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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Quirinus Tepas, o caloroso comandante do Voo 777

“O capitão Tepas perfurou uma úlcera enquanto realizava um voo. Conseguiu voltar a Bristol e foi o meu pai, médico, que foi chamado para o assistir. Simpatizaram um com o outro. Os meus pais começaram depois a convidá-lo para actividades sociais. Sabiam que ele estava sozinho em Bristol, pois tinha deixado toda a família na Holanda”. Roger Fennely resume desta o início da relação entre Quirinus Tepas, o piloto do voo 777, e a sua família.


Quirinus tepas a receber a “Ordem do Império Britânico” das mãos do Duke de Kent.
(Foto Jean Pratten/ Roger Finnely)

“Era um homem grande como um urso. Sempre muito interessado em saber o que estávamos a fazer.” Jean Pratten era a irmã mais velha de Roger e também recorda bem Quirinus Tepas.

“Foi através dele que Portugal entrou nas nossas vidas com pequenas coisas. Ele trazia-nos por vezes bananas e outras frutas. Eram coisas que não tínhamos por aqui. Estávamos sujeitos a um racionamento muito apertado. Éramos saudáveis mas não comíamos sempre o que queríamos… tínhamos direito a duas onças de queijo, uma de manteiga e coisas do género. Apesar destas limitações ele manteve sempre aquela corpulência. Dizia-lhe que lhe deviam dar comida muito boa em Portugal, porque em Inglaterra nunca conseguiria manter aquela figura”, diz a rir Jean.


Jean Pratten e Roger Finnely em 2010.

Roger também se lembra das bananas e das tangerinas que aquele homem “enorme” lhes trazia nos voos de Portugal. “Era muito pequeno e ficava impressionado com o facto de ele ser enorme. Era um pessoa que mostrava muito interesse pelas coisas, até por aquilo que nós fazíamos, apesar de sermos crianças. Lembro-me também que o capitão Tepas ficou muito surpreendido com os cantores de natal (Carol Singers) que temos em Inglaterra e que ele não conhecia. Ele adorava abrir-lhes as portas quando apareciam e deixava-os cantar dentro de casa. Depois dava-lhes frutas ou doces que ele guardava para esta altura.”

O pai de ambos, Leslie Fenely, já se encontrava no Norte de África quando o voo 777 desapareceu sobre a Baía da Biscaia. Tinha sido requisitado pelo exército em 1942, deixando para trás a família e a clínica que levara anos a construir. Os Fenely não tiveram por isso uma vida fácil.

“Para a clínica continuar a funcionar a minha mãe teve de encontrar médicos para dar as consultas e naquele tempo isso nem sempre era fácil. Foram dias difíceis”, explica Jean.

Difícil foi também um telefonema que a mãe de ambos recebeu dias antes de o aparelho desaparecer.

“A minha mãe não era nada emocional, mesmo nada. Mas naquela ocasião ficou muito chorosa. O meu irmão tinha nascido a 14 de Maio e ele ligou uns dias depois e disse-lhe que sabia que tinha os dias contados. Que os alemães iriam apanhá-lo e que não teria muito mais tempo” explicam Jean e Roger quase em uníssono.

Não é possível saber quais as razões fundamentavam esta crença, sendo certo que o aparelho tinha sido atacado duas vezes nos meses que antecederam o abate, em Novembro de 1942 e em Abril de 1943. Da última vez tinha escapado com vários furos numa das asas e na fuselagem.

Foi também por telefone que os Fenely tomaram conhecimento do desaparecimento do aparelho. “Soubemos no mesmo dia. Ele viva em Clifton com o comandante Dick, que nos ligou a contar o que tinha acontecido. Soubemos logo que ele tinha sido abatido pelos alemães”, detalha Jean que nos últimos anos pensou muito sobre este caso.

“Naquela altura era apenas mais uma baixa na guerra. Mas nos últimos anos tenho pensado nele. Ele recebeu em Fevereiro desse ano a Ordem do Império Britânico e isso foi publicado nos jornais. Ele disse-me que os filhos tinham sido levados para um campo de concentração por causa disso. Pergunto-me ainda hoje se teria sido do interesse dele receber essa medalha e ver o seu nome publicitado”, refere.

“Na fotografia da cerimónia ele está a receber a ordem das mãos do e o Duque de Kent, que também morreu na Guerra. O capitão Tepas não teve uma vida fácil. Os filhos presos num campo de concentração, a casa bombardeada pela RAF. Teve uma guerra má e morreu nela”… salienta ainda Jean.


Carta publicada num jornal britânico após o desaparedcimento de Quirinus Tepas. 
(Cedido por Jean Pratten/ Roger Finnely)

Outros pensamentos também a têm assaltado. “Nós esquecemos o assunto. Era mais um morto naquela guerra. Talvez os alemães acreditassem mesmo que Churchill vinha no avião. Não sei, mas ultimamente fiquei surpreendida quando percebi que parte importante da documentação relativa ao caso só será disponibilizada em 2057. Não percebo porque um primeiro lote de documentos só será disponibilizado em 2025. Não entendo porque têm de ficar os papéis secretos durante três gerações. Não faço ideia. E sabe o que também gostaria de saber…. É que outros documentos e casos são secretos até 2057. Porque é preciso esperar 114 anos para se saber a verdade?”, perguntas que Jean sabe não terão respostas tão cedo.

Acompanhe as declarações de Jean Pratten...




Acompanhe as declarações de Roger Finnely...


No meio de tantas dúvidas há no entanto uma certeza. Para o fundo do mar seguiram o avião, passageiros e tripulantes, mas também bagagens. Entre elas um pequeno “segredo” que Roger e Jean gostariam de ver desvendado…

“O capitão Tepas prometeu trazer uma prenda de baptismo para o meu irmão mais novo naquela viagem…, mas ele nunca a recebeu…“

Carlos Guerreiro
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