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sexta-feira, 24 de maio de 2019

O incidente do Serpa Pinto (1)
A cronologia de uma ameaça de naufrágio

Nas próximas semanas vamos desenvolver o caso da abordagem do navio Serpa Pinto por um submarino Alemão em Maio de 1944. Hoje apresentamos uma cronologia dos acontecimentos e fica prometido que lá mais para a frente escreveremos também sobre outros questões relacionadas com este incidente.

O navio "Serpa Pinto" interceptado 
em 26 de Maio de 1944 por um U-boat alemão.
No dia 26 de Maio de 1944, às 00.10 horas, o navio português Serpa Pinto foi interceptado na viagem entre Ponta Delgada e Filadélfia pelo submarino alemão U-541 que após uma inspecção ameaçou afundar o paquete, com a justificação de que este transportava mercadoria para os EUA e para o México - países inimigos da Alemanha - e ainda cidadãos em idade militar também oriundos de nações adversárias.

Durante a madrugada centenas de tripulantes e passageiros foram obrigados a abandonar o navio, esperando em baleeiras que se concretizasse a ameaça de afundamento. Ao raiar do dia o comandante alemão recebeu ordens de Berlim para deixar o Serpa Pinto prosseguir viagem. Dois passageiros de nacionalidade americana, em idade militar, foram detidos e levados para Lorient, base para onde o U-541 regressou a 22 de Junho. Três outras pessoas, dois tripulantes e uma criança que vinha como passageira, faleceram durante o processo de abandono do navio.

O comandante Américo dos Santos tinha saído de Lisboa com o Serpa Pinto, da Companhia Colonial de Navegação, a 16 de Maio, fazendo escala no Porto (18 de Maio) e Ponta Delgada (21 de Maio) antes de rumar a Filadélfia. A bordo seguiam 158 tripulantes e 228 passageiros – 179 embarcados em Lisboa; 19 no Porto e 30 em Ponta Delgada -, muitos deles refugiados, alguns com destino aos EUA e outros com vistos para o Canada e para a Austrália.

A intercepção e fiscalização pelo submarino alemão tiveram lugar nas coordenadas 35º 58'N de latitude e 53º35´W de longitude, a cerca de 600 milhas do destino. Para uma compreensão mais clara do que aconteceu durante o dia de 26 de maio elaborou-se uma cronologia que resume os principais momentos deste incidente e que reúne material recolhido em relatórios e documentação oficial disponível em diversos arquivos portugueses:

00.10 Horas
- Avistamento de sinais luminosos pelo través de estibordo, ouvindo-se também uma rajada de metralhadora que terá servido para chamar a atenção do Serpa Pinto.

00.20 Horas
 - O comandante do Serpa Pinto dá ordem para a parar as máquinas na Latitude 33º 58’ Norte e Longitude 53º 35’ Oeste. A embarcação estranha envia por sinais luminosos a mensagem: “Send a Boat”. Na água é possível perceber-se o recorte da silhueta de um submarino.
 - Do Serpa Pinto é enviada uma baleeira comandada pelo imediato Manuel Valente de Pinho. Leva consigo documentos e passaporte do navio, manifesto de carga, listas de tripulantes e de passageiros.

01.00 Horas
- A baleeira regressa ao navio português trazendo a bordo um oficial alemão acompanhado de um marinheiro armado. O imediato Valente de Pinho ficou retido no submarino tal como os documentos do navio.
- Todos os passageiros e tripulantes são chamados para o tombadilho de 1ª Classe.
- O militar alemão mostra interesse na carga – grande parte vinho e aguardente – e nos passageiros de nacionalidade americana com idade militar. Diz ao português que a carga é ilegal e em relação aos passageiros americanos mostra-se surpreso por vários não falarem inglês. O comandante explica que apesar de terem nascido nos EUA faziam parte da comunidade portuguesa e só falavam português.
- O oficial alemão seleccionou um passageiro – Camillo Grande Perez, de 24 anos - nascido no Canadá para o acompanhar até ao submarino. Ordenou que fosse ao camarote buscar alguma roupa e esperou o seu regresso, mas ele aproveitou o momento e escondeu-se. Perante a ameaça de afundamento imediato o homem foi procurado e encontrado pelos restantes passageiros e tripulantes, sendo entregue aos alemães.

01.40 Horas 
- O oficial alemão termina a inspecção aos documentação do navio e à lista de passageiros, reembarcando na baleeira levando o jovem nascido no Canadá.

02.15 Horas 
- O Imediato regressa a bordo do Serpa Pinto dizendo que o comandante alemão exige que abandonem o navio o mais rapidamente possível pois pretende afundá-lo.

02.20 Horas 
- É dada ordem para arrear as baleeiras e abandonar o navio. As 385 pessoas embarcaram nos salva-vidas no tempo estipulado. A operação foi facilitada pelo bom estado do mar e pelo facto de todos os passageiros se encontrarem reunidos no tombadilho de Primeira Classe.

02.35 Horas 
- O Serpa Pinto encontra-se parado e abandonado por todo o pessoal.
- Algumas baleeiras afastam-se, mas o capitão Santos mantém-se perto esperando que se concretize o afundamento.
- Segundo o relatório do capitão Américo do Santos, o Submarino “não fazia senão pavonear-se pelo meio das baleeiras cheias de gente que vivia ali um dos momentos mais cruciantes da sua vida”.

05.00 Horas 
- As baleeiras estão a dispersas pela água e algumas encontram-se já muito afastadas do Serpa Pinto.

07.00 Horas 
- O submarino aproxima-se da baleeira do comandante português e capitão alemão - Kurt Petersen -ordena que este suba a bordo. Américo dos Santos pede aos tripulantes que esperem pelo seu regresso, mas os alemães empurram o salva-vidas para longe com os pés e prosseguem a marcha.
- O comandante do U-boat informa que espera autorização de Berlim para realizar o afundamento.
- Américo dos Santos alerta os alemães para o facto de várias baleeiras estarem muito distantes, situação que poderá dificultar o reembarque caso Berlim não autorize o afundamento. Petersen permite que se utilize um megafone para reunir as embarcações dispersas e informa ainda dos Santos que, caso se confirme a ordem de afundamento, ele ficará como refém.

07.30 Horas 
- O telegrafista do submarino sobe à torre do submarino com uma mensagem, mas ainda não é a resposta definitiva.

08.00 Horas
 - Chega ao submarino a informação de que o Serpa Pinto não deverá ser afundado.

08.15 Horas 
- Américo dos Santos recebe a documentação do navio. É chamada uma baleeira e ele embarca com ordens para enviar para bordo do submarino dois passageiros americanos em idade militar, nomeadamente os que têm os números 45 e 112 na lista de passageiros.
- O reembarque de tripulantes e passageiros no Serpa Pinto prolonga-se por três horas.

11.15 Horas 
- Todos os tripulantes e passageiros estão de regresso ao Serpa Pinto e isso inclui o cidadão canadiano retirado pelos alemães horas antes.
 - Procedeu-se à chamada de todos os passageiros e tripulantes, detectando-se a falta de três pessoas: Uma criança de 16 meses chamada Beatrice Trapunski, filha de Abraham e Eva Trapunsky, embarcados em Lisboa com destino ao Canadá; o médico António Ferreira Machado que caiu à água durante o embarque nas baleeiras e, por fim, o cozinheiro Hermano António que terá sido atingido por uma peça da equipagem quando as baleeiras foram lançadas à água.

12.15 Horas 
- Manuel Pinto e Virgílio Magina, americanos em idade militar foram entregues ao submarino.

17.00 Horas
 - Termina a operação de içar as baleeiras e o Serpa Pinto continua a viagem.

Na próxima semana voltaremos a abordar este incidente com o Serpa Pinto com o objectivo de ficar a saber mais sobre o navio, os passageiros e outras questões relacionadas com o caso.

Carlos Guerreiro 

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