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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Lisboa, arte e guerra...
Inconfidências fatais e negócios de ocasião

Quando Hugo Andriesse encontrou Georg Hoffmann nas ruas de Lisboa, em finais de 1940, deve ter pensado que encontrara a solução para recuperar a colecção de quadros que deixara escondida à guarda do Museu Nacional da Bélgica. Não podia adivinhar como estava errado...

Andriesse era um importante industrial e colecionador de obras de arte. Nascido na Holanda e radicado na Bélgica, seria um dos muitos judeus a engrossar as colunas de refugiados que chegaram a Lisboa depois do avanço alemão sobre a Bélgica e sobre a França em 1940.

"A rapariga com o Papagaio", de Caspar Netscher, é um dos quadros da colecção de Hugo Andriess que nunca foi recuperado. No Von der Heydt Museum, na cidade de Wupertal, na Alemanha, está exposta uma pintura muito semelhante, mas o facto de existirem diversas cópias tem impedido as autoridades de o reclamar.

Com mais de setenta anos a sua posição social garantiu-lhe um bilhete para a América, mas para trás deixou, protegida nos abrigos antiaéreos do Museu Nacional da Bélgica - o “Musee Cinquantenaire” -, toda a sua colecção de pinturas e outras peças artísticas.

Durante anos prometera aos responsáveis da instituição deixar-lhes alguns quadros em testamento. O museu não colocou, por isso, quaisquer dificuldades para “abrigar” as obras de arte.

Em Lisboa os seus passos cruzaram-se com os do alemão Georg Hoffmann em Outubro de 1940. Conheciam-se. Hoffmann era um dos representantes comerciais da Galeria Katz, de Paris, onde o industrial tinha adquirido parte importante das obras da sua colecção.

Andriesse terá acreditado que Hoffmann - um alemão - conseguiria recuperar o seu tesouro. Confiou-lhe um pedido de ajuda. Queria que ele resgatasse da Bélgica os quadros, as tapeçarias e os tapetes.

O alemão mostrou-se interessado em ajudar e extorquiu todas as informações que pode. Depois dirigiu-se ao Cônsul Alemão em Lisboa e fez a denúncia: o museu nacional belga guardava a colecção particular de um judeu.

Estranhamente nada aconteceu…

Mas em Agosto de 1941 Hoffmann foi preso em Berlim e, durante o interrogatório, voltou a denunciar a existência dos quadros. Garantiu que eram mais de 60, entre eles “A Jovem” De Rembrant, para além de telas de Ticiano, Salomon e Ruysdael.

Mostrou-se também disponível para ajudar na sua identificação, pois conhecia-as do tempo em que negociara com Andriesse na Katz, em Paris. Assegurava também que o chauffeur do empresário - que conhecia apenas como Jean – ajudara a esconder a colecção e, com “um incentivo financeiro”, não teria problemas em dar uma ajuda na sua recuperação.

Em Outubro os alemães começaram a interrogar e a pressionar os responsáveis do Musee Cinquantenaire. Estes agarravam-se às promessas Andriesse. Se após a morte do empresário iriam herdar as pinturas eram legítimos proprietários do estava encerrado nos seus abrigos antiaéreos.

De pouco serviram as questões levantadas. O chauffeur ajudou a identificar as caixas que pertenciam ao ex-patrão e a meio de Dezembro foi tudo confiscado pela Unidade Especial Rosenberg (Einsatzstab Reichsleiter Rosenberg ou ERR) encarregada por Hitler de cuidar das questões culturais da Alemanha.

Esta unidade especial seria responsável pelas maiores pilhagens da guerra, devidamente registadas e catalogadas. Num documento de 1944, encontrado mais tarde pelos americanos, a ERR assegurava orgulhosamente, ter “salvo para a Europa” quase 30 mil peças de arte entre quadros, esculturas, tapeçarias, pratas, ouros, loiças, livros e muito mais. Parte deste saque nunca seria recuperado…

A colecção de Andriesse era constituída por cinco tapeçarias e 17 tapetes orientais antigos, para além de 28 quadros encerrados em caixas especiais. Entre estes encontravam-se, para além dos autores já referidos, também um Netscher, um Goyen e um Cuyp.

Andriesse viria a morrer em Nova Iorque, em 1942 e não voltaria a ver os seus quadros. Depois da guerra o Museu Cinquantenaire e familiares deram início ao processo de recuperação das obras de artes. Setenta anos passados, algumas nunca reapareceram.


Na arte do negócio

Há poucas certezas sobre a quantidade e a qualidade das obras de arte que circularam pelo país durante a guerra, até porque, como se viu, era importante manter a discrição para evitar o apetite dos nazis e dos seus protegidos.

Pela capital portuguesa circularam centenas, senão milhares, de pinturas, esculturas e outras peças artísticas. Para muitos refugiados, equivaliam a um seguro, uma garantia de dinheiro rápido em caso de emergência, razão porque encontravam facilmente lugar na bagagem, mesmo quando esta era de magro porte.

Talvez por isso podiam-se encontrar, em Março de 1942, diversos quadros de Hooch, Brueghel, Van Goyen, Tiepolo Diaz, Troyon, Whistler, Potter e Liebermann nas mãos da empresa Eco Trading, sedeada em Lisboa.

A informação - contida num relatório do Ministério dos Negócios Estrangeiros Britânico, elaborado em Abril de 1945 - adianta que a companhia justificou a propriedade com a aquisição de algumas pinturas em “leilões e lojas de antiguidades de Lisboa”, enquanto outras pertenciam ao refugiado judeu alemão, Wilhelm Artmann, um dos milhares que tinham chegado a Portugal após a invasão da França.

Negociante de arte comprara os Liebermann em Berlim quando Hitler mandara retirar de todas as galerias públicas os trabalhos de artistas judeus. Outros sete quadros tinham sido comprados no Luxemburgo e mais quatro ou cinco já em Lisboa.

Ainda em Portugal, um outro refugiado chamado Adolph Weiss tinha à venda um conjunto de tapeçarias e um tríptico. Fora cônsul de Portugal em Viena, na Áustria, durante 25 anos, mas por ser judeu tivera de fugir depois da anexação do seu país, estabelecendo-se no Estoril.

Assegurava que as obras lhe tinham sido entregues pelo Arquiduque Frederico da Áustria em pagamento de uma dívida. As autoridades britânicas e americanas suspeitavam, no entanto, que estas eram pilhadas, facto que “talvez” Weiss desconhecesse.

Em 1944, o ex-cônsul propôs ao Governo de Salazar a compra das sete tapeçarias. Retratavam a “história de Esther” e teriam sido oferta de casamento da rainha francesa Maria Antonieta à Irmã, Maria Cristina, no século XVIII.

O Governo português não se terá interessado pela proposta e o mesmo aconteceu, mais tarde, com o Governo britânico. O tríptico foi oferecido a uma galeria britânica, mas também aqui se gorou o negócio.

A única proposta concreta para a aquisição das tapeçarias terá vindo do Governo de Vichy, que terá adiantado 55 milhões de Francos pelas tapeçarias, mas estas nunca lhe chegaram às mãos.

O intermediário neste negócio era Antonio Pacetti, uma das muitas figuras intrigantes que passaram por Lisboa. Era suspeito de ser um agente do eixo envolvido no tráfico de obras de arte, e, em 1945, vivia na Suíça, enquanto estava sob investigações dos vencedores da guerra.

Curiosamente Pacetti apresentava-se, no pós-guerra, como vendedor das tapecçarias, não sendo claro se o fazia em nome pessoal ou em representação de Weiss, pois ambos – aparentemente - se diziam donos das peças e, tanto um como outro, procuravam clientes americanos para vender as vender por muitos “milhões de dólares”.

Carlos Guerreiro

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A Guerra na Madeira apresentada em Lisboa

Um acrescento à agenda deste mês e para hoje.

Em Lisboa apresenta-se hoje o livro “A Madeira na Segunda Guerra Mundial” de João Abel de Freitas.


A apresentação tem lugar no Bar da Ordem dos Engenheiros, na Rua António Augusto de Aguiar, em Lisboa…

 Boas Leituras
Carlos Guerreiro

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Vitória na festa do “Reviralho”

“Viseu acaba de assistir a uma manifestação demo-comunista, em que se verificaram aspectos de tal forma graves que a cidade ficou e anda justamente alarmada”. As primeiras linhas do relatório do comando da Legião daquela cidade nortenha não deixam dúvidas sobre as preocupações deixadas pelos festejos da vitória aliada.

Festejos em Lisboa frente à Embaixada Inglesa.
(Revista "Mundo Gráfico", 15 de Maio de 1945 /Hemeroteca de Lisboa)
A vitória das democracias e da Rússia comunista na guerra fazem os homens da “situação” temer o pior tanto ali, com o noutras cidades portuguesas. Receia-se um golpe de estado, apoiado por britânicos ou americanos, e forma como as multidões acorreram aos festejos não descansam ninguém.

Mal a notícia da rendição se torna pública, na tarde do dia 7 de Maio, as ruas foram ocupadas nas cidades, vilas e aldeias de todo o país.

Há foguetes e “morteiradas”. Bandas e fanfarras saíram à rua por conta própria ou solicitadas por comissões formadas para liderar os festejos, algumas destas últimas sob forte suspeita do regime.

Não existe uma política comum a todo o país para controlar as diferentes manifestações. Em alguns concelhos tudo se autoriza, enquanto noutros, são colocados limites.

Em Portalegre, por exemplo, o presidente da câmara não autorizou saída da banda “por haver fundado receio de que o facto fosse aproveitado para exteriorização de ideias subversivas ou contrárias à actual situação política”.

De um modo geral, no dia 7, as festas são mais espontâneas, tem um carácter mais popular e prolongam-se pela noite com muitos “vivas” e “atrás dos vivas, começaram de notar-se as bebedeiras que se prolongaram pela noite fora.” Para o dia seguinte marca-se nova festa e manifestação, especialmente, nas localidades de maior dimensão e, neste caso, já se nota uma certa organização tanto por parte dos que celebravam como por parte das autoridades.


O medo da vitória aliada 

O medo das consequências de uma derrota das forças fascistas da Europa são notórios em vários relatórios que foram chegando ao Ministério do Interior, especialmente, durante os anos de 1944 e 1945.

Festejos no Porto
("Jornal de Notícias", 8 de Maio de 1945 /Hemeroteca de Lisboa)

“Depois dos últimos acontecimentos da guerra (a morte afrontosa de Mussolini e a tomada de Berlim pelas tropas Russas) notava-se em certos sectores, uma excessiva alegria, onde afloravam ódios mal contidos, rancores pessoais e esperanças de uma subversão política em Portugal”, explica o já mencionado relatório de Viseu e não é caso único.

“Os conhecidos agitadores do Entroncamento (…) andam de orelhas levantadas e bastante animados. Juntam-se em grupos discutindo os acontecimentos. (…) Os homens da Situação andam amedrontados e rendem finezas aos adversários. Diz-se que finda a guerra há modificação do Governo. Que os aliados impõem aos outros povos a forma de Governo (democracia)”, resume um outro relatório da PSP de Setembro de 1944.

No mesmo documento pode ainda ler-se que muitos responsáveis locais “estão aterrorizados, o que demonstra bem claramente, porque contando talvez com qualquer revês, pactuam com pessoas reconhecidamente adversárias da situação".

Com o aproximar do fim surgem cada dados cada vez mais alarmantes sobre uma potencial ameaça ao Estado Novo.

“Silvino Diogo (…) disse a alguém que possuía em sua casa uma “lista negra”, que lhe fora fornecida pelos americanos, na qual constam os nomes de pessoas da Situação e Legionários que haviam de ser abatidos”, revela um dos muitos relatórios dos Serviços de Vigilância da Legião Portuguesa de Lisboa, datado do dia 7 de Maio.

Portugal vibrou de emoção, diz a legenda desta fotografia.
(Revista "Vida Mundial Ilustrada", 17 de Maio de 1945 /Hemeroteca de Lisboa)

Noutra informação da Legião, com data de 5, é destacada a confiança de um certo Medeiros, que em pleno Salão Brasil, na Rua Augusta, em Lisboa, se permitiu “fazer várias afirmações vexatórias (…) comentando o facto da Bandeira Nacional estar a meia haste em sinal de luto pela morte de Hitler. Assim, em voz alta, dizendo não ter receio daquilo que lhe fizessem, insultou o senhor Presidente do Conselho, tratando-o de «filho da puta», bem como todos os componentes do exército e Legião”.

Somam-se os actos de desafio.

“Em Coimbra, na noite de 3 do corrente, foram deitados mais de 500 morteiros, com o fim de festejar a queda de Berlim. Supõem-se que tenham sido anti-situacionistas, os autores desta manifestação”, salienta um relatório da Legião enquanto outro dá nota da colocação da bandeira “vermelha com a foice e o martelo, no poste da 3ª secção da Junta de Autónoma de Estradas” de Queluz, na noite de 6 para 7, enquanto três dias depois o mesmo acontecia na Ponte de Rio Tinto, no Porto.


O "reviralho" sai à rua

É assim num país em clima de tensão que se chega à assinatura da rendição dos exércitos alemães. E se no dia 7 a maioria das manifestações teve, como já foi referido, um carácter mais popular e espontâneo, as iniciativas marcadas para o dia 8 assumem um outro nível de organização.

Não se vão registar problemas de maior, mas à frente das multidões que se juntam para ouvir discursos e para vitoriar os aliados surgem várias pesonalidades que o regime identifica como elementos do “reviralho”, “comunistas”, “democratas” ou de “ideias avançadas”.

Mesmo entre a população há medo … Em algumas zonas onde estavam marcadas concentrações para o fim do dia o comércio já não abriu as portas durante a tarde.

O olhos e os ouvidos das gentes da “situação” aguçam-se e de vários pontos do país chegam notícias. Nomeiam-se os cabecilhas, repisam-se os seus discursos, apontam-se os suspeitos mais perigosos.

“Alfredo Mendes da Silva, ex-aluno da faculdade de direito, foi quem chefiou a manifestação dos universitários, à Embaixadas Inglesa e Americana. Era este cavalheiro quem gritava «DEMOCRACIA» e «LIBERDADE», e pediu em frente da Embaixada Americana que fosse ajudada a academia para se obter em Portugal Liberdade e democracia. Este nojento individuo, sempre manifestou o seu ódio ao Estado Novo, e principalmente a Salazar. (…) Hoje, diz alto e bom som, que é russófilo”, assegura uma nota dos Serviços de Informações da Legião.

Numa outra pode ler-se que “o conhecido maestro comunista LOPES GRAÇA, e outros elementos desconhecidos foram vistos orientando várias manifestações de carácter subversivo, entre elas uma que pretendeu assaltar o Café Martinho”. Na Régua “salientaram-se, dando vivas à União Soviética e «morras» à Gestapo Portuguesa, o cauteleiro SOTERO, que apesar de analfabeto, sempre se tem mostrado hostil à situação; CLAUDINO CLEMENTE, empregado de armazém da Casa do Douro; MANUEL PAIXÃO, taberneiro; ANGELO MONTEIRO, mestre-de-obras”.

Festa em Lisboa .
(Revista "Mundo Gráfico", 15 de Maio de 1945 /Hemeroteca de Lisboa)

Para além de se apontarem nomes também se enumeram os desafios ao regime, mesmo quando não possível apontar culpados. No Crato não houve desordens, mas ouviram-se frequentemente, “vivas à Rússia e à Liberdade, percebendo-se o espírito tendencioso da parte das pessoas que os soltavam (…). É certo que concorreu para tanto, a generosidades de dois proprietários de estabelecimentos de bebidas que, na boa intenção de comemorarem o fausto acontecimento, ofereceram vinho ao povo”.

Em Campo Maior foi possível “ouvir vivas às nações vitoriosas, aos aliados, a Carmona e Salazar, Estados Unidos, Inglaterra e Brasil e, ainda um único viva à Rússia em voz débil que não foi possível identificar”.

Mas houve quem pagasse com a prisão o excesso de entusiasmo. Em Ponte de Sôr, o secretário da Câmara Municipal deteve um jovem de 19 anos, carpinteiro, por ter dado um viva à Rússia . Conduzido ao posto da GNR “esteve dois dias detido, e depois de repreendido, foi entregue ao pai e à mãe, sem qualquer procedimento, em virtude de se tratar de um menor”.

As manifestações do dia 8 foram ricas em discursos e outras iniciativas que se estenderam pelos principais espaços públicos do país. Pelos relatos percebe-se que na maior parte dos casos existe uma estrutura organizativa que nem sempre afronta de forma aberta a situação, mas deixa recados nas entrelinhas.

Marca-se nova concentração para o dia 9. Anunciam-se, nomeadamente, novas manifestações de agradecimento frente às embaixadas Americana e Inglesa em Lisboa. As estruturas da oposição passam este apelo para fora da capital, mas entretanto Salazar coloca um travão na animação e proíbe novas concentrações.

Isso não impede, no entanto, que de Almada parta um enorme grupo de pessoas com o objectivo de atravessar o rio. A GNR local mobiliza todos os efectivos disponíveis e dirige-se para Cacilhas de modo a evitar a travessia para Lisboa. Apesar da multidão, não se registam incidentes e as pessoas desmobilizam…

A força da rua continua, no entanto, a sentir-se e a União Nacional aproveita-a, marcando para o dia 19 de Maio, um Sábado, uma grande manifestação de agradecimento a Salazar por este ter conseguido manter Portugal fora da Guerra… Milhares de pessoas de todo o país chegam à capital para esta demonstração de unidade nacional, mas essa é outra história.

Carlos Guerreiro

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Refugiados, donos das desgraças do mundo

É a última reportagem publicada por Walter Lucas no PM Daily antes de ser expulso.

Neste trabalho ele reforça a ideia de uma forte influência alemã em Portugal, mas acima de tudo destaca o drama dos refugiados, os seus medos e as suas esperanças.

Este conjunto de publicações sobre a expulsão do jornalista Walter Edward Lucas fica completa no dia 28 de Dezembro, com um artigo onde se resumem as várias páginas do processo de expulsão conduzidos pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e pelo Secretariado da Propaganda Nacional.

LISBOA CHEIA DE ESPIÕES NAZIS
Como a Gestapo anda à caça de novas vítimas
POR W. E. LUCAS

Um distinto estadista português observou numa conversa particular, não há muitos meses, que sabia que cada alemão em Portugal era um espião. Muito embora não se possa tomar esta afirmação como absolutamente verdadeira, no fundo é um resumo perfeito do que se passa.

Os refugiados enchiam as esplandas da baixa de Lisboa, mas isso não era sinal de alegria.


Vêem-se muitos alemães pelas ruas de Lisboa. O que é que demónio podem eles fazer? Comparemos, por exemplo, o número de pessoas empregadas na Embaixada Inglesa e o das empregadas na Legação alemã, em Setembro de 1939. A primeira tinha cerca de dez, não contando com os empregados de escritório; a última mais de 40.

Além disso a grande agência alemã de viagens Stimar, cuja razão de ser desapareceu com o rebentar da guerra, albergava mais de vinte activos jovens nazis. Afirmava-se, muito embora não se possa confirmar, que a polícia portuguesa fez uma rusga a este organismo e encontrou ali grande quantidade de armas.

Um estudo da imprensa portuguesa feito com cuidado seria suficiente para mostrar a direcção dos acontecimentos. Tudo o que se publica em Portugal é controlado por uma censura forte e aparentemente absurda. Teoricamente a censura trabalha segundo as directrizes de uma estrita neutralidade. Os factos de qualquer dos lados em luta podem ser apresentados, mas é proibido qualquer comentário a não ser que não seja absolutamente nada comprometedor.

À medida que a guerra e as vitórias alemã traziam consigo um nervosismo sempre crescente, começou também a desenvolver-se na imprensa a tendência de apresentar as notícias de maneira a dar certo relevo às vitórias alemãs.

Mas mesmo que a censura não tivesse nisso interferência, os próprios alemães começaram a exercer influência na imprensa de maneira a encaminhá-la dentro da sua maneira de pensar.

A quando da invasão dos Países Baixos, “A Voz”, o principal jornal católico, manifestou ligeiros sentimentos de revolta contra este ataque não provocado. No dia seguinte circulava por Lisboa inteira uma carta aberta sugerindo não só que a interpretação dos factos apresentada pelo editor daquele jornal era errónea, mas ainda que era imprudente para ele próprio, editor, expressar tais opiniões.

Não é muito forte o controlo alemão exercido directamente sobre a imprensa, com o exercido em Espanha, principalmente porque a maioria dos directores e editores dos jornais de Lisboa não simpatizam com os nazis. Mas o que não pode ser feito pela imprensa local é levado a cabo por uma verdadeira corrente de propaganda alemã.

Para fortalecer o efeito desta larga e livre distribuição de literatura, uma quantidade de jornais e revistas alemãs decora as portas da maior parte das tabacarias das principais ruas de Lisboa.

Os restos do naufrágio espalharam-se por todas as ruas, cafés e hotéis de Lisboa, assim como muitas cidades da província.

Costumava dizer-se que, se alguém estava na ponte da Gálata, estaria certo de encontrar a tempo quási todas as pessoas que valesse a pena encontrar. Lisboa é a moderna ponte de Gálata.

Mas há outro lado do quadro.

Entre a multidão errante e em retirada há veteranos de guerra contra Hitler que fugiram porque as suas vidas estariam em perigo se fossem apanhados.

Além de soldados ingleses, polacos, belgas franceses, holandeses e checos, há membros daquela nova classe criminosa internacional, homens e mulheres que combateram e escreveram o que tinham a escrever e se encontraram, por consequência, sem um país e muitas vezes sem os necessários documentos.


A história de três mulheres

Se tivésseis entrado num café, no Rossio, há dias, teríeis ali visto três mulheres. Tinham uma aspecto vulgar, mas tinham a sua história.

Andaram durante anos de lado para lado e uma vez mais tinham de levar esta vida de nómadas porque sabiam o que lhes acontecia se não fossem sempre à frente do perseguidor.

Ao fugirem tiveram por companheiro Arthur Benjamin, um judeu alemão, jornalista distinto. O sr. Benjamin encontra-se hoje enterrado em qualquer sepultura vulgar nos Pirinéus, na fronteira espanhola.

Levantou-se qualquer dificuldade acerca do seu passaporte. Recebeu ordem para voltar para trás, para a França. Naquela noite tomou os trinta grãos de morfina que sempre trazia consigo para qualquer emergência desta natureza.

Num outro dia poderíamos encontrar , no “bar” inglês, um belga que tinha acabado de chegar dos subterrâneos da Gestapo de Madrid. Tendo atrás de si uma tal experiência, fica-se admirado com a sua fria resolução de ir para Inglaterra e continuar a luta que deixou em França.

Depois de se ouvir a sua história pode bem acreditar-se que, quando o Sr. Himmler visitou o lugar de tortura da inquisição de Barcelona, ficou desapontado, como se conta, ao ver que, pelo que diz respeito a ideias, nada de novo ali tinha encontrado. As gentes da Gestapo tentam em todos os “bares” encontrar os homens e mulheres que procuram.


Todos os estratagemas

Lisboa está cheia de gente. Homens e mulheres que transpuseram as vertentes áridas dos Pirineus ou conseguiram ir de França para África pelos caminhos mais estranhos. Aterreram em Espinho em aeroplanos roubados e muitos outros usaram todos os estratagemas para fugirem a-fim-de poderem continuar a luta contra Hitler em Inglaterra ou em outra qualquer parte.

Há desespero assim como coragem nas ruas de Lisboa.

Este porto de Portugal está a tornar-se uma armadilha para muitos. Todos os caminhos parecem estar fechados a não ser que se dê o caso de se ter a chave particular que as abra.

Há aqui pelo menos dois escritores distintos cujos nomes estão na lista especial das pessoas a que serão permitidas as entradas nos estados Unidos. Enquanto a maquinaria oficial de Washington range e geme para lhes abrir a porta da salvação, podem eles desaparecer no negro abismo.

Entretanto, os barcos para a América e os “Clippers” vão cheios de passageiros armados com os necessários documentos. Muitos destes receberam os seus documentos porque são ricos. O sofrimento e a necessidade de escapar não servem de critério nem para a concessão do visto nem para a da passagem.

(PM, 6 de Dezembro de 1940)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Divisão Azul na Antena 1

Cerca de centena e meia de portugueses integraram a Divisão Azul.

Os números finais ainda estão a ser apurados pelo investigador da Universidade Nova de Lisboa, Ricardo Silva, que mergulhou nos arquivos da Divisão para conhecer quem eram e o que levou estes portugueses a combater o comunismo na frente russa.

Ficam seis minutos de uma conversa com o investigador que passou esta manhã na Antena1. Para ler mais sobre a presença de portugueses na Divisão Azul clique AQUI.

Carlos Guerreiro

terça-feira, 6 de novembro de 2012

«Conferência Portugal e o Holocausto»
Judeus Portugueses abandonados na Europa

Milhares de refugiados estrangeiros encontraram em Portugal um refúgio, enquanto esperavam por um navio ou qualquer outro meio que lhes permitisse escapar da Europa.

Este aspecto, muitas vezes salientado ao longo dos últimos anos, não deixa de ser ensombrado pela decisão do Estado Novo de virar costas aos judeus de origem portuguesa que se encontravam em vários pontos do mundo e sob alçada do regime nazi.


Na maior parte dos casos tratavam-se de comunidades há muito afastadas do país – desde expulsão dos judeus no final do século XV – mas que continuavam a falar e a considerar-se portugueses.

O caso não é, de facto novo, mas mereceu novamente destaque durante a conferência "Portugal e o Holocausto" que decorreu em Lisboa na última semana.

Avraham Milgram, Investigador israelita do Yad Vashem de Jerusalém e autor do livro editado em 2010 “Portugal, Salazar e os Judeus”, referiu, nomeadamente, o caso dos judeus portugueses na Holanda e na Grécia que o Estado novo decidiu não ajudar, apesar dos apelos, transformando Salazar num cúmplice do aconteceu depois.

"O caso mais conhecido foi quando Salazar não reconheceu os quatro mil judeus de origem portuguesa, na Holanda, mas sem vínculo formal a Portugal.Este episódio faz de Salazar um cúmplice involuntário", disse Milgram, referindo também casos semelhantes de judeus portugueses da origem turca ou grega.

Há vários anos que diferentes pessoas chamam a atenção para este tema, nomeadamente, os jornalistas Nair Alexandra e António Melo, e também pela historiadora Irene Pimentel no seu livro "Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial".

Ainda recentemente estes casos merecerem de novo atenção no livro de Esther Mucznik, "Portugal no Holocausto", editado este ano e onde a  autora conta a história dos 4 mil judeus portugueses deportados da holanda, mas também de outros de Salónica e ainda de vários pontos da Europa (ver AQUI).

Avrahm Milgram disse durante a conferência que se criou – no final da guerra - uma memória positiva do regime, mas parcial, pois não abrange toda a história daquele período.

Carlos Guerreiro (com Lusa)
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Para ler mais sobre a Conferência Portugal e o Holocausto clique AQUI.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Resultados da Conferência "Portugal e o Holocausto"

A questãos do holocausto, dos refugiados e da sua passagem por Lisboa reuniu, a 29 e 30 de Outubro, vários especialistas portugueses e estrangeiros na Fundação Gulbenkian.

A Conferência “Portugal e o Holocausto” foi um mais importantes encontros deste tipo que alguma vez aconteceu no nosso país.


Durante a iniciativa, que teve como principal dinamizador, o embaixador americano Alan Katz, acabaram por ser abordados diversos temas e questões que assumem especial importância para o estudo do período da II Guerra Mundial no nosso país.

O Aterrem em Portugal deixa-lhe um resumo das principais discussões e abordagens feitas ao longo dos dois dias. Para isso junta algum do material recolhido durante as conferências e elementos retirados do noticiário da Agência Lusa…

Nos próximos dias serão colocados neste blog artigos com os seguintes títulos:

- Judeus Portugueses abandonados na europa 

- Antissemitismo no Estado Novo 

- Que sabia Salazar do Holocausto

- Portugueses na Divisão Azul

Tratou-se de uma conferência longa, onde vários temas mereceram nota atenta de alguma comunicação social, razão porque alguns dos assuntos não serão desenvolvidos em textos próprios, mas em material publicado na comunicação social portuguesa.

Muitas destas notícias tiveram como base o trabalho do jornalista Pedro Khron da Agência Lusa, que acompanhou a maior parte dos trabalhos… Para ler as notícias clique sobre os títulos.

Do “Diário de Notícias” fica o relato da sessão de abertura que teve como principal orador e o ex-presidente da República Jorge Sampaio:

- "O genocídio não foi um acidente da História"

Do Público ficam duas notícias. Uma sobre parta da exposição de que já falámos neste blogue (ver AQUI::::) e outra sobre um encontro entre Embaixadores ( Alemanha, EUA, Áustria e Israel) que teve como protagonista inesperado o representante israelita.

- “Alunos portugueses ajudaram a resgatar a memória de vítimas do nazismo”

- “Embaixador de Israel diz que Portugal tem uma nódoa que os judeus não esquecem” 

Para além das questões levantadas pelo representante de Israel em Portugal, este encontro entre os embaixadores serviu, essencialmente, para se ficar a conhecer a forma como o passar dos anos mudou a perspectiva dos seus cidadãos em relação à questão do holocausto e dos crimes de guerra.

Novidade foi também a informação avançada pelo Embaixador Austríaco. Bernhard Wrabetz anunciou que em 2013 vai começar um trabalho de recolha junto dos arquivos portugueses que tem como principal objectivo identificar os refugiados de origem austríaca que passaram por Portugal durante a II Guerra Mundial.

Ainda é preciso definir formas de financiamento e o alcance que um trabalho deste género deverá ter. Wrabetz esclareceu que no princípio do próximo ano vão acontecer um conjunto de reuniões com uma historiadora austríaca no sentido de acertar mais pormenores…

Carlos Guerreiro
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Para ler mais sobre a Conferência Portugal e o Holocausto clique AQUI.