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terça-feira, 13 de março de 2012

Quando o S. Vicente se afundou

A passagem de aviões de guerra sobre as águas portuguesas era tão normal que ninguém ligou muito ao aparelho de “grandes dimensões” que seguia de norte para sul, perto do Cabo Roca. O comandante do “Açor” lembrava-se que isso acontecera – talvez - por volta das 18 horas. A alguma distância, no “Cabo de S. Vicente”, também pouco se ligou à passagem da enorme silhueta, mas isso iria mudar depressa.

Apesar de todas as medidas a marinha mercante portuguesa foi muitas vezes alvo de ataques.
(Foto revista "Defesa Nacional", reportagem sobre Marinha Mercante Portuguesa, Outubro 1944)


Depois de passar, o avião voltou para trás e, sempre a baixa altura, dirigiu-se de novo ao “S. Vicente” onde, perante o espanto dos tripulantes, abriu fogo, varrendo a coberta com metralha, e, de seguida, largou duas bombas que caíram muito perto do casco causando uma série de avarias que levaram ao seu afundamento. 

Por sorte nem os tiros nem as explosões causaram vítimas e o comandante, acompanhado dos 18 tripulantes, conseguiu saltar para um salva-vidas de onde foram recolhidos pelo “Açor”, que aportou no cais de Santos, em Lisboa, na manhã seguinte, depois de cobrir as cerca de 30 milhas que separavam terra do local do afundamento. 

Durante o inquérito, promovido pela marinha, nenhum dos capitães conseguiu identificar quaisquer marcas no avião. Garantiram que era grande, um quadrimotor, de cor cinza escuro mas nada podiam dizer quanto à sua nacionalidade ou outro pormenores. Ao contrário de outros casos envolvendo navios portugueses afundados, este caso chegaria ao final do conflito como mais um mistério por resolver. Não só ficou na obscuridade a autoria do afundamento, mas também as razões que a enquadraram.

O navio encontrava-se identificado, tanto com as marcas que o identificavam como barco de pesca, mas também como português. As cores nacionais estavam pintadas nas amuras e por cima da casa de navegação. Uma bandeira "nova", de dois panos, encontrava-se içada no penol".

“Porque razão teria esse avião passado junto do Açor sem o molestar, para logo a seguir (…) ir atacar o S. Vicente. E para que fez uma guinada para Oeste e só depois (…)o foi atacar a rumo perpendicular, quando o bombardeamento é mais certeiro (…) segundo a linha de rumo ao alvo? Não andaria à procura do S. Vicente por razões impossíveis de prever?”, referia um primeiro relatório enviado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo Ministério da Marinha.

O relatório refere também que já tinha sido questionada a Embaixada Britânica sobre a presença de aparelhos britânicos naquelas paragens, e que esta tinha negado que qualquer avião aliado voasse por aquelas paragens no dia 10 de Março de 1942. A verdade é que estas informações eram tudo menos fidedignas.

Só quando era inegável – devido ao número de testemunhos ou a existência de provas físicas – qualquer uma das partes reconhecia uma violação do espaço aéreo ou o ataque à neutralidade de um país.

No final do conflito, e num relatório da marinha que faz o levantamento sobre os diversos afundamentos de navios portugueses, foi avançada uma explicação que pode ter algum fundamento. O arrastão S. Vicente tinha sido construído em Inglaterra, onde era chamado um “trawler”, um tipo de navio que teve extensa utilização durante a Guerra.

A Marinha Real requisitou vários destes arrastões aos seus armadores civis, armou-os e colocou-os em patrulha ou em protecção de comboios. Não eram por isso estranhos aos FW200, o tipo de avião que terá provavelmente protagonizado o ataque, já que se encontravam muitos activos na nossa costa durante o ano de 1942.

A imprensa lamentou-se nos dias seguintes por mais um ataque “à neutralidade”.

O Diário de Lisboa recordava que já se elevava a seis o número de navios que tinham ido a pique em resultado de ataques desde o início da guerra. Na sua reportagem de 11 de Março continuava: “Não podemos deixar de lavrar o nosso o nosso veemente protesto contra mais esta violência inútil e brutal praticada contra um barco indefeso tripulado por humildes trabalhadores que grangeavam o pão de suas famílias, contribuindo ao mesmo tempo para o abastecimento da população, já difícil em virtude da crise provocada pela guerra”.

 Carlos Guerreiro

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