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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Como gostaria de me lembrar...

Com apenas 20 anos o oficial de comunicações da marinha mercante inglesa, Alan Comes, sobreviveu ao afundamento do seu navio logo após o início da guerra.

Semanas depois contou, numa carta enviada à prima australiana, o pesadelo que viveu e a sua perda de memória que resultou da desventura…

Alan era tripulante do “Darino”, um pequeno navio mercante britânico, afundado no dia 19 de Novembro de 1939, pouco depois de largar do Porto.

O submarino alemão U-41, comandado por Gustav-Adolf Mugler, realizou vários ataques até conseguir afundar o navio que levou 16 dos 27 tripulantes com ele até ao fundo do mar, incluindo o comandante, William James Ethelbert Colgan.


Foto de um naufrágio publicada no Século Ilustrado de 30 de Setembro de 1939.
(Arquivo Histórico de Portimão)


A carta de Alan foi publicada na edição de “The Australian Women’s Weekly”, a 3 de Fevereiro de 1940…

Minha querida prima Dorothy,

Esta será a carta mais difícil que alguma vez escrevi na vida.

Sabes, toda a gente me diz que estive na Austrália, contigo, com o tio Mick e a tia Tone, mas tragicamente não me consigo recordar nada disso.

Perdi parte da minha memória e, se tudo o que ouvi sobre a minha viagem à Austrália é verdade, perdi a melhor parte da minha vida.

De qualquer forma agradeço muito a tua carta e as felicitações de Natal que me enviaste. Pela minha parte desejo que vocês tenham o mais feliz dos natais e das passagens de ano.

Dizes na tua carta que te enviei uma jóia. A minha mãe também me falou nisso, mas tenho de dizer-te que não me lembro de como era, ou de a ter enviado.

A guerra veio comigo para casa como uma experiência terrível.

O meu navio o “Darino” foi torpedeado há três semanas, às 3 horas de uma negra segunda feira, quando regressávamos a Liverpool do Porto, em Portugal (19 de Novembro). Estávamos a 300 milhas da terra mais próxima (Cabo Finisterra), algures na Baía da Biscaia.

O submarino não nos deu qualquer aviso. Éramos 27 tripulantes mas apenas 11 escapámos.

O torpedo atingiu-nos perto da escotilha número 3 na popa do navio, partindo-nos praticamente em dois. Éramos apenas um pequeno navio de 800 toneladas. O mastro da popa partiu-se e esmagou a sala de comunicações, não me acertando por pouco.

Estava dormir quando o torpedo nos atingiu, por isso vestia apenas o pijama.

Tínhamos dois barcos salva-vidas que ficaram reduzidos a átomos.

Tive de lutar para conseguir sair da minha cabina porque os sacos de areia estavam a prender-me lá dentro.

O gerador deve ter rebentado, pois tudo isto acontecia com tudo escuro como breu.
Consegui apanhar o meu casaco, ma não encontrei o colete salva-vidas. Dei a volta à sala de rádio, mas ela estava completamente destroçada, e os gritos dos homens presos nas cobertas de baixo estavam a deixar-me louco.

Tudo isto aconteceu em três minutos porque no momento a seguir fui projectado directamente borda fora. O meu relógio, que ainda tenho comigo, parou exactamente às três, e o torpedo atingiu-nos quando faltavam três minutos para a hora certa.

De repente surgiu na água uma enorme sombra negra. Julguei que era o pobre “Darino” a reerguer-se das ondas devido à explosão das caldeiras, mas era o submarino.

Tinha-me esquecido completamente dele.

Primeiro pensei que nos iam metralhar na água, mas em vez disso eles gritaram-nos para nadarmos na direcção deles o mais depressa possível para nos salvarem.

Recolheram-nos a bordo, mas não me recordo de muito porque estava quase inconsciente. De qualquer forma os alemães trataram-nos muito bem, embrulharam-nos em mantas, e dormiram na coberta de ferro para nos cederem os beliches.

Quando nos contámos vimos que éramos apenas onze. O capitão e o meu camarada, o terceiro imediato morreram, e os engenheiros também -todos eles - e o cozinheiro, o criado, o rapaz grumete e o bombeiro, no total de 16 mortos.

O imediato e o segundo imediato salvaram-se.

O comandante do submarino convidou-nos – os três oficiais – para jantarmos como ele, e deram-nos comida excepcional, e manteiga fresca também.

Por volta das 11 horas o submarino mergulhou e a tripulação tomou as posições de combate; estava a passar um comboio britânico por cima de nós!

Temíamos que cargas de profundidade nos fizessem explodir a qualquer momento, porque os homens por cima de nós não sabiam que existiam sobreviventes no submarino.

Felizmente os Destroyers não nos detectaram, ou não estaria a escrever neste momento. Acredita-me que estava completamente aterrorizado e não tenho vergonha de o admitir.

Eventualmente fomos transferidos para o navio neutral chamado “Caterina Gerolimich”, uma embarcação italiana.

Os alemães deram-nos dois pacotes de cigarros, e também me deram um par de calças.

Os italianos também nos trataram muito bem.

Tivemos uma viagem de pesadelo até Dover no navio italiano, porque ela não tinha mapas das áreas minadas e vagueamos por entre os campos de minas. Esperávamos explodir a qualquer momento.

Afinal estou aqui, mais ou menos intacto sofrendo apenas de choque, perda de memória e uma anca ligeiramente ferida.

Não consigo dormir muito bem, nem me atrevo a fazer a barba, e peço desculpa pela minha letra porque as minhas mãos não estão muito firmes.

Sinceramente

Alan



Carlos Guerreiro

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Para saber mais sobre o "Darino" clique AQUI.

Para ler mais sobre náufragos clique AQUI.

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