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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Soldados Portugueses na Divisão Azul

Pelo menos 147 portugueses vestiram a farda da Divisão Azul, a unidade de voluntários constituída em Espanha, para combater ao lado dos alemães na frente russa entre 1941 e 1944.




Jaime Graça, um dos divisionários portugueses, deu uma entrevista ao Jornal "Independente" em 1992, e contou a sua história enquanto combatente na Guerra Civil Espanhola e da Divisão Azul.









As informações foram avançadas durante a Conferência Portugal e o Holocausto, por Ricardo Silva, investigador da Universidade Nova de Lisboa, que tem estado a consultar os cerca de 47 mil processos individuais de divisionários e outra documentação nos arquivos em Alcalá de Henares, nos arredores de Madrid onde se encontra a maior parte da documentação referente à Divisão Azul, assim como no Centro de Documentação para a Memória História, em Salamanca, e registos em Portugal.

Pelo menos meia centena destes homens fizeram parte do primeiro contingente que partiu de Madrid e que entrou em combate na frente oriental no Outono/Inverno de 1941.

No final do conflito cerca de uma vintena de portugueses tinha perdido a vida a lutar pela divisão e dois tinham sido feitos prisioneiros pelos russos. Destes apenas um regressaria a Espanha em 1954, quando pouco mais de 200 sobreviventes dos cerca de 500 prisioneiros espanhóis foram repatriados.

A Divisão Azul foi formada pelo ditador Francisco Franco após a Guerra Civil Espanhola e pelas suas fileiras passaram cerca 47 mil voluntários, entre os quais 500 estrangeiros.

Os portugueses são o grosso deste último número esclareceu Ricardo Silva que pretende publicar os resultados da sua investigação em 2013, num livro que deverá trazer as biografias de cada um dos combatentes portugueses.

Os alemãos não tinham uma impressão muito positiva destes homens. Eram olhados como mulherengos incorrigiveis e uma espécie de horda indisciplinda sempre envolvida em roubos de galinhas e comida.

Mas depressa os divisionários foram obrigados a provar o seu valor na União Soviética, combatento nomeadamente, em Leninegrado. No final da guerra a Divisão Azul tinha sofrido cerca de 5000 baixas.

"Cerca de dois terços dos portugueses alistados na Divisão Azul já tinham combatido ao lado das forças franquistas durante a Guerra Civil Espanhola", disse Ricardo Silva, acrescentando que os portugueses se alistaram por "um misto de ideologia, catolicismo, anticomunismo e aventura".

Na fase final também houve vários alistamentos por razões económicas.

"A maior parte nem sabia muito bem o que era o regime nazi e só se aperceberam do que se estava a passar, nomeamdamente, com os judeus quando chegaram à frente", esclareceu ainda o investigador que tem a certeza de que os portugueses tomaram consciência muito cedo dos crimes que estavam a ser cometidos.

A investigação está próxima de ficar concluída. Confirmados estão, como já foi referido, 147 portugueses entre as hostes da divisão azul, mas esse número poderá crescer, tanto porque ainda existem processos por abrir, como também existem dúvidas em relação a alguns dos nomes que já foram recolhidos.

Ricardo Silva não coloca também de parte a possibilidade outros portuguese terem lutado noutras formações ao lado das forças alemãs e tem quase a certeza que entre as SS também houve elementos lusos.

Carlos Guerreiro (com Lusa) 

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Para ler mais sobre a Conferência Portugal e o Holocausto clique AQUI.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

«Conferência Portugal e o Holocausto»
Que sabia Salazar do Holocausto

A questão de se saber quando e o que conhecia Salazar sobre o holocausto e os massacres que ocorriam nos territórios ocupados pelos alemães, foi um dos temas que concentrou parte importantes das atenções dos participantes do Congresso Portugal e o Holocausto que decorreu na Fundação Gulbenkian na última semana.

O tema acabaria por se tornar central depois da apresentação de um estudo de João Campos Neves do ISCTE, que abordou a questão das missões de observadores militares do Estado-Maior Português à Alemanha e às frentes de batalha no Leste da Europa durante a II Guerra Mundial.

Oficiais portugueses que em 1942 estiveram na frente russa, com tropas alemãs, para realizar um visita técnica. Aqui estão rodeados por mulheres de uma aldeia Ucraniana. 
Foto publicada numa reportagem da revista "Sinal" de Dezembro de 1942.

Em 1941 e 1942 pelo menos três missões militares portuguesas realizaram visitas técnicas e de estudo à frente oriental, um assunto que também já foi abordado aqui no “Aterrem em Portugal” (ver "Oficiais Portugueses na Frente Russa")

Avrahm Milgram mostrou-se surpreendido com este estudo pois as visitas realizaram-se às zona do Báltico e da Ucrânia, em locais onde tiveram lugar massacres de milhares de judeus na mesma altura.

Os relatórios que se encontram nos arquivos militares não incluem referências à perseguição dos judeus, mas a historiadora Irene Pimental – que estuda este tema há muito - garantiu que existem referências aos massacres, recolhidos durante aquela visita, pelos observadores militares portugueses.

Os testemunhos não integram o relatório de âmbito técnico-militar, mas poderão ser encontrados nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros para onde estas informações terão sido encaminhadas.

Recorde-se que a pasta dos Negócios Estrangeiros – tal com a do Ministério da Guerra – também estava nas mãos do presidente do Conselho, Oliveira Salazar.

"Não está no relatório, mas Portugal começou a saber de tudo durante missão de 1941. Encontram-se informações sobre os massacres de judeus nos países bálticos e sobre as perseguições na Alemanha. Há também informações que chegaram através de elementos da Divisão Azul espanhola (contingente espanhol na frente Leste junto do Exército alemão e onde se encontravam portugueses) e que também assistiram aos crimes", assegurou Irene Pimentel.

Carlos Guerreiro (com Lusa) 
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Para ler mais sobre a Conferência Portugal e o Holocausto clique AQUI.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Um morto português na frente russa

Os médicos foram apanhados de surpresa e terão tentado, de todas as formas estancar a hemorragia, causada pela ruptura da artéria da coxa esquerda do capitão de engenharia Mariano Augusto Lopes Pires.

Às 23 horas e 53 minutos, da noite de 15 Setembro de 1941, o doutor Tempel, declarou o óbito do oficial português, no Hospital Militar Lazaret 122, em Berlim Tempelhof, depois de várias tentativas de reanimação que incluíram pelo menos três transfusões de sangue.

Esta fotografia da cerimónia fúnebre de Lopes Pires, em Berlim, circula pela internet há varios anos. Deve fazer parte do lote de seis imagens fornecidas pelas autoridades alemãs à família do oficial português. 

Desde a chegada de Lopes Pires e outros três oficiais portugueses a Berlim que os médicos alemães, com dois anos de experiência em lesões de guerra, tinham considerado, os seus ferimentos como ligeiros. A ruptura da artéria e a morte deste paciente foi, por isso, um acontecimento inesperado.

Todos tinham chegado da frente no dia 11 com ferimentos causados por estilhaços, resultado da explosão de uma bomba incendiária, num aeródromo da frente russa, no Kursk.

Faziam parte de uma comitiva de 12 oficiais de estado-maior portugueses, que tinha chegado a Berlim a meio de Agosto, com o objectivo de contactar “com os mais recentes ensinamentos da guerra moderna” e, nesse sentido, tinham agendadas visitas a diversas escolas de formação na Alemanha e também uma passagem pela “frente oriental” (Ver "Oficiais Portugueses na Frente Russa").

A comitiva viajava sob alçada do programa de rearmamento do exército. Algum material, nomeadamente obuses, tinha sido adquirido no ano anterior aos alemães e outro poderia seguir-se.

Não era também a primeira vez que uma delegação de oficiais realizava este tipo de visitas a países beligerantes, ou à “frente oriental”.

Todas as missões tinham os seus perigos, especialmente, quando se aproximavam das frentes de combate. Nos relatórios das missões que passaram pela Rússia, por exemplo, existem notas sobre as precauções relacionadas com ataques na retaguarda por grupos de resistentes ou militares inimigos infiltrados. Pelo menos em duas ocasiões registaram-se explosões de obuses russos perto das comitivas.

Não seriam, no entanto, qualquer destes perigos óbvios a vitimar os oficiais portugueses. Durante a visita a um aeródromo, nas linhas secundárias, onde se encontrava o Grupo de Bombardeamento Boelcke foi manuseado, para demonstração, uma bomba incendiária. Supostamente tratava-se de um “engenho não explosivo”, mas ele rebentou.

Vários soldados e oficiais alemães ficaram feridos e o mesmo aconteceu a nove dos 11 oficiais portugueses que faziam parte da comitiva (um dos portugueses já tinha regressado a Lisboa, por ter necessitado de cuidados médicos relacionados com uma doença).

Dos nove atingidos o comandante da missão, coronel Teles Ferreira de Passos e os capitães Carlos Miguel Lopes da Silva Freire, Mariano Augusto Lopes Pires e Almeida Fernandes ficariam internados num hospital de campanha no Kursk e mais tarde, no dia 11, evacuados “em avião sanitário” para Berlim, onde Lopes Pires veio a falecer.

Um difícil regresso

Os preparativos para transladar o corpo para Lisboa levaram alguns dias já que burocracia se estendeu a três países diferentes, que teriam de ser atravessados pelo féretro. A França ocupada não foi problema, mas a passagem por Espanha obrigou a um intenso trabalho diplomático que passou pela embaixada de Madrid em Berlim.

“Em 23 teve lugar uma cerimónia religiosa de corpo presente dedicada à memória do Capitão Lopes Pires, em que oficiou o capelão H. Kreutsberg e em que falou o General Olbricht. Assistiram o Ministro de Portugal (Conde de Tovar) e vários Generais e oficiais, entre eles o General Von Hase comandante militar de Berlim. Após as honras militares prestadas por uma companhia de aviação foi o corpo transportado em armão à estação de Tempelhof e transportado a Lisboa acompanhado pelo Major do Estado-Maior alemão Von Armin”, esclarece o relatório da missão que seria publicado em livro no ano seguinte.

O que o relatório não traz é a informação sobre toda a difícil viagem até à capital portuguesa. Uma viagem, em vagões de comboio especiais, que pode ser reconstruída através de um vasto conjunto de documentos que também se encontram nos Arquivo Histórico-Militar.

A supervisão alemã estendeu-se até à fronteira francesa, mas em Irun, onde era esperado pelo cônsul local e pelo adido militar da embaixada portuguesa em Madrid, Major Jorge santos Pedreira, tudo se complicou.

Algumas das notícias que saíram a 27 e a 28 de Setembro de 1942 n'O Comércio do Porto e n'O Século.
 (Fonte: Hemeroteca de Lisboa)


“As autoridades alemãs cuidaram desveladamente do transporte dos restos do desditoso oficial até à fronteira francesa mas não devem ter previsto que a diferença de via ia dar lugar a uma mudança de wagon e a uma espera de bastantes horas numa estação fronteiriça antes que o féretro pudesse circular novamente através da Espanha no seu caminho para Portugal (..). De facto foi preciso improvisar tudo: instalar capela ardente, pedir pessoal militar para o transporte do corpo, guarda para o velar, conseguir wagon e pagar o respectivo frete inclusivamente arranjar bilhetes e com grande dificuldade para que viajassem no mesmo comboio, tanto o oficial português de começo mencionado como o oficial alemão e o soldado intérprete que desde Berlim acompanhavam o féretro”, explica de forma pormenorizada um relatório da embaixada em Madrid.

Nas semanas seguintes iriam chegar duas facturas ao Ministério da Guerra, uma do consulado e outra da Embaixada. A primeira de quase mil pesetas e segunda de cerca de 2000 pesetas… são diversas despesas onde se incluem, entre outros, os gastos com o comboio, alojamento, instalação da capela ardente, agência funerária e acto religioso…

De novo em viagem o major Pedreira seria substituído em Vilar Formoso pelo major Frederico Vilar e tenente Ferraz Oliveira, da arma de engenharia, que tinham também integrado a missão à frente oriental e haviam regressado a Portugal na noite em que Mariano Lopes Pires faleceu.

Engenheiro na base da Ota

Ao longo de todo o conflito o governo português foi extremamente cuidadoso a revelar as suas relações com os diversos beligerantes. Neste caso, no entanto, fez ampla publicidade dos acontecimentos e da morte do capitão Lopes Pires no decurso da “missão de estudo relacionada com o plano de rearmamento do exército”.

Um longo comunicado explicando todos os factos foi enviado aos jornais para ser publicado no dia do funeral. Seria transcrito na íntegra n’O Século do dia 27 de Setembro. Nessa nota informativa são destacadas algumas notas biográficas que salientam, porexemplo, os laços familiares com outros oficiais das forças armadas.

Também destaca o facto de ter sido um dos oficiais escolhidos para dirigir “as obras de engenharia da Base Aérea da Ota, um dos trabalhos de Engenharia Militar mais notáveis até hoje realizados em Portugal, tendo sido louvado em ordem do exército pela forma como se desempenhou dessa missão”.

Fotos dos oficiais portugueses que foram hospitalizados na sequência da explosão de um bomba no Kursk. Lopes Pires acabou por falecer. 
Outras fotos do funeral publicadas em jornais. As Primeiras são d'O Século e a última d'O Comércio do Porto. Nas imagens do funeral são bem visíveis os oficiais alemães.
 (Fonte: Hemeroteca de Lisboa)
 
No dia 28 “O Comércio do Porto” e o também “O Século”, realizam pormenorizadas reportagens sobre o funeral, relatando a chegada do comboio especial à estação do Rossio às 10.15 da manhã, onde era esperado tanto por familiares como por oficias do exército ligados à Engenharia e ao estado-maior.

Presença assinalada a dos adidos alemães da marinha, exército e força aérea, que surgem em destaque nas fotos de ambos os periódicos. Na igreja da Estrela, onde a guarda de Honra foi assegurada pelo Regimento de sapadores do Caminho-de-ferro, destacavam-se, entre os ramos e as coroas de “flores naturais (…) as oferecidas pelos oficias alemães com grandes fitas vermelhas com a cruz suástica…”

As exéquias prolongaram-se e só depois das 16 horas o caixão seguiu da Igreja da Estrela para o Cemitério dos Prazeres.

Dos restantes feridos os dois capitães regressaria a 30 de Setembro de avião. O coronel Teles Ferreira de Passos faria um circuito um pouco mais longo, regressando, em 1 de Outubro, regressou no "wagon especial destinado ao transporte dos diplomatas brasileiros a trocar em Lisboa com os alemães vindos do Brasil". Chegou apenas a 10 e, durante a ravessia da França ocupada, em Biarritz, almoçou com o comandante da guarnição alemã – General Hoffman.


Em janeiro de 1944 o governo alemão resolveu condecorar os militares portugueses participantes na missão de 1942, salientando “a importância do acto e o prestígio que a missão conquistara”.

Para a família do malogrado capitão Lopes Pires as autoridades alemãs enviaram, no princípio de Outubro de 1942, cópias de seis fotografias da cerimónia fúnebre que tinha tido lugar em Berlim. Foram entregues à mulher a 8 de Dezembro desse ano.

Carlos Guerreiro

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Oficiais portugueses na frente russa


“A população aparentava estar calma, silenciosa, disciplinada mesmo nas localidades recentemente ocupadas, seguindo resignadamente os movimentos de evacuação forçada, ou trabalhando nos campos quasi nas primeiras linhas, nas zonas das batarias de artilharia, sob acção dos bombardeamentos dos seus nacionais, demonstrando o seu apego à terra, próprio de uma população agrícola”.

Esta é um das impressões da viagem à frente russa que se podem encontrar no Relatório da Missão Militar à Alemanha e à Frente Oriental, elaborada por cerca de uma dezena de oficiais portugueses após um périplo de quase dois meses. Entre 12 de Agosto e 10 de Outubro de 1942 tomaram “directo contacto com os mais recentes ensinamentos da guerra moderna”.

Entre as impressões da viagem os militares portugueses destacam também que, nas aldeias que visitaram, mal se viam homens adultos. A população resumia-se quase sempre a velhos, mulheres e crianças.

Reportagem da visita dos oficiais portugueses à frente oriental em Agosto/ Setembro de 1942. 
As imagens foram publicadas na revista "Sinal" de Dezembro de 1942.

O relatório, que se encontra no Arquivo Histórico Militar (AHM), impresso em formato de livro, tem 295 páginas, com fotografias mostrando os elementos da missão nas várias visitas que realizaram à “frente oriental” e também à Alemanha.

O trabalho é bastante ilustrado sendo possível encontrar outras fotografias, mapas e esquemas que mostram armas, equipamentos, disposições tácticas, sistemas de ataque e de defesa das várias unidades e especialidades.

Num conjunto de organogramas mostram-se a estrutura e organização do exército alemão, nas suas diversas especialidades, começando na mais pequena das unidades até um corpo de exército. Há também registos de como se organiza um quartel-general numa frente de combate ou um Estado-Maior.

O relatório não fica completo sem uma colecção de ilustrações, legendadas em alemão, que mostram muito do material utilizado pelos russos, especialmente os carros de combate como o KV-1, o T-34 ou os Matilda, estes últimos de fabrico britânico.

Os 12 oficiais portugueses que partem para esta missão em 1942 são o Coronel Teles Ferreira de Passos (director do curso de estado maior); o major Frederico Mário de Magalhães Meneses Vilas Boas Vilar; os capitães Manuel Alcobia Veloso, Carlos Miguel Lopes da Silva Freire, Mariano Augusto Lopes Pires, Afonso Magalhães de Almeida Fernandes, José Ferreira dos Reis e Fernando Augusto Soares da Piedade; Os tenentes Alfredo José Ferraz Vieira Pinto de Oliveira, Afonso Lopes Franco, João António da Silva e Alexandre Nobre dos Santos
 
Esta visita à “frente oriental” começou por envolver 12 oficiais portugueses. São professores ou alunos recém-formados do curso de Corpo do Estado-Maior e pertencem às especialidades de artilharia e engenharia.

A viagem para Berlim é feita em grupos de quatro, através de voos da Lufthansa, com partida da Granja do Marquês, em Sintra , entre 12 e 14 de Agosto.

A 22, ainda em Berlim, o tenente de artilharia Lopes Franco vê-se obrigado a regressar a Lisboa. Necessita de uma cirurgia e cuidados médicos prolongados. É a primeira baixa da missão.

Na capital alemã fazem turismo antes de visitar escolas de infantaria, artilharia, pioneiros e tropas couraçadas. Passam ainda por fábricas de material bélico.

É só nos últimos dias de Agosto que se deslocam para a frente de batalha, chegando mesmo à zona do Kursk, onde no ano seguinte vai acontecer o maior confronto de tanques da história com uma vitória russa.

No dia 31, em solo russo, passam por um hospital de campanha e por um campo de instrução, onde assistem a exercícios de fogo real envolvendo infantaria e artilharia.

No dia 2 de Setembro, no quartel general da 88ª divisão alemã, em Bogdanovo, assistem ao fim do interrogatório de “três desertores de três raças diferentes (turco, caucasiano e mongol)”. Nos dias seguintes visitam diversas zonas da frente.

A 6 encontram-se nos bosques perto de Bol-Wereika, quando são alvo da artilharia russa. Apesar de alguns obuses caírem perto da comitiva, a noite termina num jantar acompanhado por “um coro de cossacos com fardas alemãs”.

As recordações não seriam todas tão boas como esta. 
PK Pinconelly foi o fotógrafo alemão que acompanhou a delegação portuguesa durante toda a missão à frente oriental.

O dia 8, já no Kursk, começa pela visita a uma igreja ortodoxa “transformada em museu e agora reaberta para culto pelos alemães”, e segue depois para uma base aérea, onde se dá um acidente que vai revelar-se mortal: “Com assistência do General de aviação Von Bilowius visitou-se ainda a esquadra de aviação de combate BOELCKE, onde pelas 12 horas, o engano no decorrer duma demonstração com uma bomba incendiária de avião, que se supunha não explosiva, provocou ferimentos em oficiais e praças alemães e em 9, dos dez oficiais da Missão”.

Dos nove portugueses feridos quatro são evacuados para Berlim. Tratavam-se do chefe da missão, coronel Teles Ferreira de Passos, e dos capitães de engenharia Carlos Miguel Lopes da Silva Freire, Mariano Augusto Lopes Pires e Almeida Fernandes.

Os médicos alemães consideram os ferimentos ligeiros, mas Mariano Lopes Pires, vem a falecer, na sequência da ruptura de uma artéria na noite de 15 para 16 de Setembro (ver Um Morto Portugês na Frente Russa).

A maior parte dos membros da delegação portuguesa vão regressar a Portugal, nos dias 16 e 17 de Setembro.


Participar na luta contra o comunismo

As missões militares aos vários países envolvidos no conflito nada têm de anormal. Oficiais portugueses estiveram também em Inglaterra ou Itália durante os anos da guerra.

E esta é apenas uma das missões portuguesas à frente oriental . No AHM podemos encontrar informações de pelo menos três delas envolvendo militares do exército. Já referimos a que aconteceu em 1942, mas há duas outras, que decorreram quase em simultâneo, no ano de 1941.

Uma outra, apenas com oficiais da GNR, teve também lugar naquele ano.

O convite para participar nestas iniciativas foi alemão, como se depreende de uma carta enviada à Legação alemã em 9 de Agosto de 1941.

O Sub-Secretário de Estado da Guerra, Santos Costa, informa o adido militar Major Von Brockdorff que era agora “oportuno tomar uma decisão quanto ao envio de missões militares destinadas a visitar o teatro de operações da frente oriental ou a tomar conhecimento com os mais recentes métodos de guerra moderna, assunto já em tempos abordado (…) e agora de novo tratado”.

Recepção na Legação Lemã dos oficiais potugueses antes de realizaram a visita à Alemanha e à frente oriental em Outubro de 1941. 
Esta fotografia e a seguinte foi publicada na edição de 5 de Novembro de 1941 da revista Esfera.
 (Fonte: Hemeroteca de Lisboa)

A aquisição recente por parte das forças armadas nacionais de 101 obuses ligeiros e 24 pesados aos alemães, e a necessidade de conhecer melhor “os método de tiro e de manobra” destes equipamentos, são a principal razão para concretizar o pedido.

Santos Costa solicita que os oficiais estagiem em escolas e artilharia, mas insiste na ida destes à “frente oriental”. “Os ensinamentos colhidos no próprio ambiente da guerra seriam certamente muito mais proveitosos e simultaneamente alguns militares portugueses teriam o ensejo de tomar parte na luta contra o comunismo, aspiração que muitos deles teriam o maior empenho em satisfazer”.

Uma frase, no mínimo, curiosa certamente com mão do próprio Salazar já que este é o titular da pasta da Guerra para além de Presidente do Conselho e de ministro dos Negócios Estrangeiros.

Em Outubro estão prontas duas missões para a Alemanha. Uma é constituída por uma dezena de oficiais de artilharia e outra por três oficias de estado-maior.

Ambas partem ao mesmo tempo – 17 de Outubro - mas terão presença distinta na Alemanha. O único relatório que foi possível localizar é o dos três últimos oficias de estado maior, comandados pelo Major Gomes Araújo.

Enquadrados por forças alemãs, percorrem escolas de formação diversas, mas é a “frente oriental” que vai preencher parte importante do seu relatório, também um livro com pouco mais de 200 páginas, mas sem fotografias ou imagens.

A comitiva que se deslocou à frente oriental em 1941 integrava os oficiais de estado maior majores Manuel Gomes Araújo, Júlio Botelho Moniz e capitão José Beleza Ferraz. A delegação da rama de artilharia era constituída pelo major João da Costa Ferreira Pinto; capitães António Libório, José Augusto da Fonseca June, Espirito Santo, José Virgolino, João Santos e Silva; tenentes Luis costa Campos e Menezes, Jesus Armigio,  Delgado e Silva, António Brancamp Sobral.
 (Fonte: Hemeroteca de Lisboa)

As áreas de visita são neste caso Luga e Leningrado onde a comitiva testemunha vestígios de combates recentes e se surpreende com algumas das tácticas utilizadas. “Um outro facto curioso a assinalar é o seguinte: em cima de cada um dos carros russos vinham 10 atiradores os quais, como era de prever, foram mortos pelos tiros das metralhadoras e espingardas alemãs. Visitou-se o local onde ainda se encontravam os carros e até, queimados a seu lado, alguns dos seus tripulantes”


Spínola em Leningrado 

Uma das questões que tem sido referida várias vezes é a presença de António de Spínola numa destas comitivas que em 1941 visitou a Rússia.

Não me foi possível encontrar, entre os documentos do AHM qualquer referência à sua presença.

Há no entanto uma nota neste relatório de 1941 que refere que “à Missão do EME (Estado Maior do Exército) juntou-se em Berlim, uma missão de oficiais da GNR tendo a visita à frente sido feita em conjunto”.

Fotolegenda publicada na edição de Dezembro do Jornal oficial da GNR "O Soldado".
Spínola deverá ter integrado esta delegação como tenente.

Olhando para a biografia verificamos que Spínola era, em 1941, um jovem tenente, ajudante de campo do comandante da GNR, General Monteiro de Barros, por acaso, também seu sogro.

Deduzo por isso que a comentada presença e Spínola em Leningrado tenha acontecido quando estas duas delegações se deslocaram em conjunto até à Frente Oriental.

Carlos Guerreiro