Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 17 de junho de 2019

«Escaparate de Utilidades»
Discofones Valentim de Carvalho

Jornal "Diário de Lisboa", 17 de Junho 1943

segunda-feira, 3 de junho de 2019

«Escaparate de Utilidades»
Actualidades da Guerra no São Luiz

Diário de Lisboa, 3 de Junho 1941

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O incidente do Serpa Pinto (2)
Transporte de refugiados durante a Guerra

Depois de termos construído uma cronologia do incidente que em 26 de Maio de 1944 quase levou ao afundamento do navio Serpa Pinto, vamos olhar neste artigo para o navio e o seu envolvimento no transporte de refugiados durante a II Guerra Mundial. Tentamos também enquadrar a sua actividade no contexto nacional e internacional recorrendo para isso a fontes diversas entre as quais destaco o trabalho da historiadora Irene Pimentel, uma das das primeiras a escrever sobre este tema.

O Serpa Pinto no porto de Lisboa.
O Serpa Pinto pertencia à Companhia Colonial de Navegação (CCN), fundada em 3 de Julho de 1922 por um conjunto de empresários com negócios em Angola e na Guiné, que não viam as suas necessidades satisfeitas pelas companhias existentes, nomeadamente, a Companhia Nacional de Navegação.

No princípio da II Guerra Mundial a sua frota era constituída por quatro paquetes – o Mouzinho, o Colonial, o João Belo e o Guiné –, seis unidades de carga – o Cassequel, o Ganda, o Malange, o Lobito, o Pungue e o Sena -, para além de rebocadores, batelões e outras unidades de porte mais reduzido operando em portos do continente, África Ocidental e Oriental.

A empresa, uma das maiores do sector naquela época ao lado da Companhia Nacional de Navegação, mantinha rotas de Lisboa para o norte da Europa, EUA, América do Sul, África Ocidental e Oriental.

O Serpa Pinto foi adquirido em Março de 1940, para assegurar uma nova rota para o Brasil, onde se registava um aumento do transporte de passageiros e carga. Tinha sido construído nos estaleiros da Belfast Workman, Clark & C. Lda, na Irlanda do Norte, e entregue em 1915 com o nome “Ebro” a uma empresa de armadores britânica. Logo nesse ano foi vendido à “Yugoslavensky Lloyd”, da Jugoslávia, navegando com o nome “Princesa Olga”, até ser vendido à CCN.

Em termos de dimensões o Serpa Pinto e o Mouzinho foram, durante aquele período, os maiores navios da frota ao serviço da "Colonial", tendo ambos pouco mais de 147 metros de comprimento, e, respectivamente, 606 e 700 acomodações para passageiros. O primeiro permitia o transporte de 537 passageiros em primeira classe, 73 em segunda, 109 em terceira e 249 nas cobertas, caso fosse necessário. Uma capacidade importante tendo em vista o turbulento período que se aproximava e que transformaria Lisboa no principal porto de saída para milhares de refugiados que procuravam escapar ao poder ideológico e militar de Hitler.


Portugal e o transporte de refugiados durante a II Guerra Mundial

Os primeiros refugiados do nazismo chegaram a Portugal pouco depois da subida de Hitler ao poder e até 1936 vários integraram-se na sociedade portuguesa. Com a implementação de leis antissemitas mais restritivas na Alemanha, especialmente a partir de meio da década de 30, aumentaram também os que tentavam escapar para paragens mais seguras.

Para evitar este crescente fluxo – constituído essencialmente por refugiados judeus ou políticos - vários estados europeus implementaram legislação que impedia a sua passagem e instalação. Também Portugal efectivou, em 1936, leis que restringiam a entrada e a permanência dos que fugiam ao nazismo e, a partir de 1938/39, esse bloqueio acentuou-se com a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) a intervir de forma mais enérgica na zona fronteiriça.

Mesmo assim chegaram ao porto de Lisboa, até Agosto 1939, vários paquetes alemães oriundos de Hamburgo trazendo refugiados que aqui demandavam a navios holandeses, espanhóis, gregos ou italianos seguindo rumos a destinos além-mar onde ainda autorizavam a sua permanência. Durante este período as companhias portuguesas mantiveram-se centradas nas suas rotas tradicionais, com carga e passageiros a seguirem para as colónias africanas e ilhas adjacentes enquanto para as Américas e para os portos do norte da Europa a aposta passava essencialmente pelo transporte de mercadorias.

Em 1940, com a ocupação da França pelas forças nazis chegaram milhares de pessoas ao país, tornando mais difícil conter e controlar a chegada de forasteiros. Este período coincide também com o desaparecimento dos portos portugueses das importantes marinhas mercantes dos países que entretanto tinham entrado na guerra - por vontade própria ou não - nomeadamente, a Holanda (maio de 1940), a Itália (Junho de 1940) ou a Grécia (Outubro de 1940), o que causou um importante desequilíbrio entre a oferta e a procura de passagens para o outro lado do Atlântico.

Aos refugiados restava viajar em unidades navais neutrais brasileiras, suecas, espanholas ou americanas, enquanto as companhias portuguesas, nomeadamente, as que tinham unidades de passageiros como a Colonial, a Nacional ou a Insular despertavam para um mercado que, at´
e aí, tivera importância residual na sua actividade comercial. É especialmente a partir de 1941 que os armadores nacionais vão apostar em rotas periódicas para os EUA ou disponibilizar-se para fretamento dos seus navios por associações ou grupos de apoio a refugiados, portuguesas e estrangeiras, entretanto instaladas em Lisboa.

Mesmo assim as dificuldades para adquirir um bilhete vão sentir-se de forma premente e em 1941 obter lugar num navio torna-se uma questão crítica até porque os vistos, tanto de permanência como de viagem, têm prazos de utilização limitados e muitos caducam antes de ser possível embarcar. Por outro lado subiram os preços das passagens. Se antes da invasão da França o custo de uma viagem daquele país para Nova Iorque rondava os 145 dólares, em Outubro de 1940, saindo de Lisboa, pagavam-se já 195 e em Fevereiro do ano seguinte 350.

Dados contidos no livro "Judeus em Portugal 
durante a II Guerra Mundial" de Irene Pimentel.

De salientar que houve navios vários navios portugueses a realizar o transporte de refugiados ainda antes de 1941, apesar desse número ser relativamente reduzido. Em 12 de setembro de 1940, por exemplo, o paquete “João Belo”, na sua rota habitual para Moçambique, levou até ao Congo Belga cerca de uma vintena de judeus belgas que tinham chegado a Lisboa a bordo do “Dora”, um pequeno navio fretado e que fora impedido de chegar ao destino devido ao confronto entre as frotas britânica e francesa no norte de África.

Em Novembro de 1940 a imprensa americana já dava conta de que o Governo de Salazar tinha autorizado aos armadores portugueses o estabelecimento de linhas entre Lisboa e Nova Iorque, enquanto em maio do ano seguinte noticiavam que 14 navios tinham sido desviados das habituais rotas coloniais para assegurar o transporte de passageiros e mercadorias como trigo, carvão e fertilizante entre os dois países. Vários são de pequena tonelagem e com reduzida capacidade de alojamento, como eram o caso do Guiné, do São Thomé, do Pungue ou do Lobito, mas nesta rota surgem também unidades com grande número de acomodações como eram o caso do Quanza, do Niassa, do Carvalho Araújo ou do Serpa Pinto.


Serpa Pinto: o navio do Destino

O “Serpa Pinto” assume cedo um papel de destaque nesta nova realidade e nos primeiros oito meses de 1941 transporta mais de 3000 passageiros, superando em quase um milhar o navio seguinte, o Niassa, como se pode ver pelos dados reunidos no Quadro 1 - copiado do livro de Irene Pimentel "Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial" - e que lista os passageiros transportados por diversos navios portugueses durante o período referido.

Deve ter-se em conta que tão elevado número de passageiros transportados não resulta apenas da capacidade, mas também das rotas percorridas. Uma viagem de ida e volta entre Lisboa e os portos coloniais da África Oriental poderia prolongar-se por vários meses enquanto uma ida e volta áo continente americano, mesmo com diversas paragens, se podia fazer em mês e meio.

Lista de viagens do Serpa Pinto
com refugiados, construída com base
nas listas de passageiros da Joint.
Entre a documentação disponibilizada on-line pela American Jewish Joint Distribution Committee (Joint), uma das instituições americanas que em Lisboa organizou e financiou a evacuação de refugiados judeus para diversos destinos, encontram-se listas de passageiros confirmando que entre 1941 e 1945 o Serpa Pinto realizou pelo menos uma vintena de viagens entre Lisboa e portos nas américas do norte, do sul e das Caraíbas.

A imagem do Serpa Pinto tornar-se-ia icónica. São diversas as fotografias assinalando a saída de refugiados de Lisboa que mostram o navio. Personalidades famosas como Marcel Duchamp ou Simone Weil cruzaram nele o Atlântico e o escritor Stefan Zweig lembra-o nas suas memórias. O seu nome surge em reportagens e mais recentemente as suas deambulações de guerra foram retratadas pela obra da belga Rosine De Dijn, “O Barco do Destino”.

Curiosamente numa das viagens, que teve lugar em Junho de 1942, o navio atravessou o Atlântico até ao Rio de Janeiro e Nova Iorque levando mais de 400 judeus e no regresso trouxe 940 diplomatas e outros cidadãos alemães expulsos na sequência da entrada do Brasil na guerra. Das suas aventuras em tempos de guerra merece ainda destaque o salvamento, a 8 de Outubro de 1940, de 22 tripulantes do navio grego Antonios Chandris afundado no Atlântico Sul.

Carlos Guerreiro

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

Na próxima semana vamos olhar para a lista de passageiros do Serpa Pinto.

Leia a primeira parte deste artigo em : "A cronologia de uma ameaça de naufrágio"



sexta-feira, 24 de maio de 2019

O incidente do Serpa Pinto (1)
A cronologia de uma ameaça de naufrágio

Nas próximas semanas vamos desenvolver o caso da abordagem do navio Serpa Pinto por um submarino Alemão em Maio de 1944. Hoje apresentamos uma cronologia dos acontecimentos e fica prometido que lá mais para a frente escreveremos também sobre outros questões relacionadas com este incidente.

O navio "Serpa Pinto" interceptado 
em 26 de Maio de 1944 por um U-boat alemão.
No dia 26 de Maio de 1944, às 00.10 horas, o navio português Serpa Pinto foi interceptado na viagem entre Ponta Delgada e Filadélfia pelo submarino alemão U-541 que após uma inspecção ameaçou afundar o paquete, com a justificação de que este transportava mercadoria para os EUA e para o México - países inimigos da Alemanha - e ainda cidadãos em idade militar também oriundos de nações adversárias.

Durante a madrugada centenas de tripulantes e passageiros foram obrigados a abandonar o navio, esperando em baleeiras que se concretizasse a ameaça de afundamento. Ao raiar do dia o comandante alemão recebeu ordens de Berlim para deixar o Serpa Pinto prosseguir viagem. Dois passageiros de nacionalidade americana, em idade militar, foram detidos e levados para Lorient, base para onde o U-541 regressou a 22 de Junho. Três outras pessoas, dois tripulantes e uma criança que vinha como passageira, faleceram durante o processo de abandono do navio.

O comandante Américo dos Santos tinha saído de Lisboa com o Serpa Pinto, da Companhia Colonial de Navegação, a 16 de Maio, fazendo escala no Porto (18 de Maio) e Ponta Delgada (21 de Maio) antes de rumar a Filadélfia. A bordo seguiam 158 tripulantes e 228 passageiros – 179 embarcados em Lisboa; 19 no Porto e 30 em Ponta Delgada -, muitos deles refugiados, alguns com destino aos EUA e outros com vistos para o Canada e para a Austrália.

A intercepção e fiscalização pelo submarino alemão tiveram lugar nas coordenadas 35º 58'N de latitude e 53º35´W de longitude, a cerca de 600 milhas do destino. Para uma compreensão mais clara do que aconteceu durante o dia de 26 de maio elaborou-se uma cronologia que resume os principais momentos deste incidente e que reúne material recolhido em relatórios e documentação oficial disponível em diversos arquivos portugueses:

00.10 Horas
- Avistamento de sinais luminosos pelo través de estibordo, ouvindo-se também uma rajada de metralhadora que terá servido para chamar a atenção do Serpa Pinto.

00.20 Horas
 - O comandante do Serpa Pinto dá ordem para a parar as máquinas na Latitude 33º 58’ Norte e Longitude 53º 35’ Oeste. A embarcação estranha envia por sinais luminosos a mensagem: “Send a Boat”. Na água é possível perceber-se o recorte da silhueta de um submarino.
 - Do Serpa Pinto é enviada uma baleeira comandada pelo imediato Manuel Valente de Pinho. Leva consigo documentos e passaporte do navio, manifesto de carga, listas de tripulantes e de passageiros.

01.00 Horas
- A baleeira regressa ao navio português trazendo a bordo um oficial alemão acompanhado de um marinheiro armado. O imediato Valente de Pinho ficou retido no submarino tal como os documentos do navio.
- Todos os passageiros e tripulantes são chamados para o tombadilho de 1ª Classe.
- O militar alemão mostra interesse na carga – grande parte vinho e aguardente – e nos passageiros de nacionalidade americana com idade militar. Diz ao português que a carga é ilegal e em relação aos passageiros americanos mostra-se surpreso por vários não falarem inglês. O comandante explica que apesar de terem nascido nos EUA faziam parte da comunidade portuguesa e só falavam português.
- O oficial alemão seleccionou um passageiro – Camillo Grande Perez, de 24 anos - nascido no Canadá para o acompanhar até ao submarino. Ordenou que fosse ao camarote buscar alguma roupa e esperou o seu regresso, mas ele aproveitou o momento e escondeu-se. Perante a ameaça de afundamento imediato o homem foi procurado e encontrado pelos restantes passageiros e tripulantes, sendo entregue aos alemães.

01.40 Horas 
- O oficial alemão termina a inspecção aos documentação do navio e à lista de passageiros, reembarcando na baleeira levando o jovem nascido no Canadá.

02.15 Horas 
- O Imediato regressa a bordo do Serpa Pinto dizendo que o comandante alemão exige que abandonem o navio o mais rapidamente possível pois pretende afundá-lo.

02.20 Horas 
- É dada ordem para arrear as baleeiras e abandonar o navio. As 385 pessoas embarcaram nos salva-vidas no tempo estipulado. A operação foi facilitada pelo bom estado do mar e pelo facto de todos os passageiros se encontrarem reunidos no tombadilho de Primeira Classe.

02.35 Horas 
- O Serpa Pinto encontra-se parado e abandonado por todo o pessoal.
- Algumas baleeiras afastam-se, mas o capitão Santos mantém-se perto esperando que se concretize o afundamento.
- Segundo o relatório do capitão Américo do Santos, o Submarino “não fazia senão pavonear-se pelo meio das baleeiras cheias de gente que vivia ali um dos momentos mais cruciantes da sua vida”.

05.00 Horas 
- As baleeiras estão a dispersas pela água e algumas encontram-se já muito afastadas do Serpa Pinto.

07.00 Horas 
- O submarino aproxima-se da baleeira do comandante português e capitão alemão - Kurt Petersen -ordena que este suba a bordo. Américo dos Santos pede aos tripulantes que esperem pelo seu regresso, mas os alemães empurram o salva-vidas para longe com os pés e prosseguem a marcha.
- O comandante do U-boat informa que espera autorização de Berlim para realizar o afundamento.
- Américo dos Santos alerta os alemães para o facto de várias baleeiras estarem muito distantes, situação que poderá dificultar o reembarque caso Berlim não autorize o afundamento. Petersen permite que se utilize um megafone para reunir as embarcações dispersas e informa ainda dos Santos que, caso se confirme a ordem de afundamento, ele ficará como refém.

07.30 Horas 
- O telegrafista do submarino sobe à torre do submarino com uma mensagem, mas ainda não é a resposta definitiva.

08.00 Horas
 - Chega ao submarino a informação de que o Serpa Pinto não deverá ser afundado.

08.15 Horas 
- Américo dos Santos recebe a documentação do navio. É chamada uma baleeira e ele embarca com ordens para enviar para bordo do submarino dois passageiros americanos em idade militar, nomeadamente os que têm os números 45 e 112 na lista de passageiros.
- O reembarque de tripulantes e passageiros no Serpa Pinto prolonga-se por três horas.

11.15 Horas 
- Todos os tripulantes e passageiros estão de regresso ao Serpa Pinto e isso inclui o cidadão canadiano retirado pelos alemães horas antes.
 - Procedeu-se à chamada de todos os passageiros e tripulantes, detectando-se a falta de três pessoas: Uma criança de 16 meses chamada Beatrice Trapunski, filha de Abraham e Eva Trapunsky, embarcados em Lisboa com destino ao Canadá; o médico António Ferreira Machado que caiu à água durante o embarque nas baleeiras e, por fim, o cozinheiro Hermano António que terá sido atingido por uma peça da equipagem quando as baleeiras foram lançadas à água.

12.15 Horas 
- Manuel Pinto e Virgílio Magina, americanos em idade militar foram entregues ao submarino.

17.00 Horas
 - Termina a operação de içar as baleeiras e o Serpa Pinto continua a viagem.

Na próxima semana voltaremos a abordar este incidente com o Serpa Pinto com o objectivo de ficar a saber mais sobre o navio, os passageiros e outras questões relacionadas com o caso.

Carlos Guerreiro 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

O “Ganda” recolheu náufragos do “British Grenadier”


Neste dia em 1941 o cargueiro português "Ganda" encontrou sobreviventes do navio britânico "British Grenadier"...

Não foi possível encontrar muita informação sobre este caso, mas o que se sabe pode ser encontrado AQUI...

Boas leituras.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

"Música degenerada" do III Reich para dançar no Estoril

Amanhã, sábado, Dia Internacional dos Museus, o Espaço Memória dos Exílios, no Estoril, vai abordar a questão da relação entre o Terceiro Reich e a musica a que chamou ‘Degenerada’ – o jazz e o swing, e sobre o papel que a música e dança desempenharam enquanto actos de resistência, e de propaganda durante o período do nazismo.

Os Ghetto Swingers tocam em Terezin, o filme de propaganda Nazi sobre a vida no campo de concentração de Terezin, realizado por Kurt Gerson
A sessão começa às 14h30, e a apartir das 15h00, poderá dançar. Primeiro pode aprender ou recordar uns passos durante um workshop de Lindy Hop/Swing com os monitores da Swing Station e depois pôr em prática o que aprendeu.

O workshop é gratuito, requer marcação por o e-mail: eme@cm-cascais.pt

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O arquitecto alemão do Hospital de Santa Maria é tema no Estoril


O Espaço Memória dos Exílios recebe esta noite, pelas 21 horas,  Ana Mehnert Pascoal que vai falar sobre Hermann Distel, o arquitecto alemão que projectou os Hospitais de Santa Maria, em Lisboa, e São João, No Porto. 

Distel teve uma carreira de sucesso durante o III Reich alemão sendo um dos especialistas mundiais na planificação de unidades hospitalares. As relações entre o Estado Novo e  Alemanha Nazi e as razões que levaram o Governo português a escolher este arquitecto são alguns dos temas que vão ser abordados... 

Vilar Formoso recorda papel na guerra

No próximo fim-de-semana Vilar Formoso vai recuar no tempo e regressar ao período da II Guerra Mundial com dois espectáculos que revisitam as memórias da chegada àquela localidade fronteiriça de milhares de judeus que fugiam do conflito e procuravam em Portugal uma porta de saída da Europa para países mais seguros.

Os espectáculos terão como cenário o Largo da Estação, junto ao Polo Museológico Vilar Formoso Fronteira da Paz - Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes. No sábado, a partir das 16:30, terá lugar a representação "Setembro 1939 - A defesa de Varsóvia" e, no domingo, pelas 10:30, o público pode assistir a "Vilar Formoso - O caminho da liberdade e da esperança".

Estas representações envolvem cerca de 60 pessoas e serão feitas pela Associação Histórico Cultural Poland First To Fight e pela Associação Norland.

"Setembro 1939 - A defesa de Varsóvia" tem uma duração média de 30 minutos mostrando dez cenas que apresentam momentos diferentes da defesa de Varsóvia entre 06 e 29 de Setembro de 1939 - dias entre os quais a capital polaca foi cercada até finalmente se render.

Por seu lado a "Vilar Formoso - O caminho da liberdade e da esperança", terá uma duração de dez minutos reunindo três cenas que apresentam o caminho dos refugiados da França até Vilar Formoso: entrega de vistos pelo cônsul de Portugal; travessia da fronteira franco-espanhola; travessia da fronteira luso-espanhola.

No sábado, pelas 11:00, prepara-se também uma visita às exposições "Polónia 1939 - 1947: O preço da honra" e "Os polacos em Portugal nos anos 1940 - 1945", patentes no posto de Turismo de Vilar Formoso.

As actividades são promovidas pela Câmara Municipal de Almeida e pela Junta de Freguesia de Vilar Formoso, com a colaboração do Ayuntamineto de Fuentes de Oñoro (Espanha), das Embaixadas da República da Polónia e de Espanha, da Associação Sociocultural Tierras de Piedra e da Associação Histórico-cultural Poland First to Fight.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Bacalhoeiro "Ana I" recolhe náufragos de navio grego

Em Outubro de 1940 o bacalhoeiro "Ana I" encontrou náufragos de um cargueiro grego afundado por um submarino italiano dias antes... 

Mais um caso acrescentado ontem à lista relativa aos salvamentos realizados por navios portugueses entre os anos de 1939 a 1941...

Pode encontrar toda a história AQUI...

sábado, 11 de maio de 2019

Modelismo pelo Algarve

O Núcleo de Modelismo da Casa da Cultura de Loulé - criado recentemente - tem hoje a sua primeira actividade pública, promovendo uma Feira de Trocas de Modelismo, entre as 14:00 e as 19:00, em frente à sede da CCL, no Parque Municipal da cidade (logo atrás do monumento ao Eng.º Duarte Pacheco).

Esta é a primeira de várias iniciativas planeadas para este ano.  A segunda edição desta feira será em Outubro, e em Novembro teremos a ModelCult 2019 - Mostra de Modelismo do Algarve.

São razões para sair de casa no fim-de-semana...

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Novo site “Portugal 1939-1945”

No dia em que se lembra o fim da II Guerra Mundial – 8 de Maio de 1945 – apresento o meu mais recente projecto: "O Site "Portugal 1939-1945".


Este novo espaço pretende continuar a contar histórias da história do país durante o período da II Guerra Mundial, complementado o blogue “Aterrem em Portugal!”. Para além de material inédito vai também, no futuro, ajudar a organizar algum dos material que tem sido publicado no blogue, até porque sendo bilingue vai permitir levar a nossa história a um público mais alargado.

Por agora o “Portugal 1939-1945” arranca com informações mais de uma centena de aviões de países beligerantes que caíram ou aterram no nosso país e também com dados sobre os salvamentos realizados por navios nacionais durante o mesmo conflito. Neste último caso a listagem refere-se apenas às datas entre 1939 e 1941. Nos próximos meses serão introduzidos dados sobre salvamentos efectuados até 1945..."

Para facilitar o acesso as informações estão divididas por áreas. A área que se refere ao AR está obviamente relacionada com a aviação e a do MAR com os navios. No futuro estão planeados outros espaços de divulgação, que serão falados a seu tempo.

O site conta por agora com presença nas redes sociais Facebook e Twitter, mas aqueles que já seguem o blogue “Aterrem em Portugal!”, não precisam de se associar pois pretendo que exista fluidez entre os dois espaços. A informação relevante tanto de um como do outro irá ser divulgado em todas as plataformas.

Em 2014 criei no blogue uma página chamada “Portugal 39/45”. A construção do site é, em parte, a concretização de parte desses projecto. Demorou muito mais do que eu queria ou alguma vez pensei…

Para a sua concretização agradeço a ajuda e colaboração de várias pessoas. Destaco especialmente o Paulo Rodrigues que no CENJOR, em Outubro de 2017, me deu as primeiras luzes sobre o “Worpress” e criou as fundações sobre as quais ergui o resto. Sinceramente nunca serei um construtor de sites, porque já esqueci quase tudo sobre esses primeiros passos…

Durante o resto do processo e, especialmente, na fase final contei com a ajuda de muito mais gente. Corrigiram textos, deram dicas sobre grafismo, cores etc… Foi uma ajuda essencial para o que hoje está acessível. Peço desculpa por não referir ninguém, mas iria certamente esquecer-me de alguém… Seria uma injustiça. Peço desculpa por não os nomear individualmente, mas agradeço do fundo do coração a todos.

Estão cerca de centena e meia de páginas disponíveis com informação. Façam o favor de aproveitar clicando AQUI

Um abraço.

Carlos Guerreiro

terça-feira, 7 de maio de 2019

Programa de Maio para o Espaço Memória dos Exílios

Avraham Milgram vai estar
quinta-feira no Estoril 
“Contíguos e separados. Cristãos-Novos, sefarditas, ashkenazitas e refugiados da Europa Nazi em Portugal, 1900-1950", é o tema que será abordado esta quinta feira, pelas 21.00 horas, no Espaço Memória dos Exílios em Cascais por Avraham Milgram, o historiador israelita, antigo investigador no Memorial Yad VaShem, em Jerusalém, com trabalho publicado sobre a história dos judeus em Portugal e no Brasil.

Na quinta-feira da semana seguinte, 16 de maio, também às 21.00 horas, será a vez de Ana Menhert Pascoal, investigadora no ARTIS-Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, apresentar o trabalho do arquitecto alemão Hermann Distel que, com uma carreira estabelecida no III Reich, foi seleccionado para projectar os Hospitais de Santa Maria, em Lisboa, e o de S. João, no Porto.

No Sábado, dia 18 de maio, entre as 14.30 e as 17.00 horas, o espaço do Estoril celebra o Dia Internacional dos Museus. Com o tema ‘Os Museus como Centros Culturais: o futuro da tradição’, poderá assistir a uma breve conversa sobre a história da música jazz no III Reich,  seguida de um workshop de swing e lindy hop. A participação é gratuita, mas requer inscrição prévia através de email para eme@cm-cascais.pt .

Boas saídas...

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Filha de piloto americano de B-17 que amarou perto de Sesimbra visitou Portugal

Suzanne Borto, filha de Novo Maryonovich, piloto do bombardeiro americano B-17 que amarou no mar perto de Sesimbra em 1943, visitou durante a última semana Portugal, realizando um passeio por vários locais do país que se prolongou por uma semana.

Tripulação do B-17que desceu no mar frente a Sesimbra. 
Hugh Bradford, Ed Johnson, Carl Williams, Gordon Akley, Edward McMillen, Armstrong (de pé e da esq. para a dir.), 
Bill Flagler e Novo Maryonovich (em baixo). 
Armstrong não voou na missão e no seu lugar estava Frank Stetson. 
(Foto Rich Maryonovich)
No último domingo encontrámo-nos em Lisboa para algumas horas de conversa antes do regresso aos EUA. Portugal entrou na rota das viagens que realiza com regularidade em memória do pai, Novo Maryonovich que durante uma operação de bombardeamento a França, em 5 de Dezembro de 1943, teve problemas num motor acabando por amarar ao largo de Sesimbra onde foram recolhidos e trazidos para terra.

Novo conheceria a mulher em 1944 e casaria com ele nesse mesmo ano, criando quatro filhos. Após a guerra mudou o nome de Maryonovich para Martin e tornou-se bombeiro profissional. Faleceu nos anos 90 e a mulher já depois de 2000.


As voltas de um B-17

O bombardeiro com a matrícula 42-3294, com o nome “Suzanne”, partiu de Inglaterra com a missão bombardear aeródromos na zona de Bordéus, em França, mas a caminho, sobre a Baía de Biscaia, tiveram problemas num dos motores e foram obrigados a abandonar a formação.

Atiraram para fora do aparelho tudo o que puderam, incluindo o armamento, para ficarem mais leves e manterem o aparelho estável. Resolveram não voltar para trás porque sabiam que sempre que partiam esquadrilhas os alemães colocavam caças na zona da baía da Biscaia para abater bombardeiros isolados, perdidos ou que tentavam regressar devido a problemas, como era o seu caso.

Resolveram tentar a viagem até Gibraltar onde poderiam reabastecer e reequipar-se para regressar à base.

Perto de Sesimbra ficaram, no entanto, sem combustível e foram obrigados a amarar. Toda a tripulação saiu ilesa e foi recolhida por embarcações de pesca.

As autoridades portuguesas entregaram-nos à Legação Americana. Ficaram por Lisboa durante uma semana tendo sido repatriados – enviados para Inglaterra - a 12 de Dezembro de 1943.

Suzanne Borto em Lisboa durante o passeio
que realizou por Portugal na última semana.
Obrigado pela visita Suzanne Borto e por nos trazer mais histórias para nossa história…

Carlos Guerreiro

sexta-feira, 26 de abril de 2019

O estranho ataque ao “Vale Formoso Segundo”

“Um erro desafortunado. Temos de ser muito cautelosos com o que vamos dizer aos portugueses, apesar de parecer que o nosso rastro está bem dissimulado caso queiramos encobrir o nosso erro”. A nota manuscrita na primeira página da pasta de documentos que se encontra nos arquivos nacionais britânicos em Kew não deixa dúvidas sobre a singularidade do caso que se esconde nas páginas que se encontram lá dentro: a mal conhecida história do ataque a um pequeno iate-motor português chamado “Vale Formoso Segundo”, um mercante registado no porto de Faro, no Algarve.

Vista de Faro.
Fotografia publicada pela revista Panorama em 14 de abril de 1943.

(Hemeroteca Digital)
Os acontecimentos tiveram lugar perto da costa italiana, na madrugada nebulosa e de mar calmo de 26 de Abril de 1942, numa altura em que a bordo do “Vale Formoso Segundo” se verificou que havia um desvio na rota estabelecida, tendo a viagem nocturna aproximado o navio demasiado de terra. Pelas cinco e meia da manhã a tripulação tentava afanosamente corrigir o rumo quando se ouviu um primeiro tiro de canhão.

A origem do disparo foi rapidamente localizado cerca de meia milha pela proa, local onde emergia a torre de um submarino. O capitão José Joaquim Correia ordenou de imediato que se atravessasse o navio, se parasse o motor e se arriasse o pano, enquanto se mantinham visíveis as bandeiras com o nome do navio e a bandeira nacional, mas sem grandes resultados: “O desumano submarino continuou a disparar rajadas de metralhadora e tiros de peça, conservando-se sempre na nossa proa e sempre mostrando apenas a torre à superfície”, relatava dias mais tarde o protesto de mar entregue às autoridades portuguesas.

A insistência do atacante deixou marcas no navio e num tripulante. “Meteu uma granada no costado pela amura de bombordo, acima da linha de água; fez vários raspões no costado e na borda; furou as velas; cortou vários cabos de manobra e uma boia de salvação circular; sendo atingido por um estilhaço de granada de raspão no braço esquerdo o ajudante de motorista Donaldo R. de Sousa Marques felizmente sem gravidade”.

Segundo o protesto de mar foi já em pleno ataque que se hasteou uma bandeira italiana, o que parece ter acalmado a sanha bélica do submarino que se colocou ao lado iate por bombordo questionado o capitão português: “Pelo porta-voz perguntou-me se falava italiano, respondi que compreendia; então perguntou-me se eramos portugueses ou suíços, respondi que eramos portugueses, que vínhamos de Génova onde tínhamos ido levar carga para a suíça e nos destinávamos para Portugal; então perguntou porque nos encontrávamos ali, respondi que fora a corrente de água que nos tinha arrastado um pouco para terra durante a noite e que nos íamos afastar mais para fora. Então mandou seguir para o sul”.

José Joaquim Correia repete no seu relato que apenas conseguiu avistar a torre e não a estrutura do submarino antes deste submergir logo após a troca de palavras. Para além dos estragos visíveis por toda a parte, foram encontrados um bocado de granada, um percutor e vários estilhaços que seguiram com o navio para Gibraltar onde entraram para realizar reparações.


“Deixem as coisas ficar como estão”

Foi após fundearem no porto britânico, às 15.15 horas de 2 de maio de 1942, que começou a troca de mensagens entre Gibraltar, Lisboa e Londres. O primeiro telegrama foi enviado da Embaixada britânica na capital portuguesa para o comando marítimo do Atlântico Norte (FOCNA – Flag Officer Commanding North Atlantic) na sequência de notícias publicadas na imprensa portuguesa que davam conta do ataque. Pretendia-se confirmar a informação da presença na base do mediterrâneo e, simultaneamente, obter uma nota oficial assegurando que nenhuma unidade aliada era responsável pelo incidente.

Esta primeira missiva seguiu a 9 de Maio e logo no dia seguinte veio uma resposta que fez disparar os alarmes entre as autoridades navais do Reino Unido. Afinal o ataque fora executado pelo submarino P42 - “HMS Unbroken” - que tinha tido dificuldades em identificar a “escuna” que se aproximava, abrindo fogo com canhão e metralhadora. De resto o navio hasteava duas pequenas bandeiras – a portuguesa e suíça – que os ingleses não conseguiam identificar e – segundo o relatório do tenente Mars da Royal Navy - uma italiana de maiores dimensões. Apesar de tudo os portugueses tiveram a sorte do seu lado pois o submarino também disparou dois torpedos, mas um passou pela proa do veleiro sem lhe tocar e o outro mergulhou para o fundo mal saiu do tubo explodindo quando tocou na areia, causando até alguns danos aos britânicos.

Mas havia também notícias menos alarmantes. Uma delas era o facto de José Joaquim Correia, nas declarações que fizera às autoridades gibraltinas, ter identificado o atacante como sendo italiano, dando como justificação o facto de estarem fora de rota. A outra prendia-se com o facto do percutor – com marcas que o poderiam identificar como sendo de origem britânica – tinha sido entregue a oficiais da Royal Navy.

Face a esta situação um outro telegrama, enviado pelo almirantado ao Adido Naval na Embaixada de Lisboa, levantava a questão sobre qual a atitude a tomar: “Submarino falou apenas italiano. (…) Temos a alternativa de nada dizer, deixando que os tripulantes acusem os italianos, ou explicar a situação”. A resposta da capital lusa foi lesta: “Autoridades portuguesas estão convencidas de que submarino era italiano. Considero que melhor política é nada dizer. Embaixador Concorda”.

Nas trocas de correspondência e telefonemas que se seguiram foram tidos em conta os diversos cenários. Havia quem defendesse a necessidade de ser franco com Salazar, até porque o navio estava fora de rota e tinha hasteado a bandeira italiana, o que de certo modo sancionava o ataque. Outros tinham opinião contrária alegando que o caso já se arrastava há dias sem que os portugueses suspeitassem do seu envolvimento, mas que este intervalo de tempo sem assumir responsabilidades colocaria futuramente os britânicos sob suspeita imediata sempre que houvesse uma ataque, mesmo quando este fosse realizado - de facto - por unidades do Eixo. Sugeriu-se por tudo isto que o melhor seria deixar as coisas ficarem como estavam. A expressão utilizada é até curiosa: “My own instinct is to let sleeping dogs lie and to avoid being drawn into this, unless the situation demands it”.

Os italianos arcaram com as culpas...

Curiosamente no mesmo dia em que o “Vale Formoso Segundo” entrou no porto de Gibraltar também lá atracava o P42, comandando pelo tenente Alastair Campbell Gillespie Mars. Durante três dias os dois navios estiveram relativamente perto um do outro, mas José Joaquim Correia foi incapaz de reconhecer o seu agressor…

Carlos Guerreiro

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Portugueses na resistência francesa durante a II Guerra Mundial

Pode adquirir o livro AQUI.
Fica hoje disponível nas bancas "A sombra dos heróis", o mais recente livro do jornalista José Manuel Barata-Feyo, que  reúne as histórias nunca contadas de 347 portugueses que lutaram em França contra nazismo.

No total são 320 páginas, editadas com a chancela da editora "Clube do Autor". O jornalista disse recentemente no Porto que ficou apaixonado pelo tema, estando agora a pensar escrever sobre os 905 portugueses que se alistaram no exército francês.


Fica a sinopse oficial:

Em Portugal, até hoje, pouco se sabe sobre os portugueses vítimas dos nazis em França. Mas se assim é em relação às vítimas, a ignorância é absoluta no que respeita às centenas de homens e mulheres que combateram os nazis durante a ocupação do país.

Cidadãos de um país neutro, centenas de portugueses podiam ter-se adaptado às circunstâncias e ao diktat do invasor alemão. Em vez disso deixaram o conforto relativo das suas famílias, das suas casas e dos seus empregos, esqueceram o interesse próprio e lançaram-se num combate desigual pela liberdade.

A Sombra dos Heróis dá vida à história desconhecida destas centenas de homens e mulheres de carne e osso, lutadores de exceção, num relato fascinante sobre a resistência e abnegação humanas.

Boas leituras.


sexta-feira, 5 de abril de 2019

Portugueses forçados a trabalhar pelos nazis são tema em Cascais


A historiadora Cláudia Ninhos vai estar no Espaço Memória do Exílios, em Cascais, no dia 11 de Abril pelas 21.00 horas, para falar sobre os mais recentes dados relacionados com o milhar de portugueses forçados a trabalhar para o regime Nazi durante a II Guerra Mundial.

Ao longo da Segunda Guerra Mundial o regime Nazi deportou milhões de civis estrangeiros, incluindo portugueses, utilizando-os como mão-de-obra escrava. Até hoje foram identificados cerca de um milhar de portugueses forçados a contribuir para o esforço de guerra alemão.

Em discussão vão ser abordadas como a de sabe quem foram estes homens, mulheres e crianças? E as razão, porque sendo portugueses, foram deportados?

Boas

segunda-feira, 25 de março de 2019

quinta-feira, 14 de março de 2019

Exilados que passaram por Cascais em conferência


Há mais de 20 anos descobriram-se milhares de Boletins de Alojamento para Estrangeiros pertencentes a hóspedes que tinham passado por Cascais durante o período da II Guerra Mundial. Pelos hotéis daquela vila e estância balnear passaram exilados, diplomatas, espiões e muitos outros.

Esta descoberta esteve na base da criação do Espaço Memória dos Exílio, que nas próximas semanas vai ser palco de um ciclo de conferência dedicados a esta temática.

Para inaugurar este conjunto de ações comemorativas dos 20 anos do EME, António Carvalho, Diretor do Museu Nacional de Arqueologia, vai relembrar hoje (14 de Março de 12019), pelas 21 horas, a descoberta deste espólio, a criação do EME e o seu papel na reabilitação da memória dos milhares de estrangeiros que passaram por Cascais neste conturbado período da história mundial.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Força Aérea procura a sua história



A Força Aérea Portuguesa (FAP) está a desafiar aqueles que passaram pelas suas a fileiras e outros a colaborarem na construção da sua história enviado fotografias e outros documentos capazes de enriquecer os arquivos da instituição.

O material deve ser enviado para o Serviço de Documentação da FAP no e-mail:

Sdfa_chf@emfa.pt

Bons voos...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Para ver durante a semana...

Até ao final da semana pode visitar junto da Biblioteca da Eascola EB. 2, 3 Cardoso Lopes, na Amadora, a exposição "Contar o Holocausto..."

Nesta mostra poderá encontrar espaços expositivos dedicados a Adolfo Hitler, uma reconstituição de uma câmara de gás, os vários símbolos dos uniformes usados pelos presos dos campos de concentração, informação sobre Anne Frank e Aristides de Sousa Mendes. Presentes estão também obras infantis e da historiadora Irene Pimentel dedicados a esta temática, cartazes daquele período e outras informações e peças...

Até ao dia 8 de março pode também visitar "Desenhar contra o esquecimento" no Andar Nobre da Assembleia da República. Trata-se de uma mostra realizada em parceria com a Embaixada da Áustria e a Embaixada da Alemanha, que consiste em desenhos de grande escala, a carvão, representando crianças assassinadas durante o regime nazi. Cada desenho é acompanhado por textos de contextualização.



Boas visitas...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O Postalinho...
Um caso único na História do Crime


Postal alemão de propaganda publicado em data desconhecida, mas certamente posterior a fins de 1941, altura em que o EUA entraram na guerra.

Os alemães ridicularizam a aliança entre britânicos, americanos e a russos, aqui representados pelos seus líderes, nomeadamente, Churchill, Roosevelt e Estaline.

A associação da imagem dos três líderes foi utilizada para desacreditar os aliados porque a máquina de propaganda do Eixo sabia que em Portugal se admirava a Inglaterra, se suspeitava dos americanos, mas, acima de tudo, se temia a Rússia e o comunismo. 

Estaline surge normalmente com um aspecto andrajoso ou monstruoso, consoante o tipo de representação pretendida, o que acentua ainda mais a diferença em relação às duas outras personagens.

Carlos Guerreiro

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

«O homem que veio do Outro Mundo» (4)
A vida em Dachau

Terminamos nesta publicação a transcrição da entrevista dada por José Agostinho das Neves ao jornalista Fernando Teixeira, do Diário Popular, em Novembro de 1945.

Nesta trecho é descrita a vida em Dachau e a libertação do campo pelos americanos...

Espero que o trabalho em transcrever estas longas páginas de jornal sejam úteis.



Recomeça aqui a transcrição:

Seis homens numa cama com 70 centímetros de largura

“Eu vou com alguns dos meus companheiros, de França, para o Block-21. O recinto ocupa uns mil metros quadrados. Ficámos ali a viver 1200 homens que, durante a noite, deveriam dormir numa barraca que mal comportava 300. Quando nos cabia a vez de adormecer sob o telhado da barraca, a coisa não era fácil, pois as camas, de madeira, sobrepostas em três compartimentos, só tinham 70 centímetros de largo para seis homens cada.

O que nos valeu foi que a fome nos havia feito emagrecer muito…”

- Como era o regime dos prisioneiros em Dachau?

- De manhã, às 4 e meia, eramos obrigados a levantar-nos e a sair para o pátio onde permanecíamos todo o dia até às 7 da tarde, qualquer que fosse o tempo cá fora. No Inverno, o sofrimento foi doloroso. Com a chuva, a neve e o frio e sem nos podermos abrigar «, só nos restava um recurso: apertar-nos uns de encontro aos outros, como um rebanho de carneiros e ficarmos para ali a procurar não deixar fugir o calor que cada um de nós pudesse armazenar e ceder ao outro. Sem roupa que chegasse e sem calçado, com uma temperatura de 24 graus abaixo de zero, muitos caiam sem sentidos e, assim iam morrendo. Outros, com os pés gelados e gangrenados, eram levados ao hospital ou metidos como coisa inútil no forno crematório e queimados vivos. O espectáculo começou a ser tão vulgar que cada um de nós esperava a entrada no forno como o fim lógico daquela vida ilógica. Durante o dia, para romper a monotonia daquela vida miserável e para que os guardas não se aborrecessem, faziam-nos formar e conservar horas seguidas na posição de sentido para ver a nossa resistência e separar os que deviam partir para os trabalhos nos “comandos” e os que, por serem fracos, iam acabar na câmara dos gases, mortos por asfixia e intoxicação.

A voz do meu companheiro de Paris volta a ter um som cavo, e a sumir-se como se as próprias palavras lhe causassem pavor:

- Quando se fazia esta escolha – a “visita” como nós lhe chamávamos – o silêncio era profundo, doloroso. Cada um de nós pensava consigo: “Será agora a minha vez? Os mais animosos despediam-se dos camaradas antes de serem levados para a câmara de gases e abriam a boca num sorriso em que ia todo o seu desprezo pelos “nazis”, aniquiladores de uma raça, de uma civilização, de um continente.

Outros tinham um grito pueril: “Os americanos hão-de vingar-nos!”

Os alemães sabiam do avanço aliado em terras da França e da própria Alemanha – e não perdoavam. E muitos dos condenados eram mortos ali mesmo a tiro. Menos gás que se gastava na câmara…


Atacado de tifo e não tratado

Depois de ter escapado em várias “visitas”, acabei por ser incorporado num transporte com destino a Hamburgo. Mas não cheguei a ir. Atacado de tifo, estive nove dias com 40 graus de febre. Os meus companheiros, condoídos, amontoavam-se nas outras camas para me deixarem só com mais dois no meu leito. Mas ninguém podia tratar-me. E os médicos do campo tinham mais que fazer, ocupados em averiguar até que ponto resistiam aos bacilos do cólera e do paludismo alguns dos internados no campo transformados em cobaias. Depois dos nove dias, começo a sofrer de disenteria. Os camaradas chamaram os guardas. O meu estado já não deixava ilusões a ninguém. Sou então dado como “kaput” e levado para o “block 30” – o dos condenados a desaparecer, pela fome ou pela doença.

Aí, a lotação era de 1200 homens e já não havia camas. Tíficos, tuberculosos, grípicos, estavam, lado a lado no chão da barraca carpindo as suas dores, delirando nos seus sonhos de febre alta. Morriam, em média, 40 por dia. De manhã os cadáveres eram levados para a casa de lavar (a indiferença com que nós os afastávamos do caminho quando íamos passar um pouco de água na cara e nas mãos!) Depois um carro vinha buscá-los descarnados, amontoados uns sobre os outros, nus (porque o seu fato ia logo servir a outros que entrassem de novo!).

Nunca mais poderei esquecer esse carro fantasma! Quantas vezes, ao vê-lo passar, eu cheio de febre, de dores, de fome, de sede pensava para comigo próprio: “Que mal terei eu feito ao mundo, a este homens? Porque não morro sem mais sofrimentos? Para que resisto? E porque não terei eu direito a viver feliz? Quem semearia urtigas no meu caminho? Quem? Depois, caía, - abatido. Mas sem sabe como, aguentei-me. E, apesar dos meus 39 quilos de peso, a febre ia passando, diminuído dia a dia.

Comecei a comer (nunca fui tratado do tifo ou da disenteria com medo de morrer de fome. De resto a comida não era tanta que matasse: de manhã uma beberagem a que podia chamara-se chá ou café conforme o gosto; ao meio dia, um litro de água quente com um pouco de beterraba; às 7 da tarde, 150 gramas de pão, uma rodela de salsicha e meio litro de infusão de ervas, sem açúcar.


A flagelação e a agressão

- Como explica a sua resistência à doença?

- Sabe-se lá! Quando voltei a Paris, um médico disse-me que tinha esgotado todas as minhas reservas. E que me valera não ter sofrido qualquer castigo grave durante o tempo que estive em Dachau. Se isso tivesse acontecido, não resistiria à perda de mais reservas do organismo. E o meu castigo foi só estar nu e em pé um dia inteiro no pátio porque aparecera um piolho na minha cama…

- Mas de que sorte eram os outros castigos?

- O mais frequente era o da flagelação. O castigado deitava-se sobre um pequeno carrinho de jardim, de joelhos, com as mãos atadas à roda. Dois guardas, munidos de nervos de boi, aplicavam-lhe então, alternadamente, nas costas e nas nádegas, o número de vergastadas que lhe fora atribuído, nunca inferior a 25. Vi um homem que ficou com os ossos à superfície, após ter recebido 300 vergastadas. E quando o supliciado soltava um grito, os golpes dados não eram tidos em conta e a contagem começava de novo. Felizmente, nunca recebi qualquer castigo destes. Fui agredido várias vezes a soco e a pontapés, feriram-me com um pau na cabeça, partiram-me os óculos por duas vezes. Foi tudo. Mas os outros… Quantas vítimas dos “nazis”! O forno crematório ardia constantemente. E na sala de banhos havia barras de madeira para os enforcamentos…

- Quais foram os factos que mais o impressionaram durante a sua estadia em Dachau?


O Homem que morreu quando quis

-É difícil. Foram tantos… Mas sabe, depois, a sensibilidade embota-se, já não temos cérebro, nem coração. Andamos, falamos, gritamos ao acaso… Autómatos, enfim. O que mais me impressionou? A morte daquele professor de francês que era meu companheiro de “blok”. Não merece a pena dizer o nome. Um dia, dia nevoento e chuvoso, arrastou-se até junto de mim e mais dois companheiros. Queixou-se amargamente da sua sorte. Depois, encolheu os ombros e disse: “também não vale a pena incomodar-me: isto está por pouco”… Olhou-nos bem de frente com os seus olhos ingénuos, transparentes… E disse-nos adeus. Soubemos depois, duas horas mais tarde, o que acontecera. Saíra de junto de nós, fora à casa de lavar, afastara os cadáveres que estavam no chão, despira-se todo, deitara-se na laje fria. Cinco minutos depois estava morto.

“Aquele soubera vingar-se dos alemães. Eles não o mataram. Foi ele, foi ele que morreu quando quis…”

O outro facto mais impressionante, foi – como não podia deixar de ser – a chegada dos americanos a Dachau. Eu já não tinha esperanças de os ver… Mas um dia, os guardas começaram a fugir, a ser amáveis… Desconfiámos. A câmara de gases estava cheia. Eles bem queriam limpá-la. Mas não tiveram tempo. Quando um companheiro me veio dizer que os americanos estavam já no campo, desatámos os dois a rir às gargalhadas, como doidos. Depois, pedi-lhe ajuda. Levantei-me. Queria ir vê-los. Os meus 39 quilos não aguentavam a caminhada. Levei duas horas da minha barraca ao largo central do campo. Mas cheguei – e ainda tive forças para responder às perguntas:

- O seu nome?

- José Agostinho das Neves, natural de Lisboa… Residia em Paris…

Caí no chão, exausto a chorar e a rir… Voltara do Outro Mundo.

Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 23 de Novembro de 1945

--- Leia aqui as PARTE 1PARTE 2; PARTE 3

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

"Debaixo do Céu" com Irene Pimentel


No próximo sábado, dia 9, a historiadora Irene Pimentel vai estar presente na sessão de "Debaixo do Céu" que vai ter lugar no Cinema Ideal. Será pelas 17.15 horas.

Presentes vão também estar o realizador Nicholas Oulman e o produtor Paulo de Sousa... 

Um bom filme... 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

«O homem que veio do Outro Mundo» (3)
O longo caminho para Dachau

Continuamos com a transcrição da entrevista dada por José Agostinho das Neves ao jornalista Fernando Teixeira em finais de 1945. O homem que terminaria a guerra no campo de concentração de Dachau continua o relato do que aconteceu durante a viagem no "comboio fantasma". Por causa das acções da resistência francesa e do avanço aliado após o Dia D, o percurso entre o campo de concentração francês de Vernet e a Alemanha, prolongou-se por meses...

Ficam também as primeiras impressões sobre Dachau.

Como já foi referido a entrevista foi tema em duas edições distintas do jornal Diário Popular. Com esta publicação vamos transcrever as primeiras linhas publicadas na edição do dia 23 de Novembro de 1945.

Título na primeira página do "Diário Popular", de 25 de Novembro de 1945.

O Homem que veio do Outro Mundo (2)

A caminho de Dachau

Dois meses de comboio para ir de França à Alemanha
A vida num campo de concentração alemão descrita por um português prisioneiro

A conversa com o meu companheiro daquele fim de tarde de Paris durou algumas horas. E o que mais me impressionava nele era a arrumação das suas recordações. Dir-se-ia que tinha escrito na memória, que folheava páginas de um livro. Foi ele que me deu a explicação:

- Não se admire. Durante meses e meses, não pude ter o prazer do isolamento. Vivi sempre, onde quer que encontrasse, lado a lado, ombro a ombro com outros homens. Não olhava para qualquer parte que não visse um rosto amargurado. Não soltava um gemido que não recebesse outro em troca. E eu que gostava de me isolar, de pensar – só encontrei remédio nesta espécie de nirvana a que me votava. Durante esses momentos, recapitulava a minha vida e fazia o possível por esquecer o que me rodeava. Tantas vezes o fiz que as imagens, as datas e as palavras, à força de repetidas, nunca mais me esqueceram.

Uma pergunta que eu queria fazer-lhe há muito tempo:

- Havia muitos portugueses nos campos de concentração onde esteve?

- Em Dachau, onde terminei a minha odisseia, conheci oito, vindos de vários pontos da Europa. Só regressei eu e outro que mais tarde vi aqui em Paris e creio que vive agora na província. Comigo no comboio seguira também outro. Em Angoulême, foi atingido por uma bala explosiva numa perna, durante o ataque dos aviões ingleses. Mas como no momento de ser transportado para o hospital, lhe foi descoberta nos bolsos uma carta, devolveram-no para o vagão e ali ficou sem qualquer socorro – à espera que a perna apodrecesse ou se curasse milagrosamente. Soube-se depois que a carta lhe fora entregue por um companheiro com o pedido de, no Hospital, a mandar para o correio. Esse companheiro tinha mulher e queria dar-lhe a ilusão de que vivia. A carta nunca chegou ao seu destino – e ele também não. Morreu pouco tempo depois, noutro vagão desconjuntado de outro comboio infernal.

Uma pausa para «ler no cérebro». E a história interrompida, contínua:

- Andávamos nove dias neste vaivém de comboios no sul da França. Impossível avançar, tais eram as destruições operadas pelo «maquis» nas vias férreas. E voltámos a Bordéus. Desembarcámos a custo. Mal nos tínhamos de pé. Mandaram-nos seguir ruas fora durante a noite e acabaram por nos metes no edifício de uma sinagoga onde ficámos dias e dias à espera do inverosímil: que os comboios pudessem seguir para a Alemanha. O templo israelita tinha sido, no seu interior, completamente devastado pela soldadesca alemã. Ainda havia montes de pedras, de madeira, de caliça. Misturámo-nos com o lixo, os ratos, as baratas, e toda a espécie de parasitas. Amontoámo-nos uns em cima dos outros a fim de arranjar lugar deitado para os doentes e feridos. O português, com a barriga da perna furada, gritava desesperadamente. Quanto sofreu o infeliz! Mal sabia ele que só dois meses depois, na Alemanha, seria tratado! E quem lhe diria que, após esta prova de resistência quási inacreditável, haveria de morrer estupidamente de uma gripe – que de ninguém tratou evidentemente!


100 homens fechados à chave

Certa vez tínhamos acabado a nossa única refeição do dia – uma malga de caldo e um pedaço de pão de cor duvidosa – quando se abriram de novo as portas da sinagoga. Íamos voltar a embarcar. Na estação, esperavam-nos mais 400 presos, entre os quais 80 mulheres, vindos não sei de onde. Encurralaram-nos em vagões como nas viagens anteriores – somente um pouco mais apertados. Em vez de 70, como até ali, éramos agora 100 homens fechados à chave com bons cadeados. A respiração era deficiente mas felizmente – com pouco nos contentávamos! – havia frestas abertas no tejadilho. Perdi de vista o português ferido, não voltei a ver o velho de barbas brancas que chorava e que ficou para sempre estendido no chão frio da sinagoga. Pôs-se-me um nó na garganta ao saber por outro prisioneiro que o pobre velho falara de mim ao morrer. Como tenho saudades do tempo em que ainda me comovia!

Como não podíamos seguir a viagem com o itinerário traçado antes, voltámos a passar por Toulouse e dirigimos-nos a Nimes, por Narbomei. A nossa chegada àquela região coincidiu com o desembarque das tropas francesas em Saint Raphael. E como a aviação americana não deixava de bombardear os arredores, o comboio parou. Começaram então oito longos dias de sofrimentos. Fechados no vagões, comendo só uma vez ao dia – um pedaço de pão coberto de bolor e uma rodela de salsicha – e não tendo mais que meio decilitro de água por 24 horas, fomos caindo doentes a pouco a pouco. A fome, a sede e o calor mudavam as expressões. Loucos ou moribundos?

Como a desgraça faz dos homens feras sem coração! Se nos visse, se visse como nos batíamos por um pedaço de pão a mais que sobejasse da boca de um doente! Depois as salsichas acabaram e foram substituídas por um tomate cru para cada vagão. Faz ideia do que seja dividir por 100 homens um tomate cru? Pois ninguém ficava sem o seu quinhão. E que ficasse! Era uma questão que nunca mais acabava – e ódios surdos e lutas e insultos.


Um batalhão de miseráveis atravessa vilas e aldeias

Quando o comboio se pôs de novo em marcha, poucos quilómetros andados, uma ponte destruída por bomba de avião cortou-nos, de novo, a passagem. Somos obrigados a descer e a abandonar as nossas bagagens, pobres bagagens de roupas sujas e velhas e de retratos amarelecidos pelas lágrimas, pelo suor e pelo calor – restos de uma vida que ficou para trás.

Fomos a pé de Roquemaure a Sorgnes, cerca de 20 quilómetros através de vilas e aldeias. Quando me lembro dessa caminhada!... Batalhão de miseráveis, descalços, rotos, alguns quási nus, olhos esgazeados, lábios gretados da febre, pés inchados, mãos descarnadas sempre em busca de ervas ou raízes no chão para levar à boca escaldante, ávida, sôfrega do que quer que fosse trincável!
Atrás e aos lados vinha a matilha dos “cães de guarda”, espingardas e metralhadoras prontas a disparar se um nós ficava para trás, coronha descarregada na cabeça do que não tivesse força para andar.

Mais adiante esperava-nos outro comboio. Voltámos aos vagões. E tudo se passou, dias e dias, da mesma maneira, até chegarmos a Pierreffite, onde novo ataque de aviação nos esperava. Novo e trágico ataque. Ah! Se eles soubessem que nós não éramos alemães! Mas tudo era impossível para lho fazer ver. Nem nos restava o ardil das camisas a fazer de bandeira. Qual de nós ainda tinha camisa?
Foi verdadeiramente infernal aquilo. Dessa vez o ataque era feito à bomba. O meu vagão não tinha sido atingido, mas quando saímos – porque a locomotiva fora pulverizada por um impacto directo – verificou-se que nove prisioneiros estavam mortos e 20 gravemente feridos. Estendidos na relva de um prado à beira da linha os infelizes entoavam uma canção trágica feita de dezenas de gritos, de brados de raiva  - de palavras sem nexo em várias línguas. Socorremo-los como pudemos porque os alemães – “valentes” como já sucedera anteriormente – tinham-se refugiado no bosque e vigiavam-nos com as metralhadoras, não fosse algum aproveitar a ocasião para fugir. 

Rasguei as calças que levava na trouxa da roupa e fiz ligaduras. Outros procuraram fazer o mesmo. Outros limparam feridas e fizeram pensos com ervas e folhas de árvores. Mas os nosso “doentes” não resistiram na maior parte, aos “tratamentos”. Um morreu-me nos braços. Outro pôs-se em pé, desvairado, louco e desatou a fazer sinais inúteis aos aviões que ainda se viam no ar. Conseguiu o que queria. Uma rajada de metralhadora alemã acabou com ele.


A chegada a Dachau

Estamos a conversar há horas. Aproveito uma pausa para lhe propor um pequeno passeio à beira do Sena. A noite vem caindo aos poucos. Encontramo-nos os dois cansados: ele de falar, eu de o ouvir com atenção para não perder uma palavra. Seguimos por um passeio da margem esquerda. Caminhamos lado a lado, sem proferir palavra, a gozar a quietude e o encanto da rua que se recolhia à sombra dos chorões. E pisávamos voluptuosamente folhas amarelecidas, esquecidos por momentos, do mundo que ele vivera – do “Outro Mundo”.

Foi o meu companheiro que voltou a falar outra vez:

- Por fim, e depois de muitas peripécias, chegámos à Alemanha. Tinham-se passado dois meses após a nossa saída do campo de concentração em França. Dos 500 que éramos a princípio, dos 900 que fomos depois em Bordéus, só restava metade. Os outros tinham morrido - ou fugido.

- Fugido?

- Sim. Nunca soube como, mas alguns ainda tiveram forças para fugir nas andanças de subor e descer dos vagões. Onde teriam ido parar? No estado de saúde e fraqueza em que estavam, talvez não tivessem andado mais de 500 metros. Mas quem sabe medir o poder da resistência humana à dor e à fome?

- Todos os mortos foram vítimas dos bombardeamentos e da fome?

- Muitos não resistiram também aos maus tratos. As coronhas das espingardas alemãs fracturaram muitos crânios.

Uma nova pausa. Paramos junto a uma alfarrabista. Olho um velho volume, sujo, carcomido pelo uso. Lemos os título: “Viagens  de turismo na Alemanha”. E desatamos a rir à gargalhada. Depois ele volta a contar:

- Se a viagem fora cruel, medonha, desumana, a nossa recepção no campo de concentração de Dachau foi ainda pior. Mal as portas dos vagões forma abertas, cães enormes saltaram para dentro deles ensinados na missão de nos expulsarem depressa. Os guardas vociferavam o maldito “Alles raus!”. Fugíamos, com igual temor, aos homens e aos cães, saindo dos vagões aos trambolhões, a cair uns por cima dos outros.

Chegados ao campo, após uma marcha de algumas centenas de metros, reuniram-nos no meio de uma praça triste ladeada de toscas construções. E ali ficámos toda a noite, deitados no chão, quási despidos, sem nada com que nos abrigar. No dia seguinte, depois das formalidades do registo de entrada, fomos conduzidos aos serviços de recepção. Aí despojaram-nos de tudo quanto possuíamos. Ficámos nus – à espera de um “barbeiro” que nos rapou da cabeça aos pés. “Vestiram-nos” então umas calças e um casaco em farrapos, herança de um pobre prisioneiro que morrera.

Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 23 de Novembro de 1945

--- Leia aqui as PARTE 1PARTE 2PARTE 4.