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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

«O homem que veio do Outro Mundo» (4)
A vida em Dachau

Terminamos nesta publicação a transcrição da entrevista dada por José Agostinho das Neves ao jornalista Fernando Teixeira, do Diário Popular, em Novembro de 1945.

Nesta trecho é descrita a vida em Dachau e a libertação do campo pelos americanos...

Espero que o trabalho em transcrever estas longas páginas de jornal sejam úteis.



Recomeça aqui a transcrição:

Seis homens numa cama com 70 centímetros de largura

“Eu vou com alguns dos meus companheiros, de França, para o Block-21. O recinto ocupa uns mil metros quadrados. Ficámos ali a viver 1200 homens que, durante a noite, deveriam dormir numa barraca que mal comportava 300. Quando nos cabia a vez de adormecer sob o telhado da barraca, a coisa não era fácil, pois as camas, de madeira, sobrepostas em três compartimentos, só tinham 70 centímetros de largo para seis homens cada.

O que nos valeu foi que a fome nos havia feito emagrecer muito…”

- Como era o regime dos prisioneiros em Dachau?

- De manhã, às 4 e meia, eramos obrigados a levantar-nos e a sair para o pátio onde permanecíamos todo o dia até às 7 da tarde, qualquer que fosse o tempo cá fora. No Inverno, o sofrimento foi doloroso. Com a chuva, a neve e o frio e sem nos podermos abrigar «, só nos restava um recurso: apertar-nos uns de encontro aos outros, como um rebanho de carneiros e ficarmos para ali a procurar não deixar fugir o calor que cada um de nós pudesse armazenar e ceder ao outro. Sem roupa que chegasse e sem calçado, com uma temperatura de 24 graus abaixo de zero, muitos caiam sem sentidos e, assim iam morrendo. Outros, com os pés gelados e gangrenados, eram levados ao hospital ou metidos como coisa inútil no forno crematório e queimados vivos. O espectáculo começou a ser tão vulgar que cada um de nós esperava a entrada no forno como o fim lógico daquela vida ilógica. Durante o dia, para romper a monotonia daquela vida miserável e para que os guardas não se aborrecessem, faziam-nos formar e conservar horas seguidas na posição de sentido para ver a nossa resistência e separar os que deviam partir para os trabalhos nos “comandos” e os que, por serem fracos, iam acabar na câmara dos gases, mortos por asfixia e intoxicação.

A voz do meu companheiro de Paris volta a ter um som cavo, e a sumir-se como se as próprias palavras lhe causassem pavor:

- Quando se fazia esta escolha – a “visita” como nós lhe chamávamos – o silêncio era profundo, doloroso. Cada um de nós pensava consigo: “Será agora a minha vez? Os mais animosos despediam-se dos camaradas antes de serem levados para a câmara de gases e abriam a boca num sorriso em que ia todo o seu desprezo pelos “nazis”, aniquiladores de uma raça, de uma civilização, de um continente.

Outros tinham um grito pueril: “Os americanos hão-de vingar-nos!”

Os alemães sabiam do avanço aliado em terras da França e da própria Alemanha – e não perdoavam. E muitos dos condenados eram mortos ali mesmo a tiro. Menos gás que se gastava na câmara…


Atacado de tifo e não tratado

Depois de ter escapado em várias “visitas”, acabei por ser incorporado num transporte com destino a Hamburgo. Mas não cheguei a ir. Atacado de tifo, estive nove dias com 40 graus de febre. Os meus companheiros, condoídos, amontoavam-se nas outras camas para me deixarem só com mais dois no meu leito. Mas ninguém podia tratar-me. E os médicos do campo tinham mais que fazer, ocupados em averiguar até que ponto resistiam aos bacilos do cólera e do paludismo alguns dos internados no campo transformados em cobaias. Depois dos nove dias, começo a sofrer de disenteria. Os camaradas chamaram os guardas. O meu estado já não deixava ilusões a ninguém. Sou então dado como “kaput” e levado para o “block 30” – o dos condenados a desaparecer, pela fome ou pela doença.

Aí, a lotação era de 1200 homens e já não havia camas. Tíficos, tuberculosos, grípicos, estavam, lado a lado no chão da barraca carpindo as suas dores, delirando nos seus sonhos de febre alta. Morriam, em média, 40 por dia. De manhã os cadáveres eram levados para a casa de lavar (a indiferença com que nós os afastávamos do caminho quando íamos passar um pouco de água na cara e nas mãos!) Depois um carro vinha buscá-los descarnados, amontoados uns sobre os outros, nus (porque o seu fato ia logo servir a outros que entrassem de novo!).

Nunca mais poderei esquecer esse carro fantasma! Quantas vezes, ao vê-lo passar, eu cheio de febre, de dores, de fome, de sede pensava para comigo próprio: “Que mal terei eu feito ao mundo, a este homens? Porque não morro sem mais sofrimentos? Para que resisto? E porque não terei eu direito a viver feliz? Quem semearia urtigas no meu caminho? Quem? Depois, caía, - abatido. Mas sem sabe como, aguentei-me. E, apesar dos meus 39 quilos de peso, a febre ia passando, diminuído dia a dia.

Comecei a comer (nunca fui tratado do tifo ou da disenteria com medo de morrer de fome. De resto a comida não era tanta que matasse: de manhã uma beberagem a que podia chamara-se chá ou café conforme o gosto; ao meio dia, um litro de água quente com um pouco de beterraba; às 7 da tarde, 150 gramas de pão, uma rodela de salsicha e meio litro de infusão de ervas, sem açúcar.


A flagelação e a agressão

- Como explica a sua resistência à doença?

- Sabe-se lá! Quando voltei a Paris, um médico disse-me que tinha esgotado todas as minhas reservas. E que me valera não ter sofrido qualquer castigo grave durante o tempo que estive em Dachau. Se isso tivesse acontecido, não resistiria à perda de mais reservas do organismo. E o meu castigo foi só estar nu e em pé um dia inteiro no pátio porque aparecera um piolho na minha cama…

- Mas de que sorte eram os outros castigos?

- O mais frequente era o da flagelação. O castigado deitava-se sobre um pequeno carrinho de jardim, de joelhos, com as mãos atadas à roda. Dois guardas, munidos de nervos de boi, aplicavam-lhe então, alternadamente, nas costas e nas nádegas, o número de vergastadas que lhe fora atribuído, nunca inferior a 25. Vi um homem que ficou com os ossos à superfície, após ter recebido 300 vergastadas. E quando o supliciado soltava um grito, os golpes dados não eram tidos em conta e a contagem começava de novo. Felizmente, nunca recebi qualquer castigo destes. Fui agredido várias vezes a soco e a pontapés, feriram-me com um pau na cabeça, partiram-me os óculos por duas vezes. Foi tudo. Mas os outros… Quantas vítimas dos “nazis”! O forno crematório ardia constantemente. E na sala de banhos havia barras de madeira para os enforcamentos…

- Quais foram os factos que mais o impressionaram durante a sua estadia em Dachau?


O Homem que morreu quando quis

-É difícil. Foram tantos… Mas sabe, depois, a sensibilidade embota-se, já não temos cérebro, nem coração. Andamos, falamos, gritamos ao acaso… Autómatos, enfim. O que mais me impressionou? A morte daquele professor de francês que era meu companheiro de “blok”. Não merece a pena dizer o nome. Um dia, dia nevoento e chuvoso, arrastou-se até junto de mim e mais dois companheiros. Queixou-se amargamente da sua sorte. Depois, encolheu os ombros e disse: “também não vale a pena incomodar-me: isto está por pouco”… Olhou-nos bem de frente com os seus olhos ingénuos, transparentes… E disse-nos adeus. Soubemos depois, duas horas mais tarde, o que acontecera. Saíra de junto de nós, fora à casa de lavar, afastara os cadáveres que estavam no chão, despira-se todo, deitara-se na laje fria. Cinco minutos depois estava morto.

“Aquele soubera vingar-se dos alemães. Eles não o mataram. Foi ele, foi ele que morreu quando quis…”

O outro facto mais impressionante, foi – como não podia deixar de ser – a chegada dos americanos a Dachau. Eu já não tinha esperanças de os ver… Mas um dia, os guardas começaram a fugir, a ser amáveis… Desconfiámos. A câmara de gases estava cheia. Eles bem queriam limpá-la. Mas não tiveram tempo. Quando um companheiro me veio dizer que os americanos estavam já no campo, desatámos os dois a rir às gargalhadas, como doidos. Depois, pedi-lhe ajuda. Levantei-me. Queria ir vê-los. Os meus 39 quilos não aguentavam a caminhada. Levei duas horas da minha barraca ao largo central do campo. Mas cheguei – e ainda tive forças para responder às perguntas:

- O seu nome?

- José Agostinho das Neves, natural de Lisboa… Residia em Paris…

Caí no chão, exausto a chorar e a rir… Voltara do Outro Mundo.

Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 23 de Novembro de 1945

--- Leia aqui as PARTE 1PARTE 2; PARTE 3

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

«O homem que veio do Outro Mundo» (3)
O longo caminho para Dachau

Continuamos com a transcrição da entrevista dada por José Agostinho das Neves ao jornalista Fernando Teixeira em finais de 1945. O homem que terminaria a guerra no campo de concentração de Dachau continua o relato do que aconteceu durante a viagem no "comboio fantasma". Por causa das acções da resistência francesa e do avanço aliado após o Dia D, o percurso entre o campo de concentração francês de Vernet e a Alemanha, prolongou-se por meses...

Ficam também as primeiras impressões sobre Dachau.

Como já foi referido a entrevista foi tema em duas edições distintas do jornal Diário Popular. Com esta publicação vamos transcrever as primeiras linhas publicadas na edição do dia 23 de Novembro de 1945.

Título na primeira página do "Diário Popular", de 25 de Novembro de 1945.

O Homem que veio do Outro Mundo (2)

A caminho de Dachau

Dois meses de comboio para ir de França à Alemanha
A vida num campo de concentração alemão descrita por um português prisioneiro

A conversa com o meu companheiro daquele fim de tarde de Paris durou algumas horas. E o que mais me impressionava nele era a arrumação das suas recordações. Dir-se-ia que tinha escrito na memória, que folheava páginas de um livro. Foi ele que me deu a explicação:

- Não se admire. Durante meses e meses, não pude ter o prazer do isolamento. Vivi sempre, onde quer que encontrasse, lado a lado, ombro a ombro com outros homens. Não olhava para qualquer parte que não visse um rosto amargurado. Não soltava um gemido que não recebesse outro em troca. E eu que gostava de me isolar, de pensar – só encontrei remédio nesta espécie de nirvana a que me votava. Durante esses momentos, recapitulava a minha vida e fazia o possível por esquecer o que me rodeava. Tantas vezes o fiz que as imagens, as datas e as palavras, à força de repetidas, nunca mais me esqueceram.

Uma pergunta que eu queria fazer-lhe há muito tempo:

- Havia muitos portugueses nos campos de concentração onde esteve?

- Em Dachau, onde terminei a minha odisseia, conheci oito, vindos de vários pontos da Europa. Só regressei eu e outro que mais tarde vi aqui em Paris e creio que vive agora na província. Comigo no comboio seguira também outro. Em Angoulême, foi atingido por uma bala explosiva numa perna, durante o ataque dos aviões ingleses. Mas como no momento de ser transportado para o hospital, lhe foi descoberta nos bolsos uma carta, devolveram-no para o vagão e ali ficou sem qualquer socorro – à espera que a perna apodrecesse ou se curasse milagrosamente. Soube-se depois que a carta lhe fora entregue por um companheiro com o pedido de, no Hospital, a mandar para o correio. Esse companheiro tinha mulher e queria dar-lhe a ilusão de que vivia. A carta nunca chegou ao seu destino – e ele também não. Morreu pouco tempo depois, noutro vagão desconjuntado de outro comboio infernal.

Uma pausa para «ler no cérebro». E a história interrompida, contínua:

- Andávamos nove dias neste vaivém de comboios no sul da França. Impossível avançar, tais eram as destruições operadas pelo «maquis» nas vias férreas. E voltámos a Bordéus. Desembarcámos a custo. Mal nos tínhamos de pé. Mandaram-nos seguir ruas fora durante a noite e acabaram por nos metes no edifício de uma sinagoga onde ficámos dias e dias à espera do inverosímil: que os comboios pudessem seguir para a Alemanha. O templo israelita tinha sido, no seu interior, completamente devastado pela soldadesca alemã. Ainda havia montes de pedras, de madeira, de caliça. Misturámo-nos com o lixo, os ratos, as baratas, e toda a espécie de parasitas. Amontoámo-nos uns em cima dos outros a fim de arranjar lugar deitado para os doentes e feridos. O português, com a barriga da perna furada, gritava desesperadamente. Quanto sofreu o infeliz! Mal sabia ele que só dois meses depois, na Alemanha, seria tratado! E quem lhe diria que, após esta prova de resistência quási inacreditável, haveria de morrer estupidamente de uma gripe – que de ninguém tratou evidentemente!


100 homens fechados à chave

Certa vez tínhamos acabado a nossa única refeição do dia – uma malga de caldo e um pedaço de pão de cor duvidosa – quando se abriram de novo as portas da sinagoga. Íamos voltar a embarcar. Na estação, esperavam-nos mais 400 presos, entre os quais 80 mulheres, vindos não sei de onde. Encurralaram-nos em vagões como nas viagens anteriores – somente um pouco mais apertados. Em vez de 70, como até ali, éramos agora 100 homens fechados à chave com bons cadeados. A respiração era deficiente mas felizmente – com pouco nos contentávamos! – havia frestas abertas no tejadilho. Perdi de vista o português ferido, não voltei a ver o velho de barbas brancas que chorava e que ficou para sempre estendido no chão frio da sinagoga. Pôs-se-me um nó na garganta ao saber por outro prisioneiro que o pobre velho falara de mim ao morrer. Como tenho saudades do tempo em que ainda me comovia!

Como não podíamos seguir a viagem com o itinerário traçado antes, voltámos a passar por Toulouse e dirigimos-nos a Nimes, por Narbomei. A nossa chegada àquela região coincidiu com o desembarque das tropas francesas em Saint Raphael. E como a aviação americana não deixava de bombardear os arredores, o comboio parou. Começaram então oito longos dias de sofrimentos. Fechados no vagões, comendo só uma vez ao dia – um pedaço de pão coberto de bolor e uma rodela de salsicha – e não tendo mais que meio decilitro de água por 24 horas, fomos caindo doentes a pouco a pouco. A fome, a sede e o calor mudavam as expressões. Loucos ou moribundos?

Como a desgraça faz dos homens feras sem coração! Se nos visse, se visse como nos batíamos por um pedaço de pão a mais que sobejasse da boca de um doente! Depois as salsichas acabaram e foram substituídas por um tomate cru para cada vagão. Faz ideia do que seja dividir por 100 homens um tomate cru? Pois ninguém ficava sem o seu quinhão. E que ficasse! Era uma questão que nunca mais acabava – e ódios surdos e lutas e insultos.


Um batalhão de miseráveis atravessa vilas e aldeias

Quando o comboio se pôs de novo em marcha, poucos quilómetros andados, uma ponte destruída por bomba de avião cortou-nos, de novo, a passagem. Somos obrigados a descer e a abandonar as nossas bagagens, pobres bagagens de roupas sujas e velhas e de retratos amarelecidos pelas lágrimas, pelo suor e pelo calor – restos de uma vida que ficou para trás.

Fomos a pé de Roquemaure a Sorgnes, cerca de 20 quilómetros através de vilas e aldeias. Quando me lembro dessa caminhada!... Batalhão de miseráveis, descalços, rotos, alguns quási nus, olhos esgazeados, lábios gretados da febre, pés inchados, mãos descarnadas sempre em busca de ervas ou raízes no chão para levar à boca escaldante, ávida, sôfrega do que quer que fosse trincável!
Atrás e aos lados vinha a matilha dos “cães de guarda”, espingardas e metralhadoras prontas a disparar se um nós ficava para trás, coronha descarregada na cabeça do que não tivesse força para andar.

Mais adiante esperava-nos outro comboio. Voltámos aos vagões. E tudo se passou, dias e dias, da mesma maneira, até chegarmos a Pierreffite, onde novo ataque de aviação nos esperava. Novo e trágico ataque. Ah! Se eles soubessem que nós não éramos alemães! Mas tudo era impossível para lho fazer ver. Nem nos restava o ardil das camisas a fazer de bandeira. Qual de nós ainda tinha camisa?
Foi verdadeiramente infernal aquilo. Dessa vez o ataque era feito à bomba. O meu vagão não tinha sido atingido, mas quando saímos – porque a locomotiva fora pulverizada por um impacto directo – verificou-se que nove prisioneiros estavam mortos e 20 gravemente feridos. Estendidos na relva de um prado à beira da linha os infelizes entoavam uma canção trágica feita de dezenas de gritos, de brados de raiva  - de palavras sem nexo em várias línguas. Socorremo-los como pudemos porque os alemães – “valentes” como já sucedera anteriormente – tinham-se refugiado no bosque e vigiavam-nos com as metralhadoras, não fosse algum aproveitar a ocasião para fugir. 

Rasguei as calças que levava na trouxa da roupa e fiz ligaduras. Outros procuraram fazer o mesmo. Outros limparam feridas e fizeram pensos com ervas e folhas de árvores. Mas os nosso “doentes” não resistiram na maior parte, aos “tratamentos”. Um morreu-me nos braços. Outro pôs-se em pé, desvairado, louco e desatou a fazer sinais inúteis aos aviões que ainda se viam no ar. Conseguiu o que queria. Uma rajada de metralhadora alemã acabou com ele.


A chegada a Dachau

Estamos a conversar há horas. Aproveito uma pausa para lhe propor um pequeno passeio à beira do Sena. A noite vem caindo aos poucos. Encontramo-nos os dois cansados: ele de falar, eu de o ouvir com atenção para não perder uma palavra. Seguimos por um passeio da margem esquerda. Caminhamos lado a lado, sem proferir palavra, a gozar a quietude e o encanto da rua que se recolhia à sombra dos chorões. E pisávamos voluptuosamente folhas amarelecidas, esquecidos por momentos, do mundo que ele vivera – do “Outro Mundo”.

Foi o meu companheiro que voltou a falar outra vez:

- Por fim, e depois de muitas peripécias, chegámos à Alemanha. Tinham-se passado dois meses após a nossa saída do campo de concentração em França. Dos 500 que éramos a princípio, dos 900 que fomos depois em Bordéus, só restava metade. Os outros tinham morrido - ou fugido.

- Fugido?

- Sim. Nunca soube como, mas alguns ainda tiveram forças para fugir nas andanças de subor e descer dos vagões. Onde teriam ido parar? No estado de saúde e fraqueza em que estavam, talvez não tivessem andado mais de 500 metros. Mas quem sabe medir o poder da resistência humana à dor e à fome?

- Todos os mortos foram vítimas dos bombardeamentos e da fome?

- Muitos não resistiram também aos maus tratos. As coronhas das espingardas alemãs fracturaram muitos crânios.

Uma nova pausa. Paramos junto a uma alfarrabista. Olho um velho volume, sujo, carcomido pelo uso. Lemos os título: “Viagens  de turismo na Alemanha”. E desatamos a rir à gargalhada. Depois ele volta a contar:

- Se a viagem fora cruel, medonha, desumana, a nossa recepção no campo de concentração de Dachau foi ainda pior. Mal as portas dos vagões forma abertas, cães enormes saltaram para dentro deles ensinados na missão de nos expulsarem depressa. Os guardas vociferavam o maldito “Alles raus!”. Fugíamos, com igual temor, aos homens e aos cães, saindo dos vagões aos trambolhões, a cair uns por cima dos outros.

Chegados ao campo, após uma marcha de algumas centenas de metros, reuniram-nos no meio de uma praça triste ladeada de toscas construções. E ali ficámos toda a noite, deitados no chão, quási despidos, sem nada com que nos abrigar. No dia seguinte, depois das formalidades do registo de entrada, fomos conduzidos aos serviços de recepção. Aí despojaram-nos de tudo quanto possuíamos. Ficámos nus – à espera de um “barbeiro” que nos rapou da cabeça aos pés. “Vestiram-nos” então umas calças e um casaco em farrapos, herança de um pobre prisioneiro que morrera.

Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 23 de Novembro de 1945

--- Leia aqui as PARTE 1PARTE 2PARTE 4.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

«O homem que veio do Outro Mundo» (2)
A viagem no "Comboio Fantasma"

Publicamos a segunda parte da entrevista dada por José Agostinho das Neves em finais de 1945 ao jornalista Fernando Teixeira. Trata-se do segmento final do que foi publicado na edição de 22 de Novembro. Como já foi referido anteriormente a entrevista foi impressa em duas edições distintas do "Diário Popular" e os episódios relatados na edição do dia 23 serão transcritos brevemente neste blogue.

Primeira Página do "Diário Popular" de 22 de Novembro de 1945.
Na última semana ficámos a conhecer um pouco sobre José Agostinho das Neves e das desventuras que o conduziram aos campos de concentração franceses logo no princípio do conflito. Nesta publicação vamos acompanhar as suas memórias sobre o percurso até ao campo de Dachau na tristemente famosa viagem do "Comboio Fantasma".

Neste comboio, onde seguiam vários portugueses, reuniram-se os últimos 400 prisioneiros do campo de Vernet e outros 170 homens e mulheres vindos da prisão de Saint-Michel. A partiram para Bordéus aconteceu a 2 de julho de 1944, seguindo depois para Angoulême onde foram alvo de um bombardeamento por parte de aviões aliados. Não conseguindo seguir viagem a composição regressou a Bordéus, onde esperaram 28 dias na sinagoga da cidade antes de retomar o caminho.

Quando partiram, a 9 de Agosto, o grupo seguiu reforçado com mais prisioneiros elevando o total de deportados para cerca de 800. Pouco depois a destruição das vias obrigou-os a percorrer duas dezenas de quilómetros para fazer o transbordo para outro comboio e a viagem prolongou-se sob o sol escaldante de Agosto por entre inúmeras voltas e reviravoltas causadas por bombardeamentos, sabotagens e a fuga aos avanços aliados que tinham invadido a Normandia no dia 6 de Junho. Quando chegaram a Dachau, no dia 28 de Agosto, saíram do comboio apenas 536 pessoas...

Retomamos a transcrição:

(...)

A viagem sem fim começa

30 de Junho de 1944. Há quanto tempo não vejo gente? Nem eu sei já. À minha frente, só espectros e fardas. Fardas pretas, verdes, cinzentas. E nesse dia quinhentos homens, quinhentas sombras, os que havíamos ficado no campo, restos de todas as levas anteriores, somos reunidos para partir também. Os alemães estavam furiosos. Os planos haviam falhado. Os “outros” tinham desembarcado na Normandia. Estavam no grupo franceses, espanhóis – mutilados do guerra – alguns belgas fugidos e eu. Mal tivemos tempo de fazer uma trouxa dos nossos trapos e das nossas poucas, saudosas recordações. E partimos em camiões, escoltados pelos famosos “S.S.” que nunca tínhamos visto e eram verdadeiramente brutais. Cochichávamos uns para os outros: “Serão homens ou feras?” Nunca descobri a diferença.

Chegámos a Toulouse. Meteram-nos na Caserna Caffareli, uma vasta cela, guardada por sentinelas reforçadas. Impossível comunicar com o exterior. Apertados, 500 corpos encostados ombro a ombro, nem sequer podíamos deitar-nos. Moídos, cheios de sono, despertaram-nos na madrugada do terceiro dia, espancados pela guarda para sair mais depressa. Lançámos mão rapidamente à parte menos volumosa da nossa bagagem e corremos, noite fora, ao frio até à estação de mercadorias. Deparámos então com um comboio já formado. Quinze vagões dos de transporte de gado. Alguns já estavam repletos. Eram presos vindos de outros pontos. Repartiram-nos pelos espaços vagos. Entro no meu e leio pintado a  branco na madeira: “Lotação – 8 cavalos ou 40 homens”.

Ficamos setenta. Portas aferrolhadas, sem janelas, sem ar e sem luz, esperámos de olhos abertos, ouvidos à escuta. Começou então a grande viagem…


Dentro do vagão era sempre de noite

Horas e horas seguidas naquele monótono andamento enlouqueciam-nos. Para onde nos levavam? E cada vez era maior o silêncio naquele vagão infernal para que não se perdesse uma palavra da conversa com sentinelas ou uma indicação dos empregados dos caminhos-de-ferro. Lá dentro era sempre noite. Para contar os dias, precisávamos não esquecer que as visitas das sentinelas se faziam de manhã e de tarde. Duas, um dia. Palavras soltas colhidas aqui e ali davam-nos uma indicação: íamos para Compiegne. Mas seria verdade? As conjecturas que cada um de nós fazia não podiam convergir. E todos começámos a sentir-nos invadidos pelas apreensões mais disparatadas. Sem ar, sufocados pelo calor, começámos a deitar fora a roupa, esperançados que assim resistiríamos melhor, atenuaríamos a transpiração. O cheiro de 70 homens que não podiam lavar-se era nauseante. E o sol – que belo sol devia gozar-se lá fora! – queimava, transformava os vagões em fornalhas.

Ninguém podia aguentar mais, alguns começavam a perder os sentidos. Não, não podíamos. Quási nus, lábios secos, transfigurados, nós, os que ainda estávamos de pé, começámos a gritar e a bater nas paredes. Que ao menos nos abrissem a porta para respirar. Mas não abriram. E embora o suplício fosse até então apenas de algumas já preferíamos ser fuzilados que morrer naquelas condições. Alucinados pela sede, gotejando suor, nus, sujos de poeira, a pele quebradiça, escaldante, cheia de resíduos de cimento, ao transporte do qual os vagões haviam servido antes, parecíamos personagens de um pesadelo infernal.

E o calor aumentava. E este desejo imenso de querer morrer! Se ao menos um de nós tivesse uma arma, uma faca, se ao menos um de nós tivesse forças para apertar com as mãos… Massas informes, atirados uns sobre os outros, cinzentos do cimento, avermelhados do calor e da raiva, foram-se calando as vozes pouco a pouco.

E de repente, uma chiadeira de travões e de metais que chocam. E vozes que se aproximam. E um ruído de portas que se abrem. Agora, é no nosso vagão. Ficámos todos de olhos pregados na porta que é aberta com estrondo. A princípio, vemos só a luz do sol que nos cega. Depois, distinguimos as sentinelas e uns homens que não conhecemos e olham para nós, indiferentes, armados de granadas e metralhadoras. Dos 70 que éramos no vagão, só cinco estão de pé e são os primeiros a descer e a ajudar os outros.


O medo de não ter forças para viver

Foi então que me enchi de medo, de um medo feroz que mal podia exteriorizar-se porque eu nem sequer conseguia abrir a boca para falar.

É que eu tinha à minha frente, outra vez, a vida, o ar livre, talvez uma lata de água. E eu que gritara, que me horrorizara com a ideia de que podia morrer ali para um canto sem ar e sem luz, perdera de repente todo o desejo, todas as possibilidades de reagir. Perdera a esperança. E queria morrer. Não era capaz de arredar dali. Enchi-me de medo. Que iria eu fazer daí para diante? Um dos homens armados de metralhadora subiu e deu-me um pontapé. Ainda bem. A dor fez-me reagir. Pus-me de pé. Cambaleei, agarrei-me a ele. Levei um safanão. Cheguei à porta e desci.

Estendi-me ao comprido no talude. Vieram então os assistentes da Cruz Vermelha. E, a pouco e pouco, aquele exército de fantasmas, lavados, reanimados com um pedaço de pão, um tomate cru e uns goles de água, começou a pôr-se de pé. Vieram logo ordens enérgicas. E os homens da Cruz Vermelha foram proibidos de nos alimentar. E fizeram-nos subir, de novo, para os vagões. Mas as portas não foram fechadas completamente. Uma fresta de cada lado, uma em frente da outra, seria uma corrente de ar fatal para quem não tinha roupa sobre a pele. Mas era uma corrente de ar. Estabelecemos então turnos para respirar melhor. E de cinco em cinco minutos (pouco mais ou menos, pois nenhum de nós tinha relógio) um grupo ia encostar a boca à fresta da porta. Depois esperámos. Quando o comboio se pôs em marcha, já era noite. Soubemos mais tarde que já não podendo seguir o itinerário previsto, por as linhas estarem cortadas pelo “Maquis”, haviam decidido levar-nos para Perigueux. Chegados a Bordéus, e após alguns instantes de paragem que nem sequer deram tempo a que a Cruz Vermelha nos socorresse de novo o comboio pôs-se em marcha lenta. A meio da noite, parámos. O comboio tinha de retroceder. As vias estavam interceptadas. E voltámos a Bordéus, em direcção a Angoulême. Aí chegados verificou-se que a estação estava destruída pelos bombardeamentos.

O comboio foi desviado para uma linha de mercadorias, à espera que os “rails” fossem reparados. Abrem-nos então as portas e mandam-nos sair aos cinco de cada vez. Num pequeno regueiro que corria ao fundo do valado e a todo o comprimento do comboio, via-se então uma fila de desgraçados nus e sujos, de barba crescida e cara congestionada pelo sofrimento, procurando aliviar-se da tortura de uma necessidade tanto tempo contida. Para refrescar os lábios tumefactos pela febre, alguns dos infelizes arrancavam as ervas que tinham ao alcance das mãos. Outros, para quem é demasiado atroz o suplício da sede, não resistem à tentação da água que corre no mesmo regato onde os companheiros se encontram agachados. Transtornados, sem discernimento. Bebem-na, sôfregos. Recuo para o vagão, cheio de sede, endoidecido por aquela visão.


Um ataque inesperado, na noite

O comboio parte. Para onde? Sabe-se lá. E ainda não comi – nem sequer o pedaço de pão da Cruz Vermelha, que não houve tempo de o distribuir a todos.

Em Parcoul-Mediac, nova paragem. Depois no silêncio, ruídos estranhos e uma gritaria desusada. São aviões ingleses, de caça, que fazem um barulho infernal. Os soldados da escolta aferrolham-nos as portas e dispersam-se pelos bosques próximos. E assestam sobre os vagões as metralhadoras para que não possamos evadir-nos. Espreitamos pelas frinchas do vagão desconjuntado. É verdade, terrivelmente verdade. Por cima, os aviões. Aos lados, os alemães, às espera que um de nós arrombe a porta para fugir. Os aviadores ingleses que haviam visto fugir os alemães tomam o comboio por um transporte de tropas inimigas. E baixam. E abrem fogo. E todo o comboio, de uma ponta à outra, é esburacado pelas balas explosivas. Aterrados, impossibilitados de sair, vemos a trajectória luminosa das balas descrever caprichosas e alucinantes fantasias. Vamos morrer todos. E, ao meu lado, um velho, de grandes barbas, chora. Um outro lá ao fundo, grita. Estará ferido?

Não sei como surgiu aquela ideia. De repente, uma camisa branca, outra azul e outra vermelha são atadas a um pau. Passa-se este simulacro de bandeira pela fresta do vagão. Quando voltam à carga, os aviadores percebem o sinal. E deixam-nos em paz.

Os gritos do feridos começam a ser horríveis. Há três mortos e uns vinte em estado grave. Alguns são evacuados para o hospital de Angoulême.

E um novo dia amanhece.

Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 22 de Novembro de 1945

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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

«O homem que veio do Outro Mundo» (1)
Uma vida que a guerra interrompe

Numa quinta-feira, 22 de Novembro de 1945, o jornal Diário Popular, inaugurado três anos antes, trazia na primeira página e em grandes parangonas a história de um português que estivera preso em Dachau, um dos tristemente célebres campos de concentração nazis que até em Portugal tinham sido notícia.

O homem chamava-se José Agostinho das Neves, um dos milhares de portugueses que se encontravam em França nos anos 30 - por razões políticas ou económicas - e a quem a II Guerra Mundial tinha marcado de forma indelével. A reportagem, assinada por Fernando Teixeira, prolongava-se por quatro longas páginas em duas edições distintas, um texto que iremos transcrever aqui nas próximas semanas.

Painel sobre José Agostinho das Neves na exposição dedicada aos
"Trabalhadores Forçados Portugueses no Terceiro Reich".
A fotografia maior é uma ampliação de uma das imagens e
sobreposta ao painel pelo autor deste blogue.
A vida deste prisioneiro português, um de várias centenas como se percebeu recentemente, foi reconstituída nos últimos anos por trabalhos como os da jornalista Patrícia Carvalho e, especialmente, pela equipa de historiadores liderados por Fernando Rosas que se dedicou ao estudo dos "Trabalhadores Forçados Portugueses no Terceiro Reich". É essencialmente com recurso ao material deixado por estas duas fontes que o "Aterrem em Portugal!" acrescentará alguma informação adicional na introdução dos diversos artigos.

Neste trecho José Agostinho das Neves relata a forma como vivia em França e o primeiro período como prisioneiro num campo de concentração francês. Trata-se da transcrição de cerca de metade da primeira reportagem enviada por Fernando Teixeira. O restante, onde se relata o transporte de França para Dachau num comboio - que ficaria conhecido como o "Comboio Fantasma" - será transcrito na próxima semana.

Da vida de Neves foi possível apurar que nasceu em Lisboa em 1905, tendo-se assumido como um activista político de tendências anarquistas, razão porque se terá exilado em França durante os anos 20 do século passado. A sua situação económica era considerada frágil, trabalhando na construção civil e recorrendo por vezes à assistência para se conseguir manter a si, à mulher e à filha.
Em Dezembro de 1939 a sua militância política colocou-o sob suspeita da polícia francesa que o pretendia deportar. Preso em Maio do ano seguinte passaria quatro anos em Vernet até ser levado para Dachau em 1944.

Segue-se a transcrição da primeira parte da reportagem, que será a única da época a contar a história de um português nestas condições..


O Homem que veio do Outro Mundo
Um português que esteve em Dachau até ser libertado pelos americanos dá uma impressionante entrevista ao “Diário Popular”

Estava diante de mim, confuso, tímido, alegre, os olhos pequenos a bailar atrás dos óculos. Parecia uma criança perturbada com a presença de um adulto. E, afinal, é bastante mais velho que eu…
Tínhamos-nos encontrado há pouco tempo e éramos já amigos. Amigos, sim. Mal nos conhecíamos, mas éramos ambos portugueses, o acaso pusera-nos, um em frente do outro – e eu, chegado há dois dias, não conhecia alguém em Paris.

Interessei-me pela sua sorte, ouvi-o com interesse, mais de português que de jornalista. E ele tinha tanto para dizer-me… Senti bem que as suas palavras não eram para o homem dos jornais, mas para o compatriota.

Primeiro tinham vindo as perguntas atabalhoadas, doidas, a esmo: “Como está Lisboa?”; “Ainda há esplanadas na Avenida”; Quem trabalha no Nacional?”; Que livros publicou o Ferreira de Castro?”. E, a desculpar-se: “Aqui não se sabe nada. Parece que estamos nos antípodas”.

Depois, a voz tinha inflexões mais tristes e o estribilho voltava sempre igual: “de resto, comigo não admira, eu vim do Outro Mundo”. “Eu vim do Outro Mundo”…

E veio, o pobre. De um Mundo que muitos conheceram, mas do qual nem todos podem ter a paradoxal felicidade de trazer recordações. De um Mundo que foi mancha e desonra de homens, que foi expiação e vingança. De um Mundo que não poderá voltar a existir, que nós não queremos que volte – o dos campos de concentração.

Bebíamos uma cerveja pálida, sem espuma e sem pretensões. Mas ele gostava. Tantos meses sem uma gota de vinho… Depois, dividimos o maço de cigarros – portugueses! – e a conversa animou. Eu olhava-o com ternura. Os seus modos, os seus gestos, as suas palavras não podiam esconder aquilo que o dinheiro às vezes e em vão pretende arranjar: a educação e a cultura. Fiz o possível por o pôr à vontade. Ele percebeu e gostou de poder ter alguém - finalmente! – a quem contar a sua longa história.

“Eu vim do Outro Mundo”…

Deixei-o falar, olhando-o bem de frente quando sentia que procurava fazer-se acreditar e até tinha medo que o suspeitassem doido ou mentiroso, ou evitando um ar curioso quando a vergonha e a miséria afloravam à sua memória. E ele contou, longos minutos estirados naquele fim de tarde, a história sem par que viveu no cabo da Civilização.

1940. A França é invadida. Os alemães aparecem, de surpresa, em toda a parte. Um motociclista chega, às vezes, para tomar uma aldeia. O exército está em frangalhos, batendo-se os soldados, surpresos da sua sorte, até morrer. Os blindados do Reich entram em Paris. As ruas, tristes, nebulosas, sem vivalma, enchem-se de fardas verdes e “souris gris” – as alemãs que o parisiense nunca mais esquecerá.

As arcadas da Rue de Rivoli são longos mostruários de estandartes vermelhos onde a cruz gamada é a marca do terror. Uma denuncia chega. E um dia ele é preso. Quem foi que o disse anti-nazi? Nunca o soube; nunca mais o saberá. De que o acusavam? Jamais poderá conhecê-lo. Nem mesmo lho podiam dizer aqueles que o dirigiram durante longos meses.

Um dia foi preso – e isso bastou. Que interessavam as razões e o seu julgamento? Preso, era anti-nazi certamente. Preso era evidentemente contra Hitler. Preso, era mais um para destruir. Haverá uma pena que castigue quem de tal regime era responsável? Chegará uma morte para vingar centos de milhar?


Trabalhador rural e empregado no correio

Mas é melhor deixá-lo falar:

- Eu tinha uma Agência de Livraria. E uma casa. E mulher e filha. Tudo abandonei à pressa, sem guardar um franco ou um cigarro, sem lhes dar um beijo. Meteram-me num camião frio e cinzento. Adormeci nos solavancos da estrada. Acordei no campo de concentração de Vernet de Ariège. Olharam-me, interrogaram-me. E, não me podendo classificar como culposo de qualquer delito, resolveram instalar-me na secção de suspeitos, dos vigiados. Todos os dias, olhos curiosos espiavam os meus gestos, os meus movimentos, ouvidos atentos escutavam as minhas conversas com companheiros de desdita. Depois, desiludidos, mudaram de táctica. E para não ficarmos inactivos, resolveram dar-nos trabalho. Eu – não sei ainda hoje a que devo tal sorte! – fui escolhido para trabalhar nos arredores. O que isto representava de sorte no meio da tragédia quotidiana! Trabalhar nos arredores, era estar num dia inteiro ao ar livre, longe do espectáculo penoso do campo, respirar! Foram esses os melhores dias da minha vida de prisioneiro. Cortando árvores, revolvendo a terra, plantando e colhendo – eu e os outros fizemos de um terreno baldio uma terra e cultura. Dava gosto vê-la, verdejante, cheia de vida. Mas, alcançado que foi o objectivo, terminara o trabalho de excepção. Que me esperava agora?

“Você é dado às leituras, pois vai trabalhar no Correio”.

E fui. A coisa não caminhava mal. Recebia as cartas e as encomendas. E distribuía-as pelos outros. Que mais poderia eu desejar? Só a alegria de ser o portador de boas novas, o seu traço de união com a Vida!... Sim, que mais poderia eu desejar?... Depois, com o pretexto de eu conhecer quatro línguas, sou transferido para os serviços de censura. Não aqueço o lugar. Repugna-me ser obrigado a abrir correspondência alheia. Digo-me doente. Volto aos correios. E ali fico até que os alemães tomam conta do campo quando da ocupação total da França. Aparecem então os médicos da “Gestapo”. Fazem várias inspecções. Arranjo processo de esquivar a todas - menos a uma. Sou considerado forte para novas proezas. E as provações e as torturas começam.

Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 22 de Novembro de 1945

(Na Próxima semana transcreveremos a segunda parte da reportagem publicada pelo jornal no dia 22 de Novembro de 1945)

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