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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Familia de aviador sepultado no Porto procura informações

 Na tarde de 13 de Julho 1941 o sargento-aviador da Real Força Aérea, William Bernard Oakes, de 21 anos, morreu aos comandos de um bombardeiro Wellington da RAF quando este se despenhou, no mar frente a Fão, perto de Esposende.

Setenta anos depois, e após consultar diversos arquivos, a família continua a procurar respostas na tentativa de reconstruir o que aconteceu naquele dia.

Com William, co-piloto do aparelho, mergulharam no mar cinco camaradas de armas (ver AQUI)…

Os seus corpos mutilados foram reunidos num único caixão que descansa no cemitério de St. James, no Porto.

Relatórios contraditórios das autoridades britânicas tão depressa referem o incêndio num dos motores ou a instabilidade do clima como responsáveis pelo que aconteceu.

Quando me chegou o apelo de Ian Garth, o cunhado de William, confesso que tinha muito poucos dados sobre este desastre.

Uma leitura dos jornais da época trouxe novos dados, mas não esclareceu as contradições. Antes pelo contrário…

Nos diários lisboetas “República”, “Diário de Lisboa”, “Diário de Notícias” e nos portuenses “Jornal de Notícias”, “Comércio do Porto”, “Primeiro de Janeiro” não encontramos unanimidade nos relatos publicados sobre o desastre.

Todos concordam que o acidente aconteceu às 14.30 horas e que o tempo estava nebulado e chuvoso. O mar encontrava-se agitado.

Um desastre, várias versões 

Alguns periódicos garantem que os populares apenas ouviram um avião a sobrevoar a zona – como se procurasse um sítio para aterrar – seguida de uma explosão quando este bateu no mar.

Outros asseguram que testemunhas ouviram o aparelho a circular, mas que também viram como a certa altura ele levantou o nariz e picou para o mar, explodindo com o impacto…

O “Diário de Notícias” – e refiro o nome porque é o único que descreve assim o acidente - conta de forma detalhada como se ouviu uma explosão antes do avião, em chamas, se precipitar para o mar. Deixava atrás um espesso rastro negro de fumo…








Notícias publicadas nos jornais 
de Lisboa e Porto 
nos dias 14 e 15 de Julho de 1941, 
com relatos do acidente.
Apesar da maior parte dos relatos 
serem muito semelhantes 
sobre o que aconteceu 
depois do desastre, 
existem, pelo menos, 
três versões diferentes
 do momento do acidente.













O aparelho despedaçou-se no mar, muito próximo da praia. O combustível e alguns destroços ficaram a arder libertando uma intensa coluna negra.

 “Imediatamente um grupo de pescadores, apesar da fúria do mar, se prontificou a seguir para o local da tragédia. E assim largou da praia uma pequena embarcação, tripulada pelos marítimos Júlio da Silva Vilela, António Herdeiro e Joaquim Soares, seguindo na mesma o primeiro patrão dos voluntários de Fão, Sr. Gonçalves Figueira”, conta o Jornal De Noticias secundado por outras publicações.

Não foi encontrado nenhum dos tripulantes, mas a embarcação recolheu dois paraquedas, um bote de borracha e um impermeável.

Numa saída posterior seria encontrado uma roda e parte de um trem de aterragem…

Logo nesse dia chegaram à praia uma carta, com destino a Malta, e distintivos canadianos…

È pedida a vinda do rebocador “Teixeira de Queiroz” e de um salva vidas do Instituto de Socorros a Náufragos, para colaborar nos trabalhos de resgate do avião e na tentativa de localizar os corpos.

Na manhã do dia seguinte é descoberto o primeiro sinal de humanidade. Dá à costa o tronco mutilado de um homem, com parte da farda vestida… ostenta as divisas de sargento.

Transportado para o quartel dos bombeiros de Esposende será identificado como pertencente ao telegrafista do avião. Nas notícias os aparelho já aparece identificado como um bombardeiro britânico Wellington.

A praia fica juncada de todo o tipo de destroços “tais como paraquedas, rodas do trem de aterragem, e muitos maços de correspondência que se destinava a Malta”, explica mais uma vez o “Jornal de Notícias”.

 Nos dias seguintes – por opção ou por imposição da censura - os jornais silenciam as notícias sobre as operações de resgate.

Só a 19 regressam ao assunto para informar que os corpos tinham sido recuperados e que, nessa tarde, se realizariam os funerais.


A urna aos ombros de veteranos britânicos da I Guerra Mundial. Sargentos portugueses acompanham o funeral (em cima).
Soldados de Infantaria 6 ladeiam os caminhos por onde passa a multidão que acompanha a cerimónia (em baixo).


A comunidade inglesa do Porto encerra lojas e serviços e apresenta-se em massa no funeral. São centenas as pessoas que marcam presença nas cerimónias.

Os restos mutilados dos sargentos da RAF William Bernard Oakes, Henry Gerald Peel, Colin James Dixon, Trevor Vaughan Davies, Derek Cecil Haynes e Stephen Thomas Mcneil foram reunidos apenas num caixão, ao qual um pelotão de Metralhadoras 3, assegura a guarda de honra.

Finda a missa, conduzida pelo reverendo Johnson, seguem para o cemitério inglês.

São os ombros de veteranos britânicos da I guerra que carregam a urna entre os vários percursos, mas há também uma delegação de sargentos portugueses, militares de diversas graduações e autoridades civis portuguesas no topo do cortejo.


Militares portugueses e britânicos prestam homenagem aos aviadores. O mais alto é o adido aeronáutico da Embaixada Inglesa, o coronel Schreiber (em cima).
Soldados de Metralhadoras 3 disparam três salvas em honra dos mortos (em baixo)


No cemitério é uma unidade de Infantaria 6 que marca a o percurso para a passagem da multidão.

Junto à campa, enquanto a urna desce à terra, “os soldados de Metralhadoras 3, armados de carabinas, fazem três descargas sucessivas, sob o comando vibrante da imperativa voz de: - Fogo”, relata o “Primeiro de Janeiro”.


A colónia Inglesa submergiu com flores a campa dos aviadores.


“As autoridades inglesas e portuguesas desfilam ainda mais uma última vez perante a grande cova, onde caem já, cavamente, as primeiras pazadas de terra; e toda a gente desfila depois, sem um gesto, uma palavra”, concluí o JN.

Mais dramático, no sentido teatral da palavra, é a conclusão do “Primeiro de Janeiro”: “A nosso lado, uma senhora inglesa - de perfil austero e nobre (...) – é tomada de viva e profunda comoção. Os olhos inundam-se-lhe de lágrimas, mas logo se reanima e, erguendo solenemente a mão direita, desenha no espaço a figura geométrica dum V – a simbólica inicial da palavra Vitória…”

Um apelo público

Face à soma de contradições foi decidido realizar uma apelo público, para tentar encontrar outros relatos e, especialmente, memórias sobre deste incidente…

Talvez seja possível encontrar alguém que tenha sido testemunha do desastre ou seja “herdeiro” desses testemunhos …

Será que alguém conhece ou conheceu os pescadores que não hesitaram em lançar-se ao mar, apesar do mar revolto?

Poderão existir fotografias das operações de resgate? Notícias em jornais locais?

Museu de Cosforth, Inglaterra. Em fundo um Wellington a ser restaurado. 
Na foto Michael Garth, Ian Garth, Ian Oakes e Fred Oakes, irmão de William.

Ian Garth gostaria de ter acesso a todas as informações sobre este momento que marcou a história da família da mulher, irmã de William.

Para preservar alguma privacidade e evitar ser bombardeado com mensagens que nada tenham a ver com o assunto, Ian pediu-me para que as mensagens fossem reencaminhadas através do e-mail do Aterrem em Portugal (clique AQUI).

Comprometo-me a reenviar tudo para o Ian.

Para facilitar esse trabalho agradecia – sempre que possível – que me enviassem as mensagens em inglês…

A família de William Oakes agradece antecipadamente todos os esforços relacionados com o esclarecimento deste assunto.

Carlos Guerreiro 
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Nota: Todas as fotos foram cedidas por Ian Garth.

Para ler mais sobre AVIAÇÃO clique AQUI.

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