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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Viana dos Santos, comerciante quase espião

“Não faz ideia de como estou bem de saúde. Podia dizer isto para animar mas não. È verdade, sinceramente sinto-me com bastante saúde e só penso em vocês aí como se hão-de governar sem o meu auxílio”. Artur Viana dos Santos escrevia assim à mãe em 12 de Janeiro de 1943, poucos dias depois de ser detido na África do Sul acusado de espionagem a favor dos alemães.

Artur Viana dos Santos realizou a sua viagem de "espionagem" no paquete "Angola", da Companhia Nacional de Navegação.

Na carta assegurava à mãe que as acusações não faziam sentido. “(…) Tenho fé de em que as autoridades reconhecerão que nada de mal lhes fiz, nem farei, o que seria um crime para a minha consciência e acabarão por me pôr em liberdade e então hei-de novamente recomeçar a ganhar dinheiro para as manter e voltaremos à nossa vida normal”.

Apesar das garantias à família, Artur Viana dos Santos estava de facto envolvido numa rede de espionagem alemã que tinha como centro a cidade de Lisboa. A troco de dinheiro deveria fornecer informações sobre o movimento de navios e de tropas aliadas.

As informações seriam recolhidas durante a viagem entre Lisboa e Lourenço Marques no paquete “Angola”. Entre o embarque, a 30 de Novembro de 1942, e a chegada, programada para 29 de Dezembro, o navio passava por Leixões, Funchal, Luanda (Angola) e Cidade do Cabo (Africa do Sul) - onde foi detido - antes de aportar na capital moçambicana.

O dossier coligido pelos serviços secretos ingleses refere que as actividades de Viana dos Santos foram descobertas através de informações “de uma fonte muito secreta”, o que normalmente significa que se tratou de uma intercepção feita pelos descodificadores de Bleetchley Park, o mais secreto dos serviços da II Guerra Mundial.

Para além desta nota existe também uma biografia detalhada e o resultado de diversos interrogatórios. O português relembra como foi recrutado, pormenoriza a lista de agentes alemães que contactou, as instruções que recebeu para enviar cartas com tinta invisível e os detalhes do código que deveria ser utilizado nos telegramas que seguiriam para Lisboa com as informações recolhidas durante a viagem e a estadia em Moçambique.


Treino para espião

Nascido em 1908, Artur Viana dos Santos começou a trabalhar aos 12 anos, passando por vários empregos, para sustentar a mãe e a irmã. Pouco antes da guerra foi o pequeno comércio a sustentar a família que passou também a incluir uma noiva.

Apesar de algum sucesso nunca conseguiu viver de forma desafogada e a proposta de uma viagem de negócios pelas colónias portuguesas de então terá parecido uma excelente ideia para dar a volta à vida.

A sugestão da viagem foi feita por Eduardo Caldeira, um amigo que conhecera no final dos anos 20 quando ambos integraram a Liga 28 de Maio. Este garantiu a Viana dos Santos que não seria difícil encontrar um financiador que assumisse as despesas.

Caldeira era um conhecido colaborador dos serviços secretos alemães, integrando uma rede de espionagem liderada pelos alemães Bergner, pai e filho, que tinham um negócio em Lisboa e coordenavam uma rede ligada às informações navais.

A proposta foi feita em Julho de 42 e logo nesse mês Artur foi apresentado aos Bergner. Os alemães pagavam as despesas da viagem e em troca o português enviaria toda a informação sobre a presença de navios e o movimento de tropas aliadas que conseguisse recolher ao longo do percurso. Havia um interesse especial sobre o que se passava na África do Sul e em Madagáscar.

Em Setembro começou a ser instruído sobre a utilização de dois códigos, inventados por Bergner filho, que deveriam ser utilizados nas mensagens enviadas por telegrama. A complexidade de ambos é tão grande que os especialistas britânicos os consideraram impraticáveis.

Dois dias antes de partir recebeu também aulas sobre a utilização de tinta invisível. Uma mistura de limão e alúmen que seria aplicada no papel com um palito de madeira ou um cotonete. As cartas seriam enviadas para a Rua dos Remédios, 185, de Lisboa, sede da empresa Rodrigues & Viana, criada por Rodrigues Caldeira e Artur Viana para dar cobertura à viagem.

Viana dos Santos tornou-se também representante da Comércio, Exportadora e Importadora Lda.. Para dar maior legitimidade ao périplo colocou também anúncios em jornais oferecendo os seus préstimos como viajante, angariando a representação de outras empresas mais pequenas e também de particulares.

Os alemães começaram logo a pagar-lhe em Lisboa as horas que despendia na aprendizagem e ainda em alguns serviços de vigilância no porto de Lisboa, nomeadamente, no controlo de chegada e partida de navios aliados.

No total terá recebido entre 6 e 8 mil escudos (30 a 40 Euros) em Lisboa e ficou também combinado que a mãe receberia mil escudos (5 Euros) por mês enquanto estivesse em viagem.


Um espião inadequado

Aos interrogadores ingleses garantiu que, apesar de ter assumido a realização dos relatórios, nunca teve intenção de fazer realmente espionagem. Apenas as promessas de dinheiro o mantiveram ligado aos Bergner e, de facto, não foram encontradas quaisquer provas de tivesse sido enviado algum tipo de relatório durante as semanas de viagem.

Também não foram encontrados os livros com os complicados códigos que deveria utilizar, mas Viana dos Santos disse nunca os ter transportado. Estes seguiriam no navio com um membro da tripulação, que ele não conhecia, e só lhe seriam entregues à chegada a Moçambique.

No relatório os interrogadores britânicos salientam que o caso Viana dos Santos é “sórdido” e que se trata de um exemplo do “faro habitual” dos serviços secretos alemães para alistar “agentes inapropriados”. Consideram também que pelas suas características, formação e material transportado seria sempre um espião de baixa categoria.

Apesar destas constatações salienta “que seria um erro sugerir que ele não poderia ser perigoso”.”Trata-se de um mau carácter e enquanto os pagamentos fossem suficientes ele continuaria a actuar para os serviços secretos alemães sem escrúpulos”, conclui.

Depois de retirado do “Angola” Viana dos Santos passou vários meses nos campos de prisioneiros sul-africanos de Jagersfoentein e de Koffiefontein. Foi do primeiro campo que enviou a carta á mãe onde escrevia também que estava um “bocado queimado como se estivesse numa praia”, que já tinha “jogado dois jogos de futebol” e que ali lhe faltava apenas “trabalho e liberdade para ir embora”.

Nos meses seguintes esse estado espirito iria alterar-se. Em Setembro de 1943 foi transferido para Inglaterra e internado no campo 020, reservado aos acusados de espionagem.

Interrogado de novo parece que a sua situação psicológica de Viana dos Santos se alterou e tentado, pelo menos duas vezes, o suicídio.

Seria libertado com outros agentes portugueses ao serviço dos alemães, internados no campo 020, durante o ano de 1946.

Carlos Guerreiro

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