Jornal "Diário de Lisboa", 11 de Fevereiro 1941
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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
"Debaixo do Céu" com Irene Pimentel
No próximo sábado, dia 9, a historiadora Irene Pimentel vai estar presente na sessão de "Debaixo do Céu" que vai ter lugar no Cinema Ideal. Será pelas 17.15 horas.
Presentes vão também estar o realizador Nicholas Oulman e o produtor Paulo de Sousa...
Um bom filme...
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
«O homem que veio do Outro Mundo» (3)
O longo caminho para Dachau
Continuamos com a transcrição da entrevista dada por José Agostinho das Neves ao jornalista Fernando Teixeira em finais de 1945. O homem que terminaria a guerra no campo de concentração de Dachau continua o relato do que aconteceu durante a viagem no "comboio fantasma". Por causa das acções da resistência francesa e do avanço aliado após o Dia D, o percurso entre o campo de concentração francês de Vernet e a Alemanha, prolongou-se por meses...
Ficam também as primeiras impressões sobre Dachau.
Como já foi referido a entrevista foi tema em duas edições distintas do jornal Diário Popular. Com esta publicação vamos transcrever as primeiras linhas publicadas na edição do dia 23 de Novembro de 1945.
--- Leia aqui as PARTE 1; PARTE 2; PARTE 4.
Ficam também as primeiras impressões sobre Dachau.
Como já foi referido a entrevista foi tema em duas edições distintas do jornal Diário Popular. Com esta publicação vamos transcrever as primeiras linhas publicadas na edição do dia 23 de Novembro de 1945.
Título na primeira página do "Diário Popular", de 25 de Novembro de 1945.
O Homem que veio do Outro Mundo (2)
A caminho de Dachau
Dois meses de comboio para ir de França à Alemanha
A vida num campo de concentração alemão descrita por um
português prisioneiro
A conversa com o meu companheiro daquele fim de tarde de
Paris durou algumas horas. E o que mais me impressionava nele era a arrumação
das suas recordações. Dir-se-ia que tinha escrito na memória, que folheava
páginas de um livro. Foi ele que me deu a explicação:
- Não se admire. Durante meses e meses, não pude ter o
prazer do isolamento. Vivi sempre, onde quer que encontrasse, lado a lado,
ombro a ombro com outros homens. Não olhava para qualquer parte que não visse
um rosto amargurado. Não soltava um gemido que não recebesse outro em troca. E
eu que gostava de me isolar, de pensar – só encontrei remédio nesta espécie de
nirvana a que me votava. Durante esses momentos, recapitulava a minha vida e
fazia o possível por esquecer o que me rodeava. Tantas vezes o fiz que as
imagens, as datas e as palavras, à força de repetidas, nunca mais me
esqueceram.
Uma pergunta que eu queria fazer-lhe há muito tempo:
- Havia muitos portugueses nos campos de concentração onde
esteve?
- Em Dachau, onde terminei a minha odisseia, conheci oito,
vindos de vários pontos da Europa. Só regressei eu e outro que mais tarde vi
aqui em Paris e creio que vive agora na província. Comigo no comboio seguira
também outro. Em Angoulême, foi atingido por uma bala explosiva numa perna,
durante o ataque dos aviões ingleses. Mas como no momento de ser transportado
para o hospital, lhe foi descoberta nos bolsos uma carta, devolveram-no para o
vagão e ali ficou sem qualquer socorro – à espera que a perna apodrecesse ou se
curasse milagrosamente. Soube-se depois que a carta lhe fora entregue por um
companheiro com o pedido de, no Hospital, a mandar para o correio. Esse
companheiro tinha mulher e queria dar-lhe a ilusão de que vivia. A carta nunca
chegou ao seu destino – e ele também não. Morreu pouco tempo depois, noutro
vagão desconjuntado de outro comboio infernal.
Uma pausa para «ler
no cérebro». E a história interrompida, contínua:
- Andávamos nove dias neste vaivém de comboios no sul da
França. Impossível avançar, tais eram as destruições operadas pelo «maquis» nas
vias férreas. E voltámos a Bordéus. Desembarcámos a custo. Mal nos tínhamos de
pé. Mandaram-nos seguir ruas fora durante a noite e acabaram por nos metes no
edifício de uma sinagoga onde ficámos dias e dias à espera do inverosímil: que os
comboios pudessem seguir para a Alemanha. O templo israelita tinha sido, no seu
interior, completamente devastado pela soldadesca alemã. Ainda havia montes de
pedras, de madeira, de caliça. Misturámo-nos com o lixo, os ratos, as baratas,
e toda a espécie de parasitas. Amontoámo-nos uns em cima dos outros a fim de
arranjar lugar deitado para os doentes e feridos. O português, com a barriga da
perna furada, gritava desesperadamente. Quanto sofreu o infeliz! Mal sabia ele
que só dois meses depois, na Alemanha, seria tratado! E quem lhe diria que,
após esta prova de resistência quási inacreditável, haveria de morrer
estupidamente de uma gripe – que de ninguém tratou evidentemente!
100 homens fechados à chave
Certa vez tínhamos acabado a nossa única refeição do dia –
uma malga de caldo e um pedaço de pão de cor duvidosa – quando se abriram de
novo as portas da sinagoga. Íamos voltar a embarcar. Na estação, esperavam-nos
mais 400 presos, entre os quais 80 mulheres, vindos não sei de onde. Encurralaram-nos em vagões como nas viagens anteriores – somente um pouco mais
apertados. Em vez de 70, como até ali, éramos agora 100 homens fechados à chave
com bons cadeados. A respiração era deficiente mas felizmente – com pouco nos
contentávamos! – havia frestas abertas no tejadilho. Perdi de vista o português
ferido, não voltei a ver o velho de barbas brancas que chorava e que ficou para
sempre estendido no chão frio da sinagoga. Pôs-se-me um nó na garganta ao saber
por outro prisioneiro que o pobre velho falara de mim ao morrer. Como tenho
saudades do tempo em que ainda me comovia!
Como não podíamos seguir a viagem com o itinerário traçado
antes, voltámos a passar por Toulouse e dirigimos-nos a Nimes, por Narbomei. A
nossa chegada àquela região coincidiu com o desembarque das tropas francesas em
Saint Raphael. E como a aviação americana não deixava de bombardear os
arredores, o comboio parou. Começaram então oito longos dias de sofrimentos.
Fechados no vagões, comendo só uma vez ao dia – um pedaço de pão coberto de
bolor e uma rodela de salsicha – e não tendo mais que meio decilitro de água
por 24 horas, fomos caindo doentes a pouco a pouco. A fome, a sede e o calor
mudavam as expressões. Loucos ou moribundos?
Como a desgraça faz dos homens feras sem coração! Se nos
visse, se visse como nos batíamos por um pedaço de pão a mais que sobejasse da
boca de um doente! Depois as salsichas acabaram e foram substituídas por um
tomate cru para cada vagão. Faz ideia do que seja dividir por 100 homens um
tomate cru? Pois ninguém ficava sem o seu quinhão. E que ficasse! Era uma
questão que nunca mais acabava – e ódios surdos e lutas e insultos.
Um batalhão de miseráveis atravessa vilas e aldeias
Quando o comboio se pôs de novo em marcha, poucos
quilómetros andados, uma ponte destruída por bomba de avião cortou-nos, de
novo, a passagem. Somos obrigados a descer e a abandonar as nossas bagagens,
pobres bagagens de roupas sujas e velhas e de retratos amarelecidos pelas
lágrimas, pelo suor e pelo calor – restos de uma vida que ficou para trás.
Fomos a pé de Roquemaure a Sorgnes, cerca de 20 quilómetros
através de vilas e aldeias. Quando me lembro dessa caminhada!... Batalhão de
miseráveis, descalços, rotos, alguns quási nus, olhos esgazeados, lábios
gretados da febre, pés inchados, mãos descarnadas sempre em busca de ervas ou
raízes no chão para levar à boca escaldante, ávida, sôfrega do que quer que
fosse trincável!
Atrás e aos lados vinha a matilha dos “cães de guarda”,
espingardas e metralhadoras prontas a disparar se um nós ficava para trás,
coronha descarregada na cabeça do que não tivesse força para andar.
Mais adiante esperava-nos outro comboio. Voltámos aos
vagões. E tudo se passou, dias e dias, da mesma maneira, até chegarmos a
Pierreffite, onde novo ataque de aviação nos esperava. Novo e trágico ataque.
Ah! Se eles soubessem que nós não éramos alemães! Mas tudo era impossível para
lho fazer ver. Nem nos restava o ardil das camisas a fazer de bandeira. Qual de
nós ainda tinha camisa?
Foi verdadeiramente infernal aquilo. Dessa vez o ataque era
feito à bomba. O meu vagão não tinha sido atingido, mas quando saímos – porque
a locomotiva fora pulverizada por um impacto directo – verificou-se que nove
prisioneiros estavam mortos e 20 gravemente feridos. Estendidos na relva de um
prado à beira da linha os infelizes entoavam uma canção trágica feita de
dezenas de gritos, de brados de raiva -
de palavras sem nexo em várias línguas. Socorremo-los como pudemos porque os
alemães – “valentes” como já sucedera anteriormente – tinham-se refugiado no bosque
e vigiavam-nos com as metralhadoras, não fosse algum aproveitar a ocasião para
fugir.
Rasguei as calças que levava na trouxa da roupa e fiz ligaduras. Outros
procuraram fazer o mesmo. Outros limparam feridas e fizeram pensos com ervas e
folhas de árvores. Mas os nosso “doentes” não resistiram na maior parte, aos
“tratamentos”. Um morreu-me nos braços. Outro pôs-se em pé, desvairado, louco e
desatou a fazer sinais inúteis aos aviões que ainda se viam no ar. Conseguiu o
que queria. Uma rajada de metralhadora alemã acabou com ele.
A chegada a Dachau
Estamos a conversar há horas. Aproveito uma pausa para lhe
propor um pequeno passeio à beira do Sena. A noite vem caindo aos poucos.
Encontramo-nos os dois cansados: ele de falar, eu de o ouvir com atenção para
não perder uma palavra. Seguimos por um passeio da margem esquerda. Caminhamos
lado a lado, sem proferir palavra, a gozar a quietude e o encanto da rua que se
recolhia à sombra dos chorões. E pisávamos voluptuosamente folhas amarelecidas,
esquecidos por momentos, do mundo que ele vivera – do “Outro Mundo”.
Foi o meu companheiro que voltou a falar outra vez:
- Por fim, e depois de muitas peripécias, chegámos à
Alemanha. Tinham-se passado dois meses após a nossa saída do campo de
concentração em França. Dos 500 que éramos a princípio, dos 900 que fomos
depois em Bordéus, só restava metade. Os outros tinham morrido - ou fugido.
- Fugido?
- Sim. Nunca soube como, mas alguns ainda tiveram forças
para fugir nas andanças de subor e descer dos vagões. Onde teriam ido parar? No
estado de saúde e fraqueza em que estavam, talvez não tivessem andado mais de
500 metros. Mas quem sabe medir o poder da resistência humana à dor e à fome?
- Todos os mortos foram vítimas dos bombardeamentos e da
fome?
- Muitos não resistiram também aos maus tratos. As coronhas
das espingardas alemãs fracturaram muitos crânios.
Uma nova pausa. Paramos junto a uma alfarrabista. Olho um
velho volume, sujo, carcomido pelo uso. Lemos os título: “Viagens de turismo na Alemanha”. E desatamos a rir à
gargalhada. Depois ele volta a contar:
- Se a viagem fora cruel, medonha, desumana, a nossa
recepção no campo de concentração de Dachau foi ainda pior. Mal as portas dos
vagões forma abertas, cães enormes saltaram para dentro deles ensinados na
missão de nos expulsarem depressa. Os guardas vociferavam o maldito “Alles
raus!”. Fugíamos, com igual temor, aos homens e aos cães, saindo dos vagões aos
trambolhões, a cair uns por cima dos outros.
Chegados ao campo, após uma marcha de algumas centenas de
metros, reuniram-nos no meio de uma praça triste ladeada de toscas construções.
E ali ficámos toda a noite, deitados no chão, quási despidos, sem nada com que
nos abrigar. No dia seguinte, depois das formalidades do registo de entrada,
fomos conduzidos aos serviços de recepção. Aí despojaram-nos de tudo quanto
possuíamos. Ficámos nus – à espera de um “barbeiro” que nos rapou da cabeça aos
pés. “Vestiram-nos” então umas calças e um casaco em farrapos, herança de um
pobre prisioneiro que morrera.
Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 23 de Novembro de 1945
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
Banacáo, Farinha de Banana
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
Tertúlia sobre o Holocausto em Almodôvar
Iniciativa do Agrupamento de Escolas de Almodôvar, dia 1 de Fevereiro,
pelas dez da manhã no Auditório.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
«O homem que veio do Outro Mundo» (2)
A viagem no "Comboio Fantasma"
Publicamos a segunda parte da entrevista dada por José Agostinho das Neves em finais de 1945 ao jornalista Fernando Teixeira. Trata-se do segmento final do que foi publicado na edição de 22 de Novembro. Como já foi referido anteriormente a entrevista foi impressa em duas edições distintas do "Diário Popular" e os episódios relatados na edição do dia 23 serão transcritos brevemente neste blogue.
Na última semana ficámos a conhecer um pouco sobre José Agostinho das Neves e das desventuras que o conduziram aos campos de concentração franceses logo no princípio do conflito. Nesta publicação vamos acompanhar as suas memórias sobre o percurso até ao campo de Dachau na tristemente famosa viagem do "Comboio Fantasma".
Neste comboio, onde seguiam vários portugueses, reuniram-se os últimos 400 prisioneiros do campo de Vernet e outros 170 homens e mulheres vindos da prisão de Saint-Michel. A partiram para Bordéus aconteceu a 2 de julho de 1944, seguindo depois para Angoulême onde foram alvo de um bombardeamento por parte de aviões aliados. Não conseguindo seguir viagem a composição regressou a Bordéus, onde esperaram 28 dias na sinagoga da cidade antes de retomar o caminho.
Quando partiram, a 9 de Agosto, o grupo seguiu reforçado com mais prisioneiros elevando o total de deportados para cerca de 800. Pouco depois a destruição das vias obrigou-os a percorrer duas dezenas de quilómetros para fazer o transbordo para outro comboio e a viagem prolongou-se sob o sol escaldante de Agosto por entre inúmeras voltas e reviravoltas causadas por bombardeamentos, sabotagens e a fuga aos avanços aliados que tinham invadido a Normandia no dia 6 de Junho. Quando chegaram a Dachau, no dia 28 de Agosto, saíram do comboio apenas 536 pessoas...
Retomamos a transcrição:
(...)
A viagem sem fim começa
30 de Junho de 1944. Há quanto tempo não vejo gente? Nem eu sei já. À minha frente, só espectros e fardas. Fardas pretas, verdes, cinzentas. E nesse dia quinhentos homens, quinhentas sombras, os que havíamos ficado no campo, restos de todas as levas anteriores, somos reunidos para partir também. Os alemães estavam furiosos. Os planos haviam falhado. Os “outros” tinham desembarcado na Normandia. Estavam no grupo franceses, espanhóis – mutilados do guerra – alguns belgas fugidos e eu. Mal tivemos tempo de fazer uma trouxa dos nossos trapos e das nossas poucas, saudosas recordações. E partimos em camiões, escoltados pelos famosos “S.S.” que nunca tínhamos visto e eram verdadeiramente brutais. Cochichávamos uns para os outros: “Serão homens ou feras?” Nunca descobri a diferença.
Dentro do vagão era sempre de noite
Horas e horas seguidas naquele monótono andamento enlouqueciam-nos. Para onde nos levavam? E cada vez era maior o silêncio naquele vagão infernal para que não se perdesse uma palavra da conversa com sentinelas ou uma indicação dos empregados dos caminhos-de-ferro. Lá dentro era sempre noite. Para contar os dias, precisávamos não esquecer que as visitas das sentinelas se faziam de manhã e de tarde. Duas, um dia. Palavras soltas colhidas aqui e ali davam-nos uma indicação: íamos para Compiegne. Mas seria verdade? As conjecturas que cada um de nós fazia não podiam convergir. E todos começámos a sentir-nos invadidos pelas apreensões mais disparatadas. Sem ar, sufocados pelo calor, começámos a deitar fora a roupa, esperançados que assim resistiríamos melhor, atenuaríamos a transpiração. O cheiro de 70 homens que não podiam lavar-se era nauseante. E o sol – que belo sol devia gozar-se lá fora! – queimava, transformava os vagões em fornalhas.
E o calor aumentava. E este desejo imenso de querer morrer! Se ao menos um de nós tivesse uma arma, uma faca, se ao menos um de nós tivesse forças para apertar com as mãos… Massas informes, atirados uns sobre os outros, cinzentos do cimento, avermelhados do calor e da raiva, foram-se calando as vozes pouco a pouco.
E de repente, uma chiadeira de travões e de metais que chocam. E vozes que se aproximam. E um ruído de portas que se abrem. Agora, é no nosso vagão. Ficámos todos de olhos pregados na porta que é aberta com estrondo. A princípio, vemos só a luz do sol que nos cega. Depois, distinguimos as sentinelas e uns homens que não conhecemos e olham para nós, indiferentes, armados de granadas e metralhadoras. Dos 70 que éramos no vagão, só cinco estão de pé e são os primeiros a descer e a ajudar os outros.
O medo de não ter forças para viver
Foi então que me enchi de medo, de um medo feroz que mal podia exteriorizar-se porque eu nem sequer conseguia abrir a boca para falar.
É que eu tinha à minha frente, outra vez, a vida, o ar livre, talvez uma lata de água. E eu que gritara, que me horrorizara com a ideia de que podia morrer ali para um canto sem ar e sem luz, perdera de repente todo o desejo, todas as possibilidades de reagir. Perdera a esperança. E queria morrer. Não era capaz de arredar dali. Enchi-me de medo. Que iria eu fazer daí para diante? Um dos homens armados de metralhadora subiu e deu-me um pontapé. Ainda bem. A dor fez-me reagir. Pus-me de pé. Cambaleei, agarrei-me a ele. Levei um safanão. Cheguei à porta e desci.
Estendi-me ao comprido no talude. Vieram então os assistentes da Cruz Vermelha. E, a pouco e pouco, aquele exército de fantasmas, lavados, reanimados com um pedaço de pão, um tomate cru e uns goles de água, começou a pôr-se de pé. Vieram logo ordens enérgicas. E os homens da Cruz Vermelha foram proibidos de nos alimentar. E fizeram-nos subir, de novo, para os vagões. Mas as portas não foram fechadas completamente. Uma fresta de cada lado, uma em frente da outra, seria uma corrente de ar fatal para quem não tinha roupa sobre a pele. Mas era uma corrente de ar. Estabelecemos então turnos para respirar melhor. E de cinco em cinco minutos (pouco mais ou menos, pois nenhum de nós tinha relógio) um grupo ia encostar a boca à fresta da porta. Depois esperámos. Quando o comboio se pôs em marcha, já era noite. Soubemos mais tarde que já não podendo seguir o itinerário previsto, por as linhas estarem cortadas pelo “Maquis”, haviam decidido levar-nos para Perigueux. Chegados a Bordéus, e após alguns instantes de paragem que nem sequer deram tempo a que a Cruz Vermelha nos socorresse de novo o comboio pôs-se em marcha lenta. A meio da noite, parámos. O comboio tinha de retroceder. As vias estavam interceptadas. E voltámos a Bordéus, em direcção a Angoulême. Aí chegados verificou-se que a estação estava destruída pelos bombardeamentos.
O comboio foi desviado para uma linha de mercadorias, à espera que os “rails” fossem reparados. Abrem-nos então as portas e mandam-nos sair aos cinco de cada vez. Num pequeno regueiro que corria ao fundo do valado e a todo o comprimento do comboio, via-se então uma fila de desgraçados nus e sujos, de barba crescida e cara congestionada pelo sofrimento, procurando aliviar-se da tortura de uma necessidade tanto tempo contida. Para refrescar os lábios tumefactos pela febre, alguns dos infelizes arrancavam as ervas que tinham ao alcance das mãos. Outros, para quem é demasiado atroz o suplício da sede, não resistem à tentação da água que corre no mesmo regato onde os companheiros se encontram agachados. Transtornados, sem discernimento. Bebem-na, sôfregos. Recuo para o vagão, cheio de sede, endoidecido por aquela visão.
Um ataque inesperado, na noite
O comboio parte. Para onde? Sabe-se lá. E ainda não comi – nem sequer o pedaço de pão da Cruz Vermelha, que não houve tempo de o distribuir a todos.
Em Parcoul-Mediac, nova paragem. Depois no silêncio, ruídos estranhos e uma gritaria desusada. São aviões ingleses, de caça, que fazem um barulho infernal. Os soldados da escolta aferrolham-nos as portas e dispersam-se pelos bosques próximos. E assestam sobre os vagões as metralhadoras para que não possamos evadir-nos. Espreitamos pelas frinchas do vagão desconjuntado. É verdade, terrivelmente verdade. Por cima, os aviões. Aos lados, os alemães, às espera que um de nós arrombe a porta para fugir. Os aviadores ingleses que haviam visto fugir os alemães tomam o comboio por um transporte de tropas inimigas. E baixam. E abrem fogo. E todo o comboio, de uma ponta à outra, é esburacado pelas balas explosivas. Aterrados, impossibilitados de sair, vemos a trajectória luminosa das balas descrever caprichosas e alucinantes fantasias. Vamos morrer todos. E, ao meu lado, um velho, de grandes barbas, chora. Um outro lá ao fundo, grita. Estará ferido?
Não sei como surgiu aquela ideia. De repente, uma camisa branca, outra azul e outra vermelha são atadas a um pau. Passa-se este simulacro de bandeira pela fresta do vagão. Quando voltam à carga, os aviadores percebem o sinal. E deixam-nos em paz.
Os gritos do feridos começam a ser horríveis. Há três mortos e uns vinte em estado grave. Alguns são evacuados para o hospital de Angoulême.
E um novo dia amanhece.
Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 22 de Novembro de 1945
--- Leia aqui as PARTE 1; PARTE 3; PARTE 4.
| Primeira Página do "Diário Popular" de 22 de Novembro de 1945. |
Neste comboio, onde seguiam vários portugueses, reuniram-se os últimos 400 prisioneiros do campo de Vernet e outros 170 homens e mulheres vindos da prisão de Saint-Michel. A partiram para Bordéus aconteceu a 2 de julho de 1944, seguindo depois para Angoulême onde foram alvo de um bombardeamento por parte de aviões aliados. Não conseguindo seguir viagem a composição regressou a Bordéus, onde esperaram 28 dias na sinagoga da cidade antes de retomar o caminho.
Quando partiram, a 9 de Agosto, o grupo seguiu reforçado com mais prisioneiros elevando o total de deportados para cerca de 800. Pouco depois a destruição das vias obrigou-os a percorrer duas dezenas de quilómetros para fazer o transbordo para outro comboio e a viagem prolongou-se sob o sol escaldante de Agosto por entre inúmeras voltas e reviravoltas causadas por bombardeamentos, sabotagens e a fuga aos avanços aliados que tinham invadido a Normandia no dia 6 de Junho. Quando chegaram a Dachau, no dia 28 de Agosto, saíram do comboio apenas 536 pessoas...
Retomamos a transcrição:
(...)
A viagem sem fim começa
30 de Junho de 1944. Há quanto tempo não vejo gente? Nem eu sei já. À minha frente, só espectros e fardas. Fardas pretas, verdes, cinzentas. E nesse dia quinhentos homens, quinhentas sombras, os que havíamos ficado no campo, restos de todas as levas anteriores, somos reunidos para partir também. Os alemães estavam furiosos. Os planos haviam falhado. Os “outros” tinham desembarcado na Normandia. Estavam no grupo franceses, espanhóis – mutilados do guerra – alguns belgas fugidos e eu. Mal tivemos tempo de fazer uma trouxa dos nossos trapos e das nossas poucas, saudosas recordações. E partimos em camiões, escoltados pelos famosos “S.S.” que nunca tínhamos visto e eram verdadeiramente brutais. Cochichávamos uns para os outros: “Serão homens ou feras?” Nunca descobri a diferença.
Chegámos a Toulouse. Meteram-nos na Caserna Caffareli, uma
vasta cela, guardada por sentinelas reforçadas. Impossível comunicar com o
exterior. Apertados, 500 corpos encostados ombro a ombro, nem sequer podíamos
deitar-nos. Moídos, cheios de sono, despertaram-nos na madrugada do terceiro
dia, espancados pela guarda para sair mais depressa. Lançámos mão rapidamente à
parte menos volumosa da nossa bagagem e corremos, noite fora, ao frio até à
estação de mercadorias. Deparámos então com um comboio já formado. Quinze
vagões dos de transporte de gado. Alguns já estavam repletos. Eram presos
vindos de outros pontos. Repartiram-nos pelos espaços vagos. Entro no meu e
leio pintado a branco na madeira:
“Lotação – 8 cavalos ou 40 homens”.
Ficamos setenta. Portas aferrolhadas, sem janelas, sem ar e
sem luz, esperámos de olhos abertos, ouvidos à escuta. Começou então a grande
viagem…
Dentro do vagão era sempre de noite
Horas e horas seguidas naquele monótono andamento enlouqueciam-nos. Para onde nos levavam? E cada vez era maior o silêncio naquele vagão infernal para que não se perdesse uma palavra da conversa com sentinelas ou uma indicação dos empregados dos caminhos-de-ferro. Lá dentro era sempre noite. Para contar os dias, precisávamos não esquecer que as visitas das sentinelas se faziam de manhã e de tarde. Duas, um dia. Palavras soltas colhidas aqui e ali davam-nos uma indicação: íamos para Compiegne. Mas seria verdade? As conjecturas que cada um de nós fazia não podiam convergir. E todos começámos a sentir-nos invadidos pelas apreensões mais disparatadas. Sem ar, sufocados pelo calor, começámos a deitar fora a roupa, esperançados que assim resistiríamos melhor, atenuaríamos a transpiração. O cheiro de 70 homens que não podiam lavar-se era nauseante. E o sol – que belo sol devia gozar-se lá fora! – queimava, transformava os vagões em fornalhas.
Ninguém podia aguentar mais, alguns começavam a perder os
sentidos. Não, não podíamos. Quási nus, lábios secos, transfigurados, nós, os
que ainda estávamos de pé, começámos a gritar e a bater nas paredes. Que ao
menos nos abrissem a porta para respirar. Mas não abriram. E embora o suplício
fosse até então apenas de algumas já preferíamos ser fuzilados que morrer
naquelas condições. Alucinados pela sede, gotejando suor, nus, sujos de poeira,
a pele quebradiça, escaldante, cheia de resíduos de cimento, ao transporte do
qual os vagões haviam servido antes, parecíamos personagens de um pesadelo
infernal.
E o calor aumentava. E este desejo imenso de querer morrer! Se ao menos um de nós tivesse uma arma, uma faca, se ao menos um de nós tivesse forças para apertar com as mãos… Massas informes, atirados uns sobre os outros, cinzentos do cimento, avermelhados do calor e da raiva, foram-se calando as vozes pouco a pouco.
E de repente, uma chiadeira de travões e de metais que chocam. E vozes que se aproximam. E um ruído de portas que se abrem. Agora, é no nosso vagão. Ficámos todos de olhos pregados na porta que é aberta com estrondo. A princípio, vemos só a luz do sol que nos cega. Depois, distinguimos as sentinelas e uns homens que não conhecemos e olham para nós, indiferentes, armados de granadas e metralhadoras. Dos 70 que éramos no vagão, só cinco estão de pé e são os primeiros a descer e a ajudar os outros.
O medo de não ter forças para viver
Foi então que me enchi de medo, de um medo feroz que mal podia exteriorizar-se porque eu nem sequer conseguia abrir a boca para falar.
É que eu tinha à minha frente, outra vez, a vida, o ar livre, talvez uma lata de água. E eu que gritara, que me horrorizara com a ideia de que podia morrer ali para um canto sem ar e sem luz, perdera de repente todo o desejo, todas as possibilidades de reagir. Perdera a esperança. E queria morrer. Não era capaz de arredar dali. Enchi-me de medo. Que iria eu fazer daí para diante? Um dos homens armados de metralhadora subiu e deu-me um pontapé. Ainda bem. A dor fez-me reagir. Pus-me de pé. Cambaleei, agarrei-me a ele. Levei um safanão. Cheguei à porta e desci.
Estendi-me ao comprido no talude. Vieram então os assistentes da Cruz Vermelha. E, a pouco e pouco, aquele exército de fantasmas, lavados, reanimados com um pedaço de pão, um tomate cru e uns goles de água, começou a pôr-se de pé. Vieram logo ordens enérgicas. E os homens da Cruz Vermelha foram proibidos de nos alimentar. E fizeram-nos subir, de novo, para os vagões. Mas as portas não foram fechadas completamente. Uma fresta de cada lado, uma em frente da outra, seria uma corrente de ar fatal para quem não tinha roupa sobre a pele. Mas era uma corrente de ar. Estabelecemos então turnos para respirar melhor. E de cinco em cinco minutos (pouco mais ou menos, pois nenhum de nós tinha relógio) um grupo ia encostar a boca à fresta da porta. Depois esperámos. Quando o comboio se pôs em marcha, já era noite. Soubemos mais tarde que já não podendo seguir o itinerário previsto, por as linhas estarem cortadas pelo “Maquis”, haviam decidido levar-nos para Perigueux. Chegados a Bordéus, e após alguns instantes de paragem que nem sequer deram tempo a que a Cruz Vermelha nos socorresse de novo o comboio pôs-se em marcha lenta. A meio da noite, parámos. O comboio tinha de retroceder. As vias estavam interceptadas. E voltámos a Bordéus, em direcção a Angoulême. Aí chegados verificou-se que a estação estava destruída pelos bombardeamentos.
O comboio foi desviado para uma linha de mercadorias, à espera que os “rails” fossem reparados. Abrem-nos então as portas e mandam-nos sair aos cinco de cada vez. Num pequeno regueiro que corria ao fundo do valado e a todo o comprimento do comboio, via-se então uma fila de desgraçados nus e sujos, de barba crescida e cara congestionada pelo sofrimento, procurando aliviar-se da tortura de uma necessidade tanto tempo contida. Para refrescar os lábios tumefactos pela febre, alguns dos infelizes arrancavam as ervas que tinham ao alcance das mãos. Outros, para quem é demasiado atroz o suplício da sede, não resistem à tentação da água que corre no mesmo regato onde os companheiros se encontram agachados. Transtornados, sem discernimento. Bebem-na, sôfregos. Recuo para o vagão, cheio de sede, endoidecido por aquela visão.
Um ataque inesperado, na noite
O comboio parte. Para onde? Sabe-se lá. E ainda não comi – nem sequer o pedaço de pão da Cruz Vermelha, que não houve tempo de o distribuir a todos.
Em Parcoul-Mediac, nova paragem. Depois no silêncio, ruídos estranhos e uma gritaria desusada. São aviões ingleses, de caça, que fazem um barulho infernal. Os soldados da escolta aferrolham-nos as portas e dispersam-se pelos bosques próximos. E assestam sobre os vagões as metralhadoras para que não possamos evadir-nos. Espreitamos pelas frinchas do vagão desconjuntado. É verdade, terrivelmente verdade. Por cima, os aviões. Aos lados, os alemães, às espera que um de nós arrombe a porta para fugir. Os aviadores ingleses que haviam visto fugir os alemães tomam o comboio por um transporte de tropas inimigas. E baixam. E abrem fogo. E todo o comboio, de uma ponta à outra, é esburacado pelas balas explosivas. Aterrados, impossibilitados de sair, vemos a trajectória luminosa das balas descrever caprichosas e alucinantes fantasias. Vamos morrer todos. E, ao meu lado, um velho, de grandes barbas, chora. Um outro lá ao fundo, grita. Estará ferido?
Não sei como surgiu aquela ideia. De repente, uma camisa branca, outra azul e outra vermelha são atadas a um pau. Passa-se este simulacro de bandeira pela fresta do vagão. Quando voltam à carga, os aviadores percebem o sinal. E deixam-nos em paz.
Os gritos do feridos começam a ser horríveis. Há três mortos e uns vinte em estado grave. Alguns são evacuados para o hospital de Angoulême.
E um novo dia amanhece.
Reportagem de Fernando Teixeira, in Diário Popular, 22 de Novembro de 1945
--- Leia aqui as PARTE 1; PARTE 3; PARTE 4.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
«Escaparate de Utilidades»
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