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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Podcast Portugal 1939-1945
Quando se conta uma história

 

Em Faro vai ser inaugurado um memorial que recorda o salvamento de seis aviadores americanos por pescadores daquela cidade na noite de 30 de novembro de 1943.


Para conhecermos melhor esta história vamos ouvir o Ti' Jaime - um dos pescadores que fez o salvamento -, Michael Pease - que lutou durante anos para concretizar o memorial-, José Vieira - que descobriu os destroços submersos-, e também o autor deste podcast que fez pela primeira vez a divulgação pública desta história...



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sexta-feira, 26 de abril de 2019

O estranho ataque ao “Vale Formoso Segundo”

“Um erro desafortunado. Temos de ser muito cautelosos com o que vamos dizer aos portugueses, apesar de parecer que o nosso rastro está bem dissimulado caso queiramos encobrir o nosso erro”. A nota manuscrita na primeira página da pasta de documentos que se encontra nos arquivos nacionais britânicos em Kew não deixa dúvidas sobre a singularidade do caso que se esconde nas páginas que se encontram lá dentro: a mal conhecida história do ataque a um pequeno iate-motor português chamado “Vale Formoso Segundo”, um mercante registado no porto de Faro, no Algarve.

Vista de Faro.
Fotografia publicada pela revista Panorama em 14 de abril de 1943.

(Hemeroteca Digital)
Os acontecimentos tiveram lugar perto da costa italiana, na madrugada nebulosa e de mar calmo de 26 de Abril de 1942, numa altura em que a bordo do “Vale Formoso Segundo” se verificou que havia um desvio na rota estabelecida, tendo a viagem nocturna aproximado o navio demasiado de terra. Pelas cinco e meia da manhã a tripulação tentava afanosamente corrigir o rumo quando se ouviu um primeiro tiro de canhão.

A origem do disparo foi rapidamente localizado cerca de meia milha pela proa, local onde emergia a torre de um submarino. O capitão José Joaquim Correia ordenou de imediato que se atravessasse o navio, se parasse o motor e se arriasse o pano, enquanto se mantinham visíveis as bandeiras com o nome do navio e a bandeira nacional, mas sem grandes resultados: “O desumano submarino continuou a disparar rajadas de metralhadora e tiros de peça, conservando-se sempre na nossa proa e sempre mostrando apenas a torre à superfície”, relatava dias mais tarde o protesto de mar entregue às autoridades portuguesas.

A insistência do atacante deixou marcas no navio e num tripulante. “Meteu uma granada no costado pela amura de bombordo, acima da linha de água; fez vários raspões no costado e na borda; furou as velas; cortou vários cabos de manobra e uma boia de salvação circular; sendo atingido por um estilhaço de granada de raspão no braço esquerdo o ajudante de motorista Donaldo R. de Sousa Marques felizmente sem gravidade”.

Segundo o protesto de mar foi já em pleno ataque que se hasteou uma bandeira italiana, o que parece ter acalmado a sanha bélica do submarino que se colocou ao lado iate por bombordo questionado o capitão português: “Pelo porta-voz perguntou-me se falava italiano, respondi que compreendia; então perguntou-me se eramos portugueses ou suíços, respondi que eramos portugueses, que vínhamos de Génova onde tínhamos ido levar carga para a suíça e nos destinávamos para Portugal; então perguntou porque nos encontrávamos ali, respondi que fora a corrente de água que nos tinha arrastado um pouco para terra durante a noite e que nos íamos afastar mais para fora. Então mandou seguir para o sul”.

José Joaquim Correia repete no seu relato que apenas conseguiu avistar a torre e não a estrutura do submarino antes deste submergir logo após a troca de palavras. Para além dos estragos visíveis por toda a parte, foram encontrados um bocado de granada, um percutor e vários estilhaços que seguiram com o navio para Gibraltar onde entraram para realizar reparações.


“Deixem as coisas ficar como estão”

Foi após fundearem no porto britânico, às 15.15 horas de 2 de maio de 1942, que começou a troca de mensagens entre Gibraltar, Lisboa e Londres. O primeiro telegrama foi enviado da Embaixada britânica na capital portuguesa para o comando marítimo do Atlântico Norte (FOCNA – Flag Officer Commanding North Atlantic) na sequência de notícias publicadas na imprensa portuguesa que davam conta do ataque. Pretendia-se confirmar a informação da presença na base do mediterrâneo e, simultaneamente, obter uma nota oficial assegurando que nenhuma unidade aliada era responsável pelo incidente.

Esta primeira missiva seguiu a 9 de Maio e logo no dia seguinte veio uma resposta que fez disparar os alarmes entre as autoridades navais do Reino Unido. Afinal o ataque fora executado pelo submarino P42 - “HMS Unbroken” - que tinha tido dificuldades em identificar a “escuna” que se aproximava, abrindo fogo com canhão e metralhadora. De resto o navio hasteava duas pequenas bandeiras – a portuguesa e suíça – que os ingleses não conseguiam identificar e – segundo o relatório do tenente Mars da Royal Navy - uma italiana de maiores dimensões. Apesar de tudo os portugueses tiveram a sorte do seu lado pois o submarino também disparou dois torpedos, mas um passou pela proa do veleiro sem lhe tocar e o outro mergulhou para o fundo mal saiu do tubo explodindo quando tocou na areia, causando até alguns danos aos britânicos.

Mas havia também notícias menos alarmantes. Uma delas era o facto de José Joaquim Correia, nas declarações que fizera às autoridades gibraltinas, ter identificado o atacante como sendo italiano, dando como justificação o facto de estarem fora de rota. A outra prendia-se com o facto do percutor – com marcas que o poderiam identificar como sendo de origem britânica – tinha sido entregue a oficiais da Royal Navy.

Face a esta situação um outro telegrama, enviado pelo almirantado ao Adido Naval na Embaixada de Lisboa, levantava a questão sobre qual a atitude a tomar: “Submarino falou apenas italiano. (…) Temos a alternativa de nada dizer, deixando que os tripulantes acusem os italianos, ou explicar a situação”. A resposta da capital lusa foi lesta: “Autoridades portuguesas estão convencidas de que submarino era italiano. Considero que melhor política é nada dizer. Embaixador Concorda”.

Nas trocas de correspondência e telefonemas que se seguiram foram tidos em conta os diversos cenários. Havia quem defendesse a necessidade de ser franco com Salazar, até porque o navio estava fora de rota e tinha hasteado a bandeira italiana, o que de certo modo sancionava o ataque. Outros tinham opinião contrária alegando que o caso já se arrastava há dias sem que os portugueses suspeitassem do seu envolvimento, mas que este intervalo de tempo sem assumir responsabilidades colocaria futuramente os britânicos sob suspeita imediata sempre que houvesse uma ataque, mesmo quando este fosse realizado - de facto - por unidades do Eixo. Sugeriu-se por tudo isto que o melhor seria deixar as coisas ficarem como estavam. A expressão utilizada é até curiosa: “My own instinct is to let sleeping dogs lie and to avoid being drawn into this, unless the situation demands it”.

Os italianos arcaram com as culpas...

Curiosamente no mesmo dia em que o “Vale Formoso Segundo” entrou no porto de Gibraltar também lá atracava o P42, comandando pelo tenente Alastair Campbell Gillespie Mars. Durante três dias os dois navios estiveram relativamente perto um do outro, mas José Joaquim Correia foi incapaz de reconhecer o seu agressor…

Carlos Guerreiro

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"Correio da Manhã" recorda desastre com bombardeiro de Faro

70 anos…

No próximo sábado passam 70 anos sobre a aterragem acidentada do bombardeiro americano PB4Y-1 (versão da marinha do B-24) ao largo de Faro.

Quatro dos americanos que sobreviveram ao acidente. 
Lyle Van Hook é o primeiro da esquerda.
Os restantes são Richard L. Trum, John W. Eden e Julian Pierce.

Cinco tripulantes desapareceram no mar e seis foram salvos por três pescadores que se encontravam numa pequena embarcação. O incidente aconteceu de noite, uma noite fria, e não fosse a presença dos portugueses ter-se-iam perdido, possivelmente, mais algumas vidas.

Há mais de uma década consegui juntar – através de videoconferência – o Ti Jaime e Lyle Van Hook. Em Faro estava um dos pescadores e no Arcansas um dos sobreviventes. Traduzi as palavras que um e outro disseram mais de meio século depois dos acontecimentos.

Quando finalmente editei o livro já nenhum estava vivo. É, no entanto, a história deles que abre o livro e foi a busca da história deles que me levou a procurar também outros testemunhos e acontecimentos.

No próximo domingo a revista “Domingo” do Correio da Manhã vai recuperar a história. Sei que para além de mim, também procuraram o contacto com o José Vieira, que encontrou os destroços no mar, e com Michael Pease, que quer construir um monumento para recordar este acto e outros que aconteceram pelo país durante aquele período.

Passaram 70 anos… fica um abraço ao Ti Jaime e ao Lyle.

Carlos Guerreiro

sexta-feira, 22 de março de 2013

Memorial aos Marinheiros portugueses

Está já a decorrer a recolha de fundos para construir o monumento que vai recordar os marinheiros portugueses que salvaram centenas de vidas durante a II Guerra Mundial.

O assunto já tinha já tinha sido referido aqui no “Aterrem em Portugal” (ver AQUI), mas nos últimos dias o promotor da iniciativa, Michael Pease, avançou com o site e começou a fazer contactos com diversas entidades tendo em vista a construção do memorial.

O Site está em Português e Inglês e pode ser consultado AQUI.

Entre embarcações de pesca, da marinha mercante e da marinha de guerra portugueses foram salvas para cima de 1700 pessoas nos oceanos Atlântico e Indico.

A ideia começou a ganhar forma quando Pease conheceu a história do avião americano B-24 que se afundou perto de Faro, em Novembro de 1943, e onde seis dos seus onze tripulantes foram salvos por três pescadores daquela cidade (ver AQUI).

A ideia cresceu quando percebeu que o número de salvamentos era muito superior e incluía pessoas de diversas nacionalidades. Desde o princípio desta semana, que é possível obter mais informações através de um site onde se pode também acompanhar a progressão dos donativos.

Michael, que já pediu orçamentos a vários escultores, diz que serão necessários cerca de 60 mil Euros para concretizar o memorial, que será instalado numa zona central da capital algarvia.

Carlos Guerreiro


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Para ler mais histórias sobre:
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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Monumento para imortalizar salvamento

Um residente estrangeiro no Algarve quer construir uma estátua que imortalize o momento em que três pescadores de Faro salvaram seis tripulantes do B-24, que se despenhou ao largo de Faro em 1943 (ver AQUI).

Esta possibilidade foi-me avançada há algumas semanas, através de um telefonema de Michael Pease, com o qual me tinha encontrado uma vez há muitos anos, por causa do velho bombardeiro.

Confesso que fiquei surpreendido com a ideia.

 Os três pescadores no barco que salvou os seis aviadores americanos.

Articulei o meu apoio, troquei uns poucos e-mails, mas com o decorrer do tempo não tinha voltado a reflectir sobre o caso.

Há umas duas semanas recebi novo telefonema… agora era o Bruno Filipe Pires do Jornal 123. Queria saber a minha opinião sobre esta ideia.

Pease continua empenhado em concretizar o projecto.

Iniciou uma campanha para reunir financiamentos e donativos. Envolveu a comunidade estrangeira residente na região e até já se encontrou com escultores.

Acredita que o monumento pode estar pronto dentro de um ano…

Inclino-me perante esta vontade… e fica o essencial da notícia do jornal 123:

Michael Pease recorda Jaime Nunes 

Residente inglês quer monumento aos heróis esquecidos 

Michael Pease, 82 anos, talvez um dos mais antigos residentes britânicos no Algarve, é um homem com uma missão: quer construir de raiz, um monumento à memória de Jaime Nunes e aos pescadores que na madrugada de 1 de Dezembro de 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, salvaram 6 aviadores norte-americanos.

Faziam parte da tripulação de um PB4Y-1 “Liberator” da US Navy que se perdeu e acabou por amarar a poucas milhas ao largo de Faro, onde ainda hoje repousa. Pease ficou impressionado com este episódio, resgatado do esquecimento pelo jornalista Carlos Guerreiro. Apesar de Jaime Nunes ter sido homenageado em vida, em 1999, Peace acredita que é preciso deixar uma marca permanente deste salvamento.

Quando questionado se não é já demasiado tarde para um novo monumento, já que todos os protagonistas há muito que faleceram, Michael Pease responde com determinação. “Absolutamente, não! Para mim, que sou um hóspede neste país, penso que esta é uma história de heroísmo que não deve ser esquecida. E não apenas isso, penso que se for devidamente concebido e promovido, o monumento será mais uma atracção turística a somar na cidade de Faro. Isso é um factor importante nestes dias de recessão”, considera.

Foi há quase 70 anos que tudo aconteceu. Jaime Nunes pescava numa noite fria de inverno quando ouviu um grande estrondo no mar. Dirigiu-se para o local o mais depressa que conseguiu e puxou seis homens feridos da água gelada para o seu pequeno barco. Cinco outros aviadores não tiveram a mesma sorte e foram engrossar a lista de desaparecidos de uma guerra que deixou milhares sem sepultura conhecida.

O jornalista Carlos Guerreiro, autor do livro «Land in Portugal» e do blogue homónimo, ouviu esta história da boca do próprio Nunes, há mais de 20 anos.

Com o advento da Internet, publicou o episódio numa página de veteranos da II Guerra Mundial e houve alguém que revirou os arquivos americanos do exército e depois da marinha para descobrir o historial deste azarado voo.

Mais tarde recebeu uma cópia do relatório oficial do desastre e começou a procurar o paradeiro dos sobreviventes. Depois de muitas cartas enviadas para o outro lado do Atlântico, Guerreiro conseguiu localizar Lyle Van Hook em 1998.

Contou-lhe como se tinham perdido e, sem combustível, tentaram aterrar - noite cerrada - naquilo que pensavam ser uma praia...

Em Junho de 1999, com o apoio da Embaixada dos EUA, Van Hook e Ti Jaime encontraram-se pela primeira vez através de video conferência (de notar que ambos eram à data pessoas de idade e com problemas de saúde, o que tornaria praticamente impossível um encontro físico entre ambos).

O pescador de Faro recebeu uma placa de agradecimento da US Navy. E a história fica por aqui. Ou talvez não…

“A cada dia que passa, parece que a minha ideia atrai mais pessoas, mais respostas positivas e entusiasmo pelo que estou a tentar fazer. Mas não sou mais que o promotor do projecto. Se tenho um prazo? Sim. Tenho 82 anos de idade e espero acabar isto antes que o meu tempo acabe. Mas, brincadeiras à parte, e ao ritmo que as coisas avançam, penso que a escultura poderá estar pronta dentro de um ano”, diz Michael Pease, residente em Odiáxere.

Pease contactou três escultores para apresentarem ideias. Idealmente, o bronze seria o melhor material, embora outros materiais alternativos não estejam postos de parte, se permitirem poupar custos.

A escultura seria eventualmente em Faro, perto da doca, onde Jaime Nunes desembarcou com a tripulação caída.

(Para ler o resto do artigo clique AQUI)

Carlos Guerreiro

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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Roteiro B-24 na Antena 1

Reportagem da Cristina Pinto, na Antena1, sobre a instalação de um roteiro submarino no Bombardeiro b-24, que se encontra afundado ao largo de Faro.


Para saber mais sobre esta história leia AQUI.


Bons sons...
Carlos Guerreiro
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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Bombardeiro vai ter roteiro submarino

Nem acreditam como estou orgulhoso… e não é por mim.

É por duas pessoas e por uma ideia que fizeram crescer ao longo de anos e que agora vai ter um importante reconhecimento.

Diga-se que o trabalho está praticamente feito – por eles e por amigos… mas o envolvimento da Universidade do Algarve dá um novo estatuto ao que foi realizado.

O velho bombardeiro americano da 2ª Guerra Mundial, que repousa frente a Faro desde Novembro de 1943, vai ver nascer à sua volta um roteiro subaquático nos próximos dias.

Quatro dos seis sobreviventes do PB4Y-1, versão da marinha do B-24. A fotografia foi tirada em Lisboa, pouco depois de saírem de Faro em 1943. 
Da esquerda para a direita temos Lyle Van Hook, Richard L. Trum, John W. Eden e Julian O. Pierce. 
Na fotografia mais pequena está Lyle Van Hook em 1999.

Os destroços do "nosso" bombardeiro – as asas, invertidas estão a cerca de 20 metros de profundidade – vão ter um conjunto de guias montadas em seu redor e cinco placas explicativas.

Há muito que o Vieira e a Fátima realizam mergulhos no bombardeiro… há muito que contam a história daquela noite de Inverno em que três pescadores portugueses salvaram seis americanos das águas geladas do Algarve.

Cinco outros companheiros não tiveram a mesma sorte e foram engrossar a lista de desaparecidos de uma guerra que deixou milhares sem sepultura conhecida.

Há uns 20 anos conheci um dos três pescadores que esteve envolvido no salvamento dos aviadores.

Jaime Nunes foi-me apresentado pelos netos.

Ele repetia a história do salvamento dos americanos a quem a quisesse ouvir… era um espécie de mito, longínquo.

Ti Jaime descrevia a noite fria. A queda do aparelho e a recolha dos feridos.

Chegados a terra foi necessário reactivar a central eléctrica da cidade para que os médicos – arrancados à cama – pudessem ter uma luz decente enquanto verificavam o estado dos feridos.

Contava também alguns episódios mais rocambolescos que aconteceram nos dias seguintes.

Depois os americanos foram-se embora de autocarro… e ficou a apenas a história.



Jaime Nunes a receber a placa de homenagem das mãos do Tenente Coronel Kelly, em 1999.














Descobri a data do desastre e os nomes “aportuguesados” dos tripulantes salvos, numa ficha dos bombeiros daquele período.

Essas informações e a versão do salvador dos americanos foram publicadas numa “Gazeta do Cenjor”, que saiu juntamente com o desaparecido semanário “Algarve Região” – em 1993.

Faltava o outro lado. Como seria interessante saber o que contariam os resgatados. Escrevi umas cartas desgarradas para os Estados Unidos sem grandes resultados…

A internet veio mudar tudo. Publiquei a história numa página de veteranos da II Guerra Mundial e houve uma alma caridosa que revirou primeiro os arquivos americanos do exército e depois da marinha para descobrir a História deste voo.

Um envelope triunfante de Gordon Brant chegou-me às mãos com uma cópia do relatório oficial do desastre. Continuava - com mais dados - a busca pelos sobreviventes.

Enviei cartas para aqui e para ali e finalmente consegui localizar Lyle Van Hook em 1998.

Respondeu via internet a uma carta… fê-lo no dia dos meus anos. Que prenda.

Van Hook contou como se tinham perdido e, sem combustível, tentaram aterrar - noite cerrada - naquilo que pensavam ser uma praia...

Tornei-me no canal de ligação entre Van Hook e Ti Jaime e em Junho de 1999 consegui colocá-los frente a frente, com as despesas a sair do bolso da embaixada americana.

Foi apenas uma videoconferência, mas seria difícil um encontro pessoal entre duas pessoas de idade avançada e com diversos problemas de saúde…

Van Hook agradeceu comovido ao seu salvador e o Ti jaime, recebeu uma plca de agradecimento da Marinha Americana...

Poderia o livro nunca sair, que este momento teria valido todos os esforços…

Infelizmente nenhum dos protagonistas viveu o suficiente para ver as sus histórias impressas nas páginas do meu livro. Ti Jaime Nunes faleceu em 2007 e Lyle Van Hook poucas semanas antes do lançamento do trabalho, em 2008.





José Vieira e Fátima Noronha, no seu ambiente. Depois de anos de buscas, encontraram o bombardeiro B-24.
 Hoje realizam mergulhos nos seus destroços.



Finalmente em 2001 tocou-me o telemóvel. Anunciavam-me a descoberta dos restos de um avião no mar, em frente a Faro. Julgavam que era o mesmo que eu tinha investigado.

Era o José Vieira.

Voei para me encontrar com ele na Hidropespaço, a escola de mergulho que, mais do que um negócio, é o projecto de sonho dele e da Fátima.

Tinham enviado mensagens para os Estados Unidos e foram surpreendidos quando receberam como resposta que as informações que queriam estavam, praticamente, à porta.

Ambos procurávamos há anos a mesma história - sob ângulos diferentes - e nunca nos tínhamos cruzado.

Tendo em conta que Faro não é assim tão grande, foi obra.

Os desenhos e as fotografias que me trouxeram confirmavam que se tratava do “nosso” B-24, ou melhor o PB4Y-1, aversão do B-24, utilizada pela Marinha Americana…





Imagem de um PB4Y-1 e um "croqui" onde se podem ver como se encontram dispostos os destroços do aparelho no fundo do mar.









Sem saber o que fariam as autoridades, resolveram cumprir todas as formalidades, como mandava a lei. Declararam o achado e passaram pela selva burocrática no sentido de obter uma autorização que permitisse o mergulho.

 Foram os primeiros – e talvez ainda dos únicos no país – a assinar um protocolo com o Instituto Português de Arqueologia que lhe permite legalmente mergulhar num destroço, tornando-se também seus guardiões.

Já trouxeram mergulhadores dos quatro cantos do mundo para visitar o “Bombardeiro”. Muitos mais portugueses também o fizeram…

Fotografia de um dos hélices do avião.

Agora vai ser musealizado com a colaboração da Universidade do Algarve. Mais um passo…

Esta história, com todos os seus pormenores, abre o livro do “Aterrem em Portugal”.

Dediquei-lhe os primeiros três capítulos do livro e um deles está disponível para leitura no site.

São quatro páginas que se encontram logo depois do Index e do Prefácio. Clique sobre elas para as aumentar.

As páginas podem ser encontradas AQUI.

A Lista dos tripulantes está AQUI.

Para "mergulhar" nesta história deixo também a ligação da Hidroespaço AQUI.

Por fim reproduzo também o essencial da história que a Agência Lusa publicou:

Bombardeiro submerso na II Guerra Mundial vai constar num roteiro subaquático
6 de Agosto, 2012

Uma escola de mergulho vai montar na quarta e na quinta-feira, ao largo de Faro, um roteiro subaquático que permitirá aos turistas mergulhadores navegar junto dos destroços de um bombardeiro afundado durante a Segunda Guerra Mundial.

A acção, que conta com a parceria do Centro de Ciências do Mar (CCMar) da Universidade do Algarve, consiste na colocação de cabos guia e cinco placas identificativas nos destroços do bombardeiro “Liberator” PB4Y, versão da Marinha dos Estados Unidos da América do famoso B-24.

As placas vão possibilitar a navegação dos mergulhadores entre as diferentes partes deste local e a identificação da respectiva fauna, num percurso total de cerca de 250 metros.

O projecto da escola de mergulho Hidroespaço, designado ECOSUB, tem como objectivo proporcionar aos turistas mergulhadores nacionais e estrangeiros um atractivo extra num local com uma envolvência histórica única.

O local de mergulho corresponde ao que resta de um bombardeiro americano que em plena Segunda Guerra Mundial (1943), se perdeu, acabando por se despenhar no mar ao largo de Faro.
(...)
Lusa


Um bom mergulho
Carlos Guerreiro  

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