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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Familiares de aviadores de Lancaster da RAF em Vila Chã

Vila Chã vai receber no dia 22 de Novembro (Domingo), os familiares de dois tripulantes do bombardeiro da RAF, Lancaster, que em 1943, realizaram uma aterragem de emergência na praia do Puzo, naquela localidade do Norte do país.


Confirmada está a presença do filho do piloto e com o sobrinho neto de um outro tripulante. O grupo que dinamiza o museu local "Memórias de uma Terra" vai aproveitar a iniciativa para inaugurar, durante a tarde, uma placa para recordar o incidente que ocorreu em plena II Guerra Mundial.

Há alguns meses, quando foi inaugurado no museu uma área a lembrar o acontecimento, foi apresentado um vídeo realizado por Bruno Costa onde era contados os detalhes sobre aventura do Lancaster que, depois de participar num bombardeamento no sul de França, se perdeu no regresso a Inglaterra terminando a viagem em Vila Chã.

O filme seria colocado no Youtube e já foi visto nos quatro cantos do mundo. O autor também o colocou numa página de facebook que reúne aviadores e familiares da esquadrilha a que pertencia o aparelho, a 619. Foi aí que foi visto por familiares dos tripulantes que agora se deslocam a Portugal...



Termino com uma nota pessoal. O evento e tudo o que está com ele relacionado deve-se à persistência das pessoas locais que apostaram na recuperação da memória da sua terra. Limitei-me a ajudar quando solicitado e como podia. No livro abordo por alto esta história, enviei alguma documentação e apontei os locais onde poderiam aceder a outras informações.

Não foi nada de especial, mas sinto-me babado. Não é todos os dias que vejo ganhar vida uma história sobre a qual lemos em páginas amareladas e sobre a qual escrevemos algumas linhas há vários anos...

Tenho mesmo de lá estar...

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Aromas de história




Na serra de S. Brás de Alportel pode agora visitar-se o local onde se despenhou um bimotor Douglas Boston da RAF, em Abril de 1943.

Os proprietários do terreno, Nuno Dias e Laura Mendonça, estão a desenvolver uma quinta de ervas aromáticas – a "Dias de Aromas" - e como a cratera onde a fuselagem se despenhou ainda se encontra local, resolveram colocar uma placa a recordar o acontecimento.

O aparelho, com três tripulantes, dois deles civis, estava em rota para o Reino Unido quando surgiram problemas num dos motores na zona do Cabo de S. Vicente. O piloto deu meia volta com o objectivo de regressar a Gibraltar, mas entre Faro e Tavira, deflagrou um incêndio.

Os três homens - B. Shokett e W. C. Hay (civis), e o oficial da RAF R. Chartres – saltaram de paraquedas. Apesar de alguns ferimentos, todos sobreviveram e foram repatriados semanas mais tarde. O Nuno Dias tinha-me contactado em Outubro para saber se podia utilizar o material que estava no site do “Aterrem em Portugal!”. “Obviamente” que sim…

A redescoberta e o aproveitamento destas pequenas histórias sempre me fascinou.

Parabéns aos autores da ideia…

Carlos Guerreiro

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Familia de aviador sepultado no Porto procura informações

 Na tarde de 13 de Julho 1941 o sargento-aviador da Real Força Aérea, William Bernard Oakes, de 21 anos, morreu aos comandos de um bombardeiro Wellington da RAF quando este se despenhou, no mar frente a Fão, perto de Esposende.

Setenta anos depois, e após consultar diversos arquivos, a família continua a procurar respostas na tentativa de reconstruir o que aconteceu naquele dia.

Com William, co-piloto do aparelho, mergulharam no mar cinco camaradas de armas (ver AQUI)…

Os seus corpos mutilados foram reunidos num único caixão que descansa no cemitério de St. James, no Porto.

Relatórios contraditórios das autoridades britânicas tão depressa referem o incêndio num dos motores ou a instabilidade do clima como responsáveis pelo que aconteceu.

Quando me chegou o apelo de Ian Garth, o cunhado de William, confesso que tinha muito poucos dados sobre este desastre.

Uma leitura dos jornais da época trouxe novos dados, mas não esclareceu as contradições. Antes pelo contrário…

Nos diários lisboetas “República”, “Diário de Lisboa”, “Diário de Notícias” e nos portuenses “Jornal de Notícias”, “Comércio do Porto”, “Primeiro de Janeiro” não encontramos unanimidade nos relatos publicados sobre o desastre.

Todos concordam que o acidente aconteceu às 14.30 horas e que o tempo estava nebulado e chuvoso. O mar encontrava-se agitado.

Um desastre, várias versões 

Alguns periódicos garantem que os populares apenas ouviram um avião a sobrevoar a zona – como se procurasse um sítio para aterrar – seguida de uma explosão quando este bateu no mar.

Outros asseguram que testemunhas ouviram o aparelho a circular, mas que também viram como a certa altura ele levantou o nariz e picou para o mar, explodindo com o impacto…

O “Diário de Notícias” – e refiro o nome porque é o único que descreve assim o acidente - conta de forma detalhada como se ouviu uma explosão antes do avião, em chamas, se precipitar para o mar. Deixava atrás um espesso rastro negro de fumo…








Notícias publicadas nos jornais 
de Lisboa e Porto 
nos dias 14 e 15 de Julho de 1941, 
com relatos do acidente.
Apesar da maior parte dos relatos 
serem muito semelhantes 
sobre o que aconteceu 
depois do desastre, 
existem, pelo menos, 
três versões diferentes
 do momento do acidente.













O aparelho despedaçou-se no mar, muito próximo da praia. O combustível e alguns destroços ficaram a arder libertando uma intensa coluna negra.

 “Imediatamente um grupo de pescadores, apesar da fúria do mar, se prontificou a seguir para o local da tragédia. E assim largou da praia uma pequena embarcação, tripulada pelos marítimos Júlio da Silva Vilela, António Herdeiro e Joaquim Soares, seguindo na mesma o primeiro patrão dos voluntários de Fão, Sr. Gonçalves Figueira”, conta o Jornal De Noticias secundado por outras publicações.

Não foi encontrado nenhum dos tripulantes, mas a embarcação recolheu dois paraquedas, um bote de borracha e um impermeável.

Numa saída posterior seria encontrado uma roda e parte de um trem de aterragem…

Logo nesse dia chegaram à praia uma carta, com destino a Malta, e distintivos canadianos…

È pedida a vinda do rebocador “Teixeira de Queiroz” e de um salva vidas do Instituto de Socorros a Náufragos, para colaborar nos trabalhos de resgate do avião e na tentativa de localizar os corpos.

Na manhã do dia seguinte é descoberto o primeiro sinal de humanidade. Dá à costa o tronco mutilado de um homem, com parte da farda vestida… ostenta as divisas de sargento.

Transportado para o quartel dos bombeiros de Esposende será identificado como pertencente ao telegrafista do avião. Nas notícias os aparelho já aparece identificado como um bombardeiro britânico Wellington.

A praia fica juncada de todo o tipo de destroços “tais como paraquedas, rodas do trem de aterragem, e muitos maços de correspondência que se destinava a Malta”, explica mais uma vez o “Jornal de Notícias”.

 Nos dias seguintes – por opção ou por imposição da censura - os jornais silenciam as notícias sobre as operações de resgate.

Só a 19 regressam ao assunto para informar que os corpos tinham sido recuperados e que, nessa tarde, se realizariam os funerais.


A urna aos ombros de veteranos britânicos da I Guerra Mundial. Sargentos portugueses acompanham o funeral (em cima).
Soldados de Infantaria 6 ladeiam os caminhos por onde passa a multidão que acompanha a cerimónia (em baixo).


A comunidade inglesa do Porto encerra lojas e serviços e apresenta-se em massa no funeral. São centenas as pessoas que marcam presença nas cerimónias.

Os restos mutilados dos sargentos da RAF William Bernard Oakes, Henry Gerald Peel, Colin James Dixon, Trevor Vaughan Davies, Derek Cecil Haynes e Stephen Thomas Mcneil foram reunidos apenas num caixão, ao qual um pelotão de Metralhadoras 3, assegura a guarda de honra.

Finda a missa, conduzida pelo reverendo Johnson, seguem para o cemitério inglês.

São os ombros de veteranos britânicos da I guerra que carregam a urna entre os vários percursos, mas há também uma delegação de sargentos portugueses, militares de diversas graduações e autoridades civis portuguesas no topo do cortejo.


Militares portugueses e britânicos prestam homenagem aos aviadores. O mais alto é o adido aeronáutico da Embaixada Inglesa, o coronel Schreiber (em cima).
Soldados de Metralhadoras 3 disparam três salvas em honra dos mortos (em baixo)


No cemitério é uma unidade de Infantaria 6 que marca a o percurso para a passagem da multidão.

Junto à campa, enquanto a urna desce à terra, “os soldados de Metralhadoras 3, armados de carabinas, fazem três descargas sucessivas, sob o comando vibrante da imperativa voz de: - Fogo”, relata o “Primeiro de Janeiro”.


A colónia Inglesa submergiu com flores a campa dos aviadores.


“As autoridades inglesas e portuguesas desfilam ainda mais uma última vez perante a grande cova, onde caem já, cavamente, as primeiras pazadas de terra; e toda a gente desfila depois, sem um gesto, uma palavra”, concluí o JN.

Mais dramático, no sentido teatral da palavra, é a conclusão do “Primeiro de Janeiro”: “A nosso lado, uma senhora inglesa - de perfil austero e nobre (...) – é tomada de viva e profunda comoção. Os olhos inundam-se-lhe de lágrimas, mas logo se reanima e, erguendo solenemente a mão direita, desenha no espaço a figura geométrica dum V – a simbólica inicial da palavra Vitória…”

Um apelo público

Face à soma de contradições foi decidido realizar uma apelo público, para tentar encontrar outros relatos e, especialmente, memórias sobre deste incidente…

Talvez seja possível encontrar alguém que tenha sido testemunha do desastre ou seja “herdeiro” desses testemunhos …

Será que alguém conhece ou conheceu os pescadores que não hesitaram em lançar-se ao mar, apesar do mar revolto?

Poderão existir fotografias das operações de resgate? Notícias em jornais locais?

Museu de Cosforth, Inglaterra. Em fundo um Wellington a ser restaurado. 
Na foto Michael Garth, Ian Garth, Ian Oakes e Fred Oakes, irmão de William.

Ian Garth gostaria de ter acesso a todas as informações sobre este momento que marcou a história da família da mulher, irmã de William.

Para preservar alguma privacidade e evitar ser bombardeado com mensagens que nada tenham a ver com o assunto, Ian pediu-me para que as mensagens fossem reencaminhadas através do e-mail do Aterrem em Portugal (clique AQUI).

Comprometo-me a reenviar tudo para o Ian.

Para facilitar esse trabalho agradecia – sempre que possível – que me enviassem as mensagens em inglês…

A família de William Oakes agradece antecipadamente todos os esforços relacionados com o esclarecimento deste assunto.

Carlos Guerreiro 
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Nota: Todas as fotos foram cedidas por Ian Garth.

Para ler mais sobre AVIAÇÃO clique AQUI.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Foi bom voar contigo, Tommy

Partilhámos uma paixão comum: os aviões da II Guerra Mundial.

Existia, no entanto, uma diferença fundamental. Eu andava apenas de cabeça no ar, enquanto ele andou mesmo lá por cima...

Em 1941, aos comandos de um bombardeiro Blenheim (ver AQUI) realizou uma aterragem forçada perto de Aveiro… apenas um detalhe da sua vida.

Piloto de testes durante e no pós-guerra John “Tommy” Thompson voou de tudo e, já com os pés em terra, acompanhava as histórias dos seus aviões nas diversas publicações que fazem dos clássicos o seu tema central.

Foi numa dessas revistas que encontrou um pequeno anúncio: um jornalista português procurava veteranos da RAF que tivessem estado Portugal durante a II Guerra Mundial…

Tommy, foi dos que mais contribuiu para o “Aterrem em Portugal!”… contou-me a sua experiência, mas também pesquisou, procurou e partilhou tudo o que encontrou ao longo de vários anos.

Mais tarde, enquanto escrevia,  tirou-me dúvidas e atou muitas pontas soltas.

Em Novembro de 2008, para o lançamento do trabalho, consegui que regressasse a Portugal (um grande obrigado à editora Gabriela Fernandes).

Mal chegou ao aeroporto de Lisboa foi interpelado por jornalistas do Correio da Manhã. Queriam saber se já tinha visto o livro e o que pensava dele…

 Tommy teve resposta pronta: “Já vi… Não tem palavras cruzadas, nem sexo, por isso não deve ser grande coisa”.

Fomos a Aveiro… O exército abriu-nos simpaticamente as portas da Base de S. Jacinto. Local para onde Tommy tinha sido levado após a aterragem forçada.

Passámos pelo Museu do Ar em Alverca, onde reencontrou um Spitfire que tinha comandando enquanto piloto de testes - tenho algures imagens de vídeo dessa visita, que tenho de procurar.

Apresentou o livro.

Sei que adorou e guardou com muito carinho as asas que a Força Aérea Portuguesa lhe ofereceu... "Nenhum dos meu amigos tem uma destas para colocar no fato".

Ainda houve tempo para um passeio ao Alentejo, onde admirou os sobreiros e foi estrela numa exposição de modelismo… Regressou cansado mas satisfeito.

Por isto ou por aquilo, não voltámos a encontra-nos.

Marcámos encontro em Londres… mas um pequeno acidente de viação impediu-o de aparecer.

José Carias Silva e John "Tommy" Thompson, no Alentejo em 2008, durante a exposição de modelismo.

O ano passado convidou-me para a festa dos seus 90 anos… não pude ir. Como me arrependo.

Dois Spitfires fizeram um voo rasante sobre a sua casa durante a comemoração. Escreveu-me para dizer que... ficara com lágrimas nos olhos.

Só não me disse que já estava doente...

Há algumas semanas enviei-lhe um livro com fotografias da Aviação Naval Portuguesa.Tinha imagens da Base de S. Jacinto e dos aviões Junkers que ele recordava ter visto por lá…

Era uma surpresa. Ele reagia depressa a surpresas, mas, desta vez, nada disse.

Esperei e acabei por me tornar insistente no envio de e-mails.

Finalmente um familiar respondeu-me.

Tommy estava internado nos cuidados paliativos, com cancro, e não ia voltar a casa…

O genro fez uma busca pela casa e encontrou o livro de fotografias, ainda dentro do envelope. Tinha chegado no dia em que foi hospitalizado…

Ainda lhe fiz um último favor, traduzindo a legenda de uma das imagens:

"BRISTOL BLENHEIM IV-F" Aircraft
Bi-engined monoplane, three seater, used in the beginning of WWII as fighter-bomber of coastal atack. British made, 16 were transfered to the Naval Aviation under the British-Portuguese agreement that allowed the use of the Azores base (to the allied). These were the aircraft under naval control that had more firepower..."


Tinha de ser sobre o Blenheim...

Sei que no hospital os livros foram companhia e tema de conversa. O da Aviação Naval e o “Aterrem em Portugal!”.

Eram parte da sua história, das suas memórias, do seu mundo… e um bocadinho do meu.

Na terça feira partiu para o seu último voo…

O filho Roger não deixou de reparar que passavam exactamente115 anos sobre o nascimento da pioneira da aviação Amelia Earhart …

Sempre o mundo dos aviões.

Obrigado por também me teres levado a voar.

“Keep on Flying”, Tommy.

Carlos Guerreiro 

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quinta-feira, 19 de julho de 2012

«Ministério das Propagandas»
PODER AÉREO BRITÂNICO

A brochura tem apenas 28 páginas, muitas fotografias e também um texto longo, o que não é norma na propaganda britânica, normalmente mais apostada na imagem.

Traz a data de Dezembro de 1940, uma altura em que a chamada Batalha de Inglaterra já tinha um vencedor reconhecido.

Entre Julho e Outubro daquele ano, primeiro a marinha alemã e depois a Luftwaffe, tinham tentado isolar a ilha britânica e eliminar o seu poderio aéreo, sem sucesso.

Esta brochura parece ser um primeiro respirar de alívio e uma prova de vida para o exterior.

Os britânicos sabiam que tudo o que aparecia em Portugal terminava em mãos alemãs e aproveitam esta publicação para mostrar que sobreviveram... e infligiram a primeira derrota aos seus inimigos.

O texto faz um resumo histórico do que foi a guerra aérea durante a 1ª Guerra Mundial, os feitos do período entre guerras - onde se incluem voos com recordes de velocidade e de distância protagonizados por britânicos – e tenta justificar as razões de uma RAF frágil pouco antes de rebentar o conflito com Hitler.

As primeiras imagens mostram um bombardeiro e um caça da I Grande Guerra e um Supermarine Vikers, responsável por vários recordes de velocidade e uma das experiências de que resultaria o caça Spitfire

Assegura, por outro lado, que agora a sua força aérea se encontra no topo do mundo, com superioridade humana e material em relação ao principal inimigo.

Quem conhece alguma coisa da história da aviação não deixa de sorrir quando olha para os aparelhos que são apresentados como uma garantia tecnológica de que a guerra está ganha…

À excepção dos caças Hurricane e Spitfire – o primeiro também já em fim de vida – e do gigante “Sunderland”, os restantes aparelhos, em especial os bombardeiros, eram já na altura desta publicação aviões obsoletos.

O Spitfire ficou como um dos símbolos da Batalha de Inglaterra

No Comando de Bombardeiros alguns ainda chegariam a 1943, por falta de substituto à altura. Depois vieram os grandes quadrimotores que deram um sentido completamente diferente ao conceito de guerra área e bombardeamento estratégico.






Hurricanes e Defiant's. O primeiro não conseguia competir com os seus rivais alemães e estava no limite do seu desenvolvimento, enquanto o segundo era obsoleto.
















Alguns ainda prolongaram a sua vida útil, desviados para teatros de operações menos exigentes que o europeu ou integrando o Comando Costeiro, onde a a velocidade ou a capacidade defensiva não eram tão cruciais à sobrevivência das tripulações…

Mesmo assim sobreviveram no imaginário de muitos o Blenheim e o Wellington…

Vários aviões deste tipo aterraram aliás em Portugal a caminho de Àfrica ou do Médio Oriente.

De outros, como o Paul Defiant ou o Battle Fairey, quase não reza a história.


O enorme Sunderland foi um dos símbolos da guerra no atlântico (em cima). Fotografias espectaculares ou com pormenores são sempre atractivas em propaganda(em baixo).







A construção de aviões em longas linhas de produção...







Em resultado deste capacidade de combate e de produção os ataques dos "incursionistas nazis" não poderiam ter outro resultado, garante o folheto
















A Batalha de Inglaterra foi mais do que uma vitória de aviões sobre outros. 

Hoje é reconhecida como vital a utilização do radar, uma nova tecnologia que despontava, e permitiu aos ingleses saber com antecedência onde e com quantas unidades iam ser atacados. 

Neste folheto não existe qualquer referência a essa tecnologia, mas é reforçada a importância dos observadores colocados em vários pontos do país.

Através de um sistema de telefones e de rádios seguiam os "enxames" alemães e detalhavam alturas ou destinos.

Tratava-se de um sistema importante de apoio, mas apenas complementar ao radar e ao Comando de Caça,s que já tinha sido utilizado durante a 1ª Guerra Mundial . Não era nada de novo...

A propaganda é como um jogo onde por vezes se mostram parte das cartas, para esconder os trunfos...

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ano novo atribulado de Don Howell

Na manhã do dia 31 de Dezembro de 1943 aterrava de emergência, perto de Grândola, um bimotor Lockheed Hudson da Real Força Aérea Britânica.

Don Howell era o navegador deste avião que esteve envolvido num combate com aviões alemães, sobre Baía da Biscaia, onde viu um dos seus motores ser destruído.

Depois de muita troca de correspondência tive o prazer de o receber no Algarve no ano 2000. Uma madrugada arrancámos para a zona de Grândola em busca da sua história e, se possível, do local onde havia aterrado quase 60 anos antes.

Depois de algumas voltas que nos levaram até ao Rio Sado - muito longe do local onde tudo acontecera - voltámos para trás e conseguimos encontrar o rasto daquele pequeno momento em plena segunda Guerra Mundial.

Na aldeia da MUDA - a cerca de 20 quilómetros de Grândola - encontrámos testemunhas do incidente e também o local onde Don e os seus três companheiros realizaram a aterragem de emergência.

 Recuperámos várias peças de metal derretido enterradas na areia. O incêndio que destruiu toda a fuselagem "enterrou" na areia a confirmação do sítio.



Don Howell (à esquerda), com os irmãos Júlio e José Pereira  e ainda o filho de um deles perto da Muda, no local onde o avião do inglês aterrou de emergência no dia 31 de Dezembro de 1943.

Durante a sua visita a Portugal fiz pessoalmente um registo de imagens da viagem à Muda. A câmara foi-me emprestada pelo João Bispo e o meu desconhecimento sobre o funcionamento do equipamento resultou em imagens sobre-expostas que mesmo assim ainda consegui utilizar.

Felizmente pedi, posteriormente, a um amigo - o Jorge Belo - repórter de imagem profissional que me ajudasse a gravar uma entrevista em condições com o Don. Durante mais de uma hora o britânico respondeu a todas as minhas perguntas...

Agradeço tanto ao João Bispo como ao Jorge Belo a disponibilidade mostrada para me aturar...

Em 2007, durante a realização da disciplina de inglês na Universidade do Algarve, foi-me pedido para apresentar um vídeo - obviamente em inglês - sobre um tema à escolha.

A entrevista e as imagens de Don nunca tinham sido utilizadas. Propus aproveitar algum desse material.

O professor António Lopes abriu-me a porta a essa possibilidade e deixou claro que tinha grandes expectativas...

Espero ter correspondido...

O trabalho tem pouco mais de 20 minutos e está narrado no meu inglês nem sempre perfeito.

Tanto as declarações de Don como as testemunhas portuguesas são apresentadas tal como foram recolhidas. Peço desculpa a quem não entende inglês, mas não me é possível fazer tudo...

Nestes minutos Don conta apenas a sua aventura até à aterragem na Muda.


A sua experiência em Portugal, nas Caldas da Rainha e os seus contactos com os refugiados que ali se encontravam, ficarão para outra oportunidade...


Quando este vídeo foi editado já Don Howell não se encontrava entre nós. Fica o meu abraço para ele e para a família.

O aterrem em Portugal aproveita para desejar a todos os sues amigos e leitores um feliz 2012...

Um Abraço
Carlos Guerreiro
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Para ver outros filmes e vídeos clique AQUI.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Algumas perguntas a Ted Hedges



Ted Hedges foi engenheiro de voo nos quadrimotores B-17 da Esquadrilha 220, do Comando Costeiro da RAF, durante a II Guerra Mundial. Em Outubro de 1943 chegou aos Açores integrado numa das primeiras tripulações a aterrar na base das Lajes.
O objectivo dos britânicos era tapar o “buraco no Atlântico” – uma vasta área do oceano sem cobertura aérea – onde os comboios de navios que cruzavam o mar dos Estados Unidos para a Europa eram constantemente alvos de ataques dos U-Boats alemães.  

Ted foi um dos homens da RAF que nas suas Fortress – nome dado pelos ingleses aos B-17 - realizou patrulhas, escoltou comboios navais e – em última análise – procurou submarinos alemães.

Em Junho de 2011 regressou às Lajes numa visita patrocinada pelo programa “Heroes Return”, apoiado pela lotaria do Reino Unido. O programa paga viagens aos veteranos de guerra que queiram regressar aos locais onde. Neste caso ele também contou com a colaboração local das forças aéreas de Portugal e dos Estados Unidos.

Depois da visita tive a oportunidade de lhe enviar algumas perguntas por e-mail…

Aterrem em Portugal: Porque quis voltar aos Açores?

Ted Hedges: Com 19 anos era engenheiro de voo no terceiro Boeing Flying Fortress que aterrou na pista relvada das Lajes. 

Nos nove meses seguintes conheci e vivi entre pessoas muito pobres mas boas e felizes. Terceira é uma ilha muito bonita. Descobrimos que, por estarmos no meio de pessoas assim e de toda aquela beleza, era possível cumprirmos a nossa missão e ultrapassar o enorme stress e preocupações dos nossos voos.

Quando tive oportunidade de regressar à ilha foi um sonho que se tornou realidade. Teria a oportunidade não só de rever aquela gente simpática, mas também visitar todos aqueles lugares que eram apenas nomes em 1943.

Aterrem em Portugal: Que lugares visitou e porquê?

Ted Hedges: O primeiro sítio de visitei foi a Praia da Vitória. Uma família – agora nos Estados Unidos – recebeu-me na casa deles e foi muito simpática. Praia era uma vila e podíamos comer grandes refeições de galinha frita, com batatas, pão fresco e manteiga. 

Estava à distância de um passeio a pé das Lajes ou podíamos ir numa carroça, puxada por cavalos, pagando cinco escudos cada um. Em 1943 recebíamos cem escudos por uma Libra. Não havia qualquer tipo de sistema de transportes organizado, por isso – e para além de duas ou três visitas a Angra – só víamos o resto da ilha do ar.

A minha ajudante Eva (a enfermeira que acompanhou Ted nesta última viagem) e eu ficámos no Angra Garden Hotel, que era bastante bom e aproveitámos para ver o máximo possível da ilha.  Levaram-nos a dar um passeio e fizemos visitas ao comando das bases portuguesa e americana. Fomos bem recebidos em todo o lado e na base americana pediram-me para fazer uma gravação – de que tenho uma transcrição – cobrindo os voos operacionais de todos os esquadrões baseados nas Lajes durante os nove meses em que lá estive.

Fizemos três visitas ao cemitério de guerra britânico. Visitámos todas as campas e depositei flores na campa do meu amigo. Eva e eu colocámos depois flores junto de uma cruz em nome das famílias de todos os homens que se perderam no mar em redor das ilhas.

Passámos uma manhã no jardim de Angra. È tão bonito e as fotos que tirámos condizem com uma que tenho de 1943, onde se vêem elementos da equipa de terra que tratavam da minha Fortress, sentados junto da fonte.

Aterrem em Portugal: Deve ter tido sentimentos contraditórios durante a sua visita.

Ted Hedges: Sentimentos? Contraditórios? Sim. Visitar as campas daqueles homens, reforçou o meu ponto de vista de que a guerra é fútil, e que rouba o que de melhor as nações têm. Quanto mais velho fico mais me questiono sobre as razões porque fui poupado. Porquê eles e não eu? Que feitos poderiam ter alcançado se tivessem sobrevivido?

O cemitério é um local de grande tristeza, de “caras” e memórias que não poderão ser esquecidas, de paz e de silêncio. Na minha terceira e última visita saí em lágrimas.

A tristeza é suportável porque, durante as visitas - às localidades, à costa, a sítios históricos, aos jardins, aos museus, às igrejas e de estarmos com as pessoas - percebemos o desenvolvimento e progresso que aconteceram desde o fim da II guerra mundial. O sacrifício feito por aqueles homens assegurou que a Terceira tivesse tempo e oportunidade para se transformar no sítio lindo que é hoje.

Aterrem em Portugal: Há algum momento, durante o período em que esteve na RAF nos Açores, de que guarde uma memória mais forte?

Ted Hedges: Esta é uma questão difícil. O livro do Robert está cheio desses momentos especiais. A primeira imagem da terceira, enquanto voámos sobre o vale verde que ia ser o nosso aeródromo. A nossa primeira perda e a busca pelo avião. O momento em que tomámos consciência de como o clima mudava de mau para péssimo rapidamente. Vermos o nosso e pequeno monomotor Walrus (hidroavião de busca e salvamento) a utilizar toda a pista - com o vento de frente - fazendo com que aterrasse quase de marcha-atrás. Houve tantos momentos.

Aterrem em Portugal: tem alguma memória especial relacionada com a população portuguesa?

Ted Hedges: Deixei a Terceira em Julho 1944 com muita pena. Todas os portugueses que conheci eram felizes, simpáticas e gentis. Tive a sorte de conhecer melhor duas famílias. A primeira era a da senhora que me lavava a roupa. Tinha duas filhas e a mais velha estava quase a casar-se. Ela apresentou-me a uma família muito influente de Praia da Vitória e era bem-vindo na casa deles, sempre que tinha tempo livre. 

Julgo que o pai era mestre-escola. Tinha três filhas. A Maria de Lurdes, a Conceição e a Ana Maria. Souberam que eu ia casar na licença seguinte. Depois da minha futura mulher me enviar uma fotografia do vestido de casamento que gostaria e as medidas, elas fizeram o vestido. Quando voltei a casa, para casar, o vestido servia-lhe na perfeição.

Continuei em contacto com essa segunda família e todas as raparigas vivem hoje nos Estados Unidos.



Ted Hedges visitou o cemitério inglês nas Lajes, depositou flores na campa do amigo Joseph “Rocky” Boudreault e prestou homenagem aos homesn que se perderam no mar em redor das ilhas. (Foto Eva Jones)


Uma missão contada por Ted

Numa das questões pedi ao Ted que me contasse como era o dia-a-dia dele nos Açores. Não foi a primeira vez que alguém lhe perguntou isso… 


Ele pediu uma ajudinha ao amigo Robert Stitt (ver aqui).


Robert – autor do Livro ““B-17 in Coastal Command” (ver aqui) – colocara a mesma questão a Ted antes de mim… e obteve uma resposta muito completa e longa.


Robert foi simpático e decidiu enviar-me uma parte do seu livro – a transcrição de uma missão contada por Ted – e autorizou-me a utilizar o que quisesse. Levei a séria a oferta e abusei um pouco… mas as palavras de Ted pareceram-me muito valiosas.


Cortei algumas partes – estão assinaladas – para encurtar o texto, mas os créditos das próximas linhas pertencem obviamente a Ted Hedges e a Robert Stitt.


Agradeço a ambos pela cooperação.


Ainda antes de passarmos directamente às palavras de Ted fica alguma informação.


Duas esquadrilhas de B-17’s – o 206 e o 220 – chegaram aos Açores em Outubro de 1943. Ambos tinham 18 tripulações de oito homens cada uma.


As tripulações – conhecidas pelo nome do comandante, normalmente o piloto - eram inseridas num quadro operacional onde entravam num sistema rotativo. Quando a tripulação chegava ao topo do quadro sabia que iria na missão seguinte.


Sempre que um avião no topo da lista descolava, a tripulação do seguinte já estava reunida. Se existisse um pedido de socorro seriam os primeiros a partir.


Duas horas antes de levantar voo, já estariam de pé para a higiene matinal, comer e receber instruções. 

Depois seguiam para o avião…


Dito isto, fica a descrição de Ted Hedges.

Ficámos a saber que a nossa missão é dar cobertura a um comboio, com cerca de uma centena de navios, que partiu do Canada para o Reino Unido. (…)

O nosso comandante, Brian Reuter, faz as últimas verificações junto dos tripulantes e dirige-se para pista. Como engenheiro de voo estou completamente desprotegido entre os dois pilotos, com os braços enrolados em redor das placas de blindagem presas à traseira dos assentos deles. O meu destino, em caso de acidente, é um voo de duzentas jardas pelo vidro da frente. (…)

Pesamos 56,000 libras… temos seis mil libras de peso a mais… e tenho quatro motores que têm pouco mais de 1000 cavalos cada um, no total de 4100 cavalos. Das nossas 26 toneladas, pouco mais de dez são o peso do combustível e cerca de cinco munições e explosivos. Quando ocupamos as nossas posições de partida sabemos que, se falhar um motor, acabamos certamente mortos… por isso enquanto não ouvíamos o “clunk” do trem de aterragem a fechar, estamos sempre a fazer contas às nossas possibilidades.

(…)Não temos uma altitude certa para as nossas patrulhas, mas nunca voamos acima dos 3 mil pés. Os nossos sacos de pára-quedas estão amontoados na parte traseira da cabine do rádio, na zona de bombordo, porque nunca nos preocupamos em colocá-los junto ao corpo. Não há um serviço de apoio aos pára-quedas nas Lajes e suspeito que eles não funcionariam se precisássemos deles. Durante meses, e enquanto não são construídos os hangares Nissen, os nossos equipamentos ficam no chão, na terra, nas nossas tendas.

A partir deste momento o navegador está continuamente a fazer cálculos. Os dois pilotos vão manter-se nos seus lugares enquanto o resto da tripulação, incluindo o engenheiro de voo, mudam de posições a cada hora. (…)

No caso de uma acção anti-submarina ou uma emergência, o operador de rádio/artilheiro mais veterano assume o controlo do rádio, o engenheiro de voo faz o que for pedido pelo comandante e as posições das armas são preparadas para todas as situações… a torre do topo é designada como “controladora de fogo” no caso de sermos atacados por um avião inimigo.

Levantámos às 5 horas da manhã e ainda é noite. (…)

Lembrem-se que nos dirigimos para o meio do Atlântico. Não temos satélites ou a super-tecnologia de hoje. O nosso navegador tem apenas os seus lápis, um sextante, bússolas, um relógio muito preciso, e a fé dos seus camaradas que acreditam que, nas próximas 12 ou 13 horas, a sua matemática e as linhas que desenha num mapa vão estar correctas.

Esperamos encontrar o comboio por volta das 9 H, o que a uma velocidade de cerca de 150 nós por hora, quer dizer que vamos estar a cerca de 600 milhas náuticos da base. Estamos alertas para qualquer alerta nos intercomunicadores, por isso apenas trocamos instruções essenciais uns com os outros. (…)

Todos os 15 minutos após a descolagem o navegador fornece, ao operador de rádio, a nossa posição para que este a transmita para a base. Como sabem a hora da nossa partida, as mensagens fixam a nossa posição aproximada a cada quarto de hora, para que eles possam calcular onde estamos nos 15 minutos seguintes. (…)

Já deveríamos estar a ver o comboio, mas o tempo está a mudar com o tecto de nuvens muito baixo e a chuva a cobrir a superfície marinha. O comandante e o navegador têm uma breve conversa e têm a certeza de que estamos no sítio onde o comboio deveria estar, mas não o conseguimos encontrar. Decidimos realizar uma busca e voamos desenhando quadrados imaginários sobre o mar, mas sem sucesso. 

O comandante pede depois para fazer uma busca por radar que supostamente cobre uma área de 60 milhas…, mas mais uma vez nada. Só existe mais uma possibilidade e chamamos o nosso operador de rádio sénior Joseph “Rocky” Boudreault.





 Joseph “Rocky” Boudreault conduziu a Fortress até aos Açores nesta missão.
O operador de rádio está sepultado no cemitério da base das Lajes. Faleceu num acidente pós-descolagem da Fortress "FK206" que aconteceu no dia 4 de Dezembro de 1943.







(…) Ele transmite o nosso sinal de identificação codificado, procura uma resposta da outra Fortress e consegue realizar o contacto. Ele sabe que estamos a aproximar-nos porque o sinal do outro avião vai ficando mais forte. Finalmente temos contacto visual com o outro aparelho. Utilizamos depois a “Aldis Lamp” (uma lâmpada de sinalização) para comunicar em código morse.

Juntamo-nos ao comboio às 9.45 horas, quase quatro horas e 45 minutos depois de descolarmos. O nosso avião substituto só deve chegar por volta da uma da tarde, por isso temos ainda três horas de escolta pela frente. 

A nossa primeira tarefa é voar sobre o comboio e contar os navios para perceber se tiveram algumas perdas ou há retardatários. 

Comunicamos com o comandante da frota e somos instruídos a cumprir um plano de cobertura. Ficamos a saber que o comboio mudara de rota para evitar uma concentração de submarinos. Em relação à rota inicia desviaram-se cerca de 70 graus para bombordo e navegaram a 15 nós durante mais de quatro horas.

(…)

Estamos no ar há cerca de oito horas e esperamos a chegada do avião que nos vem substituir. O tempo está a piorar e começa a ser violento estar dentro do avião. Abana por todo o lado. O poder do mar assusta-me. Olhei lá para baixo, para o comboio, e vi navios de 40 mil toneladas enterrados em água até à ponte e depois ficarem com a quilha á mostra… os navios mais pequenos parecem desaparecer por completo. (…)

O operador de rádio diz ao comandante que recebeu uma mensagem a informá-lo de que o avião substituto foi chamado de volta, tal como nós. O tempo nas Lajes está a fechar e poderemos ter problemas na aterragem. O comandante do comboio é avisado que vamos partir e que não seremos substituídos…

(…)

A nossa preocupação aumenta quando ouvimos o piloto e o navegador a falarem da impossibilidade de determinar correctamente a velocidade do vento e a deriva do aparelho nos últimos 90 minutos.
Estão marcadas duas localizações desde que deixámos o comboio. Uma é baseada na nossa posição quando encontrámos os navios e a outra foi-nos dada pelo navegador do comboio. A última deve ser a mais a correcta, mas a impossibilidade de calcular a deriva aplica-se às duas marcações, o que torna ambas suspeitas. As duas indicam, no entanto, que devemos estar a cerca de sessenta milhas náuticos da base.

O comandante ordena ao “Rocky” que ponha a funcionar o sistema de radar para tentar apanhar o sinal de rádio da base das Lajes… mas só ouvimos silêncio em vez de um relatório positivo… parece que passa um ano até que ouvimos o “click” do intercomunicador: “Radar para comandante; sinal à nossa frente; 10 graus a bombordo”. O operador pede um ajuste ligeiro à esquerda até centrar o sinal que vem da base.

Sabemos que as Lajes estão sessenta milhas à frente, mas estamos num banco de nuvens denso, a três mil pés, e a aproximarmo-nos da base que tem uma montanha com altura de 3000 pés - de um lado da pista - e um monte de 500 da outra…

Temos de chegar perfeitamente alinhados ou as coisas podem ficar feias. Vamos fazer uma aproximação BABS, uma manobra exigente que obriga a uma absoluta cooperação piloto e operador de rádio.

Chegamos às Lajes, que não conseguimos ver, e descrevemos círculos a uns seguros quatro mil pés. “Rocky” começa a receber os sinais BABS enquanto Brian voa o aparelho seguindo um conjunto de instruções do rádio operador e de um pequeno instrumento que tem duas agulhas cruzadas. 

A tripulação toma as posições de aterragem enquanto realizo as últimas verificações de segurança, para ter a certeza que não existe nada solto que possa voar, caso a aterragem seja mais violenta… e depois tomo a minha  posição entre os pilotos.

Tudo está pronto. “Rocky” guiou-nos directamente sobre a ilha e as agulhas cruzadas dizem-lhe que nos desviámos do centro da pista. Temos confiança total nas capacidades de Rocky e de Brian. Eles têm de seguir uma rotina precisa, cronometrado ao segundo, constantemente ajustado às instruções de Rocky.

Uma última viragem deve alinhar-nos com o centro da pista e começamos a descer em pequenos solavancos. Quando o co-piloto consegue vislumbrar a pista o piloto ordena “descer trem”.
Segue-se: “Flaps para baixo”e “velocidade”. Daqui para a frente digo constantemente a velocidade a que vamos. Passamos os mil pés e ainda não saímos das nuvens. Setecentos pés… quinhentos pés… ainda não conseguimos ver a pista. 

Rocky faz um pequeno acerto aos 400 pés e a qualquer momento podemos ter de acelerar e subir para uma zona mais segura.

De repente, à nossa direita, conseguimos ver as luzes da pista. Com uma viragem para a direita e mais uma correcção estamos alinhados. reduzimos a potência e a velocidade cai. Estamos a poucos pés de tocar na pista. Um toque leve e ouve-se um “thumb” seguido do matraquear das placas da pista enquanto rolamos sobre elas e travamos o aparelho. Aterrámos Às 17.45 horas. Doze horas e 45 minutos depois de termos descolado. 15 horas e 15 minutos depois de termos acordado.

(…) Quando subimos para o camião, o nosso capitão fala por todos nós: “Obrigado, Rocky”. Ninguém tem nada a acrescentar.

Carlos Guerreiro

sábado, 9 de abril de 2011

Sagres homenageia combatentes e aviadores da RAF

Em Sagres o Dia dos Combatentes contou com uma romagem ao cemitério local para prestar homenagem a cinco homens do concelho que caíram nas duas guerras “portuguesas” – a Primeira e a do ultramar – e também a dois sargentos da RAF que pereceram em 1943.

Desde o final da I Guerra Mundial que o 9 de Abril ficou convencionado como o Dia do Combatente em memória dos soldados portugueses que caíram na batalha de La Lys, na Flandres, naquele dia em 1918.

As tropas do Corpo Expedicionário Português sofreram as mais pesadas baixas da sua campanha frente a uma ofensiva em grande escala das forças alemãs.

Recordaram os soldados portugueses Carlos Sequeira e José Joaquim Abelum que faleceram na sequência da ofensiva de La Lys, respectivamente a 9 e a 12 de Abril de 1918. Durante o conflito nas ex-colónias africanas o concelho de Vila do Bispo perdeu ainda Henrique José de Freitas (1962), Joaquim Pereira Dias Leite e Joaquim António Conceição (ambos em 1966).

Os dois sargentos da RAF, Gilbert Orton e George Gibson, faziam parte da tripulação de um hidroavião Catalina que explodiu sobre a Baía do Tonel em 1943. Apenas os corpos destes dois homens foram encontrados. (para saber mais sobre este acontecimento clique aqui).

A cerimónia, a que assistiram cerca de um centena pessoas, entre familiares e ex-combatentes, contou com a presença de um pelotão do Regimento de Infantaria 1, de Tavira, que assegurou as honras militares.

O Cônsul Britânico em Portimão, Clive Jewell, e o Major Oliveira prestam homenagem aos soldados portugueses caídos nas duas guerras.


Membros da Associação de Ex-combatentes de Vila Bispo colocam coroa de flores na campa dos aviadores britânicos. O Sargento-Chefe Correia e presidente do núcleo local de ex-combatentes Bernardino Martins (atrás) preparam homenagem.
Major Oliveira (Regimento de Infantaria 1) compõe uma coroa de flores junto às campas dos sargentos da RAF.


O Cônsul Britânico em Portimão presta homenagem aos aviadores da RAF. De pé estão presidente da câmara de Vila do Bispo, Adelino Soares.


Salvas de honra em memória dos militares.


As campas dos dois aviadores da RAF.

sábado, 26 de março de 2011

A primeira “fuga”

O rebocador saiu do porto de Leixões a coberto da noite e, a cerca de quatro milhas da costa portuguesa, ficou à espera. O encontro - a que não queria faltar - tinha sido combinado entre as duas e as quatro da manhã.

A bordo encontravam-se quase dezena e meia de passageiros. Onze eram homens da Royal Air Force (RAF) que esperavam, finalmente, regressar a casa. Aquela madrugada de 26 de Março de 1941 marcava o final de uma operação envolvendo meios diplomáticas, serviços secretos, gente sem nome e um planeamento... à portuguesa: poucos meios, mas muito boa vontade.


 O Sunderland em Setúbal (Foto Olinda Couceiro)

A operação tinha começada um mês antes. A noite de 14 para 15 de Fevereiro desse ano deixou o país virado do avesso. Durante horas um violento ciclone destruiu culturas, casas, embarcações e bens diversos. Morreram mais de uma centena de pessoas e o número de feridos ultrapassou o meio milhar...

Foi uma das maiores tragédias naturais a atingir Portugal no século passado.
Apanhado por este fenómeno foi também um hidroavião Sunderland da RAF com destino a Àfrica. Pouco antes da meia-noite descolaram das proximidades de Plymouth, esperando encontrar o vento fraco prometido no briefing.

Às cinco da manhã o aparelho era violentamente abanado. “O navegador, Jack Banfield, decidiu medir a velocidade do vento e ficámos surpreendidos quando percebemos que atingiam velocidades acima das cem milhas por hora”, explicou em 2001 Roy Booth, um dos tripulantes, numa entrevista a Neil Owen, que tem procurado contar as histórias dos aviões e dos homens que passaram por Oban – a sua terra natal – durante a II Guerra Mundial.

Com rajadas que terão chegado às 155 milhas era impossível manter o aparelho no ar. Tinham de aterrar pois estavam a esgotar o combustível porque voavam contra o vento.
Um rápido olhar para os mapas mostrou a costa portuguesa como a mais próxima.

“As ondas tinham dez metros de altura e o piloto “Shorty” Evison realizou um verdadeiro milagre ao amarar. Sempre pensámos que o avião se iria desfazer com aquelas condições meteorológicas”, explicou Roy Booth que mantinha viva a imagem a imagem do piloto a sair do cockpit depois de operação “com lágrimas a correr-lhe pela face, devido à tensão nervosa”.

A grande confusão

O aparelho encalhou numa praia perto do meio dia, mas não receberam qualquer assistência, nesse dia e nessa noite, devido à tempestade que varria o país. Só na manhã seguinte seriam levados para Setúbal.

Foram a primeira tripulação aliada a aterrar em Portugal. As “Leis da Guerra”, apesar de pouco claras, apontavam para que ficassem “internados” até final do conflito, mas nunca terá existido grande vontade para o fazer.

Documentos britânicos da época garantem que a guarda sempre foi reduzida. Era quase um convite à evasão que encontrava impedimentos noutros níveis. A correspondência trocada entre várias entidades revela a encruzilhada em que se encontravam.

Os serviços secretos britânicos propunham uma operação de resgate aproveitando o facto dos homens – então na Figueira da Foz – se encontrarem pouco guardados.
Seriam metidos em carros e embarcados num dos navios que realizavam patrulhas ao longo da costa portuguesa a partir de Gibraltar.

Avançam até com pormenores para um embarque no Algarve, longe dos mares mais movimentados da costa atlântica.

A Embaixada em Lisboa não discorda, mas não quer saber pormenores. Teme a reacção de Salazar e pesa as implicações no relacionamento futuro com o governo português. Se nada souber não precisará de mentir caso seja chamada à responsabilidade.

O Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros) desaconselha a operação e não quer sequer que se faça um pedido oficial para a libertação dos homens. Isso abriria um precedente não só em relação a Portugal, mas também a outros países neutrais. È preferível, garante, que se cumpram as regras estabelecidas internacionalmente.

Fica também expresso que é “pouco aconselhável” o envolvimento de portugueses numa possível operação de resgate. Afinal seria um português a desbloquear a situação.

Um pedido de ajuda

O Major António Dias Leite, da Aeronáutica Militar, era um “entusiasta pela sorte dos aliados”, e não estranhou o convite para um cocktail na Embaixada Britânica. Entre os convidados viu uma cara não lhe era estranha, mas que só conseguiu identificar quando foi abordado.

Tratava-se do Squadron Leader Lombard. Era comandante da esquadrilha 95, a que pertencia o Sunderland, e, ele próprio, um dos internados pois também vinha a bordo. Tinham-se conhecido em 1938 num curso avançado de instrutores no Reino Unido. Lombard pedia-lhe ajuda para encontrar uma saída.

Uma tripulação alemã que aterrara no Alentejo na mesma altura tinha “escapado” para Espanha. O país vizinho não era solução para eles, mas precisavam de uma solução.
Dias Leite mostrou-se sensível aos argumentos mas não tinha poderes para organizar uma operação desse género. Não passava de um Major da Aeronáutica Militar. A conversa ficou por ali, até que dias depois foi novamente contactado, agora pela embaixada. Decidiu tentar…


A tripulação do Sunderland em Aveiro. Atrás encontram-se os membros da tripulação. À frente, à esquerda, está o dono da casa Augusto Cunha, a mãe, e o S/Ldr Lombard. À direita está o Major Dias Leite e Olinda Couceiro. (Foto Olinda Couceiro)

Num documento com quatro páginas, que a família do oficial português preserva, ele conta os pormenores da operação. Contactou “Alguém” (a maiúscula é do documento original) para lhe explicar o problema. Tratava-se certamente de “Alguém” bem colocado no governo, pois acabou por dar luz verde á operação, desde que fossem cumpridas algumas condições. Existia a garantia de que as autoridades iam desviar os olhos, mas, se alguma coisa corresse mal, o Major teria de assumir todas as responsabilidades.

Dia Leite assumiu o risco. Contactou amigos que tinham barcos e foi delineado um plano. Um dos navios britânicos de Gibraltar ia aproximar-se da costa portuguesa para assegurar o “rendez-vouz” com os operacionais portugueses.

A “evasão”

Alguns dias antes da data marcada os aviadores “fugiram” dos seus guardas na Figueira da Foz em direcção a Aveiro. Na sua entrevista Roy Booth relata esta fuga com a uma perseguição de carro e tiroteio, coordenada põe elementos locais da Gestapo (a polícia secreta Nazi).

António Dias Leite garante que tudo correu como planeado com os homens a esconderem-se em Aveiro, na casa de um médico amigo, Augusto da Cunha.

“O tio avisou a minha mãe e a minha avó de que iam chegar uns aviadores ingleses, mas que ninguém poderia saber disso. A minha avó ficou em pânico quando ele lhe disse que os alemães nos cortariam o pescoço se isso se soubesse”, conta a rir Olinda Couceiro, sobrinha de um dos organizadores da fuga.

Olinda Couceiro lembra várias histórias relacionadas com a presença dos homens em casa e destaca o medo que se instalou quando o padeiro começou a fazer perguntas. “Ele queria saber se tínhamos familiares em casa porque de repente começámos a comprar pão para mais 11 pessoas e também se ouvia piano, que um dos rapazes sabia tocar”, explica.

No dia 25 de Março, à tarde, dirigiram-se a Leixões onde embarcaram já a noite ia alta. Além dos 11 homens da RAF seguiam também a bordo Dias Leite e Augusto da Cunha.

Perto das quatro da manhã um navio de guerra britânico iluminou-se da proa à popa, aproximando-se do rebocador. Estava consumada a primeira “fuga” de aviadores aliados do nosso país. A palavra fuga viria a ser repetida ao longo dos anos seguintes em documentos oficiais e em jornais sempre que se referiam às saídas de Portugal.


Esta adaga cerimonial nazi foi um dos objectos oferecidos pela tripulação ao Major Dias Leite. (Foto Maria Leite)

Ainda houve tempo para um porto de honra e uma garrafa mais azarada caiu da mesa, partindo-se. Uma “grande perda”, garantiram todos, mesmo num tempo como aquele.
Esta rota de fuga seria utilizada por dezenas de outros aviadores nos anos que se seguiram. Segundo Dias Leite quase 300 “escaparam” assim.

Segundo Maria leite, a filha do Major Português, que guarda vários objectos que os aviadores deixaram de recordação, Dias Leite reencontrou um dos homens que ajudou a fugir anos mais tarde na comitiva da Rainha de Inglaterra, quando esta visitou o nosso país...

Para saber mais sobre o Sunderland clique aqui.

(Agradeço a colaboração de Neil Owen, Maria Dias Leite e Olinda Couceiro)

Carlos Guerreiro

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O B-17 nos Açores

Este Verão foi lançado um novo livro sobre o B-17 ao serviço do Comando Costeiro da RAF, chamado “Boeing B-17 Fortress in RAF Coastal Command Service”.

Entre os britânicos o bombardeiro foi baptizado de “Fortress” e equipou inicialmente o Comando Costeiro (Coastal Command ), já que os modelos iniciais do aparelho tiveram um comportamento muito fraco ao serviço do esquadrão 90, e os modelos seguintes apenas se encontravam em número reduzido. O avião teve também um comportamento sofrível no bombardeamento nocturno.

O Bomber Command acabou por utilizar o Lancaster, o Halifax e o Stirling para as suas operações de bombardeamento. Tanto o Fortress como o Liberator (B-24), ambos de construção americana, foram remetidos, neste comando, para missões secundárias (contra-medidas electrónicas, patrulha, transporte e outros).



O grosso dos aparelhos, enviados pelos americanos, seria entregue ao Comando Costeiro. Um bónus que este comando muito agradeceu, pois um grande número dos seus aviões – especialmente no período inicial do conflito – era constituído pelas sobras dos outros comandos da RAF (Bomber e Fighter commands).

Não é por acaso que o “Coastal Command” ficou conhecido como “The Cinderela Service”.


Este livro tem a particularidade de abordar os B-17’s que integraram o Coastal Command e de dedicar quase um quinto das suas páginas (43 em 248) à presença destes aviões na base das Lajes, nos Açores.

Apresenta listagens de tripulantes, referências a missões, muitas fotografias e vários perfis mostrando as modificações que o avião foi recebendo.

Fica o índice referente aos capítulos onde se fala da presença nos Açores. Está em inglês, mas também não há versão da obra em português…


The Azores......................79
Obvious Choice..................82
Operation Alacrity .............85
Building a Base.................88
Day-and-Night Team..............89
Life at Lagens………...............94
Typical Mission.................95
Precious Petrol……..............102
Attacking a U-boat ............105
Desired Effect…................107
Transit Point….................108
The Americans Arrive...........111
Action and Departure...........112
Maintaining the Guard..........116
Engine Failures…...............118
Withdrawal……...................119

Para a aquisição do livro poderá “clicar” no link…
http://www.mmpbooks.biz/mmp/books.php?book_id=123

Clique aqui para ler entrevista com o autor sobre a presença britânica nos Açores....

(Este texto foi alterado em 28 de Setembro de 2010 depois de um contacto com o autor do livro que esclareceu certos aspectos e carácter histórico. Um contacto que agradeço)