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segunda-feira, 19 de março de 2012

Mergulhar na História do Dago

A história do afundamento do SS Dago, um navio britânico bombardeado por um avião alemão em 1942, perto de Peniche, vai ser contada e mostrada no próximo dia 23 de Março, na sede do Centro Português de Actividades Subaquáticas (CPAS), em Lisboa.


Uma fotografia do SS Dago que hoje se encontra a cerca de 50 metros de profundidade na zona da Berlengas.
(Foto publicada em http://pinturasempeniche.blogspot.com)

Os mergulhadores Paulo Costa e Jorge Russo vão conduzir esta viagem pela história e pelos destroços do Dago afundado no dia 15 de Março de 1942, quando navegava entre Lisboa e Leixões.

Durante a viagem foi atacado por um bombardeiro alemão Fw-200 Condor, muito habitual na nossa costa até 1943. Apesar da tripulação ter ripostado com diverso armamento que tinha a bordo, e após várias passagens o aparelho largou três bombas que atingiram o alvo.

O navio afundou-se em poucos minutos. Apesar de tudo os 37 tripulantes tiveram sorte e apenas quatro sofreram ferimentos ligeiros, tendo sido transportados para terra pelos salva-vidas motorizado de Peniche.

O Dago seria referido continuamente durante as décadas seguintes, mas só em 2007 foi possível confirmar quais os destroços pertenciam ao Dago e quais pertenciam a outro naufrágio.

Poderá ver e ouvir mais pormenores sobre esta história do Dago, um navio cargueiro que participou nas duas guerras, no dia 23, às 21 horas, na sede da CPAS, Rua Alto do Duque, nº 45.


Um filme com imagens dos destroços do Dago. 
(vídeo colocado no youtube por XpertDiver em 2008)

Um bom mergulho na história…
Carlos Guerreiro

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Para ler outras histórias de NAUFRÁGIOS clique AQUI.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Como gostaria de me lembrar...

Com apenas 20 anos o oficial de comunicações da marinha mercante inglesa, Alan Comes, sobreviveu ao afundamento do seu navio logo após o início da guerra.

Semanas depois contou, numa carta enviada à prima australiana, o pesadelo que viveu e a sua perda de memória que resultou da desventura…

Alan era tripulante do “Darino”, um pequeno navio mercante britânico, afundado no dia 19 de Novembro de 1939, pouco depois de largar do Porto.

O submarino alemão U-41, comandado por Gustav-Adolf Mugler, realizou vários ataques até conseguir afundar o navio que levou 16 dos 27 tripulantes com ele até ao fundo do mar, incluindo o comandante, William James Ethelbert Colgan.


Foto de um naufrágio publicada no Século Ilustrado de 30 de Setembro de 1939.
(Arquivo Histórico de Portimão)


A carta de Alan foi publicada na edição de “The Australian Women’s Weekly”, a 3 de Fevereiro de 1940…

Minha querida prima Dorothy,

Esta será a carta mais difícil que alguma vez escrevi na vida.

Sabes, toda a gente me diz que estive na Austrália, contigo, com o tio Mick e a tia Tone, mas tragicamente não me consigo recordar nada disso.

Perdi parte da minha memória e, se tudo o que ouvi sobre a minha viagem à Austrália é verdade, perdi a melhor parte da minha vida.

De qualquer forma agradeço muito a tua carta e as felicitações de Natal que me enviaste. Pela minha parte desejo que vocês tenham o mais feliz dos natais e das passagens de ano.

Dizes na tua carta que te enviei uma jóia. A minha mãe também me falou nisso, mas tenho de dizer-te que não me lembro de como era, ou de a ter enviado.

A guerra veio comigo para casa como uma experiência terrível.

O meu navio o “Darino” foi torpedeado há três semanas, às 3 horas de uma negra segunda feira, quando regressávamos a Liverpool do Porto, em Portugal (19 de Novembro). Estávamos a 300 milhas da terra mais próxima (Cabo Finisterra), algures na Baía da Biscaia.

O submarino não nos deu qualquer aviso. Éramos 27 tripulantes mas apenas 11 escapámos.

O torpedo atingiu-nos perto da escotilha número 3 na popa do navio, partindo-nos praticamente em dois. Éramos apenas um pequeno navio de 800 toneladas. O mastro da popa partiu-se e esmagou a sala de comunicações, não me acertando por pouco.

Estava dormir quando o torpedo nos atingiu, por isso vestia apenas o pijama.

Tínhamos dois barcos salva-vidas que ficaram reduzidos a átomos.

Tive de lutar para conseguir sair da minha cabina porque os sacos de areia estavam a prender-me lá dentro.

O gerador deve ter rebentado, pois tudo isto acontecia com tudo escuro como breu.
Consegui apanhar o meu casaco, ma não encontrei o colete salva-vidas. Dei a volta à sala de rádio, mas ela estava completamente destroçada, e os gritos dos homens presos nas cobertas de baixo estavam a deixar-me louco.

Tudo isto aconteceu em três minutos porque no momento a seguir fui projectado directamente borda fora. O meu relógio, que ainda tenho comigo, parou exactamente às três, e o torpedo atingiu-nos quando faltavam três minutos para a hora certa.

De repente surgiu na água uma enorme sombra negra. Julguei que era o pobre “Darino” a reerguer-se das ondas devido à explosão das caldeiras, mas era o submarino.

Tinha-me esquecido completamente dele.

Primeiro pensei que nos iam metralhar na água, mas em vez disso eles gritaram-nos para nadarmos na direcção deles o mais depressa possível para nos salvarem.

Recolheram-nos a bordo, mas não me recordo de muito porque estava quase inconsciente. De qualquer forma os alemães trataram-nos muito bem, embrulharam-nos em mantas, e dormiram na coberta de ferro para nos cederem os beliches.

Quando nos contámos vimos que éramos apenas onze. O capitão e o meu camarada, o terceiro imediato morreram, e os engenheiros também -todos eles - e o cozinheiro, o criado, o rapaz grumete e o bombeiro, no total de 16 mortos.

O imediato e o segundo imediato salvaram-se.

O comandante do submarino convidou-nos – os três oficiais – para jantarmos como ele, e deram-nos comida excepcional, e manteiga fresca também.

Por volta das 11 horas o submarino mergulhou e a tripulação tomou as posições de combate; estava a passar um comboio britânico por cima de nós!

Temíamos que cargas de profundidade nos fizessem explodir a qualquer momento, porque os homens por cima de nós não sabiam que existiam sobreviventes no submarino.

Felizmente os Destroyers não nos detectaram, ou não estaria a escrever neste momento. Acredita-me que estava completamente aterrorizado e não tenho vergonha de o admitir.

Eventualmente fomos transferidos para o navio neutral chamado “Caterina Gerolimich”, uma embarcação italiana.

Os alemães deram-nos dois pacotes de cigarros, e também me deram um par de calças.

Os italianos também nos trataram muito bem.

Tivemos uma viagem de pesadelo até Dover no navio italiano, porque ela não tinha mapas das áreas minadas e vagueamos por entre os campos de minas. Esperávamos explodir a qualquer momento.

Afinal estou aqui, mais ou menos intacto sofrendo apenas de choque, perda de memória e uma anca ligeiramente ferida.

Não consigo dormir muito bem, nem me atrevo a fazer a barba, e peço desculpa pela minha letra porque as minhas mãos não estão muito firmes.

Sinceramente

Alan



Carlos Guerreiro

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Para saber mais sobre o "Darino" clique AQUI.

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