo torpedo.
O combate acontecera de madrugada e foi ouvido e avistado por residentes do Pico, que nesse dia teriam oportunidade de assistir a outros recontros entre navios da Royal Navy e submarinos da Kriegsmarine, os primeiros encarregados de proteger um navio de transporte e os segundos tentando afundá-lo.

O Llangibby Castle era um navio de passageiros com quase 12 mil toneladas, que em 1940 tinha sido requisitado pelo almirantado para transportar tropas. Em Janeiro de 1942 integrou o comboio WS-15 com destino a Singapura, transportando cerca de 1400 homens ligados a unidades de engenharia e especialistas da RAF.


Um penoso trajecto até à Horta 

Na manhã de 16 de Janeiro de 1942 a popa do navio explodiu depois de ser atingida por um torpedo disparado pelo submarino U-402 que perseguia o comboio. Ficou com um buraco gigantesco, perdeu o leme, sofreu várias baixas entre tripulantes e passageiros.

Apesar dos estragos os hélices continuavam a funcionar permitindo que este tentasse chegar a um porto seguro enquanto fintava ataques inimigos.

Sem escolta, que seguira com o resto do comboio, o caminho não foi fácil. Manobrando apenas com as hélices conseguiu escapar às bombas lançadas por aviões da Luftwaffe, Fw-200 Condor, mas não conseguiu fazer o mesmo em relação aos disparos das metralhadoras que causaram mais algumas baixas as bordo.

O capitão do porto da Horta, primeiro-tenente António Morgado Belo, recebeu o pedido de ajuda à hora de almoço do dia 19, quando o Llangebby Castle se encontrava 90 milhas a Nordeste da ilha. O contratorpedeiro Douro, que se estava no cais, foi posto de sobreaviso caso fosse necessário realizar uma operação de socorro ou de protecção, mas não chegou a sair.

O navio britânico surgiu no horizonte às 10 da manhã do dia seguinte e, com a ajuda do piloto-mor, conseguiu entrar no porto, trazendo 26 mortos e vários feridos a bordo. Quatro destes últimos receberam assistência hospitalar na Horta e um deles, o contra-mestre George Reardon, ficaria em Portugal durante vários meses a recuperar de um grave ferimento na coxa.

Depois de uma vistoria o navio foi autorizado a permanecer 14 dias para realizar reparações, uma informação fornecida em segredo ao cônsul britânico da ilha. Talvez porque existiam espiões na ilha, porque o U-402 conseguiu reencontrar ou adivinhar para onde se dirigia a sua vítima ou porque foi interceptada alguma comunicação, os alemães souberam da presença do transporte na Horta e lançaram alerta para os seus submarinos.


O acidentado cruzeiro do U-581 

O U-581, sob ordens do comandante Werner Pfeifer, foi um dos submarinos que se desviou da rota para tentar apanhar o Llangibby Castle. Saíra do porto francês de St. Nazaire no dia 10 de Janeiro de 1942 com destino à Terra Nova, onde deveria realizar patrulhas durante 14 dias, regressando de seguida a França.

Torre do U-581
Os problemas começaram logo no primeiro dia quando a tripulação testava mergulhos rápidos perto da costa francesa. Durante o exercício o navio chocou com o fundo e danificou o leme que em certas situações deixou de reagir às ordens, o que condicionou o resto do cruzeiro.

Apesar do começo desastrado as coisas começaram a correr um pouco melhor. Perto das 23 horas de 19 de Janeiro, 200 milhas a Oeste de Gibraltar, avistaram o que parecia uma corveta de guerra britânica navegando sozinha.

O mar estava calmo, a noite escura e chuvosa. Dispararam dois torpedos, um dos quais partiu o navio ao meio. Menos de um minuto depois registaram-se novas explosões, talvez causadas pelas cargas de profundidade que se encontravam a bordo. Uma busca entre os destroços não localizou sobreviventes.

 Tratava-se possivelmente do “Trawler” patrulha “Rosemonde” que partira de Gales a 13 de Janeiro com destino a Gibraltar e desapareceu sem sobreviventes durante a viagem.

A ordem para se dirigirem para a Horta interrompeu os planos de continuarem para a Terra Nova. No dia 31 já estavam nas imediações da ilha e, durante a noite fizeram uma visita ao porto. Aparentemente o Llangibby Castle encontrava-se atrás do cais de pedra, o que impediu que disparassem torpedos para o afundar.

Do submarino conseguiam ver o movimento em terra e as luzes dos carros a passar. No dia seguinte afastaram-se para alto mar onde permaneceram longe da vista, mas prontos a intervir caso fosse necessário.

Quando caiu a noite o U-581 estava de nova à entrada do porto. Por volta das duas da manhã encontrou-se com outro Uboat que entretanto também havia chegado à ilha. Os comandantes Werner Pfeifer, do U-581, e Siegfried Von Forstner, do U-402, alinharam os seus navios e a estratégia a seguir.

Decidiram colocar-se nos extremos do canal que separa a Horta do Pico. Forstner patrulharia o norte e Pfeifer o sul, cobrindo qualquer das saídas que o Llangibby Castle pudesse utilizar.


Um combate anunciado 

Sem conhecimento dos alemães tinham chegado, durante a noite, um rebocador de mar alto, o "Thames", e três contratorpedeiros – Westcott, Croome e Esmoor – com o objetivo de proteger o Langibby Castle até Gibraltar, onde poderia ser alvo de reparações mais demoradas.

De madrugada o U-581 apercebeu-se da aproximação de dois navios de guerra. Disparou um torpedo da popa, mas este passou muito longe do alvo. Com uma lua forte que iluminava a noite o comandante alemão deu ordens para submergir, mas durante manobra, e quando se encontravam a cerca de 80 metros de profundidade, saltou um rebite do escape de saída de fumos de bombordo e a água entrou em torrentes para o compartimento do motor a diesel. A ameaça estendeu-se depressa ao motor eléctrico, que permitia ao submarino navegar submerso.

O HMS Westcott
Num ambiente descrito pelos tripulantes como sendo de pânico, e com navio a descer cada vez mais para o fundo, foi dada ordem para realizar uma emersão de emergência, enchendo de ar os tanques de lastro.

O Uboat disparou dos 160 para os 20 metros de profundidade, altura em que o engenheiro de bordo alertou o comandante para o facto de se ouvirem de forma muito clara as hélices dos navios que estavam por cima. O perigo de chocar com um deles era muito real.

Foi dada nova ordem para descer e a operação, meio descontrolada, levou o submersível de novo aos 150 metros. Segundo alguns tripulantes foi naquele momento que os nervos de Pfeifer cederam, tendo dado nova ordem para emergir.

Durante estas manobras o submarino aproximou-se intencionalmente do Pico, mas na época não ficou claro se o combate acontecera em águas territoriais – e por isso neutras – ou não. A equipa da Fundação Rebikoff-Niggeler, que descobriu os destroços em Setembro passado, publicando as primeiras fotografias na National Geographic deste mês, confirmou que o submarino se encontra a 2,1 milhas da costa, indiciando que o combate ocorreu em águas portuguesas. Hoje essa informação não é relevante, mas na época poderia ter desencadeado um conflito diplomático…

Tanto o Westcott como o Croome seguiam os sinais do sonar quando o submarino emergiu repentinamente nas proximidades. Ian Bockett-Pugh, comandante do primeiro contratorpedeiro, mandou virar o navio e a toda a velocidade tentou abalroar o U-581. O submarino escapou por pouco, mas não conseguiu evitar o efeito da explosão de dez cargas de profundidade lançadas durante a sua passagem.

Com uma viragem apertada para bombordo o Westcott aproou de novo ao submarino insistindo na tentativa de abalroamento. Disparar os canhões era perigoso devido à proximidade do Croome.

Contratorpedeiro e submarino encontravam-se agora em rota de colisão. Quando se cruzaram o navio britânico rodou para estibordo atirando a quilha para cima do submarino junto da torre. A maior parte dos alemães, que já estavam a sair para a coberta, saltaram para a água pouco antes do impacto...

O Westcott mostrava intenções de repetir o abalroamento, mas o submarino ergueu a proa e afundou-se rapidamente. O comandante tinha dado ordens, antes de abandonar o seu navio, para abrir as válvulas para facilitar a entrada de água. Eram cerca das seis da manhã.

Quatro homens morreram, mas 42 conseguiram saltar para a água e todos, à excepção de um, foram recolhidos pelos dois contratorpedeiros britânicos. Walter Sitek tinha sido um dos primeiros homens a sair para o convés do submarino e quando viu os camaradas saltar fez o mesmo. Tirou a roupa, ficando apenas com uma camisola e o colete salva-vidas vestidos. Não queria em circunstância nenhuma ficar prisioneiro e por isso nadou… com toda a força que tinha.

Depois de ser recolhido no pequeno barco de pesca, três horas depois, acreditava que a maior parte dos seus camaradas tinha morrido.

Pouco satisfeitos com esta “fuga” ficaram os oficiais alemães aprisionados. Durante o interrogatório tanto o comandante como o engenheiro ficaram preocupados com a possibilidade de Sitek relatar, na Alemanha, o mau ambiente que se vivia a bordo do submarino e a forma como foi conduzido o cruzeiro e o combate.

Em terra, na Candelária, Sitek foi tratado e vestido. Seguiu depois para a Madalena e dali para a cidade, onde foi assistido pelo médico do contratorpedeiro português Douro. Regressou depois à Alemanha onde comandou submarinos e sobreviveu à guerra. Foi condecorado com uma Cruz de Ferro de Segunda Classe e outra de Primeira.


Outro combate no canal de São Jorge

O Llangibby Castle saiu do porto da Horta, auxiliado pelo rebocador, por volta das 11 da manhã. Pouco depois foi rodeado pelos dois contratorpedeiros que horas antes tinham combatido o U-581. Mais a norte esperava-os o terceiro navio de guerra. Todos seguiram depois pelo canal de São Jorge onde ao fim da tarde se viriam a registar novos combates, mais uma vez à vista de terra.

Walter Sitek
(Uboat Net)
Por volta das 17 horas, a meio do canal, um dos contratorpedeiros saiu da formação para lançar várias cargas de profundidade. O efeito das explosões fez-se sentir na Piedade, Ilha do Pico. Ao mesmo tempo foi avistado a algumas milhas do comboio um submarino à superfície cruzando o canal.

Uma hora mais tarde um contratorpedeiro voltava a destacar-se da escolta para atacar o submarino que estava a aproximar-se à superfície. Os alemães parecem ter mergulhado à pressa, não voltando a ser avistados, apesar dos britânicos terem continuado – pontualmente – com disparos e, possivelmente, com o lançamento de cargas de profundidade. O submarino não foi atingido.

O Llangibby Castle chegaria com a sua escolta a Gibraltar dias depois. Foi alvo de algumas reparações e depois seguiu para Inglaterra onde recebeu finalmente um novo leme. Entre outras missões viria a participar no transporte de tropas no Dia D para a praia Juno e, mais tarde, também para as praias Omaha e Utah. Foi vendido para sucata em 1954…

Carlos Guerreiro

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

U-boat encontrado a sul do Pico

O U-boat 581 da marinha alemã, afundado em Fevereiro de 1942 na sequência de um combate com navios britânicos, foi encontrado a 13 de Setembro por uma equipa da Fundação Rebikoff-Niggeler, que utilizou um pequeno submersível para descer aos 800 metros de profundidade e fotografar os destroços.


As primeiras imagens foram publicadas na edição deste mês da revista National Geographic que revela também alguns detalhes sobre o combate que teve lugar a 2 de Fevereiro de 1942 e que levou ao afundamento deste navio.

Edição de Fevereiro da National Geographic
Toda história do combate, baseada nos relatórios compilados pelas autoridades portuguesas e informação britânico, será revelada na quinta-feira no aqui no blogue.

Até lá…

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Quando Lisboa recebeu Vivien Leigh e Lawrence Olivier

Em Janeiro de 1941 os jornais portugueses exibiram orgulhosas primeiras páginas anunciando a passagem por Lisboa do casal de actores Lawrence Olivier e Vivien Leigh, numa passagem que os havia de levar para Inglaterra onde pretendiam colaborar no esforço de guerra.

Chamada de Primeira página do
jornal "O Século" de 8 de Janeiro de 1941
Olivier e Leigh tinham casado em segredo em Agosto de 1940, depois de divórcios bastante badalados, e eram ambos estrelas reconhecidas de Hollywood, apesar de tanto um como outro serem britânicos.

A presença na capital portuguesa do actor de “Monte dos Vendavais” e da actriz que recebera o Óscar pelo seu papel em “E tudo o vento levou” causou um reboliço pouco habitual no porto de Lisboa.

O casal chegou a bordo do navio americano Excambion depois de ter passado dois anos nos EUA, ainda neutrais, mas onde não se sentiam úteis à guerra ou protegidos devido às sua ideias.

Na América havia mesmo quem temesse pela vida dos dois actores que abertamente apoiavam Churchill e criticavam Hitler, irritando alemães, pró-alemães e isolacionistas americanos por igual.

Os jornalistas portugueses subiram a bordo e encontraram o casal a reunir malas e as descrições publicadas na maior parte dos periódicos é digna de qualquer revista cor-de-rosa dos nossos dias.

Lawrence Olivier regressava com a intenção de se juntar à RAF, pois tinha experiência como piloto. À chegada a Inglaterra seria desafiado para participar em mais um filme de propaganda e mais seria integrado na Fleet Air Arm, a Força Aérea da marinha. Nunca se viu envolvido em combate a até ao fim do conflito esteve envolvido no esforço de propaganda participando e realizando filmes com esse objectivo.

Ficam alguns detalhes das notícias publicadas em dois jornais da época: O "Diário de Lisboa" de 7 de Janeiro de 1941 e "O Século" do dia seguinte.

Parte da notícia do "Diário de Lisboa"
de 7 de Janeiro de 1941

Parte da notícia do Jornal "O Século"
de 8 de Janeiro de 1941
Carlos Guerreiro