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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Algumas perguntas a Thomas Hamilton


O director e produtor Thomas Hamilton lança em Setembro um documentário sobre o actor Leslie Howard. “The Man who Gave a Damn” reúne filmes pessoais do actor que fazem parte do espólio da família e testemunhos – alguns recolhidos em Portugal – sobre a vida de um dos principais personagens do filme “E Tudo o Vento Levou”.

Thomas Hamilton está também a preparar um outro documentário onde aborda o desaparecimento do actor a 1 de Junho de 1943, quando num voo entre Lisboa e Bristol o avião em que seguia foi abatido sobre a Baía da Biscaia por caças da Luftwaffe.


Aterrem em Portugal: O que o atraiu neste projectos?

Thomas Hamilton: Na realidade começou por ser apenas o projecto para um documentário - “The Man who Gave a Damn” (O homem que se preocupava) – sobre a vida e a carreira de Leslie Howard.

Tudo aconteceu quase por acidente. Estava com a minha mulher em Toronto, num festival de cinema, a tentar preparar alguns projectos. Por acaso encontrámos a neta de Leslie Howard, Vicky, numa galeria de arte. Não sabia quem era e estávamos a falar do meu interesse em filmes antigos quando ela referiu que o avô tinha feito muitos filmes pessoais nos anos 20, 30 e 40 em Hollywood, na Riviera, na Broadway e noutros locais. Quando me disse quem era o avô julgo que não esperava que reconhecesse o nome – e ficou tão satisfeita que me convidou a conhecer a mãe - a filha de Leslie chamada Doodie - no fim-de-semana seguinte.

Menos de 48 horas encontrávamos a maravilhosa Doodie e ouvíamos algumas histórias, interessantíssimas e em primeira mão, sobre Hollywood.

É uma grande contadora de histórias e interessei-me cada vez mais naquele pai que se escondia atrás da estrela de cinema. Claro que Leslie era muito mais do que apenas uma estrela de cinema e quanto mais me contava sobre a vida pessoal e sobre a faceta de pai, mais me apetecia preservar as suas palavras.



Leslie Howard (ao centro) e o empresário Alfred Channels (à direita) durante a estadia em Portugal em Maio de 1943.
(Foto Século Ilustrado/ Arquivo Histórico de Portimão)

Parte da razão para o convite era o meu interesse nos filmes caseiros que Leslie fizera. Eles não tinham projector, mas percebi que vários filmes estavam a ficar degradados.

Rearranjei os meu voos e ficámos mais umas semanas até encontrarmos um projector para vermos os filmes. Quando os conseguimos ver ficámos maravilhados e comecei a pensar numa forma de preservar aquelas preciosidades.

Percebei que a única forma de justificar o investimento da transposição das fitas para outro formato (entre cinco e seis mil libras) era a sua utilização em algum projecto – e foi nessa altura que comecei a pensar seriamente num documentário construído à volta dos filmes de Doodie.

Ela sempre recusou envolver-se em biografias do pai feitas por outras pessoas, mas julgo que percebeu que os meus motivos eram diferentes e que isso permitiria que os filmes fossem preservados sem que ela gastasse dinheiro.

Pensei que tinha ali um bom e rápido projecto. Ainda tenho e-mails onde digo que espero terminar tudo em cinco ou seis meses. São de Outubro 2006 e já estamos em Junho de 2011!!!

Descobri depressa que um projecto destes deve ser feito como deve de ser e acabou por crescer.

É obvio que a forma como morreu interessa a muita gente – também a mim – mas queria que o filme tratasse da vida e não da morte.

As questões que rodeiam o abate do IBIS são intrigantes e reparei, durante as entrevistas, que muita atenção era dada ao que aconteceu nesse dia. É por isso que muito cedo, durante a produção de “Man Who Gave a Damn”, percebi que teria de fazer um segundo filme para abordar o seu desaparecimento.

Esse filme chama-se “The Mystery of Flight 777” (O mistério do Voo 777) e será um trabalho complementar onde posso também concentrar-me noutras pessoas que estavam dentro daquele voo.

Esse filme está ainda a meio pois concentrei as minhas energias em “The Man Who Gave a Damn”, mas agora que está quase completo, vou avançar com o filme sobre o Voo 777.

AP:O que procura mostrar num e noutro documentário?

TH: "Leslie Howard: The Man who Gave a Damn" é um filme sobre a vida, a carreira e as paixões de Leslie Howard. Vamos conhecer a carreira em Hollywood, em particular a participação em “E Tudo o Vento Levou”, mas vamos também conhecer um Leslie mais informal, - através dos filmes pessoais e das memórias filha Doodie.
O filme também lança um olhar profundo ao papel e à importância que teve no esforço de guerra britânico e aos acontecimentos que levaram ao seu desaparecimento em 1943.

Leslie Howard é uma daquelas estrelas que parecem estar esquecidas – sendo apenas recordado por um papel e pela participação no filme que menos gostou: Ashley Wilkes em “E Tudo o Vento Levou”. Nos últimos dois, três anos saíram bastantes livros novos que são inspirados na vida dele e tenho esperança que o meu filme faça renascer o seu nome para as audiências mais jovens.


Publicação na imprensa portuguesa em Agosto de 1943 anunciando a estreia do filme "E tudo o Vento Levou" 
(Diário de Lisboa , 7 de Agosto de 1943)

A filha Doodie escreveu uma excelente biografia de Leslie (A Quite Remarkable Father) publicado nos finais dos anos 50. É uma excelente leitura, mas pelo facto de ter sido escrito naquela altura deixou de fora muitos detalhes sobre os casos extraconjugais – especialmente porque a mãe ainda estava viva.

Recentemente Doodie escreveu novos capítulos que lançam um olhar mais franco sobre os seus casos – e um olhar mais profundo sobre aquilo que fazia Leslie entusiasmar-se. Li esses capítulos e posso confirmar que dão uma perspectiva nova ao livro. Há bastantes editores interessados e, se conseguirmos ligar o lançamento do documentário com a nova edição do livro de Doodie, isso poderá atrair um grande interesse dos media.

Para além de Doodie entrevistámos o assistente de Leslie nos filmes “Pimpinela Escarlate “ e “O Sexo Delicado” Norman Spencer; o especialista em II Guerra Mundial Professor Doug Wheeler; o historiador de cinema britânico Matthew Sweet; o guionista e fan Mark Burgess; o biógrafo Quentin Falco; o especialista em propaganda, professor Nick Cull, e Maude Queirós Pereira, com quem falei no Hotel Ritz em Lisboa.

Maude era uma adolescente quando Leslie esteve em Portugal e assistiu às suas conferências em Lisboa. Recorda-se também de Leslie quando o pai convidou o actor e o empresário dele para um lanche em casa deles.

O narrador é obviamente Derek Partdridge – em cuja vida Leslie Howard desempenhou um curto mas importante papel – pois foi ele que cedeu o lugar ao actor para este poder voar de regresso a Inglaterra no dia 1 de Junho de 1941. Derek tem sido um verdadeiro tesouro neste longo período que tem sido a produção do filme, nunca faltando com o seu apoio. Até no dia em que respondia a estas questões (03 de Maio 2011) gravou mais uma parte da narração para ser utilizado no filme. Neste momento posso dizer que a produção está terminada.

Em “The Mystery of Flight 777” olharei apenas para as circunstâncias que rodearam o abate do Ibis – e também as implicações mais alargadas sobre o que se passava naquele tempo em Lisboa.

Vamos incluir material até agora desconhecido, como uma entrevista gravada com Herbert Hintze (um dos pilotos dos Junkers que abateram o Voo 777) e também conhecer melhor o trabalho que andavam a fazer Wilfred Israel e Ivan Sharp.


Leslie Howard no papel de Ashley Wilkes no filme "E Tudo o Vento Levou".


Doug Wheeler desempenha um importante papel com mais de 25 anos de pesquisa sobre o tema. Vamos ainda ter entrevistas com Ben Rosevink (filho de Engebertus Rosevink, o navegador do Voo 777) e Frank Plugge, outra criança que por pouco não viajou no Voo 777. Salvou-se porque teve uma súbita inflamação dos adenóides. Ele lembra-se de forma muito clara de uma das outras crianças que viajou no aparelho: Petra Hutchence.

Ainda há muito trabalho para fazer neste projecto e espero, com o lançamento de “The Man who Gives a Damn”, reunir os apoios necessários para o terminar depressa.
Há também o aspecto mais pessoal deste acontecimento, o das famílias que foram atingidas pela tragédia. Frank Plugge lembra-se de visitar o pai de Petra Hutchence, um homem que esperava ver a filha - pela primeira vez em dois anos - e o filho bebé que nunca conhecera.

AP: Leslie Howard é a ligação entre os dois documentários. Para além de actor quem é este homem?

TH: É um enigma, uma figura multifacetada e muito difícil de caracterizar. A filha era próxima dele como poucas pessoas o eram, e admite que há facetas dele que nunca conheceu. Julgo, no entanto, que em “The Man Who Gave a Damn” mostramos facetas do seu carácter que o público desconhece.

Por um lado era muito modesto – uma pessoa que gostava de ficar na sombra e que se sentia pouco à vontade como actor. Por outro tinha uma forte personalidade, contrariando os grandes da indústria de Hollywood como Jack Warner (da Warner Brother’s) para concretizar uma ideia ou um projecto. Foi uma das poucas estrelas freelancer dos anos trinta.

Era também alguém com grande criatividade. Durante os anos 20 escreveu artigos muito engraçados para a “Vanity Fair” e várias peças de teatro – algumas que ele próprio produziu – fazendo tudo para provar que era mais do que apenas um actor.

Ganhou ainda o apoio de importantes colaboradores. Toda a gente sabe dos contactos que teve com Bernard Shaw no final dos anos trinta, mas já em princípios dos anos 20 criara uma produtora de filmes com apoio de figuras como HG Wells e AA Milne – numa altura em que era um actor praticamente desconhecido.

A empresa – a Minerva Filmes – faliu, mas Howard voltaria à produção de filmes nos anos trinta, apesar de considerar ridículo o “star system” de Hollywood.

Admiro também a forma como abandonou uma carreira lucrativa em Hollywood para se dedicar ao esforço de guerra britânico.

AP: Houve alguma coisa que o tivesse surpreendido durante a preparação dos documentários?

TH: Quando comecei este projecto conhecia pouco da vida de Howard. Sabia da maioria dos seus filmes e da ajuda que deu a Humphrey Bogart. Julgo que a maioria das pessoas sabe que “Bogie” deu o nome Leslie à sua filha em homenagem a Howard, mas descobri que ainda antes do filme “A floresta petrificada”, ele ajudara outros actores como William Gargan – que chamou ao filho Leslie Howard Gargan - ou Ilka Chase para nomear apenas alguns.





Algumas notícias publicadas no Diário de Lisboa após o abate do Voo 777.











Claro que os filmes pessoais trouxeram também muitas revelações, mostrando um lado informal, brincalhão e malandro que talvez não se esperasse de um homem que desempenhou o papel de Rhett Butler.

AP: Conversou com portugueses que contactaram com Leslie Howard durante a estadia em Portugal. Há alguma história que o tenha surpreendido?

TH:A maior parte das histórias descreve Leslie Howard como um homem muito sofrido em 1943, por nunca ter recuperado da morte da amante. Mesmo o filho e a filha o descrevem como distante e preocupado com questões espirituais. Quando Maude Queirós Pereira falou comigo descreveu um homem entusiasmado com a ideia para realizar um novo filme – uma co-produção luso-britânica sobre Cristóvão Colombo.

Foi uma surpresa e sugere que a aventura em Lisboa lhe reavivara o apetite pela vida e pela criatividade.

AP: Mantém-se a discussão sobre o abate do Voo 777. Um acidente ou um abate intencional. Chegou a alguma conclusão no decorrer das suas pesquisas?

TH: Não consegui chegar a nenhuma conclusão, especialmente porque tenho ainda entrevistas e pesquisas para realizar para o documentário sobre o Voo 777. Ouvi o testemunho de Herbert Hintze – um dos pilotos envolvido no abate do avião – onde insiste que foi uma coincidência ter encontrado o aparelho.

Assegura que o sol a camuflou as marcas do Ibis e que dispararam antes de perceberem que se tratava de um aparelho civil, sendo a ordem para suspender o ataque sido dada tarde demais.

Por outro lado há documentos – que apareceram recentemente – onde pilotos alemães capturados se gabam de o ter abatido de propósito. Mesmo entre os alemães as mensagens são contraditórias.

Uma coisa é clara. O tempo que separa as mensagens do Ibis – antes e durante o ataque – é de muitos minutos. Acho que longos o suficiente para os Junkers identificarem o aparelho.

Acredito que só saberemos toda a história quando todos os documentos sobre o caso forem desclassificados.

AP: Há alguma data definida para a estreia dos documentários?

TH: Estamos a planear a primeira apresentação de “Leslie Howard: The Man who Gave a Damn” neste momento. Iremos apresentá-lo a meio de Julho numa conferência de imprensa especial na antiga casa de Leslie Howard em Stowe Maries, em Dorking, onde os actuais proprietários esperam colocar uma placa em honra de Leslie. Esperamos ter uma convidada muito especial nesse acontecimento – se a saúde deixar – mas para por agora não posso dizer muito mais.

Depois do lançamento do filme vamos entrar em alguns festivais que consideramos importantes para garantir a sua distribuição. A Turner Classic Movies nos estados Unidos vai exibi-lo, provavelmente, no final do ano - talvez perto do Natal – mas para as televisões fora dos Estados Unidos ainda temos de ver o tipo de distribuição que vamos ter.

Espero que “The Mystery of Flight 777” seja concluído mais depressa do que “The Man Who Gave A Damn”, mas por agora é cedo apresentar datas.

Carlos Guerreiro

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