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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

«O homem que veio do Outro Mundo» (4)
A vida em Dachau

Terminamos nesta publicação a transcrição da entrevista dada por José Agostinho das Neves ao jornalista Fernando Teixeira, do Diário Popular, em Novembro de 1945.

Nesta trecho é descrita a vida em Dachau e a libertação do campo pelos americanos...

Espero que o trabalho em transcrever estas longas páginas de jornal sejam úteis.



Recomeça aqui a transcrição:

Seis homens numa cama com 70 centímetros de largura

“Eu vou com alguns dos meus companheiros, de França, para o Block-21. O recinto ocupa uns mil metros quadrados. Ficámos ali a viver 1200 homens que, durante a noite, deveriam dormir numa barraca que mal comportava 300. Quando nos cabia a vez de adormecer sob o telhado da barraca, a coisa não era fácil, pois as camas, de madeira, sobrepostas em três compartimentos, só tinham 70 centímetros de largo para seis homens cada.

O que nos valeu foi que a fome nos havia feito emagrecer muito…”

- Como era o regime dos prisioneiros em Dachau?

- De manhã, às 4 e meia, eramos obrigados a levantar-nos e a sair para o pátio onde permanecíamos todo o dia até às 7 da tarde, qualquer que fosse o tempo cá fora. No Inverno, o sofrimento foi doloroso. Com a chuva, a neve e o frio e sem nos podermos abrigar «, só nos restava um recurso: apertar-nos uns de encontro aos outros, como um rebanho de carneiros e ficarmos para ali a procurar não deixar fugir o calor que cada um de nós pudesse armazenar e ceder ao outro. Sem roupa que chegasse e sem calçado, com uma temperatura de 24 graus abaixo de zero, muitos caiam sem sentidos e, assim iam morrendo. Outros, com os pés gelados e gangrenados, eram levados ao hospital ou metidos como coisa inútil no forno crematório e queimados vivos. O espectáculo começou a ser tão vulgar que cada um de nós esperava a entrada no forno como o fim lógico daquela vida ilógica. Durante o dia, para romper a monotonia daquela vida miserável e para que os guardas não se aborrecessem, faziam-nos formar e conservar horas seguidas na posição de sentido para ver a nossa resistência e separar os que deviam partir para os trabalhos nos “comandos” e os que, por serem fracos, iam acabar na câmara dos gases, mortos por asfixia e intoxicação.

A voz do meu companheiro de Paris volta a ter um som cavo, e a sumir-se como se as próprias palavras lhe causassem pavor:

- Quando se fazia esta escolha – a “visita” como nós lhe chamávamos – o silêncio era profundo, doloroso. Cada um de nós pensava consigo: “Será agora a minha vez? Os mais animosos despediam-se dos camaradas antes de serem levados para a câmara de gases e abriam a boca num sorriso em que ia todo o seu desprezo pelos “nazis”, aniquiladores de uma raça, de uma civilização, de um continente.

Outros tinham um grito pueril: “Os americanos hão-de vingar-nos!”

Os alemães sabiam do avanço aliado em terras da França e da própria Alemanha – e não perdoavam. E muitos dos condenados eram mortos ali mesmo a tiro. Menos gás que se gastava na câmara…


Atacado de tifo e não tratado

Depois de ter escapado em várias “visitas”, acabei por ser incorporado num transporte com destino a Hamburgo. Mas não cheguei a ir. Atacado de tifo, estive nove dias com 40 graus de febre. Os meus companheiros, condoídos, amontoavam-se nas outras camas para me deixarem só com mais dois no meu leito. Mas ninguém podia tratar-me. E os médicos do campo tinham mais que fazer, ocupados em averiguar até que ponto resistiam aos bacilos do cólera e do paludismo alguns dos internados no campo transformados em cobaias. Depois dos nove dias, começo a sofrer de disenteria. Os camaradas chamaram os guardas. O meu estado já não deixava ilusões a ninguém. Sou então dado como “kaput” e levado para o “block 30” – o dos condenados a desaparecer, pela fome ou pela doença.

Aí, a lotação era de 1200 homens e já não havia camas. Tíficos, tuberculosos, grípicos, estavam, lado a lado no chão da barraca carpindo as suas dores, delirando nos seus sonhos de febre alta. Morriam, em média, 40 por dia. De manhã os cadáveres eram levados para a casa de lavar (a indiferença com que nós os afastávamos do caminho quando íamos passar um pouco de água na cara e nas mãos!) Depois um carro vinha buscá-los descarnados, amontoados uns sobre os outros, nus (porque o seu fato ia logo servir a outros que entrassem de novo!).

Nunca mais poderei esquecer esse carro fantasma! Quantas vezes, ao vê-lo passar, eu cheio de febre, de dores, de fome, de sede pensava para comigo próprio: “Que mal terei eu feito ao mundo, a este homens? Porque não morro sem mais sofrimentos? Para que resisto? E porque não terei eu direito a viver feliz? Quem semearia urtigas no meu caminho? Quem? Depois, caía, - abatido. Mas sem sabe como, aguentei-me. E, apesar dos meus 39 quilos de peso, a febre ia passando, diminuído dia a dia.

Comecei a comer (nunca fui tratado do tifo ou da disenteria com medo de morrer de fome. De resto a comida não era tanta que matasse: de manhã uma beberagem a que podia chamara-se chá ou café conforme o gosto; ao meio dia, um litro de água quente com um pouco de beterraba; às 7 da tarde, 150 gramas de pão, uma rodela de salsicha e meio litro de infusão de ervas, sem açúcar.


A flagelação e a agressão

- Como explica a sua resistência à doença?

- Sabe-se lá! Quando voltei a Paris, um médico disse-me que tinha esgotado todas as minhas reservas. E que me valera não ter sofrido qualquer castigo grave durante o tempo que estive em Dachau. Se isso tivesse acontecido, não resistiria à perda de mais reservas do organismo. E o meu castigo foi só estar nu e em pé um dia inteiro no pátio porque aparecera um piolho na minha cama…

- Mas de que sorte eram os outros castigos?

- O mais frequente era o da flagelação. O castigado deitava-se sobre um pequeno carrinho de jardim, de joelhos, com as mãos atadas à roda. Dois guardas, munidos de nervos de boi, aplicavam-lhe então, alternadamente, nas costas e nas nádegas, o número de vergastadas que lhe fora atribuído, nunca inferior a 25. Vi um homem que ficou com os ossos à superfície, após ter recebido 300 vergastadas. E quando o supliciado soltava um grito, os golpes dados não eram tidos em conta e a contagem começava de novo. Felizmente, nunca recebi qualquer castigo destes. Fui agredido várias vezes a soco e a pontapés, feriram-me com um pau na cabeça, partiram-me os óculos por duas vezes. Foi tudo. Mas os outros… Quantas vítimas dos “nazis”! O forno crematório ardia constantemente. E na sala de banhos havia barras de madeira para os enforcamentos…

- Quais foram os factos que mais o impressionaram durante a sua estadia em Dachau?


O Homem que morreu quando quis

-É difícil. Foram tantos… Mas sabe, depois, a sensibilidade embota-se, já não temos cérebro, nem coração. Andamos, falamos, gritamos ao acaso… Autómatos, enfim. O que mais me impressionou? A morte daquele professor de francês que era meu companheiro de “blok”. Não merece a pena dizer o nome. Um dia, dia nevoento e chuvoso, arrastou-se até junto de mim e mais dois companheiros. Queixou-se amargamente da sua sorte. Depois, encolheu os ombros e disse: “também não vale a pena incomodar-me: isto está por pouco”… Olhou-nos bem de frente com os seus olhos ingénuos, transparentes… E disse-nos adeus. Soubemos depois, duas horas mais tarde, o que acontecera. Saíra de junto de nós, fora à casa de lavar, afastara os cadáveres que estavam no chão, despira-se todo, deitara-se na laje fria. Cinco minutos depois estava morto.

“Aquele soubera vingar-se dos alemães. Eles não o mataram. Foi ele, foi ele que morreu quando quis…”

O outro facto mais impressionante, foi – como não podia deixar de ser – a chegada dos americanos a Dachau. Eu já não tinha esperanças de os ver… Mas um dia, os guardas começaram a fugir, a ser amáveis… Desconfiámos. A câmara de gases estava cheia. Eles bem queriam limpá-la. Mas não tiveram tempo. Quando um companheiro me veio dizer que os americanos estavam já no campo, desatámos os dois a rir às gargalhadas, como doidos. Depois, pedi-lhe ajuda. Levantei-me. Queria ir vê-los. Os meus 39 quilos não aguentavam a caminhada. Levei duas horas da minha barraca ao largo central do campo. Mas cheguei – e ainda tive forças para responder às perguntas:

- O seu nome?

- José Agostinho das Neves, natural de Lisboa… Residia em Paris…

Caí no chão, exausto a chorar e a rir… Voltara do Outro Mundo.

Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 23 de Novembro de 1945

--- Leia aqui as PARTE 1PARTE 2; PARTE 3

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