A revista "História" do Jornal e Notícias traz na edição de abril cerca de 30 páginas, divididas por dois artigos, dedicados à questão do volfrâmio, especialmente durante o período da II Guerra Mundial.
O primeiro faz um retrato da atividade mineira e comercial em diferentes períodos do século XX, enquanto o segundo é uma reportagem dedicada à "convivência dos inimigos" alemães e britânicos em Arouca, uma das zonas onde a exploração de volfrâmio foi mais intensa durante o período da guerra.
O primeiro destes trabalhos é da autoria do professor João Paulo Avelãs Nunes enquanto o segundo é da autoria da jornalista Sara Dias Oliveira, com fotos de Maria João Gala.
O preço desta revista bimestral é de 3,90 Euros...
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sexta-feira, 11 de maio de 2018
Volfrâmio durante a II Guerra em revista
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quarta-feira, 17 de setembro de 2014
O Postalinho...
Caminhos de tráfego livre para a Alemanha
Postal de propaganda alemã com data indefinida.
A questão do comércio foi dominante na propaganda alemã ao longo do conflito, nomeadamente, a questão das imposições britânicas à circulação de mercadorias, que colocavam, por exemplo, dificuldades ao tráfego entre Lisboa e as suas colónias.
A posição da Alemanha no centro da Europa, com rotas comerciais que se estendiam a países ocupados, aliados e neutros transformavam o país num importante parceiro a ter em conta. Por alguma razão tanto a Espanha como Portugal também surgem como fornecedores de matérias-primas.
Segundo este postal o país fornecia terbentina, cortiça, resinosos e azeite. Curiosamente não há referências às conservas de peixe e, ainda mais importante, ao volfrâmio, um componente essencial para endurecer o aço, e que foi o mais importante produto de exportação de Portugal entre 1940 e 1944.
A Alemanha teve em Portugal o seu principal fornecedor durante grande parte do conflito, ao ponto dos aliados tornarem a sua exportação um tema central das negociações. Pressionado, Salazar acabaria por anunciar o fim da exploração e venda de volfrâmio, para todos os países beligerantes, no dia 5 de Junho de 1944. Um dia antes do desembarque na Normandia…
Carlos Guerreiro
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terça-feira, 29 de outubro de 2013
Algumas perguntas a Avelãs Nunes (2)
Publicamos a segunda parte da entrevista com o professor Avelãs Nunes, professor de história da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e autor do livro “O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)", onde realiza um estudo sobre o impacto económico e social da exploração do volfrâmio em Portugal durante a 2ª Guerra Mundial.
(Leia AQUI a primeira parte da Entrevista, publicada no dia 24 de Outubro de 2013)
Aterrem em Portugal: Há descrições de aldeias desertas, abandonadas porque se partia com a febre do volfrâmio. É um facto ou há algum exagero neste quadro?
J.P. Avelãs Nunes: Aconteceram situações próximas dessa em zonas onde a actividade económica normal foi interrompida devido à guerra. Como não havia forma de ganhar um salário, as pessoas viram-se obrigadas a migrar para locais onde existiam explorações de volfrâmio.
Verificou-se no Alentejo, por exemplo, onde a exploração de pirites de cobre foi quase interrompida e os mineiros ficaram sem trabalho. Aconteceu em S. Domingos, em Aljustrel, no Lousal e noutros locais durante o conflito. Exploravam-se metais considerados pouco relevantes para o esforço de guerra — ou que existiam noutros locais —, de baixo valor por tonelada.
Além do preço baixo de alguns metais havia a questão do transporte. Os navios estavam ameaçados de afundamento pelos submarinos alemães. O Reino Unido, por exemplo, quase não importou minério de cobre. Com desemprego em escala significativa no Alentejo, os mineiros procuraram trabalho noutros locais. Migravam pois sabiam da busca desesperada de mão-de-obra mineira qualificada no interior centro e norte, onde crescia a extracção de volfrâmio.
Perto das concessões de tungsténio, as pessoas viviam nas minas durante a semana mas regressavam às suas aldeias no fim de semana. De um modo geral, não se pode, pois, falar de uma desertificação das aldeias. Para além do mais, em inúmeros casos a migração era feita pelos homens em idade produtiva, enquanto as mulheres, as crianças e os idosos ficavam nas localidades de origem a assegurar actividades permanentes dos agregados familiares.
Muitas mulheres trabalhavam no volfrâmio, mas estas normalmente residiam em povoações próximas das minas. Empregavam-se na separação de minério, no “Kilo” e no “Pilha”, no comércio informal (na “candonga”) e no contrabando.
Pode-se, ainda, chamar a atenção para um outro fenómeno relevante. Chegado o momento de ingressar na actividade mineira formal, quem era remediado e tinha contactos nas chefias intermédias das empresas concessionárias, trabalhava à superfície. Os mais pobres e com menos conhecimentos iam para o fundo da mina, onde o dia-a-dia era mais duro, com mais acidentes e doenças profissionais.
Existiram, também, as chamadas “aldeias de viúvas”, mas essa expressão tem a ver com as mortes causadas pela silicose, uma doença comum entre os mineiros do tungsténio porque as condições de higiene no trabalho mantinham-se muito deficientes. A silicose é uma doença respiratória irreversível que causa incapacidade e pode levar à morte quando os pulmões ficam demasiado afectados.
A rocha encaixante dos filões de volfrâmio tinha muita sílica. As brocas dos martelos pneumáticos, as explosões e o arrastamento de inertes levantavam muito pó que os operários inspiravam. A poeira de sílica é quimicamente muito activa e quando as partículas entram em contacto com os pulmões causam cicatrização. Se esta atinge uma determinada dimensão, as pessoas deixam de respirar.
Aterrem em Portugal: Em que condições trabalhavam estas pessoas?
J.P. Avelãs Nunes: As condições eram difíceis mas os mineiros aceitavam-nas porque a vida da maioria dos portugueses não se apresentava menos dramática. As minas continuavam, apenas, a pobreza e a precariedade que muitos conheciam. Os acidentes e as doenças profissionais eram frequentes.
Trabalhar muitos dias a perfurar rocha ou a arrastar minério significava que as pessoas ficavam a sofrer de silicose. Após cinco ou seis anos de actividade, a doença atingia um nível muito elevado, gerando incapacidade grave ou morte.
À medida que as minas se tornavam complexas, com galerias a maior profundidade, os mineiros passavam a tomar as refeições no subsolo. Normalmente colocavam os explosivos e as descargas aconteciam imediatamente antes das refeições. O tempo de descanso era, assim, passado num ambiente saturado de poeira de sílica.
A iluminação era garantida através dos gasómetros. Utilizavam carbonato de cálcio, o qual, em contacto com a água, gerava uma chama. Tinham, no entanto, uma capacidade de iluminação muito baixa.
Os mineiros não utilizavam botas especiais ou capacetes entre outras razões porque estes eram relativamente caros e as empresas não os forneciam. Se estavam longe de casa e dormiam nas camaratas das empresas, usavam a mesma roupa durante toda a semana, sem tomar banho.
As camas nas camaratas eram, frequentemente, uma enxerga com palha ou mato e um cobertor. Havia infestação permanente de piolhos e de percevejos.
À superfície, nos regimes do “Kilo” e do “Pilha”, como se verificava um menor ou nenhum controlo técnico, registavam-se mais desmoronamentos nas sanjas e nos poços. O uso indevido de explosivos causava, também, muitos acidentes.
Dizer que os “volframistas” ganhavam “dinheiro fácil” — expressão muito em voga naquele tempo — resulta de uma interpretação errónea. Poderia parecer fácil a elites locais ou nacionais pouco habituadas a observar camponeses pobres com acesso a bens e a serviços “de luxo”. Implicava, no entanto, trabalho fisicamente violento e/ou riscos significativos.
Apesar de a guerra ter obrigado as empresas dos países beligerantes a melhorar as condições de trabalho e de vida, os martelos pneumáticos com jacto de água, obrigatórios no Reino Unido, eram pouco utilizados em Portugal. Houve, pois, uma transferência de tecnologia já ultrapassada para o nosso país.
Ocorreu, igualmente, a contaminação de lençóis friáticos, cursos de água e terrenos agrícolas, uma vez que a exploração de jazigos de volfrâmio gerava a libertação de poluentes químicos a partir do esgoto das concessões e das escombreiras.
Aterrem em Portugal: E quando, em Junho de 1944, António de Oliveira Salazar decidiu interromper a exploração de minérios de tungsténio criou-se um vazio?
J.P. Avelãs Nunes: Sim e não. As Minas da Panasqueira chegaram a empregar mais de 11000 pessoas (6000 na mina e 5000 no “Kilo”). Se acrescentarmos familiares, deparamos com um quantitativo de pessoas que superava o da generalidade das sedes de concelho portuguesas.
Fora do contexto da guerra económica, esta situação dificilmente seria mantida. Em Junho de 1944 ou em Maio de 1945, a passagem para uma economia de paz teria de acontecer e, com ela, a desvalorização do preço dos minérios de volfrâmio.
As explorações informais e as minas mais pequenas só funcionavam em contexto de conflito militar global e mesmos as maiores, como a Panasqueira ou a Borralha, também reduziram muito a actividade em período de paz.
Esta evolução não era desconhecida e havia a percepção de que acabaria por suceder. No entanto, a opção de interromper unilateralmente toda a extracção de tungsténio, assumida pelo Governo do Estado Novo por razões ideológicas, antecipou e agravou essas dificuldades.
Portugal poderia ter negociado soluções alternativas com os Aliados. Uma tal hipótese foi, mesmo, aventada por Londres e Washington no final de 1943 e início de 1944.
Talvez o Chefe da ditadura tenha recusado a proposta para não ter de assumir uma rotura com o Eixo, para explicitar a sua discordância com a decisão de forçar o Terceiro Reich e a Alemanha a uma rendição incondicional, para ‘castigar’ o “materialismo” e a falta de respeito pelas hierarquias sociais tradicionais manifestados pelos “volframistas”.
Carlos Guerreiro
Leia mais sobre a questão doVolfrâmio.
(Leia AQUI a primeira parte da Entrevista, publicada no dia 24 de Outubro de 2013)
Apesar da censura os cartoonistas portugueses também abordaram como puderam a febre do minério que assaltou o país.
Diário de Notícias, 20 Março de 1941.
Aterrem em Portugal: Há descrições de aldeias desertas, abandonadas porque se partia com a febre do volfrâmio. É um facto ou há algum exagero neste quadro?
J.P. Avelãs Nunes: Aconteceram situações próximas dessa em zonas onde a actividade económica normal foi interrompida devido à guerra. Como não havia forma de ganhar um salário, as pessoas viram-se obrigadas a migrar para locais onde existiam explorações de volfrâmio.
Verificou-se no Alentejo, por exemplo, onde a exploração de pirites de cobre foi quase interrompida e os mineiros ficaram sem trabalho. Aconteceu em S. Domingos, em Aljustrel, no Lousal e noutros locais durante o conflito. Exploravam-se metais considerados pouco relevantes para o esforço de guerra — ou que existiam noutros locais —, de baixo valor por tonelada.
Além do preço baixo de alguns metais havia a questão do transporte. Os navios estavam ameaçados de afundamento pelos submarinos alemães. O Reino Unido, por exemplo, quase não importou minério de cobre. Com desemprego em escala significativa no Alentejo, os mineiros procuraram trabalho noutros locais. Migravam pois sabiam da busca desesperada de mão-de-obra mineira qualificada no interior centro e norte, onde crescia a extracção de volfrâmio.
Perto das concessões de tungsténio, as pessoas viviam nas minas durante a semana mas regressavam às suas aldeias no fim de semana. De um modo geral, não se pode, pois, falar de uma desertificação das aldeias. Para além do mais, em inúmeros casos a migração era feita pelos homens em idade produtiva, enquanto as mulheres, as crianças e os idosos ficavam nas localidades de origem a assegurar actividades permanentes dos agregados familiares.
Muitas mulheres trabalhavam no volfrâmio, mas estas normalmente residiam em povoações próximas das minas. Empregavam-se na separação de minério, no “Kilo” e no “Pilha”, no comércio informal (na “candonga”) e no contrabando.
Pode-se, ainda, chamar a atenção para um outro fenómeno relevante. Chegado o momento de ingressar na actividade mineira formal, quem era remediado e tinha contactos nas chefias intermédias das empresas concessionárias, trabalhava à superfície. Os mais pobres e com menos conhecimentos iam para o fundo da mina, onde o dia-a-dia era mais duro, com mais acidentes e doenças profissionais.
Existiram, também, as chamadas “aldeias de viúvas”, mas essa expressão tem a ver com as mortes causadas pela silicose, uma doença comum entre os mineiros do tungsténio porque as condições de higiene no trabalho mantinham-se muito deficientes. A silicose é uma doença respiratória irreversível que causa incapacidade e pode levar à morte quando os pulmões ficam demasiado afectados.
A rocha encaixante dos filões de volfrâmio tinha muita sílica. As brocas dos martelos pneumáticos, as explosões e o arrastamento de inertes levantavam muito pó que os operários inspiravam. A poeira de sílica é quimicamente muito activa e quando as partículas entram em contacto com os pulmões causam cicatrização. Se esta atinge uma determinada dimensão, as pessoas deixam de respirar.
Aterrem em Portugal: Em que condições trabalhavam estas pessoas?
J.P. Avelãs Nunes: As condições eram difíceis mas os mineiros aceitavam-nas porque a vida da maioria dos portugueses não se apresentava menos dramática. As minas continuavam, apenas, a pobreza e a precariedade que muitos conheciam. Os acidentes e as doenças profissionais eram frequentes.
Trabalhar muitos dias a perfurar rocha ou a arrastar minério significava que as pessoas ficavam a sofrer de silicose. Após cinco ou seis anos de actividade, a doença atingia um nível muito elevado, gerando incapacidade grave ou morte.
À medida que as minas se tornavam complexas, com galerias a maior profundidade, os mineiros passavam a tomar as refeições no subsolo. Normalmente colocavam os explosivos e as descargas aconteciam imediatamente antes das refeições. O tempo de descanso era, assim, passado num ambiente saturado de poeira de sílica.
A iluminação era garantida através dos gasómetros. Utilizavam carbonato de cálcio, o qual, em contacto com a água, gerava uma chama. Tinham, no entanto, uma capacidade de iluminação muito baixa.
Os mineiros não utilizavam botas especiais ou capacetes entre outras razões porque estes eram relativamente caros e as empresas não os forneciam. Se estavam longe de casa e dormiam nas camaratas das empresas, usavam a mesma roupa durante toda a semana, sem tomar banho.
As camas nas camaratas eram, frequentemente, uma enxerga com palha ou mato e um cobertor. Havia infestação permanente de piolhos e de percevejos.
À superfície, nos regimes do “Kilo” e do “Pilha”, como se verificava um menor ou nenhum controlo técnico, registavam-se mais desmoronamentos nas sanjas e nos poços. O uso indevido de explosivos causava, também, muitos acidentes.
Dizer que os “volframistas” ganhavam “dinheiro fácil” — expressão muito em voga naquele tempo — resulta de uma interpretação errónea. Poderia parecer fácil a elites locais ou nacionais pouco habituadas a observar camponeses pobres com acesso a bens e a serviços “de luxo”. Implicava, no entanto, trabalho fisicamente violento e/ou riscos significativos.
Apesar de a guerra ter obrigado as empresas dos países beligerantes a melhorar as condições de trabalho e de vida, os martelos pneumáticos com jacto de água, obrigatórios no Reino Unido, eram pouco utilizados em Portugal. Houve, pois, uma transferência de tecnologia já ultrapassada para o nosso país.
Ocorreu, igualmente, a contaminação de lençóis friáticos, cursos de água e terrenos agrícolas, uma vez que a exploração de jazigos de volfrâmio gerava a libertação de poluentes químicos a partir do esgoto das concessões e das escombreiras.
Algumas notícias publicadas na imprensa em 1941, antes do noticiário sobre o tema ser proibido pela censura.
Aterrem em Portugal: E quando, em Junho de 1944, António de Oliveira Salazar decidiu interromper a exploração de minérios de tungsténio criou-se um vazio?
J.P. Avelãs Nunes: Sim e não. As Minas da Panasqueira chegaram a empregar mais de 11000 pessoas (6000 na mina e 5000 no “Kilo”). Se acrescentarmos familiares, deparamos com um quantitativo de pessoas que superava o da generalidade das sedes de concelho portuguesas.
Fora do contexto da guerra económica, esta situação dificilmente seria mantida. Em Junho de 1944 ou em Maio de 1945, a passagem para uma economia de paz teria de acontecer e, com ela, a desvalorização do preço dos minérios de volfrâmio.
As explorações informais e as minas mais pequenas só funcionavam em contexto de conflito militar global e mesmos as maiores, como a Panasqueira ou a Borralha, também reduziram muito a actividade em período de paz.
Esta evolução não era desconhecida e havia a percepção de que acabaria por suceder. No entanto, a opção de interromper unilateralmente toda a extracção de tungsténio, assumida pelo Governo do Estado Novo por razões ideológicas, antecipou e agravou essas dificuldades.
Portugal poderia ter negociado soluções alternativas com os Aliados. Uma tal hipótese foi, mesmo, aventada por Londres e Washington no final de 1943 e início de 1944.
Talvez o Chefe da ditadura tenha recusado a proposta para não ter de assumir uma rotura com o Eixo, para explicitar a sua discordância com a decisão de forçar o Terceiro Reich e a Alemanha a uma rendição incondicional, para ‘castigar’ o “materialismo” e a falta de respeito pelas hierarquias sociais tradicionais manifestados pelos “volframistas”.
Carlos Guerreiro
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quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Algumas perguntas a Avelãs Nunes (1)
João Paulo Avelãs Nunes é professor de história da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e é também autor do livro “O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)", onde faz um estudo não só sobre o impacto económico, mas também sobre o impacto social que a exploração do volfrâmio teve em Portugal durante a 2ª Guerra Mundial.
O "Aterrem em Portugal!" publica hoje a primeira parte de um longa entrevista feita a Avelãs Nunes sobre este tema.
Aterrem em Portugal: Como é que o volfrâmio assume uma importância central nas exportações portuguesas durante o período da Segunda Guerra Mundial?
J.P. Avelãs Nunes: O volfrâmio ou tungsténio, combinado com outros metais, tem diversas utilizações, sendo as mais significativas em contexto de guerra o reforço de blindagens e de projécteis, de componentes de máquinas destinadas a escavar, cortar ou perfurar.
Desde o último quartel do século XIX que o volfrâmio é utilizado nessas funções e, por isso, sempre que existem conflitos militares aumenta a sua procura. Na Segunda Guerra Mundial a procura é superior à de qualquer outro período porque a utilização de blindagens se generalizou e também porque, a partir de meados de 1941, um dos lados do conflito passou a depender, quase na totalidade, da produção ibérica de concentrados.
Para a Alemanha era decisivo comprar tungsténio a Espanha e a Portugal porque não tinha acesso a outras reservas. O Reino Unido e, mais tarde, os EUA queriam impedir ou, pelo menos, reduzir a quantidade de minério a que os alemães acediam para assim diminuir a sua capacidade de produção de armamento.
Numa lógica essencialmente preemptiva, pois não necessitavam do volfrâmio ibérico, os Aliados compravam todo o volfrâmio que podiam, desequilibrando completamente a relação entre a oferta e a procura. O preço da tonelada disparou e fez com que a importância das vendas de concentrados de tungsténio na balança comercial portuguesa também aumentasse brutalmente.
Aterrem em Portugal: Para além da importância comercial o volfrâmio assume também grande importância no jogo diplomático ao longo de todo o conflito?
J.P. Avelãs Nunes: É melhor dizer que o volfrâmio está no centro do jogo diplomático. Uma das razões que terá dissuadido a Alemanha de invadir a Península Ibérica e, especialmente, Portugal foi a importância das reservas nacionais de volfrâmio.
As maiores minas de tungsténio em Portugal estavam concessionadas a britânicos e a franceses ou eram controladas por técnicos ligados a estes dois países. Uma invasão alemã — que arrancaria dos Pirenéus — daria tempo para destruir ou sabotar as concessões mais importantes, anulando a produção durante muitos meses.
Desde que Portugal continuasse a assegurar o fornecimento de concentrados e numa altura em que a guerra ainda se encontrava equilibrada, os alemães não arriscaram uma interrupção da produção de volfrâmio.
As maiores pressões surgiram quando os Aliados começaram a ter vantagem e exigiram a diminuição ou a suspensão do fornecimento de tungsténio à Alemanha. O Reino Unido chegou, em fins de 1943 e princípios de 1944, a conceber apoiar o derrube de António de Oliveira Salazar ou do Estado Novo devido à recusa inicial de cortar as vendas de concentrados à Alemanha.
Os Aliados preparavam já o desembarque na Normandia e continuavam sem ter resposta às suas exigências e propostas. Foi talvez a única altura em que o regime correu o risco de ser derrubado por uma acção interna que contaria com apoio por parte de Londres. Salvou-se o regime nomeadamente porque a decisão de interromper as exportações de tungsténio para Berlim surge na noite de 5 para 6 de Junho de 1944, na véspera do desembarque Aliado na Normandia.
Aterrem em Portugal: Em diversos documentos oficiais surge a expressão “faroeste” para caracterizar o ambiente nas zonas do volfrâmio. Justifica-se esta expressão?
J.P. Avelãs Nunes: “Faroeste” ou “corrida ao ouro” na Califórnia são alguns dos termos comparativos que surgem. O volfrâmio alcançava preços elevados mesmo no mercado tabelado imposto pelo governo português. A partir de certa altura a Comissão Reguladora do Comércio dos Metais deveria comprar toda a produção e disponibilizá-la para exportação nos termos estabelecidos pelos acordos assinados com os beligerantes.
Enquanto que, no centro e norte de Portugal continental, durante a Segunda Guerra Mundial, o salário de um trabalhador rural qualificado era de cerca de 10 a 12 escudos por dia, um quilo de volfrâmio no mercado tabelado valia bastante mais do que isso e no mercado negro chegou a atingir preços de 500, 750 e, mesmo, 1000 escudos.
A expressão “corrida ao ouro” surge, pois, naquele tempo, no sentido literal. Em princípios de 1942, ainda sem a intervenção do Estado português e com a guerra económica entre os dois blocos militares no seu ponto mais alto, encontrar uma pedra de volfrâmio representava o equivalente à remuneração de muitos dias de trabalho.
Quem necessitava e quem podia envolvia-se no processo de extracção, concentração e comercialização com grande empenho. Houve uma gigantesca mobilização porque as condições de vida eram muito difíceis. Em diversos sectores de actividade a guerra agravou o desemprego e alguns cessaram mesmo a actividade.
Outra razão para se utilizar estas expressões prende-se com o facto de a exploração do volfrâmio ser feita em regimes diversos. Existiam minas organizadas (com galerias, poços, cortas e/ou sanjas) que implicavam empresas estruturadas e acompanhamento técnico permanente. Nestes casos, devido ao aumento da procura, os ordenados subiram um pouco, mas a situação sociolaboral podia-se considerar como normal.
Havia, ainda, um tipo de exploração apenas realizada a céu aberto, que exigia menos condições, que implicava menor enquadramento técnico, mas que envolvia mais pessoas. Tratou-se da modalidade do “Kilo”, em que pequenos grupos de mineiros estabeleciam um contrato com o concessionário. Trabalhavam “à tarefa”, cabendo o manusear de explosivos e o acompanhamento técnico aos agentes económicos formais. Toda a produção deveria ser vendida aos concessionários.
Por fim havia a exploração completamente informal (o “Pilha”) e o roubo de minério ou de concentrados. Dado o preço dos minérios de tungsténio e o montante dos salários, a tentação de furtar, de desviar parte da produção para o “mercado negro” ou de extrair ilegalmente era muito grande. Mesmo alguns guardas das minas roubavam. Conta-se, por exemplo, que enchiam os canos das armas (por norma espingardas de caça) com minério de volfrâmio já concentrado que depois vendiam “na candonga”.
Há, também, notícias de roubos envolvendo dezenas de pessoas. Nas Minas da Panasqueira relatam-se assaltos ao cabo aéreo, um sistema de transporte de minério que utilizava grandes baldes metálicos suspensos por cabos que ligavam as zonas de extracção à Lavaria do Rio. As pessoas subiam aos postes, saltavam para as vagonetas e atiravam fora o minério que outros recolhiam. Muitas vezes apareciam os guardas da mina e a GNR, gerando-se situações de grande tensão.
Outros fenómenos ajudariam a criar um ambiente de “faroeste”. Atraídos pelo dinheiro e oriundos das cidades do litoral ou de outras regiões do país, chegavam às zonas de exploração de volfrâmio grupos de migrantes e de prostitutas. Fala-se de comboios cheios num vaivém de gente.
Haveria dinheiro em circulação e armas, incumprimento quase sistemático da legislação e relativização de interditos morais; esbanjamento de riqueza e acumulação de recursos financeiros ou, mesmo, de algumas fortunas; alteração, mesmo que apenas temporária, de regras e de hierarquias sociais. Muitas pessoas antes pobres adquiriram bens e serviços a que por norma não tinham acesso.
Ocorriam situações pouco habituais em zonas do país — o centro e o norte — habitualmente conservadoras. Com a subversão parcial das hierarquias e dos valores, ficou das áreas mineiras a imagem de um mundo à parte, de uma “Califórnia” ou de um “faroeste”, onde tudo era estranho mas possível.
Carlos Guerreiro
Leia Aqui mais sobre VOLFRÂMIO.
O "Aterrem em Portugal!" publica hoje a primeira parte de um longa entrevista feita a Avelãs Nunes sobre este tema.
Aterrem em Portugal: Como é que o volfrâmio assume uma importância central nas exportações portuguesas durante o período da Segunda Guerra Mundial?
J.P. Avelãs Nunes: O volfrâmio ou tungsténio, combinado com outros metais, tem diversas utilizações, sendo as mais significativas em contexto de guerra o reforço de blindagens e de projécteis, de componentes de máquinas destinadas a escavar, cortar ou perfurar.
Desde o último quartel do século XIX que o volfrâmio é utilizado nessas funções e, por isso, sempre que existem conflitos militares aumenta a sua procura. Na Segunda Guerra Mundial a procura é superior à de qualquer outro período porque a utilização de blindagens se generalizou e também porque, a partir de meados de 1941, um dos lados do conflito passou a depender, quase na totalidade, da produção ibérica de concentrados.
Para a Alemanha era decisivo comprar tungsténio a Espanha e a Portugal porque não tinha acesso a outras reservas. O Reino Unido e, mais tarde, os EUA queriam impedir ou, pelo menos, reduzir a quantidade de minério a que os alemães acediam para assim diminuir a sua capacidade de produção de armamento.
Numa lógica essencialmente preemptiva, pois não necessitavam do volfrâmio ibérico, os Aliados compravam todo o volfrâmio que podiam, desequilibrando completamente a relação entre a oferta e a procura. O preço da tonelada disparou e fez com que a importância das vendas de concentrados de tungsténio na balança comercial portuguesa também aumentasse brutalmente.
Aterrem em Portugal: Para além da importância comercial o volfrâmio assume também grande importância no jogo diplomático ao longo de todo o conflito?
J.P. Avelãs Nunes: É melhor dizer que o volfrâmio está no centro do jogo diplomático. Uma das razões que terá dissuadido a Alemanha de invadir a Península Ibérica e, especialmente, Portugal foi a importância das reservas nacionais de volfrâmio.
Cartoon britânico publicado no jornal "Daily Mail" de Maio de 1944.
Desde que Portugal continuasse a assegurar o fornecimento de concentrados e numa altura em que a guerra ainda se encontrava equilibrada, os alemães não arriscaram uma interrupção da produção de volfrâmio.
As maiores pressões surgiram quando os Aliados começaram a ter vantagem e exigiram a diminuição ou a suspensão do fornecimento de tungsténio à Alemanha. O Reino Unido chegou, em fins de 1943 e princípios de 1944, a conceber apoiar o derrube de António de Oliveira Salazar ou do Estado Novo devido à recusa inicial de cortar as vendas de concentrados à Alemanha.
Os Aliados preparavam já o desembarque na Normandia e continuavam sem ter resposta às suas exigências e propostas. Foi talvez a única altura em que o regime correu o risco de ser derrubado por uma acção interna que contaria com apoio por parte de Londres. Salvou-se o regime nomeadamente porque a decisão de interromper as exportações de tungsténio para Berlim surge na noite de 5 para 6 de Junho de 1944, na véspera do desembarque Aliado na Normandia.
Aterrem em Portugal: Em diversos documentos oficiais surge a expressão “faroeste” para caracterizar o ambiente nas zonas do volfrâmio. Justifica-se esta expressão?
J.P. Avelãs Nunes: “Faroeste” ou “corrida ao ouro” na Califórnia são alguns dos termos comparativos que surgem. O volfrâmio alcançava preços elevados mesmo no mercado tabelado imposto pelo governo português. A partir de certa altura a Comissão Reguladora do Comércio dos Metais deveria comprar toda a produção e disponibilizá-la para exportação nos termos estabelecidos pelos acordos assinados com os beligerantes.
Anúncio publicado no Jornal de Notícias em 12 de Fevereiro de 1942.
Enquanto que, no centro e norte de Portugal continental, durante a Segunda Guerra Mundial, o salário de um trabalhador rural qualificado era de cerca de 10 a 12 escudos por dia, um quilo de volfrâmio no mercado tabelado valia bastante mais do que isso e no mercado negro chegou a atingir preços de 500, 750 e, mesmo, 1000 escudos.
A expressão “corrida ao ouro” surge, pois, naquele tempo, no sentido literal. Em princípios de 1942, ainda sem a intervenção do Estado português e com a guerra económica entre os dois blocos militares no seu ponto mais alto, encontrar uma pedra de volfrâmio representava o equivalente à remuneração de muitos dias de trabalho.
Quem necessitava e quem podia envolvia-se no processo de extracção, concentração e comercialização com grande empenho. Houve uma gigantesca mobilização porque as condições de vida eram muito difíceis. Em diversos sectores de actividade a guerra agravou o desemprego e alguns cessaram mesmo a actividade.
Outra razão para se utilizar estas expressões prende-se com o facto de a exploração do volfrâmio ser feita em regimes diversos. Existiam minas organizadas (com galerias, poços, cortas e/ou sanjas) que implicavam empresas estruturadas e acompanhamento técnico permanente. Nestes casos, devido ao aumento da procura, os ordenados subiram um pouco, mas a situação sociolaboral podia-se considerar como normal.
Havia, ainda, um tipo de exploração apenas realizada a céu aberto, que exigia menos condições, que implicava menor enquadramento técnico, mas que envolvia mais pessoas. Tratou-se da modalidade do “Kilo”, em que pequenos grupos de mineiros estabeleciam um contrato com o concessionário. Trabalhavam “à tarefa”, cabendo o manusear de explosivos e o acompanhamento técnico aos agentes económicos formais. Toda a produção deveria ser vendida aos concessionários.
Antes de serem proibidas pela censura vários jornais avançaram com notícias sobre o que estava a acontecer no país devido à exploração do volfrâmio.
Diário de Noticias, 12 de Março de 1941
Há, também, notícias de roubos envolvendo dezenas de pessoas. Nas Minas da Panasqueira relatam-se assaltos ao cabo aéreo, um sistema de transporte de minério que utilizava grandes baldes metálicos suspensos por cabos que ligavam as zonas de extracção à Lavaria do Rio. As pessoas subiam aos postes, saltavam para as vagonetas e atiravam fora o minério que outros recolhiam. Muitas vezes apareciam os guardas da mina e a GNR, gerando-se situações de grande tensão.
Outros fenómenos ajudariam a criar um ambiente de “faroeste”. Atraídos pelo dinheiro e oriundos das cidades do litoral ou de outras regiões do país, chegavam às zonas de exploração de volfrâmio grupos de migrantes e de prostitutas. Fala-se de comboios cheios num vaivém de gente.
Haveria dinheiro em circulação e armas, incumprimento quase sistemático da legislação e relativização de interditos morais; esbanjamento de riqueza e acumulação de recursos financeiros ou, mesmo, de algumas fortunas; alteração, mesmo que apenas temporária, de regras e de hierarquias sociais. Muitas pessoas antes pobres adquiriram bens e serviços a que por norma não tinham acesso.
Ocorriam situações pouco habituais em zonas do país — o centro e o norte — habitualmente conservadoras. Com a subversão parcial das hierarquias e dos valores, ficou das áreas mineiras a imagem de um mundo à parte, de uma “Califórnia” ou de um “faroeste”, onde tudo era estranho mas possível.
Carlos Guerreiro
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Leia AQUI a segunda parte da EntrevistaLeia Aqui mais sobre VOLFRÂMIO.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
História do Volfrâmio à “cata” de turistas
O Volfrâmio serviu, durante a II Guerra Mundial, para ajudar o país a enriquecer e agora pode contribuir para algumas zonas criarem polos de atracção turística, num projecto que atravessa fronteiras e que pode criar uma rota que passa por explorações em Portugal, Espanha e França.
A informação foi avançada pelo “Diário as Beiras” nos últimos dias e aponta várias entidades da zona de Arouca como estando envolvidas neste projecto, que também prevê a possibilidade de criar uma imagem de marca que reúna todas as explorações envolvidas.
A exploração do Volfrâmio foi uma das actividades mais lucrativas do país ao longo da Guerra, com o preço deste minério a ultrapassar o do ouro, numa altura em que o fornecimento da indústria bélica alemã era assegurado quase na íntegra por Portugal e Espanha.
O Volfrâmio serve para tornar o aço mais resistente.
Do período das grandes explorações de volfrâmio, nomeadamente no concelho de Arouca entre outros, ficaram muitas histórias e lendas que se foram perpetuando ao longo dos anos seguintes.
Roubo, tráfico, batalhas campais, condições de trabalho miseráveis, fortunas construídas e destruídas são apenas algumas das expressões que surgem quando se fala destas explorações entre 1940 e 1944.
No ano passado o “Aterrem em Portugal” recuperou histórias e também alguns livros sobre o tema (ver AQUI) e vai regressar ao assunto no próximo mês com uma entrevista ao professor Avelãs Nunes, que realizou um mestrado onde abordou este assunto e posteriormente publicou os resultados em livro.
Por agora fica a notícia do Diário “As Beiras”:
Arouca lidera processo internacional de criação da Rota do Volfrâmio na Europa
Por António Alves
Várias entidades com ligação a Arouca estão a trabalhar em conjunto para a criação da Rota do Volfrâmio na Europa, que, em fase de candidatura, envolve já 14 explorações mineiras em Portugal, Espanha e França.
José Artur Neves, presidente da Câmara Municipal de Arouca, reconhece que a esses polos mineiros já estão associados vários produtos turísticos individuais, desenvolvidos localmente, mas diz à Lusa que “ainda não há nenhuma rota patrimonial que tenha o efetivo reconhecimento do Instituto Europeu de Itinerários Culturais”.
Esse “carimbo oficial” tem a vantagem de “facilitar o acesso a fundos comunitários para projetos de investimento turístico” e é por ele que a autarquia vem colaborando com a Associação para o Desenvolvimento Rural Integrado das Serras do Montemuro, Arada e Gralheira (ADRIMAG), e também com a Associação Geoparque de Arouca e com o Instituto Superior de Ciências Empresariais e Turismo.
Carminda Gonçalves, a técnica da ADRIMAG que supervisiona o processo, explica que o objetivo é definir, a partir das antigas minas de Rio de Frades e Regoufe, ambas em Arouca, “um percurso internacional que faça a ligação entre todos os polos da indústria de exploração do volfrâmio”.
(...)
Leia o resto o resto da notícia AQUI.
A informação foi avançada pelo “Diário as Beiras” nos últimos dias e aponta várias entidades da zona de Arouca como estando envolvidas neste projecto, que também prevê a possibilidade de criar uma imagem de marca que reúna todas as explorações envolvidas.
Exposição sobre as rotas do Volfrâmio - Fotografia diário "As Beiras".
A exploração do Volfrâmio foi uma das actividades mais lucrativas do país ao longo da Guerra, com o preço deste minério a ultrapassar o do ouro, numa altura em que o fornecimento da indústria bélica alemã era assegurado quase na íntegra por Portugal e Espanha.
O Volfrâmio serve para tornar o aço mais resistente.
Do período das grandes explorações de volfrâmio, nomeadamente no concelho de Arouca entre outros, ficaram muitas histórias e lendas que se foram perpetuando ao longo dos anos seguintes.
Roubo, tráfico, batalhas campais, condições de trabalho miseráveis, fortunas construídas e destruídas são apenas algumas das expressões que surgem quando se fala destas explorações entre 1940 e 1944.
No ano passado o “Aterrem em Portugal” recuperou histórias e também alguns livros sobre o tema (ver AQUI) e vai regressar ao assunto no próximo mês com uma entrevista ao professor Avelãs Nunes, que realizou um mestrado onde abordou este assunto e posteriormente publicou os resultados em livro.
Por agora fica a notícia do Diário “As Beiras”:
Arouca lidera processo internacional de criação da Rota do Volfrâmio na Europa
Por António Alves
Várias entidades com ligação a Arouca estão a trabalhar em conjunto para a criação da Rota do Volfrâmio na Europa, que, em fase de candidatura, envolve já 14 explorações mineiras em Portugal, Espanha e França.
José Artur Neves, presidente da Câmara Municipal de Arouca, reconhece que a esses polos mineiros já estão associados vários produtos turísticos individuais, desenvolvidos localmente, mas diz à Lusa que “ainda não há nenhuma rota patrimonial que tenha o efetivo reconhecimento do Instituto Europeu de Itinerários Culturais”.
Esse “carimbo oficial” tem a vantagem de “facilitar o acesso a fundos comunitários para projetos de investimento turístico” e é por ele que a autarquia vem colaborando com a Associação para o Desenvolvimento Rural Integrado das Serras do Montemuro, Arada e Gralheira (ADRIMAG), e também com a Associação Geoparque de Arouca e com o Instituto Superior de Ciências Empresariais e Turismo.
Carminda Gonçalves, a técnica da ADRIMAG que supervisiona o processo, explica que o objetivo é definir, a partir das antigas minas de Rio de Frades e Regoufe, ambas em Arouca, “um percurso internacional que faça a ligação entre todos os polos da indústria de exploração do volfrâmio”.
(...)
Leia o resto o resto da notícia AQUI.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Até mais logo... e um bom Verão
"Um trecho de Lisboa-Praia à hora do banho". Foto publicada no "Século Ilustrado" de 22 Julho de 1944, com o título "As praias da margem sul do Tejo/ Cova do Vapor e Lisboa Praia".
Como sempre, nesta altura do ano, interrompo as publicações do "Aterrem em Portugal".
Não sou especial adepto do Verão ou da praia, mas na nossa vida há muitas vidas - demasiadas vezes descuradas ao longo do ano - que são razão suficiente me afastar da "blogosfera" durante uns tempos...
Espero não ter defraudado - nos últimos 12 meses - aqueles que por aqui passaram...
Como este período do ano costuma ser um pouco menos "preenchido", deixo algumas sugestões de leitura sobre temas que foram abordados neste blogue nos últimos meses...
- Aviação
- Voo 777
- Açores
- Espionagem
-Filmes e vídeos
- Livros e autores
- Navios e naufrágios
- Propaganda
- Volfrâmio
Como este período do ano costuma ser um pouco menos "preenchido", deixo algumas sugestões de leitura sobre temas que foram abordados neste blogue nos últimos meses...
- Aviação
- Voo 777
- Açores
- Espionagem
-Filmes e vídeos
- Livros e autores
- Navios e naufrágios
- Propaganda
- Volfrâmio
Para aceder aos textos basta clicar sobre as palavras.
Para todos um bom Verão...
... e até Setembro,
Carlos Guerreiro
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quinta-feira, 21 de junho de 2012
Memórias do volfrâmio na primeira pessoa
São testemunhos de gente que viveu os tempos da corrida ao volfrâmio e que - felizmente - foram recolhidos em vídeo e tornados públicos.
O primeiro é do Tio José do Justino, realizado pela Valença TV, e o segundo de Lucina da Rocha Gomes, realizado por Guilherme Rösler de Carvalho, estudante da Universidade de Trás-os-montes e Alto Douro (UTAD).
Aos autores destas recolhas os meus parabéns.
O áudio nem sempre é o melhor mas as histórias valem por si...
Tio José do Justino e as minas de volfrâmio
O Ti' José conta como se fazia e como eram divididos os lucros da exploração do volfrâmio na freguesia de Taião, concelho de Valença.
Conta também como se realizava a busca e venda clandestina do minério e como foi instalado um pelotão da GNR na zona, para controlar essas ilegalidades, e como se deram vários incidentes que causaram um morto…
A recolha das imagens e do testemunho de Lucina da Rocha Gomes foi feita por Guilherme Rösler de Carvalho.
Renascem as histórias das explorações mineiras britânicas e alemãs e as dificuldades que os trabalhadores enfrentavam.
Fala também dos preços que o volfrâmio alcançava, do medo de roubar minério e dos milhares de pessoas que trabalhavam nas explorações.
Desejos de bons momentos...
Carlos Guerreiro
O primeiro é do Tio José do Justino, realizado pela Valença TV, e o segundo de Lucina da Rocha Gomes, realizado por Guilherme Rösler de Carvalho, estudante da Universidade de Trás-os-montes e Alto Douro (UTAD).
Aos autores destas recolhas os meus parabéns.
O áudio nem sempre é o melhor mas as histórias valem por si...
Tio José do Justino e as minas de volfrâmio
O Ti' José conta como se fazia e como eram divididos os lucros da exploração do volfrâmio na freguesia de Taião, concelho de Valença.
Conta também como se realizava a busca e venda clandestina do minério e como foi instalado um pelotão da GNR na zona, para controlar essas ilegalidades, e como se deram vários incidentes que causaram um morto…
Memórias do tempo do Volfrâmio
A recolha das imagens e do testemunho de Lucina da Rocha Gomes foi feita por Guilherme Rösler de Carvalho.
Renascem as histórias das explorações mineiras britânicas e alemãs e as dificuldades que os trabalhadores enfrentavam.
Fala também dos preços que o volfrâmio alcançava, do medo de roubar minério e dos milhares de pessoas que trabalhavam nas explorações.
Desejos de bons momentos...
Carlos Guerreiro
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terça-feira, 19 de junho de 2012
A “batalha” do volfrâmio em Alvarenga
“Não se teriam dado os acontecimentos se os agentes tivessem previsto, como deviam prever, que havia reacção, fossem prudentes, e se fizessem acompanhar de força para manter a ordem em caso de resistência e alteração dela”, salienta o relatório enviado pelo Governador Civil de Aveiro, José de Almeida Azevedo, ao Ministro do Interior em 13 de Maio de 1942.
O documento analisa uma tentativa de apreensão de volfrâmio que correu muito mal às autoridades, resultando num intenso tiroteio entre populares e “agentes da polícia ou fiscais” na freguesia de Alvarenga, concelho e Arouca.
Com este seguiu também para o Ministro Mário Pais de Sousa, um outro relatório, mais detalhado do presidente da autarquia.
A situação começara com a chegada de três homens que se diziam representantes de interesses ingleses, querendo adquirir até 20 toneladas de minério…
Eram liderados por um certo Castelo Branco, que teria conhecido José Joaquim Teles, residente da zona, numa deslocação ao Porto. Teles era um dos representantes dos donos do minério, que não eram mais do que parte importante da população da freguesia.
Apesar dos esforços, três dias depois, tinham sido reunidos apenas seis toneladas que seriam vendidas a cerca de 200$00 o quilo (1 Euro). Uma verdadeira fortuna tendo em conta que um dia trabalho no campo ou numa fábrica era pago entre os dez e os vinte escudos (cinco a dez cêntimos).
No último dia os compradores exibiram até uma mala cheia de notas, como garantia da seriedade das suas intenções. “Fez-se a amostragem e pesagem do referido minério – e, dele junto, os compradores informaram os vendedores de que tinham de mandar buscar as camionetas que se encontravam à distância para transporte do mesmo, as quais chegaram algum tempo depois”, continua o relatório do presidente da câmara de Arouca, António Almeida Brandão.
Tiros e Morte
“Juntamente com estas apareceram uns indivíduos que dizendo-se agentes ou fiscais declararam conjuntamente com os pretensos compradores, de pistola em punho, que o minério estava todo apreendido – e, que ia ser carregado nas camionetas. Surpreendidos com o facto, os vendedores opuseram-se à entrega do minério travando-se, então, uma violenta disputa entre eles e os agentes”, detalha Almeida Brandão.
Com as partes mais calmas, decide-se enviar uma delegação a Arouca para pedir conselho ao presidente da autarquia. A população põe em causa a legalidade da apreensão e pretende encontrar soluções que não passem pela apreensão do metal.
O regedor da freguesia e um agente seguem de automóvel. O primeiro ainda pede ao pai para este avisar o regedor substituto do problema, pretende que mobilize os cabos de polícia da zona para evitar que da crescente tensão resulte um mal maior.
O substituto está doente com uma broncopneumonia e nuca sairá de casa. Tudo se precipita…
As portas da igreja foram arrombadas – por desconhecidos, dirá o padre -, e os sinos tocam a rebate alertando o povo…
O toque traz também o presidente da Junta de Freguesia ao local onde “vários agentes se encontravam na estrada, de pistola em punho, para impedir que o povo, cada vez, em maior número, se aproximasse”.
Segue-se, nas palavras do presidente da câmara, a explicação de como a operação policial se transformou numa pequena batalha…
“Como o povo se aproximasse cada vez mais em maior número do local onde estava situada a casa do referido Teles e se encontrava o minério – exigindo ou pedindo a restituição do mesmo – do grupo de agentes que se tinham entrincheirado numa garagem anexa (…), partiram alguns tiros para o ar, e acto continuo o povo munido de espingardas caçadeiras, respondeu travando-se então vivo tiroteio entre ambas as partes”.
“Dois indivíduos que passavam perto do local onde os agentes estavam entrincheirados, e que vinham do seu trabalho, foram atingidos, pelos mesmos agentes, tendo um morte quasi instantânea e outro gravemente ferido, pelo que foi conduzido para o Hospital de Santo António, da cidade do Porto”.
“Durante o motim alguns populares, cuja identidade não pude averiguar, lançaram para o local onde os agentes se encontravam cartuchos de dinamite, vulgares, isto é, sem invólucro, pelo que os agentes, vendo que a situação se agravava, deitaram as armas ao chão, rendendo-se”.
Uns entregaram-se nas mãos da população, outros escaparam e seguiram para Arouca, onde pediram apoio à GNR e à PSP.
Um dos agentes precipitou-se por uma rua e deu de caras com José Pereira Pinto, professor primário da freguesia, que o acolheu em casa e “entregou no dia seguinte, livre de perigo, à Guarda Republicana”.
Garante o Governador Civil que ele acabara de sair de casa alarmado pelo tiroteio o que não impediu que fosse preso porque – alega a polícia - teria “podido evitar o motim, como pessoa mais ilustrada e de preponderância da terra”.
Sossego em Alvarenga
No dia seguinte várias residências foram alvo de buscas por parte da GNR e da PSP que isolaram a freguesia.
São apreendidas espingardas caçadeiras e volfrâmio, “parte do qual teria sido anteriormente negociado e que foi retirado pelo povo no fim do motim”.
Para além do professor houve também outros residentes presos. O regedor, que se dirigira numa viatura com o agente para Arouca, foi um deles. O Governador Civil garante que, como aquele já não se encontrava no local, nada podia ter feito para evitar a situação, “não havendo motivo para a sua captura e detenção, a não ser por ser também possuidor de minério, e ter vendido algum do apreendido”.
Todas as pessoas envolvidas directamente nas negociações acabaram atrás das grades e outros terão seguido o mesmo caminho. Os relatórios da autarquia e do Governo Civil não dão números, mas reforçam a ideia de que as polícias não tiveram mão leve durante a operação…
Mas para estes responsáveis locais é muito clara a responsabilidade exclusiva dos agentes pelo que se passou...
O presidente da autarquia é enérgico na defesa da população. “A causa próxima do motim foi derivado dos vendedores terem sido enganados com promessas de compra que lhes pareceram absolutamente honestas e verdadeiras que em seguida não se verificou, resultando, tornar-se a apreensão referida, do conhecimento do povo que se solidarizou com os prejudicados, havendo quem desconfiasse tratar-se de um golpe de burlistas, para levarem o minério, facto este que não era a primeira vez que se verificava na freguesia”.
O Governador Civil, por seu lado, lembra que “da apreensão resulta a ruína de muita gente que tinha naquele minério toda a sua fortuna”, e também não deixa dúvidas sobre quem deve assacar com as culpas.
“Os acontecimentos, em resumo, não se dariam se a apreensão fosse casual (em trânsito ou ocasião em que não estivesse ninguém ou estivesse pouca gente) ou, no caso de preparada (foi preparada durante três dias) os apreensores tivessem tomado medidas preventivas contra quaisquer protestantes que surgissem”.
“Acabou-se por onde se devia principiar e a essa imprevidência, afinal, se devem as lamentáveis ocorrências” salienta, deixando um pedido: “Hoje há sossego em Alvarenga e esse sossego será completo, se voltarem aos seus lares as pessoas presas e já que pouco ou nada se remedeia”.
Carlos Guerreiro
O documento analisa uma tentativa de apreensão de volfrâmio que correu muito mal às autoridades, resultando num intenso tiroteio entre populares e “agentes da polícia ou fiscais” na freguesia de Alvarenga, concelho e Arouca.
Com este seguiu também para o Ministro Mário Pais de Sousa, um outro relatório, mais detalhado do presidente da autarquia.
O Ministro do Interior, Mário Pais de Sousa, rodeado pelos governadores civis em 1942.
(Mundo Gráfico, 15/10/1942)
A situação começara com a chegada de três homens que se diziam representantes de interesses ingleses, querendo adquirir até 20 toneladas de minério…
Eram liderados por um certo Castelo Branco, que teria conhecido José Joaquim Teles, residente da zona, numa deslocação ao Porto. Teles era um dos representantes dos donos do minério, que não eram mais do que parte importante da população da freguesia.
Apesar dos esforços, três dias depois, tinham sido reunidos apenas seis toneladas que seriam vendidas a cerca de 200$00 o quilo (1 Euro). Uma verdadeira fortuna tendo em conta que um dia trabalho no campo ou numa fábrica era pago entre os dez e os vinte escudos (cinco a dez cêntimos).
No último dia os compradores exibiram até uma mala cheia de notas, como garantia da seriedade das suas intenções. “Fez-se a amostragem e pesagem do referido minério – e, dele junto, os compradores informaram os vendedores de que tinham de mandar buscar as camionetas que se encontravam à distância para transporte do mesmo, as quais chegaram algum tempo depois”, continua o relatório do presidente da câmara de Arouca, António Almeida Brandão.
Tiros e Morte
“Juntamente com estas apareceram uns indivíduos que dizendo-se agentes ou fiscais declararam conjuntamente com os pretensos compradores, de pistola em punho, que o minério estava todo apreendido – e, que ia ser carregado nas camionetas. Surpreendidos com o facto, os vendedores opuseram-se à entrega do minério travando-se, então, uma violenta disputa entre eles e os agentes”, detalha Almeida Brandão.
Com as partes mais calmas, decide-se enviar uma delegação a Arouca para pedir conselho ao presidente da autarquia. A população põe em causa a legalidade da apreensão e pretende encontrar soluções que não passem pela apreensão do metal.
O regedor da freguesia e um agente seguem de automóvel. O primeiro ainda pede ao pai para este avisar o regedor substituto do problema, pretende que mobilize os cabos de polícia da zona para evitar que da crescente tensão resulte um mal maior.
O substituto está doente com uma broncopneumonia e nuca sairá de casa. Tudo se precipita…
As portas da igreja foram arrombadas – por desconhecidos, dirá o padre -, e os sinos tocam a rebate alertando o povo…
O toque traz também o presidente da Junta de Freguesia ao local onde “vários agentes se encontravam na estrada, de pistola em punho, para impedir que o povo, cada vez, em maior número, se aproximasse”.
Segue-se, nas palavras do presidente da câmara, a explicação de como a operação policial se transformou numa pequena batalha…
“Como o povo se aproximasse cada vez mais em maior número do local onde estava situada a casa do referido Teles e se encontrava o minério – exigindo ou pedindo a restituição do mesmo – do grupo de agentes que se tinham entrincheirado numa garagem anexa (…), partiram alguns tiros para o ar, e acto continuo o povo munido de espingardas caçadeiras, respondeu travando-se então vivo tiroteio entre ambas as partes”.
“Dois indivíduos que passavam perto do local onde os agentes estavam entrincheirados, e que vinham do seu trabalho, foram atingidos, pelos mesmos agentes, tendo um morte quasi instantânea e outro gravemente ferido, pelo que foi conduzido para o Hospital de Santo António, da cidade do Porto”.
“Durante o motim alguns populares, cuja identidade não pude averiguar, lançaram para o local onde os agentes se encontravam cartuchos de dinamite, vulgares, isto é, sem invólucro, pelo que os agentes, vendo que a situação se agravava, deitaram as armas ao chão, rendendo-se”.
Uns entregaram-se nas mãos da população, outros escaparam e seguiram para Arouca, onde pediram apoio à GNR e à PSP.
Um dos agentes precipitou-se por uma rua e deu de caras com José Pereira Pinto, professor primário da freguesia, que o acolheu em casa e “entregou no dia seguinte, livre de perigo, à Guarda Republicana”.
A GNR e a PSP tiveram mão pesada prendendo vários pessoas no dia seguinte ao tiroteio com as autoridades.
(Ilustração do Mundo Gráfico, 15/10/1942)
Garante o Governador Civil que ele acabara de sair de casa alarmado pelo tiroteio o que não impediu que fosse preso porque – alega a polícia - teria “podido evitar o motim, como pessoa mais ilustrada e de preponderância da terra”.
Sossego em Alvarenga
No dia seguinte várias residências foram alvo de buscas por parte da GNR e da PSP que isolaram a freguesia.
São apreendidas espingardas caçadeiras e volfrâmio, “parte do qual teria sido anteriormente negociado e que foi retirado pelo povo no fim do motim”.
Para além do professor houve também outros residentes presos. O regedor, que se dirigira numa viatura com o agente para Arouca, foi um deles. O Governador Civil garante que, como aquele já não se encontrava no local, nada podia ter feito para evitar a situação, “não havendo motivo para a sua captura e detenção, a não ser por ser também possuidor de minério, e ter vendido algum do apreendido”.
Todas as pessoas envolvidas directamente nas negociações acabaram atrás das grades e outros terão seguido o mesmo caminho. Os relatórios da autarquia e do Governo Civil não dão números, mas reforçam a ideia de que as polícias não tiveram mão leve durante a operação…
Mas para estes responsáveis locais é muito clara a responsabilidade exclusiva dos agentes pelo que se passou...
O presidente da autarquia é enérgico na defesa da população. “A causa próxima do motim foi derivado dos vendedores terem sido enganados com promessas de compra que lhes pareceram absolutamente honestas e verdadeiras que em seguida não se verificou, resultando, tornar-se a apreensão referida, do conhecimento do povo que se solidarizou com os prejudicados, havendo quem desconfiasse tratar-se de um golpe de burlistas, para levarem o minério, facto este que não era a primeira vez que se verificava na freguesia”.
O Governador Civil, por seu lado, lembra que “da apreensão resulta a ruína de muita gente que tinha naquele minério toda a sua fortuna”, e também não deixa dúvidas sobre quem deve assacar com as culpas.
“Os acontecimentos, em resumo, não se dariam se a apreensão fosse casual (em trânsito ou ocasião em que não estivesse ninguém ou estivesse pouca gente) ou, no caso de preparada (foi preparada durante três dias) os apreensores tivessem tomado medidas preventivas contra quaisquer protestantes que surgissem”.
“Acabou-se por onde se devia principiar e a essa imprevidência, afinal, se devem as lamentáveis ocorrências” salienta, deixando um pedido: “Hoje há sossego em Alvarenga e esse sossego será completo, se voltarem aos seus lares as pessoas presas e já que pouco ou nada se remedeia”.
Carlos Guerreiro
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Volfrâmio
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Romance "O Rei do Volfrâmio"
Terminamos esta semana de livros dedicados ao tema volfrâmio com obra de ficção...
Fica a capa e uma nota sobre o "Rei do Volfrâmio", de Miguel Miranda, e também uma ligação a outro livro, que já foi alvo de atenção neste blogue.
Falamos do romance de Roberto Wilson, "Último acto em Lisboa (ver "Algumas Perguntas a Robert Wilson").
Do "Rei do Volfrâmio" pode ver também um "Book Trailer", uma apresentação em vídeo da obra...

Sinopse:
Na primeira metade do século XX, o mundo foi flagelado por guerras sucessivas, que causaram milhões de mortos, destruição e sofrimento.
Houve também quem prosperasse com o esforço bélico, como os volframistas. Portugal foi um dos principais exportadores de volfrâmio, durante a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial.
O enriquecimento súbito dos volframistas e a sua queda na penúria do pós-guerra são motivo para uma tese de doutoramento do investigador João de Deus.
Mergulhado numa conturbada vida amorosa, investiga o passado de Petrónio Chibante, o Rei do Volfrâmio, explorador da mina Paraíso, em Vilar das Almas.
O passado, convocado de forma estranha pela alma de Serafina Amásio, antes de abandonar o corpo, cruza-se com o presente, revivendo amores e desamores de cada época, no lugar recôndito de Vilar e por esse mundo fora.
O Rei do Volfrâmio é a saga de um país e das suas almas, vivendo de um passado faustoso e iluminado, sem canalizar forças para o futuro.
É uma reflexão sobre a diáspora e as gerações de novos párias.É também uma ode ao amor, nas suas mais diversas e estranhas formas. É ainda uma elegia aos que das fraquezas fizeram forças, em nome da razão.
Boas leituras
Carlos Guerreiro
Para ler mais sobre
VOLFRÂMIO clique AQUI
LIVROS clique AQUI
Fica a capa e uma nota sobre o "Rei do Volfrâmio", de Miguel Miranda, e também uma ligação a outro livro, que já foi alvo de atenção neste blogue.
Falamos do romance de Roberto Wilson, "Último acto em Lisboa (ver "Algumas Perguntas a Robert Wilson").
Do "Rei do Volfrâmio" pode ver também um "Book Trailer", uma apresentação em vídeo da obra...

"O Rei do Volfrâmio",
de Miguel Miranda,
foi editado
pela Dom Quixote,
em 2008, e
tem o
ISBN: 9789722035453
Sinopse:
Na primeira metade do século XX, o mundo foi flagelado por guerras sucessivas, que causaram milhões de mortos, destruição e sofrimento.
Houve também quem prosperasse com o esforço bélico, como os volframistas. Portugal foi um dos principais exportadores de volfrâmio, durante a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial.
O enriquecimento súbito dos volframistas e a sua queda na penúria do pós-guerra são motivo para uma tese de doutoramento do investigador João de Deus.
Mergulhado numa conturbada vida amorosa, investiga o passado de Petrónio Chibante, o Rei do Volfrâmio, explorador da mina Paraíso, em Vilar das Almas.
O passado, convocado de forma estranha pela alma de Serafina Amásio, antes de abandonar o corpo, cruza-se com o presente, revivendo amores e desamores de cada época, no lugar recôndito de Vilar e por esse mundo fora.
O Rei do Volfrâmio é a saga de um país e das suas almas, vivendo de um passado faustoso e iluminado, sem canalizar forças para o futuro.
É uma reflexão sobre a diáspora e as gerações de novos párias.É também uma ode ao amor, nas suas mais diversas e estranhas formas. É ainda uma elegia aos que das fraquezas fizeram forças, em nome da razão.
Boas leituras
Carlos Guerreiro
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quinta-feira, 14 de junho de 2012
Livro "O Estado Novo e o Volfrâmio"
O livro de hoje é de João Paulo Avelãs Nunes, professor auxiliar de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Para além de "O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)", Avelãs Nunes tem publicado vários artigos sobre este tema. Pode encontrar um desses trabalhos AQUI.
Até ao final do mês o "Aterrem em Portugal" vai publicar uma entrevista com o professor Avelãs Nunes, onde a questão da exploração do volfrâmio é abordada nas suas variadas vertentes.
"O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)", foi editado em 2010, pela Editora Imprensa da Universidade de Coimbra. Pode adquirir um exemplar na Loja Virtual clicando AQUI.
Sinopse:
Visa-se neste livro reconstituir e analisar a evolução do subsector luso do volfrâmio, quer na década de 1930 — etapa de crise e paulatina reativação —, quer ao longo dos anos quarenta, com destaque para o período da Segunda Guerra Mundial (fase de “euforia especulativa”).
Observa-se, ainda, a título de contextualização, o período que decorreu entre o início da mineração do tungsténio em Portugal continental (1871) e o promulgar da “Lei de Minas do Estado Novo” (Julho de 1930), passando pela Primeira Grande Guerra (1914-1918).
Sendo o volfrâmio um “metal estratégico”, presta-se a atenção às vertentes económica e social, cultural e ideológica, mas, também, política e diplomática do “objeto global” em causa.
Face à relevância atingida pelos concentrados de tungsténio ibérico, de 1941 a 1944, na “economia de guerra” dos Aliados e, sobretudo, do Terceiro Reich nacional-socialista, consideram-se, igualmente, a política externa e as conceções geoestratégicas da ditadura chefiada por António de Oliveira Salazar; as ligações do nosso país às problemáticas do “ouro nazi” e do Holocausto; o modo como, depois de 1945, foram encarados entre nós a “comunidade germânica” e os “bens alemães”.
Abordam-se, para terminar, as implicações da atividade extrativa ao nível do desenvolvimento local, regional e nacional; a presença ou a ausência do “volframista” e das “corridas ao tungsténio” na(s) nossa(s) memória(s) histórica(s).
Mau grado o facto de, nas décadas de 1930 e 1940, Portugal ter vivido em ditadura, evocam-se, tanto as conceções e a intervenção das chefias executivas do regime, como as da Igreja e da “ação social católica”, de associações patronais e de organizações de profissionais liberais ou assalariados, de instituições de investigação e de ensino superior, dos mass media e das “comunidades rurais” envolvidas, das oposições ao “fascismo luso”.
No plano internacional, remete-se, sobretudo, para a intervenção, nos âmbitos da gestão da “economia-mundo capitalista” e do conflito militar de 1939-1945, do Reino Unido e da França, da Alemanha e dos EUA, de Espanha.
Boas leituras
Carlos Guerreiro
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LIVROS clique AQUI
Para além de "O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)", Avelãs Nunes tem publicado vários artigos sobre este tema. Pode encontrar um desses trabalhos AQUI.
Até ao final do mês o "Aterrem em Portugal" vai publicar uma entrevista com o professor Avelãs Nunes, onde a questão da exploração do volfrâmio é abordada nas suas variadas vertentes.
"O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)", foi editado em 2010, pela Editora Imprensa da Universidade de Coimbra. Pode adquirir um exemplar na Loja Virtual clicando AQUI.
Sinopse:
Visa-se neste livro reconstituir e analisar a evolução do subsector luso do volfrâmio, quer na década de 1930 — etapa de crise e paulatina reativação —, quer ao longo dos anos quarenta, com destaque para o período da Segunda Guerra Mundial (fase de “euforia especulativa”).
Observa-se, ainda, a título de contextualização, o período que decorreu entre o início da mineração do tungsténio em Portugal continental (1871) e o promulgar da “Lei de Minas do Estado Novo” (Julho de 1930), passando pela Primeira Grande Guerra (1914-1918).
Sendo o volfrâmio um “metal estratégico”, presta-se a atenção às vertentes económica e social, cultural e ideológica, mas, também, política e diplomática do “objeto global” em causa.
Face à relevância atingida pelos concentrados de tungsténio ibérico, de 1941 a 1944, na “economia de guerra” dos Aliados e, sobretudo, do Terceiro Reich nacional-socialista, consideram-se, igualmente, a política externa e as conceções geoestratégicas da ditadura chefiada por António de Oliveira Salazar; as ligações do nosso país às problemáticas do “ouro nazi” e do Holocausto; o modo como, depois de 1945, foram encarados entre nós a “comunidade germânica” e os “bens alemães”.
Abordam-se, para terminar, as implicações da atividade extrativa ao nível do desenvolvimento local, regional e nacional; a presença ou a ausência do “volframista” e das “corridas ao tungsténio” na(s) nossa(s) memória(s) histórica(s).
Mau grado o facto de, nas décadas de 1930 e 1940, Portugal ter vivido em ditadura, evocam-se, tanto as conceções e a intervenção das chefias executivas do regime, como as da Igreja e da “ação social católica”, de associações patronais e de organizações de profissionais liberais ou assalariados, de instituições de investigação e de ensino superior, dos mass media e das “comunidades rurais” envolvidas, das oposições ao “fascismo luso”.
No plano internacional, remete-se, sobretudo, para a intervenção, nos âmbitos da gestão da “economia-mundo capitalista” e do conflito militar de 1939-1945, do Reino Unido e da França, da Alemanha e dos EUA, de Espanha.
Boas leituras
Carlos Guerreiro
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Volfrâmio
terça-feira, 12 de junho de 2012
Volfro!, O caso de Arouca em livro
Chama-se "Volfro!" e é mais um livro sobre a questão do Volfrâmio, agora da autoria de José Miguel Leal da Silva.
Trata-se de um trabalho de não-ficção, editado pela Associação de Defesa do Património Arouquense, que poderá contactar para adquirir um exemplar.
O livro foi lançado em Agosto de 2011 e a Agência Lusa fez uma pequeno apontamento de reportagem sobre o tema, que aqui reproduzo.

Arouca: Livro Volfro! recorda décadas da febre mineira para explicar caso "peculiar" da exploração local de volfrâmio
José Miguel Leal da Silva lançou esta semana o livro “Volfro!”, no qual relaciona a generalidade da corrida aos minérios com a situação concreta do concelho de Arouca, entre 1910 e 1960.
Com uma tiragem de 1.500 exemplares editados pela Associação de Defesa do Património Arouquense, o livro “Volfro! - Esboço de uma teoria geral do rush mineiro - O caso de Arouca” tem por base a investigação que o autor desenvolveu em 2009 para a sua tese de mestrado em Antropologia e Movimentos Sociais, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
“O livro faz uma aproximação antropológica ao fenómeno da corrida aos minérios e depois aplica-a ao caso do volfrâmio de Arouca. Considera os migrantes e as suas origens, e procura verificar as relações entre a comunidade local e o fenómeno em si”, explica Leal da Silva, à Lusa.
Esse relacionamento revela-se em dados como os da afluência dos mineiros ao hospital, a sua taxa de mortalidade, as epidemias registadas no concelho e vários aspetos jurídicos, como os casos que deram entrada em tribunal e as licenças de porta aberta emitidas para exploração de tabernas e outros locais onde esses migrantes se alimentavam.
Para Leal da Silva, trata-se de “dar uma ideia do que se passou em Arouca” nas décadas do chamado “ouro negro”, quando a exploração do volfrâmio no concelho se verificava em circunstâncias “tão peculiares” que há quem diga que o livro com o mesmo nome escrito por Aquilino Ribeiro foi inspirado na situação dessa localidade.
“Não tendo sido dos maiores produtores de volfrâmio do país, Arouca reuniu em si características perfeitamente singulares. Tinha minas afetas aos ingleses, minas afetas aos alemães — dois adversários de guerra - e tinha também minas independentes e uma grande atividade informal, clandestina”, assume o autor do livro.
O elemento químico volfrâmio é também chamado tungsténio e tem como símbolo químico a letra W, em referência à origem alemã da denominação: Wolf (lobo) associado a Rahm (espuma), o que se baseava na ideia inicial de que, antes de ser considerado minério, o volfrâmio tinha a reputação de “devorar” o estanho, dado o seu elevado ponto de fusão.
Esse é, aliás, um dos aspetos pelos quais os especialistas atribuem ao volfrâmio “propriedades extraordinárias”: tem o mais alto ponto de fusão, a 3.410 graus centígrados, é o metal com a menor expansão térmica e tem uma densidade elevadíssima, de 19,3 gramas por centímetro cúbico (enquanto a do ferro, por exemplo, se fica por 7,86).
Combinado com o carbono, o volfrâmio constitui o carboneto de tungsténio (WC), que é uma das ligas metálicas mais duras que se conhece, pelo que, em tempos de guerra, tinha três grandes aplicações: era usado em aços duros para fazer ferramentas de corte, em pontas perfurantes para armamento e em aços para blindagens anti-perfurantes de tanques.
Atualmente, é utilizado sobretudo como filamento de lâmpadas e em ligas de perfuradoras para prospeção de petróleo e para a indústria mineira.
Lusa
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Trata-se de um trabalho de não-ficção, editado pela Associação de Defesa do Património Arouquense, que poderá contactar para adquirir um exemplar.
O livro foi lançado em Agosto de 2011 e a Agência Lusa fez uma pequeno apontamento de reportagem sobre o tema, que aqui reproduzo.

"Volfro!", de José Miguel Leal da Silva, pode ser adquirido através da Associação de Defesa do Património Arouquense, que pode contactar em direccao@adpa.pt
Arouca: Livro Volfro! recorda décadas da febre mineira para explicar caso "peculiar" da exploração local de volfrâmio
José Miguel Leal da Silva lançou esta semana o livro “Volfro!”, no qual relaciona a generalidade da corrida aos minérios com a situação concreta do concelho de Arouca, entre 1910 e 1960.
Com uma tiragem de 1.500 exemplares editados pela Associação de Defesa do Património Arouquense, o livro “Volfro! - Esboço de uma teoria geral do rush mineiro - O caso de Arouca” tem por base a investigação que o autor desenvolveu em 2009 para a sua tese de mestrado em Antropologia e Movimentos Sociais, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
“O livro faz uma aproximação antropológica ao fenómeno da corrida aos minérios e depois aplica-a ao caso do volfrâmio de Arouca. Considera os migrantes e as suas origens, e procura verificar as relações entre a comunidade local e o fenómeno em si”, explica Leal da Silva, à Lusa.
Esse relacionamento revela-se em dados como os da afluência dos mineiros ao hospital, a sua taxa de mortalidade, as epidemias registadas no concelho e vários aspetos jurídicos, como os casos que deram entrada em tribunal e as licenças de porta aberta emitidas para exploração de tabernas e outros locais onde esses migrantes se alimentavam.
Para Leal da Silva, trata-se de “dar uma ideia do que se passou em Arouca” nas décadas do chamado “ouro negro”, quando a exploração do volfrâmio no concelho se verificava em circunstâncias “tão peculiares” que há quem diga que o livro com o mesmo nome escrito por Aquilino Ribeiro foi inspirado na situação dessa localidade.
“Não tendo sido dos maiores produtores de volfrâmio do país, Arouca reuniu em si características perfeitamente singulares. Tinha minas afetas aos ingleses, minas afetas aos alemães — dois adversários de guerra - e tinha também minas independentes e uma grande atividade informal, clandestina”, assume o autor do livro.
O elemento químico volfrâmio é também chamado tungsténio e tem como símbolo químico a letra W, em referência à origem alemã da denominação: Wolf (lobo) associado a Rahm (espuma), o que se baseava na ideia inicial de que, antes de ser considerado minério, o volfrâmio tinha a reputação de “devorar” o estanho, dado o seu elevado ponto de fusão.
Esse é, aliás, um dos aspetos pelos quais os especialistas atribuem ao volfrâmio “propriedades extraordinárias”: tem o mais alto ponto de fusão, a 3.410 graus centígrados, é o metal com a menor expansão térmica e tem uma densidade elevadíssima, de 19,3 gramas por centímetro cúbico (enquanto a do ferro, por exemplo, se fica por 7,86).
Combinado com o carbono, o volfrâmio constitui o carboneto de tungsténio (WC), que é uma das ligas metálicas mais duras que se conhece, pelo que, em tempos de guerra, tinha três grandes aplicações: era usado em aços duros para fazer ferramentas de corte, em pontas perfurantes para armamento e em aços para blindagens anti-perfurantes de tanques.
Atualmente, é utilizado sobretudo como filamento de lâmpadas e em ligas de perfuradoras para prospeção de petróleo e para a indústria mineira.
Lusa
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segunda-feira, 11 de junho de 2012
Volfrâmio de Aquilino Ribeiro
Não é muita a literatura que tem como tema as minas e a exploração volframista durante o período da II Guerra Mundial.
Existem, no entanto, algumas obras de ficção ou de carácter histórico que merecem destaque. No “Aterrem em Portugal” apresento um conjunto de livros e trabalhos académicos que podem ser adquiridos ou descarregados on-line de forma gratuita.
Durante esta semana poderá encontrar aqui uma sugestão de leitura por dia…
Se outros livros ou trabalhos existirem, que julguem merecer destaque, agradeço antecipadamente o contacto e as informações.

O romance "Volfrâmio",
de Aquilino Ribeiro,
pode ser descarregado
gratuitamente clicando
AQUI.
Para hoje deixo uma obra que pode ser "descarregada" on-line. Trata-se de “Volfrâmio” de Aquilino Ribeiro, editado pela primeira vez em 1944. Fica também uma passagem com a descrição de uma mina de volfrâmio em pleno funcionamento, através dos olhos de Aires, uma das personagens do romance…
"Foi neste estado de espírito, quase cobardia, que, baixando da serra, entrou no braço de
estrada que conduzia à exploração.
Por ele fora marchavam isolados e em bandos, com a bolsinha pendurada do pau ou do pulso, homens mais andrajosos que ele no fito de retomar o trabalho, se não ajustar-se.
De caminhos afluentes desembocavam mulheres com cestos à cabeça ou o seu molho de tangos, uma almotolia, encomendas das lojas, e entrevia-se nelas estas criaturas plurais que forjicam o bazulaque às maltas, as lavam e remendam, e ainda a tasqueira que abriu à margem da mina a baiuca de vinho, cigarros, petiscos e o resto.
Andando, andando, chegou a um dédalo de caminhos, por um dos quais rolavam vagonetas, por outros ia e vinha o pessoal particular dos engenheiros e agentes técnicos, com as vivendas muito senhoris e claras à retaguarda de pequenas platibandas enfeitadas de pelargónios e eloendros.
E, passos adiante, ao salvar a corcova do terreno, descobriu-se o formigueiro humano a seus olhos admirados, repartido em turmas consoante a natureza das tarefas, desprendendo uma barulheira a que era como abóbada o zunzum infernal dos volantes que se não viam.
Até bem longe, quinhentos a mil metros, se via gente, mulheres que lavavam a terra mineralizada ao ar livre e debaixo de telheiros, braços arremangados, pés descalços, saia colhida entre os joelhos para a água não esperrinchar pelas pernas acima.
Rapazotes, com boinas de homem, sem cor à força de usadas, a carne tenra a espreitar das camisas cheias de surro e em frangalhos, vinham baldear no monte o carrinho atestado de calhaus em que coruscavam com o sol as pirites e palhetas de volframina.
Mais ao largo, grande caterva de homens abria uma trincheira, e outra, para o morro, levava um banco de pedra e saibro à ponta-de ferro e picareta. Aqui e além trabalhadores brocavam a rocha, enquanto a outros incumbia carregar os tiros de pólvora bombardeira.
Crispados às varas dos sarilhos, muitos extraíam o resulho dos poços ou enxugavam-lhes a água para o trabalho prosseguir eficazmente.
Era subterrânea, por vezes a dezenas de metros de profundidade, que se exercia a actividade capital da mina, com revólveres de ar comprimido a demolir o quartzo, piquetes de entivadores especializados a escorar as galerias, bombas eléctricas e manuais a sorver a água dos regueirões, escombreiros, mineiros de guilho e marreta, homens e mais homens à carga e à descarga - pessoal complexo, testo e sabido na manobra.
À superfície era como um arraial. Por cima dos gritos, comandos, falas desencontradas, do retinir das ferramentas e estreloiçar das vagonas e raposas, o dínamo pulsava e a sua pancada mate, e ensurdecedora criava este tónus especial, sernibárbaro e feroz, da indústria moderna, homem e máquina conjugados.
O Aires conhecia a Sobriga, não como assalariado, mas das rapiocas e visitas que ali fizera com outros curiosos.
Não obstante, ao passar à beira da lavaria, em que estava integrado o transportador, com uma caradura brutesca em suas paredes a pique, altas e cegas, não deixou de estremecer de assombramento à ideia da obra de magia que ali se consumava: o calhau intonso convertido em farinha mineral, doce ao tacto e maravilhosa de propriedades.
(…)
Girava tudo, ou afigurou-se-lhe, a ritmo acelerado: homens e máquinas. As vagonas descarregavam o recheio da ribanceira para baixo, e logo esse montão de cascalho passava através da passadeira rolante para as mandíbulas de aço dos trituradores."
Boas leituras
Carlos Guerreiro
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Existem, no entanto, algumas obras de ficção ou de carácter histórico que merecem destaque. No “Aterrem em Portugal” apresento um conjunto de livros e trabalhos académicos que podem ser adquiridos ou descarregados on-line de forma gratuita.
Durante esta semana poderá encontrar aqui uma sugestão de leitura por dia…
Se outros livros ou trabalhos existirem, que julguem merecer destaque, agradeço antecipadamente o contacto e as informações.

O romance "Volfrâmio",
de Aquilino Ribeiro,
pode ser descarregado
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Para hoje deixo uma obra que pode ser "descarregada" on-line. Trata-se de “Volfrâmio” de Aquilino Ribeiro, editado pela primeira vez em 1944. Fica também uma passagem com a descrição de uma mina de volfrâmio em pleno funcionamento, através dos olhos de Aires, uma das personagens do romance…
"Foi neste estado de espírito, quase cobardia, que, baixando da serra, entrou no braço de
estrada que conduzia à exploração. Por ele fora marchavam isolados e em bandos, com a bolsinha pendurada do pau ou do pulso, homens mais andrajosos que ele no fito de retomar o trabalho, se não ajustar-se.
De caminhos afluentes desembocavam mulheres com cestos à cabeça ou o seu molho de tangos, uma almotolia, encomendas das lojas, e entrevia-se nelas estas criaturas plurais que forjicam o bazulaque às maltas, as lavam e remendam, e ainda a tasqueira que abriu à margem da mina a baiuca de vinho, cigarros, petiscos e o resto.
Andando, andando, chegou a um dédalo de caminhos, por um dos quais rolavam vagonetas, por outros ia e vinha o pessoal particular dos engenheiros e agentes técnicos, com as vivendas muito senhoris e claras à retaguarda de pequenas platibandas enfeitadas de pelargónios e eloendros.
E, passos adiante, ao salvar a corcova do terreno, descobriu-se o formigueiro humano a seus olhos admirados, repartido em turmas consoante a natureza das tarefas, desprendendo uma barulheira a que era como abóbada o zunzum infernal dos volantes que se não viam.
Até bem longe, quinhentos a mil metros, se via gente, mulheres que lavavam a terra mineralizada ao ar livre e debaixo de telheiros, braços arremangados, pés descalços, saia colhida entre os joelhos para a água não esperrinchar pelas pernas acima.
Rapazotes, com boinas de homem, sem cor à força de usadas, a carne tenra a espreitar das camisas cheias de surro e em frangalhos, vinham baldear no monte o carrinho atestado de calhaus em que coruscavam com o sol as pirites e palhetas de volframina.
Mais ao largo, grande caterva de homens abria uma trincheira, e outra, para o morro, levava um banco de pedra e saibro à ponta-de ferro e picareta. Aqui e além trabalhadores brocavam a rocha, enquanto a outros incumbia carregar os tiros de pólvora bombardeira.
Crispados às varas dos sarilhos, muitos extraíam o resulho dos poços ou enxugavam-lhes a água para o trabalho prosseguir eficazmente.
Era subterrânea, por vezes a dezenas de metros de profundidade, que se exercia a actividade capital da mina, com revólveres de ar comprimido a demolir o quartzo, piquetes de entivadores especializados a escorar as galerias, bombas eléctricas e manuais a sorver a água dos regueirões, escombreiros, mineiros de guilho e marreta, homens e mais homens à carga e à descarga - pessoal complexo, testo e sabido na manobra.
À superfície era como um arraial. Por cima dos gritos, comandos, falas desencontradas, do retinir das ferramentas e estreloiçar das vagonas e raposas, o dínamo pulsava e a sua pancada mate, e ensurdecedora criava este tónus especial, sernibárbaro e feroz, da indústria moderna, homem e máquina conjugados.
O Aires conhecia a Sobriga, não como assalariado, mas das rapiocas e visitas que ali fizera com outros curiosos.
Não obstante, ao passar à beira da lavaria, em que estava integrado o transportador, com uma caradura brutesca em suas paredes a pique, altas e cegas, não deixou de estremecer de assombramento à ideia da obra de magia que ali se consumava: o calhau intonso convertido em farinha mineral, doce ao tacto e maravilhosa de propriedades.
(…)
Girava tudo, ou afigurou-se-lhe, a ritmo acelerado: homens e máquinas. As vagonas descarregavam o recheio da ribanceira para baixo, e logo esse montão de cascalho passava através da passadeira rolante para as mandíbulas de aço dos trituradores."
Boas leituras
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sexta-feira, 8 de junho de 2012
Volfrâmio, o nosso ouro negro
No dia 7 de Junho de 1944 o governo de Salazar expedia uma nota para os jornais informando a suspensão total da extracção e venda de volfrâmio, tanto aos aliados como aos alemães. A curta nota resultava de anos de pressão aliada, com o objectivo de interromper a exportação daquele metal para a Alemanha.
Era o regresso da questão do volfrâmio às páginas dos jornais depois de um silêncio que durava há quase três anos. Depois de uma acumulação de notícias que anunciavam uma corrida à exploração deste metal e muitas outras relatando assaltos, roubos ou simplesmente situações bizarras, os Serviços de Censura tinham cortado o mal pela raiz.
Em 24 de Março de 1941publicaram uma recomendação – que funcionava como uma ordem – onde deixava claro o futuro das notícias sobre o tema: “Não deve ser autorizada a publicação de mais nenhuma notícia relativa ao recente aparecimento de volfrâmio e aos esforços desenvolvidos pelos povos para o explorar”.
Mesmo assim, e nos meses seguintes, os jornais foram insistindo no tema. Os diversos serviços de censura espalhados pelo país foram cortando tudo ou quase tudo.
Só em 1941 pelo menos quatro notícias receberam o célebre corte a azul da Censura, ocultando os acontecimentos da maioria dos portugueses.
Em finais de Novembro uma quinta em Alijó, “na qual existia o cobiçado minério” foi assaltada por “um numeroso grupo de indivíduos, tendo cercado a casa do proprietário. Houve nutrido tiroteio com a GNR. Dos assaltantes foram presos vários, alguns evadiram-se e quatro foram feridos”.
Em Dezembro intensificam-se o número de casos.
Logo no princípio do mês há tumultos em Pinhel, logo a seguir os serviços de censura cortam o “pormenor” das autoridades terem sido obrigadas a utilizar metralhadoras numa notícia que refere “motins entre duas freguesias vizinhas por motivo de pesquisas de volfrâmio, tendo sido necessário a intervenção da força armada”. O relatório não especifica em que zona do país isto aconteceu.
Sobre o Natal dá-se o roubo de volfrâmio a bordo de um navio… em pleno Tejo. Ao longo dos anos relatórios oficiais de diversas autoridades falam mesmo num clima de “faroeste” que se vive nas zonas mineiras.
Num país com um desemprego galopante as minas absorvem milhares de homens e mulheres. Procuram um ordenado mais elevado que noutras actividades e, se for possível, roubar ou contrabandear alguns quilos de metal. Vale mais que o ouro… e o sentido desta expressão não é apenas literal.
Mas porque subiu tanto o valor do volfrâmio, transformando-se na principal exportação portuguesa ao longo da II Guerra Mundial?
Muito do ouro que se acumulou nos cofres do Banco de Portugal, atravessou a fronteira para pagar as toneladas de metal que saiam das minas para as fábricas de armamento.
A invasão da União Soviética, pelos alemães, tinha-lhes cortado o acesso a este metal essencial para a preparação de ligas blindadas para tanques e outros equipamentos.
Os projécteis capazes de as atravessar também precisavam dele. Portugal e Espanha eram dos poucos fornecedores com que a Alemanha podia contar ao longo daqueles anos.
Para impedir que todo o volfrâmio chegasse àquele país também a Inglaterra passou a comprar todo o que podia. Não que precisasse, pois recebia-o dos Estados Unidos.
Por esta razão, e em termos diplomáticos, a questão do volfrâmio nunca saiu da mesa de negociações ao longo de todo o conflito.
Entre os documentos reunidos na Torre do Tombo referentes àquele período encontra-se o rastro das conversações e pressões que foram surgindo ao sabor das vitórias e derrotas nos campos de batalha.
Desde cedo os aliados querem cortar os fornecimentos de volfrâmio oriundos de Portugal e de Espanha para encurtar a guerra. Primeiro os britânicos, depois os americanos e finalmente todos os outros entabulam conversações, pedem esclarecimentos e exigem o corte dos envios.
Salazar alega, enquanto neutral, que pode fazer negócios com ambas as partes. O jogo resulta durante grande parte da guerra enquanto empresas mineiras portuguesas, britânicas, alemãs e francesas intensificam a actividade.
Os preços continuam a subir. Disparam. As minas tornam-se centros de disputa. Rouba-se, contrabandeia-se o que se pode. Fazem-se e desfazem-se fortunas.
Para controlar as exportações, os preços e acalmar tentações o Governo cria a Comissão Reguladora do Comércio dos Metais, por onde passava todo o volfrâmio.
Esta Comissão recebia o minério de todas as minas e depois repartia-o consoante os acordos comerciais que o governo tinha estabelecido. Com o passar do tempo o fornecimento à Alemanha foi diminuindo, mas a pressão aliada não.
Prometem-se corte no fornecimento de mantimentos. Só não são mais fortes as ameaças porque Portugal já tinha cedido na questão dos Açores. Mas não se consegue resistir para sempre…
Os britânicos, tal como sucedeu nas negociações relativas aos Açores, apelam ao cumprimento da velha aliança.
Por sorte ou por intuição Salazar anuncia a sua decisão de acabar com a exploração e o fornecimento de volfrâmio em 5 de Junho… Estávamos na véspera do Dia D.
Carlos Guerreiro
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Para ler mais sobre o tema do Volfrâmio clique AQUI.
Era o regresso da questão do volfrâmio às páginas dos jornais depois de um silêncio que durava há quase três anos. Depois de uma acumulação de notícias que anunciavam uma corrida à exploração deste metal e muitas outras relatando assaltos, roubos ou simplesmente situações bizarras, os Serviços de Censura tinham cortado o mal pela raiz.
Nota do Governo, publicada no "Diário de Lisboa" de 7 de Junho de 1944.
(Fundação Mário Soares)
Em 24 de Março de 1941publicaram uma recomendação – que funcionava como uma ordem – onde deixava claro o futuro das notícias sobre o tema: “Não deve ser autorizada a publicação de mais nenhuma notícia relativa ao recente aparecimento de volfrâmio e aos esforços desenvolvidos pelos povos para o explorar”.
Mesmo assim, e nos meses seguintes, os jornais foram insistindo no tema. Os diversos serviços de censura espalhados pelo país foram cortando tudo ou quase tudo.
Só em 1941 pelo menos quatro notícias receberam o célebre corte a azul da Censura, ocultando os acontecimentos da maioria dos portugueses.
Em finais de Novembro uma quinta em Alijó, “na qual existia o cobiçado minério” foi assaltada por “um numeroso grupo de indivíduos, tendo cercado a casa do proprietário. Houve nutrido tiroteio com a GNR. Dos assaltantes foram presos vários, alguns evadiram-se e quatro foram feridos”.
Em Dezembro intensificam-se o número de casos.
Logo no princípio do mês há tumultos em Pinhel, logo a seguir os serviços de censura cortam o “pormenor” das autoridades terem sido obrigadas a utilizar metralhadoras numa notícia que refere “motins entre duas freguesias vizinhas por motivo de pesquisas de volfrâmio, tendo sido necessário a intervenção da força armada”. O relatório não especifica em que zona do país isto aconteceu.
Sobre o Natal dá-se o roubo de volfrâmio a bordo de um navio… em pleno Tejo. Ao longo dos anos relatórios oficiais de diversas autoridades falam mesmo num clima de “faroeste” que se vive nas zonas mineiras.
Num país com um desemprego galopante as minas absorvem milhares de homens e mulheres. Procuram um ordenado mais elevado que noutras actividades e, se for possível, roubar ou contrabandear alguns quilos de metal. Vale mais que o ouro… e o sentido desta expressão não é apenas literal.
Mas porque subiu tanto o valor do volfrâmio, transformando-se na principal exportação portuguesa ao longo da II Guerra Mundial?
Muito do ouro que se acumulou nos cofres do Banco de Portugal, atravessou a fronteira para pagar as toneladas de metal que saiam das minas para as fábricas de armamento.
A invasão da União Soviética, pelos alemães, tinha-lhes cortado o acesso a este metal essencial para a preparação de ligas blindadas para tanques e outros equipamentos.
Os projécteis capazes de as atravessar também precisavam dele. Portugal e Espanha eram dos poucos fornecedores com que a Alemanha podia contar ao longo daqueles anos.
Para impedir que todo o volfrâmio chegasse àquele país também a Inglaterra passou a comprar todo o que podia. Não que precisasse, pois recebia-o dos Estados Unidos.
Por esta razão, e em termos diplomáticos, a questão do volfrâmio nunca saiu da mesa de negociações ao longo de todo o conflito.
Entre os documentos reunidos na Torre do Tombo referentes àquele período encontra-se o rastro das conversações e pressões que foram surgindo ao sabor das vitórias e derrotas nos campos de batalha.
Desde cedo os aliados querem cortar os fornecimentos de volfrâmio oriundos de Portugal e de Espanha para encurtar a guerra. Primeiro os britânicos, depois os americanos e finalmente todos os outros entabulam conversações, pedem esclarecimentos e exigem o corte dos envios.
Salazar alega, enquanto neutral, que pode fazer negócios com ambas as partes. O jogo resulta durante grande parte da guerra enquanto empresas mineiras portuguesas, britânicas, alemãs e francesas intensificam a actividade.
Os preços continuam a subir. Disparam. As minas tornam-se centros de disputa. Rouba-se, contrabandeia-se o que se pode. Fazem-se e desfazem-se fortunas.
Para controlar as exportações, os preços e acalmar tentações o Governo cria a Comissão Reguladora do Comércio dos Metais, por onde passava todo o volfrâmio.
Esta Comissão recebia o minério de todas as minas e depois repartia-o consoante os acordos comerciais que o governo tinha estabelecido. Com o passar do tempo o fornecimento à Alemanha foi diminuindo, mas a pressão aliada não.
Prometem-se corte no fornecimento de mantimentos. Só não são mais fortes as ameaças porque Portugal já tinha cedido na questão dos Açores. Mas não se consegue resistir para sempre…
Os britânicos, tal como sucedeu nas negociações relativas aos Açores, apelam ao cumprimento da velha aliança.
Por sorte ou por intuição Salazar anuncia a sua decisão de acabar com a exploração e o fornecimento de volfrâmio em 5 de Junho… Estávamos na véspera do Dia D.
Carlos Guerreiro
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quinta-feira, 22 de março de 2012
"Volfrâmio Nazi" candidato a prémio
Uma reportagem da SIC sobre a extracção de volfrâmio (tungsténio) em Rio de Frades, para os alemães e para ao ingleses, está nomeado para o prémio internacional da Federação Comercial de Filmotecas (Federation of Comercial Audio-Visual Libraries - FOCAL).
Este prémio - um dos principais desta área - distingue a boa utilização de imagens de arquivo. A reportagem concorre com nove trabalhos oriundos dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Bulgária e Irlanda.
A reportagem chamada "Volfrâmio Nazi", é da jornalista Amélia Moura Ramos, a imagem é de Rafael Homem e a edição de João Nunes...
O vencedor do prémio será anunciado no dia 2 de Maio. Até lá, fica o trabalho que a SIC passou no dia 12 de Outubro de 2012
Sinopse da reportagem publicada pala SIC.
Em 1942, António Pinho Freitas era comandante na Guarda Nacional Republicana em Aveiro. Uma vez por mês deslocava-se a cavalo a Rio de Frades, um lugar perdido na Serra da Freita, em Arouca. Ia lá para garantir que nenhum homem do destacamento da GNR de Rio de Frades desertasse para entrar na corrida ao volfrâmio e fazer dinheiro rápido.
Em Arouca, nas explorações de volfrâmio, eram os ingleses e os alemães que retiravam das serras o minério com que endureciam armamento.
Separadas por cinco quilómetros, as minas de Rio de Frades, pertencentes aos alemães, e de Regoufe, dos ingleses, foram simbólicas não pela grandeza das explorações mas porque durante cinco anos os beligerantes conviveram em paz, num lugar esquecido de Portugal, para conseguirem fazer a guerra por essa Europa fora.
Curioso, ciente da importância desse momento, o comandante da GNR deixou em herança um documento único desses dias: um filme de pouco mais de 14 minutos que rodou na mina dos alemães, com milhares de portugueses a trabalhar para o esforço de guerra nazi. É esse filme que transporta esta edição do Perdidos e Achados ao ano de 1942.
Boa sorte,
Carlos Guerreiro
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sábado, 19 de fevereiro de 2011
Algumas perguntas a Robert Wilson
Por Carlos Guerreiro
Robert Wilson é um escritor britânico que vive em Portugal há muitos anos. Neste momento reside no Redondo, no Alentejo, onde escreveu as suas últimas obras. Dos dez livros que publicou, dois estão relacionados com Portugal: “O ÚLTIMO ACTO EM LISBOA” (original de 1999) e “A COMPANHIA DE ESTRANHOS” (original de 2001). Ambos centram parte da sua acção no Portugal da II Guerra Mundial, razão para uma conversa com o autor.
No centro desta conversa está especialmente o primeiro destes livros que se concentra na mal conhecida “guerra do volfrâmio”, uma tema que só recentemente começou a ser conhecido, mesmo entre nós. Este é também um dos mais importantes livros da carreira de Wilson pois recebeu o “1999 Crime Writers Association Gold Dagger” (Prémio Adaga de Ouro da CWA de 1999) e o “2003 International Deutsche Krimi Prize” (Prémio Internacional Alemão de Crime de 2003).
Aterrem em Portugal: Parte da acção dos livros que escreveu, relacionados com Portugal, têm como pano de fundo o período da II Guerra Mundial. Porquê a escolha deste tema?
Robert Wilson: Escrevi quatro livros que tinham como cenário África, e nessa altura África não era um tema de leitura muito popular.
Quando terminei esses livros vivia em Portugal há cerca de 10 anos. Nessa altura pensei: as pessoas conhecem melhor Portugal, estão mais identificadas com o país e talvez seja um bom tema sobre o qual devo escrever.
Como já cá vivia há alguns anos, sentia-me mais confortável a escrever sobre o país. Conhecia alguma coisa sobre as pessoas e sobre a linguagem.
Faltava apenas encontrar o tema. Estávamos nos anos 90 e nos jornais lia muito sobre o ouro nazi. Julguei que talvez encontrasse a minha história: a forma como o ouro vinha da Alemanha, através de Espanha, até Portugal para depois desaparecer misteriosamente na América do Sul.
Estranhamente, e quanto mais pensava no assunto, menos excitante a história me parecia. Realizava pesquisas com a minha mulher em Londres, para um outro livro, e pedi-lhe para cruzar as palavras ouro com Portugal e ver o que acontecia.
Ela voltou muito depressa e disse-me que grandes quantidades de ouro entraram em Portugal durante a governação de Salazar, durante a II Guerra Mundial, por causa do volfrâmio.
O que é volfrâmio?, perguntei-lhe.
“Não faço ideia”, respondeu-me.
Descobrimos depois que volfrâmio era tungsténio e que, quando Hitler invadiu a Rússia, cortou a rota do principal do seu abastecedor que era a China. Isto queria dizer – por causa do tipo de conflito em que estava envolvido, um conflito de blindados – que era preciso muito aço e um dos componentes da liga é o tungsténio. Por isso ele tinha de encontrar um fornecedor alternativo.
Havia um pouco na Suécia – apenas cerca de 300 toneladas – e a maior parte estava em Portugal. Nessa altura existiam talvez cerca de 3000 toneladas no país. Pareceu-me que esta era um possibilidade de história muito mais interessante…
"Último acto em Lisboa", na edição da Dom Quixote de 2009 (ISBN: 9789722037297).
Aterrem em Portugal: Pesquisou o tema e falou com portugueses para compreender o que estava a acontecer no país nesse período. Que imagem tem de Portugal dos anos quarenta?
Robert Wilson: Em Inglaterra as pessoas escrevem diários e mantêm registos diversos sobre os acontecimentos. Há relatos pessoais e esse tipo de coisas. Em Portugal estamos a falar do período de Salazar e a população tinha medo, por isso não fazia, nem guardava, esse tipo de relatos. Isso foi o mais difícil, encontrar informação sobre o que se passava no país.
No Fundão, por exemplo, pedi a um jornalista os jornais dos anos 40 para a minha pesquisa. Disse que mos dava, mas que não iria servir-me de nada, por causa da censura.
Foi necessário encontrar pessoas que tivessem vivido essa história. Conhecer uma ou duas foi suficiente para ficar com uma imagem sobre o que se passava: aldeias inteiras do Alentejo deixavam os campos agrícolas e seguiam para a Beira, porque uma rocha de volfrâmio podia valer um mês de ordenado. Criou-se uma febre que atravessou Portugal.
De repente surgiu a oportunidade de todos poderem fazer uma fortuna.
Aterrem em Portugal: Quando se começa a pesquisar este período encontramos informação contraditória. Este era um país fascista e existia um forte controlo sobre a população. Mas parece, em vários momentos, que houve um afrouxamento nesse controlo. É pelo menos um período estranho.
Robert Wilson: Essa foi certamente a impressão com que fiquei.
Existiam centros de controlo, como Lisboa. Sentimos que a cidade estava controlada. Lembro-me de encontrar relatos de estrangeiros que comentavam o barulho que se ouvia todas as noites, por volta das nove horas. Soava como se fossem tiros. Depois ficavam a saber que a população só estava autorizada a bater os tapetes durante a noite, e era esse o barulho que se ouvia.
Nestas pequenas coisas percebemos que se tratava de uma sociedade muito controlada.
Na Beira esse controlo não existia, e existiam ainda muitas influências no terreno. Estavam lá os britânicos. Estavam lá os alemães. Estavam lá homens de negócios - portugueses e espanhóis.
Havia também muito contrabando.
Nesta zona não existia um controlo muito apertado e havia dinheiro. Por dinheiro as pessoas fazem coisas que normalmente nunca fariam.
Lembro-me de estudar num mapa as possíveis rotas que o contrabando poderia utilizar. Para mim a zona da Serra da Malcata seria um bom local para isso acontecer. Desloquei-me àquela zona e percebi que ainda hoje ali existe contrabando, não de volfrâmio, mas de tabaco.
Desembarcam os cigarros na costa perto de Aveiro e depois transportam-nos por ali.
"Na companhia de estranhos" também foi reeditado pela Dom Quixote em 2009 (ISBN: 9789722037303).
Aterrem em Portugal: O que mais o surpreendeu nesta pesquisa?
Robert Wilson: Fui surpreendido e fiquei impressionado com Salazar. Ele tinha um jogo muito difícil para fazer.
Estava entre os Aliados e o Eixo. Faziam ambos uma grande pressão sobre ele.
O Eixo ameaçava-o. Basicamente diziam que teria de fazer o que lhe pediam ou haveria problemas, como o ataque a embarcações portuguesas, por exemplo.
Os Aliados lembravam-lhe que tinham o tratado de aliança mais antigo do mundo – desde 1386 – e que por isso tinham de ser amigos.
Salazar fez um jogo muito cuidadoso. Tentou satisfazer ambos os lados e, ao fazê-lo, ainda conseguiu juntar uma fortuna com o volfrâmio.
Esta foi uma das maiores surpresas que tive. Salazar saiu da II Guerra Mundial como uma história de sucesso, e eu não esperava isso. Era um fascista, um grande admirador de Mussolini. Pensava que ele sairia queimado devido a essa associação, mas não foi isso que aconteceu. Ele saiu muito bem da II Guerra mundial…
Sinopse oficial de "Último acto em Lisboa"
1941
Klaus Felsen, o proprietário de uma fábrica em Berlim, é forçado a alistar-se nas SS e a dirigir-se a Lisboa, cidade de luz, onde ao ritmo dos dias convergem nazis e aliados, refugiados e especuladores, todos dançando ao compasso do oportunismo e do desespero. A sua missão é infiltrar-se nas geladas montanhas do Norte de Portugal, onde se trava uma luta traiçoeira pelo volfrâmio, elemento essencial à blitzkrieg de Hitler. Aí encontra Manuel Abrantes, o homem que põe em movimento a roda de ambição e vingança que irá girar até ao final do século.
Final dos anos 1990.
O inspector Zé Coelho, da Polícia Judiciária, investiga o crime sexual cometido contra uma jovem adolescente em Lisboa. Esta pesquisa conduzirá Coelho por terrenos lodosos da História a um crime mais antigo - enterrado com os ossos de um passado de fascismo - e a um pavoroso motivo enterrado ainda mais fundo. E, uma vez à superfície, o passado e o presente irão convergir com implicações arrepiantes e consequências insondáveis.
Sinopse oficial de "A companhia de estranhos"
Lisboa, 1944. No calor tórrido do Verão, as ruas da capital fervilham de espiões e informadores, enquanto os serviços secretos disputam em silêncio a última partida. Os alemães dominam a tecnologia dos foguetões e a pesquisa atómica. Os aliados estão decididos a impedir que a ameaça da «arma secreta» venha a concretizar-se.
Andrea Aspinall, matemática e espia, entra nesse mundo sofisticado pela mão de uma abastada família do Estoril. Karl Voss, adido militar da Legação Alemã, abalado pela implicação no assassinato de um Reichsminister e traumatizado pelo desastre de Estalinegrado, chega a Portugal com a missão de salvar a Alemanha do aniquilamento. Na tranquilidade mortal de um paraíso corrupto, Andrea e Voss encontram-se e tentam viver o seu amor num mundo em que não se pode acreditar em ninguém. Depois de uma noite de terrível violência, Andrea fica na posse de um segredo que vai ligá-la para sempre ao mundo clandestino, do repressivo regime fascista português à paranóia da Guerra Fria na Alemanha. E aí, numa Berlim gelada, descobre que os maiores segredos não estão nas mãos dos governos, mas em mãos muito próximas de si, e é forçada a fazer a derradeira e dilacerante opção.
Site oficial de Robert Wilson aqui.
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