Diário de Lisboa, 1 de Abril de 1942
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Este blogue utiliza português que respeita o período pré-acordo ortográfico.
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segunda-feira, 1 de abril de 2019
segunda-feira, 25 de março de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Máquina de escrever Underwood
segunda-feira, 18 de março de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Ovomaltine
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quinta-feira, 14 de março de 2019
Exilados que passaram por Cascais em conferência
Há mais de 20 anos descobriram-se milhares de Boletins de Alojamento para Estrangeiros pertencentes a hóspedes que tinham passado por Cascais durante o período da II Guerra Mundial. Pelos hotéis daquela vila e estância balnear passaram exilados, diplomatas, espiões e muitos outros.
Esta descoberta esteve na base da criação do Espaço Memória dos Exílio, que nas próximas semanas vai ser palco de um ciclo de conferência dedicados a esta temática.
Para inaugurar este conjunto de ações comemorativas dos 20 anos do EME, António Carvalho, Diretor do Museu Nacional de Arqueologia, vai relembrar hoje (14 de Março de 12019), pelas 21 horas, a descoberta deste espólio, a criação do EME e o seu papel na reabilitação da memória dos milhares de estrangeiros que passaram por Cascais neste conturbado período da história mundial.
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segunda-feira, 11 de março de 2019
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Iod-Bom-Bom
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quinta-feira, 7 de março de 2019
Força Aérea procura a sua história

A Força Aérea Portuguesa (FAP) está a desafiar aqueles que passaram pelas suas a fileiras e outros a colaborarem na construção da sua história enviado fotografias e outros documentos capazes de enriquecer os arquivos da instituição.
O material deve ser enviado para o Serviço de Documentação da FAP no e-mail:
Sdfa_chf@emfa.pt
Bons voos...
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Para ver durante a semana...
Até ao final da semana pode visitar junto da Biblioteca da Eascola EB. 2, 3 Cardoso Lopes, na Amadora, a exposição "Contar o Holocausto..."
Nesta mostra poderá encontrar espaços expositivos dedicados a Adolfo Hitler, uma reconstituição de uma câmara de gás, os vários símbolos dos uniformes usados pelos presos dos campos de concentração, informação sobre Anne Frank e Aristides de Sousa Mendes. Presentes estão também obras infantis e da historiadora Irene Pimentel dedicados a esta temática, cartazes daquele período e outras informações e peças...
Até ao dia 8 de março pode também visitar "Desenhar contra o esquecimento" no Andar Nobre da Assembleia da República. Trata-se de uma mostra realizada em parceria com a Embaixada da Áustria e a Embaixada da Alemanha, que consiste em desenhos de grande escala, a carvão, representando crianças assassinadas durante o regime nazi. Cada desenho é acompanhado por textos de contextualização.

Boas visitas...
Nesta mostra poderá encontrar espaços expositivos dedicados a Adolfo Hitler, uma reconstituição de uma câmara de gás, os vários símbolos dos uniformes usados pelos presos dos campos de concentração, informação sobre Anne Frank e Aristides de Sousa Mendes. Presentes estão também obras infantis e da historiadora Irene Pimentel dedicados a esta temática, cartazes daquele período e outras informações e peças...
Até ao dia 8 de março pode também visitar "Desenhar contra o esquecimento" no Andar Nobre da Assembleia da República. Trata-se de uma mostra realizada em parceria com a Embaixada da Áustria e a Embaixada da Alemanha, que consiste em desenhos de grande escala, a carvão, representando crianças assassinadas durante o regime nazi. Cada desenho é acompanhado por textos de contextualização.

Boas visitas...
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Chá Bom Guia n.º 2
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
O Postalinho...
Um caso único na História do Crime
Postal alemão de propaganda publicado em data desconhecida, mas certamente posterior a fins de 1941, altura em que o EUA entraram na guerra.
Os alemães ridicularizam a aliança entre britânicos, americanos e a russos, aqui representados pelos seus líderes, nomeadamente, Churchill, Roosevelt e Estaline.
A associação da imagem dos três líderes foi utilizada para desacreditar os aliados porque a máquina de propaganda do Eixo sabia que em Portugal se admirava a Inglaterra, se suspeitava dos americanos, mas, acima de tudo, se temia a Rússia e o comunismo.
Estaline surge normalmente com um aspecto andrajoso ou monstruoso, consoante o tipo de representação pretendida, o que acentua ainda mais a diferença em relação às duas outras personagens.
Carlos Guerreiro
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Água Minero-Medicinal de S. Marçal
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
«O homem que veio do Outro Mundo» (4)
A vida em Dachau
Terminamos nesta publicação a transcrição da entrevista dada por José Agostinho das Neves ao jornalista Fernando Teixeira, do Diário Popular, em Novembro de 1945.
Nesta trecho é descrita a vida em Dachau e a libertação do campo pelos americanos...
Espero que o trabalho em transcrever estas longas páginas de jornal sejam úteis.
Recomeça aqui a transcrição:
Nesta trecho é descrita a vida em Dachau e a libertação do campo pelos americanos...
Espero que o trabalho em transcrever estas longas páginas de jornal sejam úteis.
Recomeça aqui a transcrição:
Seis homens numa cama com 70 centímetros de largura
“Eu vou com alguns dos meus companheiros, de França, para o
Block-21. O recinto ocupa uns mil metros quadrados. Ficámos ali a viver 1200
homens que, durante a noite, deveriam dormir numa barraca que mal comportava
300. Quando nos cabia a vez de adormecer sob o telhado da barraca, a coisa não
era fácil, pois as camas, de madeira, sobrepostas em três compartimentos, só
tinham 70 centímetros de largo para seis homens cada.
O que nos valeu foi que a fome nos havia feito emagrecer
muito…”
- Como era o regime dos prisioneiros em Dachau?
- De manhã, às 4 e meia, eramos obrigados a levantar-nos e a
sair para o pátio onde permanecíamos todo o dia até às 7 da tarde, qualquer que
fosse o tempo cá fora. No Inverno, o sofrimento foi doloroso. Com a chuva, a
neve e o frio e sem nos podermos abrigar «, só nos restava um recurso:
apertar-nos uns de encontro aos outros, como um rebanho de carneiros e ficarmos
para ali a procurar não deixar fugir o calor que cada um de nós pudesse
armazenar e ceder ao outro. Sem roupa que chegasse e sem calçado, com uma
temperatura de 24 graus abaixo de zero, muitos caiam sem sentidos e, assim iam
morrendo. Outros, com os pés gelados e gangrenados, eram levados ao hospital ou
metidos como coisa inútil no forno crematório e queimados vivos. O espectáculo
começou a ser tão vulgar que cada um de nós esperava a entrada no forno como o
fim lógico daquela vida ilógica. Durante o dia, para romper a monotonia daquela
vida miserável e para que os guardas não se aborrecessem, faziam-nos formar e
conservar horas seguidas na posição de sentido para ver a nossa resistência e
separar os que deviam partir para os trabalhos nos “comandos” e os que, por
serem fracos, iam acabar na câmara dos gases, mortos por asfixia e intoxicação.
A voz do meu companheiro de Paris volta a ter um som cavo, e
a sumir-se como se as próprias palavras lhe causassem pavor:
- Quando se fazia esta escolha – a “visita” como nós lhe
chamávamos – o silêncio era profundo, doloroso. Cada um de nós pensava consigo:
“Será agora a minha vez? Os mais animosos despediam-se dos camaradas antes de
serem levados para a câmara de gases e abriam a boca num sorriso em que ia todo
o seu desprezo pelos “nazis”, aniquiladores de uma raça, de uma civilização, de
um continente.
Outros tinham um grito pueril: “Os americanos hão-de
vingar-nos!”
Os alemães sabiam do avanço aliado em terras da França e da
própria Alemanha – e não perdoavam. E muitos dos condenados eram mortos ali
mesmo a tiro. Menos gás que se gastava na câmara…
Atacado de tifo e não tratado
Depois de ter escapado em várias “visitas”, acabei por ser
incorporado num transporte com destino a Hamburgo. Mas não cheguei a ir.
Atacado de tifo, estive nove dias com 40 graus de febre. Os meus companheiros,
condoídos, amontoavam-se nas outras camas para me deixarem só com mais dois no
meu leito. Mas ninguém podia tratar-me. E os médicos do campo tinham mais que
fazer, ocupados em averiguar até que ponto resistiam aos bacilos do cólera e do
paludismo alguns dos internados no campo transformados em cobaias. Depois dos
nove dias, começo a sofrer de disenteria. Os camaradas chamaram os guardas. O
meu estado já não deixava ilusões a ninguém. Sou então dado como “kaput” e
levado para o “block 30” – o dos condenados a desaparecer, pela fome ou pela
doença.
Aí, a lotação era de 1200 homens e já não havia camas.
Tíficos, tuberculosos, grípicos, estavam, lado a lado no chão da barraca
carpindo as suas dores, delirando nos seus sonhos de febre alta. Morriam, em
média, 40 por dia. De manhã os cadáveres eram levados para a casa de lavar (a
indiferença com que nós os afastávamos do caminho quando íamos passar um pouco
de água na cara e nas mãos!) Depois um carro vinha buscá-los descarnados,
amontoados uns sobre os outros, nus (porque o seu fato ia logo servir a outros
que entrassem de novo!).
Nunca mais poderei esquecer esse carro fantasma! Quantas
vezes, ao vê-lo passar, eu cheio de febre, de dores, de fome, de sede pensava
para comigo próprio: “Que mal terei eu feito ao mundo, a este homens? Porque
não morro sem mais sofrimentos? Para que resisto? E porque não terei eu direito
a viver feliz? Quem semearia urtigas no meu caminho? Quem? Depois, caía, -
abatido. Mas sem sabe como, aguentei-me. E, apesar dos meus 39 quilos de peso,
a febre ia passando, diminuído dia a dia.
Comecei a comer (nunca fui tratado do tifo ou da disenteria
com medo de morrer de fome. De resto a comida não era tanta que matasse: de
manhã uma beberagem a que podia chamara-se chá ou café conforme o gosto; ao
meio dia, um litro de água quente com um pouco de beterraba; às 7 da tarde, 150
gramas de pão, uma rodela de salsicha e meio litro de infusão de ervas, sem
açúcar.
A flagelação e a agressão
- Como explica a sua resistência à doença?
- Sabe-se lá! Quando voltei a Paris, um médico disse-me que
tinha esgotado todas as minhas reservas. E que me valera não ter sofrido
qualquer castigo grave durante o tempo que estive em Dachau. Se isso tivesse
acontecido, não resistiria à perda de mais reservas do organismo. E o meu
castigo foi só estar nu e em pé um dia inteiro no pátio porque aparecera um
piolho na minha cama…
- Mas de que sorte eram os outros castigos?
- O mais frequente era o da flagelação. O castigado
deitava-se sobre um pequeno carrinho de jardim, de joelhos, com as mãos atadas
à roda. Dois guardas, munidos de nervos de boi, aplicavam-lhe então, alternadamente,
nas costas e nas nádegas, o número de vergastadas que lhe fora atribuído, nunca
inferior a 25. Vi um homem que ficou com os ossos à superfície, após ter
recebido 300 vergastadas. E quando o supliciado soltava um grito, os golpes
dados não eram tidos em conta e a contagem começava de novo. Felizmente, nunca
recebi qualquer castigo destes. Fui agredido várias vezes a soco e a pontapés,
feriram-me com um pau na cabeça, partiram-me os óculos por duas vezes. Foi
tudo. Mas os outros… Quantas vítimas dos “nazis”! O forno crematório ardia
constantemente. E na sala de banhos havia barras de madeira para os
enforcamentos…
- Quais foram os factos que mais o impressionaram durante a
sua estadia em Dachau?
O Homem que morreu quando quis
-É difícil. Foram tantos… Mas sabe, depois, a sensibilidade
embota-se, já não temos cérebro, nem coração. Andamos, falamos, gritamos ao
acaso… Autómatos, enfim. O que mais me impressionou? A morte daquele professor
de francês que era meu companheiro de “blok”. Não merece a pena dizer o nome.
Um dia, dia nevoento e chuvoso, arrastou-se até junto de mim e mais dois
companheiros. Queixou-se amargamente da sua sorte. Depois, encolheu os ombros e
disse: “também não vale a pena incomodar-me: isto está por pouco”… Olhou-nos
bem de frente com os seus olhos ingénuos, transparentes… E disse-nos adeus.
Soubemos depois, duas horas mais tarde, o que acontecera. Saíra de junto de
nós, fora à casa de lavar, afastara os cadáveres que estavam no chão,
despira-se todo, deitara-se na laje fria. Cinco minutos depois estava morto.
“Aquele soubera vingar-se dos alemães. Eles não o mataram.
Foi ele, foi ele que morreu quando quis…”
O outro facto mais impressionante, foi – como não podia
deixar de ser – a chegada dos americanos a Dachau. Eu já não tinha esperanças
de os ver… Mas um dia, os guardas começaram a fugir, a ser amáveis…
Desconfiámos. A câmara de gases estava cheia. Eles bem queriam limpá-la. Mas
não tiveram tempo. Quando um companheiro me veio dizer que os americanos
estavam já no campo, desatámos os dois a rir às gargalhadas, como doidos. Depois,
pedi-lhe ajuda. Levantei-me. Queria ir vê-los. Os meus 39 quilos não aguentavam
a caminhada. Levei duas horas da minha barraca ao largo central do campo. Mas
cheguei – e ainda tive forças para responder às perguntas:
- O seu nome?
- José Agostinho das Neves, natural de Lisboa… Residia em
Paris…
Caí no chão, exausto a chorar e a rir… Voltara do Outro
Mundo.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Addressograph, máquina de endereçar
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
"Debaixo do Céu" com Irene Pimentel
No próximo sábado, dia 9, a historiadora Irene Pimentel vai estar presente na sessão de "Debaixo do Céu" que vai ter lugar no Cinema Ideal. Será pelas 17.15 horas.
Presentes vão também estar o realizador Nicholas Oulman e o produtor Paulo de Sousa...
Um bom filme...
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
«O homem que veio do Outro Mundo» (3)
O longo caminho para Dachau
Continuamos com a transcrição da entrevista dada por José Agostinho das Neves ao jornalista Fernando Teixeira em finais de 1945. O homem que terminaria a guerra no campo de concentração de Dachau continua o relato do que aconteceu durante a viagem no "comboio fantasma". Por causa das acções da resistência francesa e do avanço aliado após o Dia D, o percurso entre o campo de concentração francês de Vernet e a Alemanha, prolongou-se por meses...
Ficam também as primeiras impressões sobre Dachau.
Como já foi referido a entrevista foi tema em duas edições distintas do jornal Diário Popular. Com esta publicação vamos transcrever as primeiras linhas publicadas na edição do dia 23 de Novembro de 1945.
--- Leia aqui as PARTE 1; PARTE 2; PARTE 4.
Ficam também as primeiras impressões sobre Dachau.
Como já foi referido a entrevista foi tema em duas edições distintas do jornal Diário Popular. Com esta publicação vamos transcrever as primeiras linhas publicadas na edição do dia 23 de Novembro de 1945.
Título na primeira página do "Diário Popular", de 25 de Novembro de 1945.
O Homem que veio do Outro Mundo (2)
A caminho de Dachau
Dois meses de comboio para ir de França à Alemanha
A vida num campo de concentração alemão descrita por um
português prisioneiro
A conversa com o meu companheiro daquele fim de tarde de
Paris durou algumas horas. E o que mais me impressionava nele era a arrumação
das suas recordações. Dir-se-ia que tinha escrito na memória, que folheava
páginas de um livro. Foi ele que me deu a explicação:
- Não se admire. Durante meses e meses, não pude ter o
prazer do isolamento. Vivi sempre, onde quer que encontrasse, lado a lado,
ombro a ombro com outros homens. Não olhava para qualquer parte que não visse
um rosto amargurado. Não soltava um gemido que não recebesse outro em troca. E
eu que gostava de me isolar, de pensar – só encontrei remédio nesta espécie de
nirvana a que me votava. Durante esses momentos, recapitulava a minha vida e
fazia o possível por esquecer o que me rodeava. Tantas vezes o fiz que as
imagens, as datas e as palavras, à força de repetidas, nunca mais me
esqueceram.
Uma pergunta que eu queria fazer-lhe há muito tempo:
- Havia muitos portugueses nos campos de concentração onde
esteve?
- Em Dachau, onde terminei a minha odisseia, conheci oito,
vindos de vários pontos da Europa. Só regressei eu e outro que mais tarde vi
aqui em Paris e creio que vive agora na província. Comigo no comboio seguira
também outro. Em Angoulême, foi atingido por uma bala explosiva numa perna,
durante o ataque dos aviões ingleses. Mas como no momento de ser transportado
para o hospital, lhe foi descoberta nos bolsos uma carta, devolveram-no para o
vagão e ali ficou sem qualquer socorro – à espera que a perna apodrecesse ou se
curasse milagrosamente. Soube-se depois que a carta lhe fora entregue por um
companheiro com o pedido de, no Hospital, a mandar para o correio. Esse
companheiro tinha mulher e queria dar-lhe a ilusão de que vivia. A carta nunca
chegou ao seu destino – e ele também não. Morreu pouco tempo depois, noutro
vagão desconjuntado de outro comboio infernal.
Uma pausa para «ler
no cérebro». E a história interrompida, contínua:
- Andávamos nove dias neste vaivém de comboios no sul da
França. Impossível avançar, tais eram as destruições operadas pelo «maquis» nas
vias férreas. E voltámos a Bordéus. Desembarcámos a custo. Mal nos tínhamos de
pé. Mandaram-nos seguir ruas fora durante a noite e acabaram por nos metes no
edifício de uma sinagoga onde ficámos dias e dias à espera do inverosímil: que os
comboios pudessem seguir para a Alemanha. O templo israelita tinha sido, no seu
interior, completamente devastado pela soldadesca alemã. Ainda havia montes de
pedras, de madeira, de caliça. Misturámo-nos com o lixo, os ratos, as baratas,
e toda a espécie de parasitas. Amontoámo-nos uns em cima dos outros a fim de
arranjar lugar deitado para os doentes e feridos. O português, com a barriga da
perna furada, gritava desesperadamente. Quanto sofreu o infeliz! Mal sabia ele
que só dois meses depois, na Alemanha, seria tratado! E quem lhe diria que,
após esta prova de resistência quási inacreditável, haveria de morrer
estupidamente de uma gripe – que de ninguém tratou evidentemente!
100 homens fechados à chave
Certa vez tínhamos acabado a nossa única refeição do dia –
uma malga de caldo e um pedaço de pão de cor duvidosa – quando se abriram de
novo as portas da sinagoga. Íamos voltar a embarcar. Na estação, esperavam-nos
mais 400 presos, entre os quais 80 mulheres, vindos não sei de onde. Encurralaram-nos em vagões como nas viagens anteriores – somente um pouco mais
apertados. Em vez de 70, como até ali, éramos agora 100 homens fechados à chave
com bons cadeados. A respiração era deficiente mas felizmente – com pouco nos
contentávamos! – havia frestas abertas no tejadilho. Perdi de vista o português
ferido, não voltei a ver o velho de barbas brancas que chorava e que ficou para
sempre estendido no chão frio da sinagoga. Pôs-se-me um nó na garganta ao saber
por outro prisioneiro que o pobre velho falara de mim ao morrer. Como tenho
saudades do tempo em que ainda me comovia!
Como não podíamos seguir a viagem com o itinerário traçado
antes, voltámos a passar por Toulouse e dirigimos-nos a Nimes, por Narbomei. A
nossa chegada àquela região coincidiu com o desembarque das tropas francesas em
Saint Raphael. E como a aviação americana não deixava de bombardear os
arredores, o comboio parou. Começaram então oito longos dias de sofrimentos.
Fechados no vagões, comendo só uma vez ao dia – um pedaço de pão coberto de
bolor e uma rodela de salsicha – e não tendo mais que meio decilitro de água
por 24 horas, fomos caindo doentes a pouco a pouco. A fome, a sede e o calor
mudavam as expressões. Loucos ou moribundos?
Como a desgraça faz dos homens feras sem coração! Se nos
visse, se visse como nos batíamos por um pedaço de pão a mais que sobejasse da
boca de um doente! Depois as salsichas acabaram e foram substituídas por um
tomate cru para cada vagão. Faz ideia do que seja dividir por 100 homens um
tomate cru? Pois ninguém ficava sem o seu quinhão. E que ficasse! Era uma
questão que nunca mais acabava – e ódios surdos e lutas e insultos.
Um batalhão de miseráveis atravessa vilas e aldeias
Quando o comboio se pôs de novo em marcha, poucos
quilómetros andados, uma ponte destruída por bomba de avião cortou-nos, de
novo, a passagem. Somos obrigados a descer e a abandonar as nossas bagagens,
pobres bagagens de roupas sujas e velhas e de retratos amarelecidos pelas
lágrimas, pelo suor e pelo calor – restos de uma vida que ficou para trás.
Fomos a pé de Roquemaure a Sorgnes, cerca de 20 quilómetros
através de vilas e aldeias. Quando me lembro dessa caminhada!... Batalhão de
miseráveis, descalços, rotos, alguns quási nus, olhos esgazeados, lábios
gretados da febre, pés inchados, mãos descarnadas sempre em busca de ervas ou
raízes no chão para levar à boca escaldante, ávida, sôfrega do que quer que
fosse trincável!
Atrás e aos lados vinha a matilha dos “cães de guarda”,
espingardas e metralhadoras prontas a disparar se um nós ficava para trás,
coronha descarregada na cabeça do que não tivesse força para andar.
Mais adiante esperava-nos outro comboio. Voltámos aos
vagões. E tudo se passou, dias e dias, da mesma maneira, até chegarmos a
Pierreffite, onde novo ataque de aviação nos esperava. Novo e trágico ataque.
Ah! Se eles soubessem que nós não éramos alemães! Mas tudo era impossível para
lho fazer ver. Nem nos restava o ardil das camisas a fazer de bandeira. Qual de
nós ainda tinha camisa?
Foi verdadeiramente infernal aquilo. Dessa vez o ataque era
feito à bomba. O meu vagão não tinha sido atingido, mas quando saímos – porque
a locomotiva fora pulverizada por um impacto directo – verificou-se que nove
prisioneiros estavam mortos e 20 gravemente feridos. Estendidos na relva de um
prado à beira da linha os infelizes entoavam uma canção trágica feita de
dezenas de gritos, de brados de raiva -
de palavras sem nexo em várias línguas. Socorremo-los como pudemos porque os
alemães – “valentes” como já sucedera anteriormente – tinham-se refugiado no bosque
e vigiavam-nos com as metralhadoras, não fosse algum aproveitar a ocasião para
fugir.
Rasguei as calças que levava na trouxa da roupa e fiz ligaduras. Outros
procuraram fazer o mesmo. Outros limparam feridas e fizeram pensos com ervas e
folhas de árvores. Mas os nosso “doentes” não resistiram na maior parte, aos
“tratamentos”. Um morreu-me nos braços. Outro pôs-se em pé, desvairado, louco e
desatou a fazer sinais inúteis aos aviões que ainda se viam no ar. Conseguiu o
que queria. Uma rajada de metralhadora alemã acabou com ele.
A chegada a Dachau
Estamos a conversar há horas. Aproveito uma pausa para lhe
propor um pequeno passeio à beira do Sena. A noite vem caindo aos poucos.
Encontramo-nos os dois cansados: ele de falar, eu de o ouvir com atenção para
não perder uma palavra. Seguimos por um passeio da margem esquerda. Caminhamos
lado a lado, sem proferir palavra, a gozar a quietude e o encanto da rua que se
recolhia à sombra dos chorões. E pisávamos voluptuosamente folhas amarelecidas,
esquecidos por momentos, do mundo que ele vivera – do “Outro Mundo”.
Foi o meu companheiro que voltou a falar outra vez:
- Por fim, e depois de muitas peripécias, chegámos à
Alemanha. Tinham-se passado dois meses após a nossa saída do campo de
concentração em França. Dos 500 que éramos a princípio, dos 900 que fomos
depois em Bordéus, só restava metade. Os outros tinham morrido - ou fugido.
- Fugido?
- Sim. Nunca soube como, mas alguns ainda tiveram forças
para fugir nas andanças de subor e descer dos vagões. Onde teriam ido parar? No
estado de saúde e fraqueza em que estavam, talvez não tivessem andado mais de
500 metros. Mas quem sabe medir o poder da resistência humana à dor e à fome?
- Todos os mortos foram vítimas dos bombardeamentos e da
fome?
- Muitos não resistiram também aos maus tratos. As coronhas
das espingardas alemãs fracturaram muitos crânios.
Uma nova pausa. Paramos junto a uma alfarrabista. Olho um
velho volume, sujo, carcomido pelo uso. Lemos os título: “Viagens de turismo na Alemanha”. E desatamos a rir à
gargalhada. Depois ele volta a contar:
- Se a viagem fora cruel, medonha, desumana, a nossa
recepção no campo de concentração de Dachau foi ainda pior. Mal as portas dos
vagões forma abertas, cães enormes saltaram para dentro deles ensinados na
missão de nos expulsarem depressa. Os guardas vociferavam o maldito “Alles
raus!”. Fugíamos, com igual temor, aos homens e aos cães, saindo dos vagões aos
trambolhões, a cair uns por cima dos outros.
Chegados ao campo, após uma marcha de algumas centenas de
metros, reuniram-nos no meio de uma praça triste ladeada de toscas construções.
E ali ficámos toda a noite, deitados no chão, quási despidos, sem nada com que
nos abrigar. No dia seguinte, depois das formalidades do registo de entrada,
fomos conduzidos aos serviços de recepção. Aí despojaram-nos de tudo quanto
possuíamos. Ficámos nus – à espera de um “barbeiro” que nos rapou da cabeça aos
pés. “Vestiram-nos” então umas calças e um casaco em farrapos, herança de um
pobre prisioneiro que morrera.
Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 23 de Novembro de 1945
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Banacáo, Farinha de Banana
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Revista Panorama
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
Tertúlia sobre o Holocausto em Almodôvar
Iniciativa do Agrupamento de Escolas de Almodôvar, dia 1 de Fevereiro,
pelas dez da manhã no Auditório.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
«O homem que veio do Outro Mundo» (2)
A viagem no "Comboio Fantasma"
Publicamos a segunda parte da entrevista dada por José Agostinho das Neves em finais de 1945 ao jornalista Fernando Teixeira. Trata-se do segmento final do que foi publicado na edição de 22 de Novembro. Como já foi referido anteriormente a entrevista foi impressa em duas edições distintas do "Diário Popular" e os episódios relatados na edição do dia 23 serão transcritos brevemente neste blogue.
Na última semana ficámos a conhecer um pouco sobre José Agostinho das Neves e das desventuras que o conduziram aos campos de concentração franceses logo no princípio do conflito. Nesta publicação vamos acompanhar as suas memórias sobre o percurso até ao campo de Dachau na tristemente famosa viagem do "Comboio Fantasma".
Neste comboio, onde seguiam vários portugueses, reuniram-se os últimos 400 prisioneiros do campo de Vernet e outros 170 homens e mulheres vindos da prisão de Saint-Michel. A partiram para Bordéus aconteceu a 2 de julho de 1944, seguindo depois para Angoulême onde foram alvo de um bombardeamento por parte de aviões aliados. Não conseguindo seguir viagem a composição regressou a Bordéus, onde esperaram 28 dias na sinagoga da cidade antes de retomar o caminho.
Quando partiram, a 9 de Agosto, o grupo seguiu reforçado com mais prisioneiros elevando o total de deportados para cerca de 800. Pouco depois a destruição das vias obrigou-os a percorrer duas dezenas de quilómetros para fazer o transbordo para outro comboio e a viagem prolongou-se sob o sol escaldante de Agosto por entre inúmeras voltas e reviravoltas causadas por bombardeamentos, sabotagens e a fuga aos avanços aliados que tinham invadido a Normandia no dia 6 de Junho. Quando chegaram a Dachau, no dia 28 de Agosto, saíram do comboio apenas 536 pessoas...
Retomamos a transcrição:
(...)
A viagem sem fim começa
30 de Junho de 1944. Há quanto tempo não vejo gente? Nem eu sei já. À minha frente, só espectros e fardas. Fardas pretas, verdes, cinzentas. E nesse dia quinhentos homens, quinhentas sombras, os que havíamos ficado no campo, restos de todas as levas anteriores, somos reunidos para partir também. Os alemães estavam furiosos. Os planos haviam falhado. Os “outros” tinham desembarcado na Normandia. Estavam no grupo franceses, espanhóis – mutilados do guerra – alguns belgas fugidos e eu. Mal tivemos tempo de fazer uma trouxa dos nossos trapos e das nossas poucas, saudosas recordações. E partimos em camiões, escoltados pelos famosos “S.S.” que nunca tínhamos visto e eram verdadeiramente brutais. Cochichávamos uns para os outros: “Serão homens ou feras?” Nunca descobri a diferença.
Dentro do vagão era sempre de noite
Horas e horas seguidas naquele monótono andamento enlouqueciam-nos. Para onde nos levavam? E cada vez era maior o silêncio naquele vagão infernal para que não se perdesse uma palavra da conversa com sentinelas ou uma indicação dos empregados dos caminhos-de-ferro. Lá dentro era sempre noite. Para contar os dias, precisávamos não esquecer que as visitas das sentinelas se faziam de manhã e de tarde. Duas, um dia. Palavras soltas colhidas aqui e ali davam-nos uma indicação: íamos para Compiegne. Mas seria verdade? As conjecturas que cada um de nós fazia não podiam convergir. E todos começámos a sentir-nos invadidos pelas apreensões mais disparatadas. Sem ar, sufocados pelo calor, começámos a deitar fora a roupa, esperançados que assim resistiríamos melhor, atenuaríamos a transpiração. O cheiro de 70 homens que não podiam lavar-se era nauseante. E o sol – que belo sol devia gozar-se lá fora! – queimava, transformava os vagões em fornalhas.
E o calor aumentava. E este desejo imenso de querer morrer! Se ao menos um de nós tivesse uma arma, uma faca, se ao menos um de nós tivesse forças para apertar com as mãos… Massas informes, atirados uns sobre os outros, cinzentos do cimento, avermelhados do calor e da raiva, foram-se calando as vozes pouco a pouco.
E de repente, uma chiadeira de travões e de metais que chocam. E vozes que se aproximam. E um ruído de portas que se abrem. Agora, é no nosso vagão. Ficámos todos de olhos pregados na porta que é aberta com estrondo. A princípio, vemos só a luz do sol que nos cega. Depois, distinguimos as sentinelas e uns homens que não conhecemos e olham para nós, indiferentes, armados de granadas e metralhadoras. Dos 70 que éramos no vagão, só cinco estão de pé e são os primeiros a descer e a ajudar os outros.
O medo de não ter forças para viver
Foi então que me enchi de medo, de um medo feroz que mal podia exteriorizar-se porque eu nem sequer conseguia abrir a boca para falar.
É que eu tinha à minha frente, outra vez, a vida, o ar livre, talvez uma lata de água. E eu que gritara, que me horrorizara com a ideia de que podia morrer ali para um canto sem ar e sem luz, perdera de repente todo o desejo, todas as possibilidades de reagir. Perdera a esperança. E queria morrer. Não era capaz de arredar dali. Enchi-me de medo. Que iria eu fazer daí para diante? Um dos homens armados de metralhadora subiu e deu-me um pontapé. Ainda bem. A dor fez-me reagir. Pus-me de pé. Cambaleei, agarrei-me a ele. Levei um safanão. Cheguei à porta e desci.
Estendi-me ao comprido no talude. Vieram então os assistentes da Cruz Vermelha. E, a pouco e pouco, aquele exército de fantasmas, lavados, reanimados com um pedaço de pão, um tomate cru e uns goles de água, começou a pôr-se de pé. Vieram logo ordens enérgicas. E os homens da Cruz Vermelha foram proibidos de nos alimentar. E fizeram-nos subir, de novo, para os vagões. Mas as portas não foram fechadas completamente. Uma fresta de cada lado, uma em frente da outra, seria uma corrente de ar fatal para quem não tinha roupa sobre a pele. Mas era uma corrente de ar. Estabelecemos então turnos para respirar melhor. E de cinco em cinco minutos (pouco mais ou menos, pois nenhum de nós tinha relógio) um grupo ia encostar a boca à fresta da porta. Depois esperámos. Quando o comboio se pôs em marcha, já era noite. Soubemos mais tarde que já não podendo seguir o itinerário previsto, por as linhas estarem cortadas pelo “Maquis”, haviam decidido levar-nos para Perigueux. Chegados a Bordéus, e após alguns instantes de paragem que nem sequer deram tempo a que a Cruz Vermelha nos socorresse de novo o comboio pôs-se em marcha lenta. A meio da noite, parámos. O comboio tinha de retroceder. As vias estavam interceptadas. E voltámos a Bordéus, em direcção a Angoulême. Aí chegados verificou-se que a estação estava destruída pelos bombardeamentos.
O comboio foi desviado para uma linha de mercadorias, à espera que os “rails” fossem reparados. Abrem-nos então as portas e mandam-nos sair aos cinco de cada vez. Num pequeno regueiro que corria ao fundo do valado e a todo o comprimento do comboio, via-se então uma fila de desgraçados nus e sujos, de barba crescida e cara congestionada pelo sofrimento, procurando aliviar-se da tortura de uma necessidade tanto tempo contida. Para refrescar os lábios tumefactos pela febre, alguns dos infelizes arrancavam as ervas que tinham ao alcance das mãos. Outros, para quem é demasiado atroz o suplício da sede, não resistem à tentação da água que corre no mesmo regato onde os companheiros se encontram agachados. Transtornados, sem discernimento. Bebem-na, sôfregos. Recuo para o vagão, cheio de sede, endoidecido por aquela visão.
Um ataque inesperado, na noite
O comboio parte. Para onde? Sabe-se lá. E ainda não comi – nem sequer o pedaço de pão da Cruz Vermelha, que não houve tempo de o distribuir a todos.
Em Parcoul-Mediac, nova paragem. Depois no silêncio, ruídos estranhos e uma gritaria desusada. São aviões ingleses, de caça, que fazem um barulho infernal. Os soldados da escolta aferrolham-nos as portas e dispersam-se pelos bosques próximos. E assestam sobre os vagões as metralhadoras para que não possamos evadir-nos. Espreitamos pelas frinchas do vagão desconjuntado. É verdade, terrivelmente verdade. Por cima, os aviões. Aos lados, os alemães, às espera que um de nós arrombe a porta para fugir. Os aviadores ingleses que haviam visto fugir os alemães tomam o comboio por um transporte de tropas inimigas. E baixam. E abrem fogo. E todo o comboio, de uma ponta à outra, é esburacado pelas balas explosivas. Aterrados, impossibilitados de sair, vemos a trajectória luminosa das balas descrever caprichosas e alucinantes fantasias. Vamos morrer todos. E, ao meu lado, um velho, de grandes barbas, chora. Um outro lá ao fundo, grita. Estará ferido?
Não sei como surgiu aquela ideia. De repente, uma camisa branca, outra azul e outra vermelha são atadas a um pau. Passa-se este simulacro de bandeira pela fresta do vagão. Quando voltam à carga, os aviadores percebem o sinal. E deixam-nos em paz.
Os gritos do feridos começam a ser horríveis. Há três mortos e uns vinte em estado grave. Alguns são evacuados para o hospital de Angoulême.
E um novo dia amanhece.
Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 22 de Novembro de 1945
--- Leia aqui as PARTE 1; PARTE 3; PARTE 4.
| Primeira Página do "Diário Popular" de 22 de Novembro de 1945. |
Neste comboio, onde seguiam vários portugueses, reuniram-se os últimos 400 prisioneiros do campo de Vernet e outros 170 homens e mulheres vindos da prisão de Saint-Michel. A partiram para Bordéus aconteceu a 2 de julho de 1944, seguindo depois para Angoulême onde foram alvo de um bombardeamento por parte de aviões aliados. Não conseguindo seguir viagem a composição regressou a Bordéus, onde esperaram 28 dias na sinagoga da cidade antes de retomar o caminho.
Quando partiram, a 9 de Agosto, o grupo seguiu reforçado com mais prisioneiros elevando o total de deportados para cerca de 800. Pouco depois a destruição das vias obrigou-os a percorrer duas dezenas de quilómetros para fazer o transbordo para outro comboio e a viagem prolongou-se sob o sol escaldante de Agosto por entre inúmeras voltas e reviravoltas causadas por bombardeamentos, sabotagens e a fuga aos avanços aliados que tinham invadido a Normandia no dia 6 de Junho. Quando chegaram a Dachau, no dia 28 de Agosto, saíram do comboio apenas 536 pessoas...
Retomamos a transcrição:
(...)
A viagem sem fim começa
30 de Junho de 1944. Há quanto tempo não vejo gente? Nem eu sei já. À minha frente, só espectros e fardas. Fardas pretas, verdes, cinzentas. E nesse dia quinhentos homens, quinhentas sombras, os que havíamos ficado no campo, restos de todas as levas anteriores, somos reunidos para partir também. Os alemães estavam furiosos. Os planos haviam falhado. Os “outros” tinham desembarcado na Normandia. Estavam no grupo franceses, espanhóis – mutilados do guerra – alguns belgas fugidos e eu. Mal tivemos tempo de fazer uma trouxa dos nossos trapos e das nossas poucas, saudosas recordações. E partimos em camiões, escoltados pelos famosos “S.S.” que nunca tínhamos visto e eram verdadeiramente brutais. Cochichávamos uns para os outros: “Serão homens ou feras?” Nunca descobri a diferença.
Chegámos a Toulouse. Meteram-nos na Caserna Caffareli, uma
vasta cela, guardada por sentinelas reforçadas. Impossível comunicar com o
exterior. Apertados, 500 corpos encostados ombro a ombro, nem sequer podíamos
deitar-nos. Moídos, cheios de sono, despertaram-nos na madrugada do terceiro
dia, espancados pela guarda para sair mais depressa. Lançámos mão rapidamente à
parte menos volumosa da nossa bagagem e corremos, noite fora, ao frio até à
estação de mercadorias. Deparámos então com um comboio já formado. Quinze
vagões dos de transporte de gado. Alguns já estavam repletos. Eram presos
vindos de outros pontos. Repartiram-nos pelos espaços vagos. Entro no meu e
leio pintado a branco na madeira:
“Lotação – 8 cavalos ou 40 homens”.
Ficamos setenta. Portas aferrolhadas, sem janelas, sem ar e
sem luz, esperámos de olhos abertos, ouvidos à escuta. Começou então a grande
viagem…
Dentro do vagão era sempre de noite
Horas e horas seguidas naquele monótono andamento enlouqueciam-nos. Para onde nos levavam? E cada vez era maior o silêncio naquele vagão infernal para que não se perdesse uma palavra da conversa com sentinelas ou uma indicação dos empregados dos caminhos-de-ferro. Lá dentro era sempre noite. Para contar os dias, precisávamos não esquecer que as visitas das sentinelas se faziam de manhã e de tarde. Duas, um dia. Palavras soltas colhidas aqui e ali davam-nos uma indicação: íamos para Compiegne. Mas seria verdade? As conjecturas que cada um de nós fazia não podiam convergir. E todos começámos a sentir-nos invadidos pelas apreensões mais disparatadas. Sem ar, sufocados pelo calor, começámos a deitar fora a roupa, esperançados que assim resistiríamos melhor, atenuaríamos a transpiração. O cheiro de 70 homens que não podiam lavar-se era nauseante. E o sol – que belo sol devia gozar-se lá fora! – queimava, transformava os vagões em fornalhas.
Ninguém podia aguentar mais, alguns começavam a perder os
sentidos. Não, não podíamos. Quási nus, lábios secos, transfigurados, nós, os
que ainda estávamos de pé, começámos a gritar e a bater nas paredes. Que ao
menos nos abrissem a porta para respirar. Mas não abriram. E embora o suplício
fosse até então apenas de algumas já preferíamos ser fuzilados que morrer
naquelas condições. Alucinados pela sede, gotejando suor, nus, sujos de poeira,
a pele quebradiça, escaldante, cheia de resíduos de cimento, ao transporte do
qual os vagões haviam servido antes, parecíamos personagens de um pesadelo
infernal.
E o calor aumentava. E este desejo imenso de querer morrer! Se ao menos um de nós tivesse uma arma, uma faca, se ao menos um de nós tivesse forças para apertar com as mãos… Massas informes, atirados uns sobre os outros, cinzentos do cimento, avermelhados do calor e da raiva, foram-se calando as vozes pouco a pouco.
E de repente, uma chiadeira de travões e de metais que chocam. E vozes que se aproximam. E um ruído de portas que se abrem. Agora, é no nosso vagão. Ficámos todos de olhos pregados na porta que é aberta com estrondo. A princípio, vemos só a luz do sol que nos cega. Depois, distinguimos as sentinelas e uns homens que não conhecemos e olham para nós, indiferentes, armados de granadas e metralhadoras. Dos 70 que éramos no vagão, só cinco estão de pé e são os primeiros a descer e a ajudar os outros.
O medo de não ter forças para viver
Foi então que me enchi de medo, de um medo feroz que mal podia exteriorizar-se porque eu nem sequer conseguia abrir a boca para falar.
É que eu tinha à minha frente, outra vez, a vida, o ar livre, talvez uma lata de água. E eu que gritara, que me horrorizara com a ideia de que podia morrer ali para um canto sem ar e sem luz, perdera de repente todo o desejo, todas as possibilidades de reagir. Perdera a esperança. E queria morrer. Não era capaz de arredar dali. Enchi-me de medo. Que iria eu fazer daí para diante? Um dos homens armados de metralhadora subiu e deu-me um pontapé. Ainda bem. A dor fez-me reagir. Pus-me de pé. Cambaleei, agarrei-me a ele. Levei um safanão. Cheguei à porta e desci.
Estendi-me ao comprido no talude. Vieram então os assistentes da Cruz Vermelha. E, a pouco e pouco, aquele exército de fantasmas, lavados, reanimados com um pedaço de pão, um tomate cru e uns goles de água, começou a pôr-se de pé. Vieram logo ordens enérgicas. E os homens da Cruz Vermelha foram proibidos de nos alimentar. E fizeram-nos subir, de novo, para os vagões. Mas as portas não foram fechadas completamente. Uma fresta de cada lado, uma em frente da outra, seria uma corrente de ar fatal para quem não tinha roupa sobre a pele. Mas era uma corrente de ar. Estabelecemos então turnos para respirar melhor. E de cinco em cinco minutos (pouco mais ou menos, pois nenhum de nós tinha relógio) um grupo ia encostar a boca à fresta da porta. Depois esperámos. Quando o comboio se pôs em marcha, já era noite. Soubemos mais tarde que já não podendo seguir o itinerário previsto, por as linhas estarem cortadas pelo “Maquis”, haviam decidido levar-nos para Perigueux. Chegados a Bordéus, e após alguns instantes de paragem que nem sequer deram tempo a que a Cruz Vermelha nos socorresse de novo o comboio pôs-se em marcha lenta. A meio da noite, parámos. O comboio tinha de retroceder. As vias estavam interceptadas. E voltámos a Bordéus, em direcção a Angoulême. Aí chegados verificou-se que a estação estava destruída pelos bombardeamentos.
O comboio foi desviado para uma linha de mercadorias, à espera que os “rails” fossem reparados. Abrem-nos então as portas e mandam-nos sair aos cinco de cada vez. Num pequeno regueiro que corria ao fundo do valado e a todo o comprimento do comboio, via-se então uma fila de desgraçados nus e sujos, de barba crescida e cara congestionada pelo sofrimento, procurando aliviar-se da tortura de uma necessidade tanto tempo contida. Para refrescar os lábios tumefactos pela febre, alguns dos infelizes arrancavam as ervas que tinham ao alcance das mãos. Outros, para quem é demasiado atroz o suplício da sede, não resistem à tentação da água que corre no mesmo regato onde os companheiros se encontram agachados. Transtornados, sem discernimento. Bebem-na, sôfregos. Recuo para o vagão, cheio de sede, endoidecido por aquela visão.
Um ataque inesperado, na noite
O comboio parte. Para onde? Sabe-se lá. E ainda não comi – nem sequer o pedaço de pão da Cruz Vermelha, que não houve tempo de o distribuir a todos.
Em Parcoul-Mediac, nova paragem. Depois no silêncio, ruídos estranhos e uma gritaria desusada. São aviões ingleses, de caça, que fazem um barulho infernal. Os soldados da escolta aferrolham-nos as portas e dispersam-se pelos bosques próximos. E assestam sobre os vagões as metralhadoras para que não possamos evadir-nos. Espreitamos pelas frinchas do vagão desconjuntado. É verdade, terrivelmente verdade. Por cima, os aviões. Aos lados, os alemães, às espera que um de nós arrombe a porta para fugir. Os aviadores ingleses que haviam visto fugir os alemães tomam o comboio por um transporte de tropas inimigas. E baixam. E abrem fogo. E todo o comboio, de uma ponta à outra, é esburacado pelas balas explosivas. Aterrados, impossibilitados de sair, vemos a trajectória luminosa das balas descrever caprichosas e alucinantes fantasias. Vamos morrer todos. E, ao meu lado, um velho, de grandes barbas, chora. Um outro lá ao fundo, grita. Estará ferido?
Não sei como surgiu aquela ideia. De repente, uma camisa branca, outra azul e outra vermelha são atadas a um pau. Passa-se este simulacro de bandeira pela fresta do vagão. Quando voltam à carga, os aviadores percebem o sinal. E deixam-nos em paz.
Os gritos do feridos começam a ser horríveis. Há três mortos e uns vinte em estado grave. Alguns são evacuados para o hospital de Angoulême.
E um novo dia amanhece.
Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 22 de Novembro de 1945
--- Leia aqui as PARTE 1; PARTE 3; PARTE 4.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Agência Comercial do Contribuinte
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
"Debaixo do Céu" no Cinema Ideal
O documentário "Debaixo do Céu", tem estreia marcada para hoje no Cinema Ideal, em Lisboa. O filme faz um retrato do que passaram os judeus que durante a II Guerra Mundial tiveram Lisboa como porta de fuga de uma Europa assombrada pelo nazismo.
Pessoalmente foi um dos projectos mais interessantes em que me envolvi nos últimos anos e o trabalho e a sensibilidade do Nicholas Oulman transformaram este "Debaixo do Céu" num filme que merece ser visto pelas histórias que conta, pelas imagens que reúne, pela forma como está editado, pela brutal serenidade com que somos confrontados com um passado que, na realidade, foi ontem.
Obrigado ao Nicholas e ao Paulo Sousa pela coragem...
Mais logo, às 19.30 horas no Cinema ideal.
Pessoalmente foi um dos projectos mais interessantes em que me envolvi nos últimos anos e o trabalho e a sensibilidade do Nicholas Oulman transformaram este "Debaixo do Céu" num filme que merece ser visto pelas histórias que conta, pelas imagens que reúne, pela forma como está editado, pela brutal serenidade com que somos confrontados com um passado que, na realidade, foi ontem.
Obrigado ao Nicholas e ao Paulo Sousa pela coragem...
Mais logo, às 19.30 horas no Cinema ideal.
«O homem que veio do Outro Mundo» (1)
Uma vida que a guerra interrompe
Numa quinta-feira, 22 de Novembro de 1945, o jornal Diário Popular, inaugurado três anos antes, trazia na primeira página e em grandes parangonas a história de um português que estivera preso em Dachau, um dos tristemente célebres campos de concentração nazis que até em Portugal tinham sido notícia.
O homem chamava-se José Agostinho das Neves, um dos milhares de portugueses que se encontravam em França nos anos 30 - por razões políticas ou económicas - e a quem a II Guerra Mundial tinha marcado de forma indelével. A reportagem, assinada por Fernando Teixeira, prolongava-se por quatro longas páginas em duas edições distintas, um texto que iremos transcrever aqui nas próximas semanas.
Neste trecho José Agostinho das Neves relata a forma como vivia em França e o primeiro período como prisioneiro num campo de concentração francês. Trata-se da transcrição de cerca de metade da primeira reportagem enviada por Fernando Teixeira. O restante, onde se relata o transporte de França para Dachau num comboio - que ficaria conhecido como o "Comboio Fantasma" - será transcrito na próxima semana.
Da vida de Neves foi possível apurar que nasceu em Lisboa em 1905, tendo-se assumido como um activista político de tendências anarquistas, razão porque se terá exilado em França durante os anos 20 do século passado. A sua situação económica era considerada frágil, trabalhando na construção civil e recorrendo por vezes à assistência para se conseguir manter a si, à mulher e à filha.
Em Dezembro de 1939 a sua militância política colocou-o sob suspeita da polícia francesa que o pretendia deportar. Preso em Maio do ano seguinte passaria quatro anos em Vernet até ser levado para Dachau em 1944.
Segue-se a transcrição da primeira parte da reportagem, que será a única da época a contar a história de um português nestas condições..
O homem chamava-se José Agostinho das Neves, um dos milhares de portugueses que se encontravam em França nos anos 30 - por razões políticas ou económicas - e a quem a II Guerra Mundial tinha marcado de forma indelével. A reportagem, assinada por Fernando Teixeira, prolongava-se por quatro longas páginas em duas edições distintas, um texto que iremos transcrever aqui nas próximas semanas.
Neste trecho José Agostinho das Neves relata a forma como vivia em França e o primeiro período como prisioneiro num campo de concentração francês. Trata-se da transcrição de cerca de metade da primeira reportagem enviada por Fernando Teixeira. O restante, onde se relata o transporte de França para Dachau num comboio - que ficaria conhecido como o "Comboio Fantasma" - será transcrito na próxima semana.
Da vida de Neves foi possível apurar que nasceu em Lisboa em 1905, tendo-se assumido como um activista político de tendências anarquistas, razão porque se terá exilado em França durante os anos 20 do século passado. A sua situação económica era considerada frágil, trabalhando na construção civil e recorrendo por vezes à assistência para se conseguir manter a si, à mulher e à filha.
Em Dezembro de 1939 a sua militância política colocou-o sob suspeita da polícia francesa que o pretendia deportar. Preso em Maio do ano seguinte passaria quatro anos em Vernet até ser levado para Dachau em 1944.
Segue-se a transcrição da primeira parte da reportagem, que será a única da época a contar a história de um português nestas condições..
O Homem que veio do Outro Mundo
Um português que esteve em Dachau até ser libertado pelos
americanos dá uma impressionante entrevista ao “Diário Popular”
Estava diante de mim, confuso, tímido, alegre, os olhos
pequenos a bailar atrás dos óculos. Parecia uma criança perturbada com a
presença de um adulto. E, afinal, é bastante mais velho que eu…
Tínhamos-nos encontrado há pouco tempo e éramos já amigos.
Amigos, sim. Mal nos conhecíamos, mas éramos ambos portugueses, o acaso
pusera-nos, um em frente do outro – e eu, chegado há dois dias, não conhecia
alguém em Paris.
Interessei-me pela sua sorte, ouvi-o com interesse, mais de
português que de jornalista. E ele tinha tanto para dizer-me… Senti bem que as
suas palavras não eram para o homem dos jornais, mas para o compatriota.
Primeiro tinham vindo as perguntas atabalhoadas, doidas, a
esmo: “Como está Lisboa?”; “Ainda há esplanadas na Avenida”; Quem trabalha no
Nacional?”; Que livros publicou o Ferreira de Castro?”. E, a desculpar-se:
“Aqui não se sabe nada. Parece que estamos nos antípodas”.
Depois, a voz tinha inflexões mais tristes e o estribilho
voltava sempre igual: “de resto, comigo não admira, eu vim do Outro Mundo”. “Eu
vim do Outro Mundo”…
E veio, o pobre. De um Mundo que muitos conheceram, mas do
qual nem todos podem ter a paradoxal felicidade de trazer recordações. De um
Mundo que foi mancha e desonra de homens, que foi expiação e vingança. De um
Mundo que não poderá voltar a existir, que nós não queremos que volte – o dos
campos de concentração.
Bebíamos uma cerveja pálida, sem espuma e sem pretensões.
Mas ele gostava. Tantos meses sem uma gota de vinho… Depois, dividimos o maço
de cigarros – portugueses! – e a conversa animou. Eu olhava-o com ternura. Os
seus modos, os seus gestos, as suas palavras não podiam esconder aquilo que o
dinheiro às vezes e em vão pretende arranjar: a educação e a cultura. Fiz o
possível por o pôr à vontade. Ele percebeu e gostou de poder ter alguém -
finalmente! – a quem contar a sua longa história.
“Eu vim do Outro Mundo”…
Deixei-o falar, olhando-o bem de frente quando sentia que
procurava fazer-se acreditar e até tinha medo que o suspeitassem doido ou
mentiroso, ou evitando um ar curioso quando a vergonha e a miséria afloravam à
sua memória. E ele contou, longos minutos estirados naquele fim de tarde, a
história sem par que viveu no cabo da Civilização.
1940. A França é invadida. Os alemães aparecem, de surpresa,
em toda a parte. Um motociclista chega, às vezes, para tomar uma aldeia. O
exército está em frangalhos, batendo-se os soldados, surpresos da sua sorte,
até morrer. Os blindados do Reich entram em Paris. As ruas, tristes, nebulosas,
sem vivalma, enchem-se de fardas verdes e “souris gris” – as alemãs que o
parisiense nunca mais esquecerá.
As arcadas da Rue de Rivoli são longos mostruários de
estandartes vermelhos onde a cruz gamada é a marca do terror. Uma denuncia chega.
E um dia ele é preso. Quem foi que o disse anti-nazi? Nunca o soube; nunca mais
o saberá. De que o acusavam? Jamais poderá conhecê-lo. Nem mesmo lho podiam
dizer aqueles que o dirigiram durante longos meses.
Um dia foi preso – e isso bastou. Que interessavam as razões
e o seu julgamento? Preso, era anti-nazi certamente. Preso era evidentemente
contra Hitler. Preso, era mais um para destruir. Haverá uma pena que castigue
quem de tal regime era responsável? Chegará uma morte para vingar centos de
milhar?
Trabalhador rural e empregado no correio
Mas é melhor deixá-lo falar:
- Eu tinha uma Agência de Livraria. E uma casa. E mulher e
filha. Tudo abandonei à pressa, sem guardar um franco ou um cigarro, sem lhes
dar um beijo. Meteram-me num camião frio e cinzento. Adormeci nos solavancos da
estrada. Acordei no campo de concentração de Vernet de Ariège. Olharam-me,
interrogaram-me. E, não me podendo classificar como culposo de qualquer delito,
resolveram instalar-me na secção de suspeitos, dos vigiados. Todos os dias,
olhos curiosos espiavam os meus gestos, os meus movimentos, ouvidos atentos
escutavam as minhas conversas com companheiros de desdita. Depois, desiludidos,
mudaram de táctica. E para não ficarmos inactivos, resolveram dar-nos trabalho.
Eu – não sei ainda hoje a que devo tal sorte! – fui escolhido para trabalhar
nos arredores. O que isto representava de sorte no meio da tragédia quotidiana!
Trabalhar nos arredores, era estar num dia inteiro ao ar livre, longe do
espectáculo penoso do campo, respirar! Foram esses os melhores dias da minha
vida de prisioneiro. Cortando árvores, revolvendo a terra, plantando e colhendo
– eu e os outros fizemos de um terreno baldio uma terra e cultura. Dava gosto
vê-la, verdejante, cheia de vida. Mas, alcançado que foi o objectivo, terminara
o trabalho de excepção. Que me esperava agora?
“Você é dado às leituras, pois vai trabalhar no Correio”.
E fui. A coisa não caminhava mal. Recebia as cartas e as
encomendas. E distribuía-as pelos outros. Que mais poderia eu desejar? Só a
alegria de ser o portador de boas novas, o seu traço de união com a Vida!...
Sim, que mais poderia eu desejar?... Depois, com o pretexto de eu conhecer quatro
línguas, sou transferido para os serviços de censura. Não aqueço o lugar.
Repugna-me ser obrigado a abrir correspondência alheia. Digo-me doente. Volto
aos correios. E ali fico até que os alemães tomam conta do campo quando da
ocupação total da França. Aparecem então os médicos da “Gestapo”. Fazem várias
inspecções. Arranjo processo de esquivar a todas - menos a uma. Sou considerado
forte para novas proezas. E as provações e as torturas começam.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
"O homem que veio do Outro Mundo"
No dia 27 de Janeiro, domingo, recordam-se as vítimas do Holocausto e o "Aterrem em Portugal!" associa-se a este dia de memória transcrevendo, na totalidade, a entrevista dada pelo português José Agostinho das Neves ao jornal "Diário Popular" de Novembro de 1945.
Neves, que estava emigrado em França quando a guerra começou, esteve preso em campos de concentração franceses e depois foi transferido para Dachau onde seria libertado pelos americanos no final do conflito. A entrevista, dada ao jornalista Fernando Teixeira, foi um dos poucas testemunhos daquele período que revelava a presença de cidadãos nacionais em campos de concentração alemães.
O texto original foi publicado em dois longos artigos que foi impresso em dias diferentes. Para facilitar a leitura no "Aterrem em Portugal!" a publicação será divulgada numa série de "posts" mais curtos ao longo de Janeiro e Fevereiro.
A primeira parte será publicada amanhã... Fica um pequeno extracto:
"Eu vim de Outro Mundo!...
E veio o pobre. De um Mundo que muitos conheceram, mas do qual nem todos podem ter a paradoxal felicidade de trazer recordações. De um Mundo que foi mancha e deshonra de homens, que foi expiação e vingança. De um Mundo que não poderá voltar a existir, que nós não queremos que volte - o dos campos de concentração."
Carlos Guerreiro
Neves, que estava emigrado em França quando a guerra começou, esteve preso em campos de concentração franceses e depois foi transferido para Dachau onde seria libertado pelos americanos no final do conflito. A entrevista, dada ao jornalista Fernando Teixeira, foi um dos poucas testemunhos daquele período que revelava a presença de cidadãos nacionais em campos de concentração alemães.
O texto original foi publicado em dois longos artigos que foi impresso em dias diferentes. Para facilitar a leitura no "Aterrem em Portugal!" a publicação será divulgada numa série de "posts" mais curtos ao longo de Janeiro e Fevereiro.
A primeira parte será publicada amanhã... Fica um pequeno extracto:
"Eu vim de Outro Mundo!...
E veio o pobre. De um Mundo que muitos conheceram, mas do qual nem todos podem ter a paradoxal felicidade de trazer recordações. De um Mundo que foi mancha e deshonra de homens, que foi expiação e vingança. De um Mundo que não poderá voltar a existir, que nós não queremos que volte - o dos campos de concentração."
Carlos Guerreiro
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Empresa Madeirense de Tabacos
segunda-feira, 7 de janeiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Farinhas Alimentícias Globo
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
Meios aéreos em operações de busca e salvamento durante a II Guerra Mundial
Os primeiros registos do envolvimento de meios aéreos nas operações de busca e salvamento datam de 1940, mas não envolvem unidades da Aviação Naval ou da Aeronáutica Militar e sim aparelhos civis pertencentes a companhias de transporte de passageiros, que nem portuguesa era.
No Atlântico a mais antiga referência a um pedido de apoio aéreo que foi possível encontrar data de 14 de Agosto de 1940, quando as autoridades portuguesas solicitaram a um Clipper da Pan American para que este ficasse atento à presença de baleeiras com os sobreviventes do “British Fame”, um petroleiro torpedeado na zona dos Açores. Em qualquer dos casos parece que a intervenção aérea não teve papel relevante no salvamento de náufragos.
No Índico, encontramos também referências à utilização de aparelhos civis. Foi isso que aocnteceu por exemplo a10 de junho de 1942 quando os registos britânicos salientam a presença de aviões da DETA, a companhia de aviação criada pelo Governo Colonial de Moçambique em 1936. As aeronaves estavam a dar apoio a unidades navais como o aviso Gonçalves Zarco, o patrulha Tete e o costeiro Sena que saíram para uma operação de busca a náufragos, no caso, pertencentes ao Atlantic Gulf e ao Wilford.
Pelo que foi possível apurar só em 1941 os aviões da Aviação Naval assumissem um papel coerente e persistente no sistema de busca e salvamento português. A chegada, em 1940, dos bimotores Grumman Goose, com grande alcance, deram um importante contributo para o trabalho que os pilotos da armada iriam desenvolver nos anos seguintes.
A primeira ação de busca e salvamento registada pela Aviação Naval teve lugar a 24 de junho de 1941, quando os Grumman Goose 107 e 108 realizaram voos de mais de cinco horas procurando sobreviventes do cargueiro português Ganda torpedeado pelo U-123, mas sem resultados já que estes tinham sido recolhidos por uma embarcação espanhola que por esta altura já se dirigia a Huelva.
Nos Açores a primeira destas operações aconteceu a 4 de Agosto do mesmo ano. Apesar de já se encontrarem Grumman’s nas ilhas o aparelho utilizado foi um Avro 86, um monomotor com curto raio de ação. Possivelmente tentava encontrar os sete tripulantes do Robert Max que chegaram pelos próprios meios ao arquipélago.
Se estas primeiras missões não tiveram sucesso outras houve que demonstraram a eficácia do uso dos meios aéreos. Nos dias 17 e 18 de Dezembro de 1941 levantaram voo do Centro de Aviação Naval (CAN) de Lisboa cinco aviões na tentativa de localizar a última baleeira do cargueiro português “Cassequel” afundado pelo submarino alemão U-108.
O relatório da operação é bastante detalhado não só em relação à descoberta do salva-vidas, mas também cno que concerne à forma como estas operações eram preparadas pelas tripulações. Cada aparelho levava cantis com água e latas com bolachas devidamente embaladas para poderem ser lançadas aos sobreviventes. Seguia também um invólucro capaz de conter uma mensagem escrita, que neste caso serviu para avisar os náufragos de que um navio estava a caminho e também para lhes dar um rumo para terra. As encomendas foram entregues aos destinatários e os hidroaviões aproveitaram também para tirar fotografias que ainda hoje existem no arquivos…
A cobertura do Atlântico por parte de meios aéreos parece ter-se concentrado nos CAN de Lisboa e dos Açores. Da capital saíram Gruman’s Goose, Widgeon e Fleet's realizando um total de 250 horas e 50 minutos de voo relacionadas com busca e salvamento entre Setembro de 1939 e Dezembro de 1944.
No continente também foram solicitados, pontualmente, aviões da Escola Aeronaval Gago Coutinho, em São Jacinto, Aveiro, que deixaram registo de pelo menos 23 horas e 30 minutos de voo relacionadas com operações de busca e salvamento. Neste caso foram utilizados apenas Grumman’s Goose.
Já dos Açores voaram-se, pelo menos, 35 horas em Avro’s 626, Goose’s e Widgeon’s, mas as Ordens de Marinha daquele período nem sempre trazem os quadros espelhando a atividade daquele Centro Aeronaval, sendo por isso possível que tenham existido outros voos.
Sem acesso aos Grumman o apoio aéreo para a busca e salvamento no Índico socorreu-se dos meios que existiam. Entre os da marinha surge referida a utilização do Avro 86 do aviso Bartolomeu Dias (2 horas) e do Monospar que operava com a Missão Hidrográfica da Colónia de Moçambique e foi desviado para realizar um total de 3 horas e 20 minutos de operações de busca e salvamento no Canal de Moçambique.
Os aparelhos da marinha voaram, entre 1939 e 1944, pelo menos 312 horas e 45 minutos em missões de resgate.
Destaque-se ainda a utilização dos aviões da DETA no Canal de Moçambique nas operações de salvamento. Para além do caso já referido existe ainda na entre a documentação britânica o relato desconfiado do comandante de um navio britânico naufragado que mal tinha posto o pé em Lourenço Marques e já estava a ser interrogado pelo capitão de porto português de uma forma que considerou suspeita. No entanto quando se queixou ao cônsul britânico na cidade foi aconselhado de imediato a responder de forma verdadeira às perguntas do oficial português pois este era uma “pessoa diligente” e costumava enviar rapidamente navios e aviões para os locais dos afundamentos de modo a socorrer os possíveis sobreviventes. Não sendo normal a presença de aviões militares naquele território, pode supor-se que eram os aviões da DETA a realizar estas operações.
Carlos Guerreiro
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| Um Grumman Widgeon da Aviação Naval |
No Índico, encontramos também referências à utilização de aparelhos civis. Foi isso que aocnteceu por exemplo a10 de junho de 1942 quando os registos britânicos salientam a presença de aviões da DETA, a companhia de aviação criada pelo Governo Colonial de Moçambique em 1936. As aeronaves estavam a dar apoio a unidades navais como o aviso Gonçalves Zarco, o patrulha Tete e o costeiro Sena que saíram para uma operação de busca a náufragos, no caso, pertencentes ao Atlantic Gulf e ao Wilford.
Pelo que foi possível apurar só em 1941 os aviões da Aviação Naval assumissem um papel coerente e persistente no sistema de busca e salvamento português. A chegada, em 1940, dos bimotores Grumman Goose, com grande alcance, deram um importante contributo para o trabalho que os pilotos da armada iriam desenvolver nos anos seguintes.
A primeira ação de busca e salvamento registada pela Aviação Naval teve lugar a 24 de junho de 1941, quando os Grumman Goose 107 e 108 realizaram voos de mais de cinco horas procurando sobreviventes do cargueiro português Ganda torpedeado pelo U-123, mas sem resultados já que estes tinham sido recolhidos por uma embarcação espanhola que por esta altura já se dirigia a Huelva.
Nos Açores a primeira destas operações aconteceu a 4 de Agosto do mesmo ano. Apesar de já se encontrarem Grumman’s nas ilhas o aparelho utilizado foi um Avro 86, um monomotor com curto raio de ação. Possivelmente tentava encontrar os sete tripulantes do Robert Max que chegaram pelos próprios meios ao arquipélago.
Se estas primeiras missões não tiveram sucesso outras houve que demonstraram a eficácia do uso dos meios aéreos. Nos dias 17 e 18 de Dezembro de 1941 levantaram voo do Centro de Aviação Naval (CAN) de Lisboa cinco aviões na tentativa de localizar a última baleeira do cargueiro português “Cassequel” afundado pelo submarino alemão U-108.
O relatório da operação é bastante detalhado não só em relação à descoberta do salva-vidas, mas também cno que concerne à forma como estas operações eram preparadas pelas tripulações. Cada aparelho levava cantis com água e latas com bolachas devidamente embaladas para poderem ser lançadas aos sobreviventes. Seguia também um invólucro capaz de conter uma mensagem escrita, que neste caso serviu para avisar os náufragos de que um navio estava a caminho e também para lhes dar um rumo para terra. As encomendas foram entregues aos destinatários e os hidroaviões aproveitaram também para tirar fotografias que ainda hoje existem no arquivos…
A cobertura do Atlântico por parte de meios aéreos parece ter-se concentrado nos CAN de Lisboa e dos Açores. Da capital saíram Gruman’s Goose, Widgeon e Fleet's realizando um total de 250 horas e 50 minutos de voo relacionadas com busca e salvamento entre Setembro de 1939 e Dezembro de 1944.
No continente também foram solicitados, pontualmente, aviões da Escola Aeronaval Gago Coutinho, em São Jacinto, Aveiro, que deixaram registo de pelo menos 23 horas e 30 minutos de voo relacionadas com operações de busca e salvamento. Neste caso foram utilizados apenas Grumman’s Goose.
Sem acesso aos Grumman o apoio aéreo para a busca e salvamento no Índico socorreu-se dos meios que existiam. Entre os da marinha surge referida a utilização do Avro 86 do aviso Bartolomeu Dias (2 horas) e do Monospar que operava com a Missão Hidrográfica da Colónia de Moçambique e foi desviado para realizar um total de 3 horas e 20 minutos de operações de busca e salvamento no Canal de Moçambique.
Os aparelhos da marinha voaram, entre 1939 e 1944, pelo menos 312 horas e 45 minutos em missões de resgate.
Destaque-se ainda a utilização dos aviões da DETA no Canal de Moçambique nas operações de salvamento. Para além do caso já referido existe ainda na entre a documentação britânica o relato desconfiado do comandante de um navio britânico naufragado que mal tinha posto o pé em Lourenço Marques e já estava a ser interrogado pelo capitão de porto português de uma forma que considerou suspeita. No entanto quando se queixou ao cônsul britânico na cidade foi aconselhado de imediato a responder de forma verdadeira às perguntas do oficial português pois este era uma “pessoa diligente” e costumava enviar rapidamente navios e aviões para os locais dos afundamentos de modo a socorrer os possíveis sobreviventes. Não sendo normal a presença de aviões militares naquele território, pode supor-se que eram os aviões da DETA a realizar estas operações.
Carlos Guerreiro
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