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sexta-feira, 16 de março de 2012

Filmes de fim-de-semana no Estoril

Para este fim-de-semana, que não se anuncia muito solarengo, ficam como sugestão dois filmes que passam pelo Estoril, inseridos num ciclo que se estende até Abril. A notícia é da página on-line do "desporto da Linha"...

Heróis da Segunda Guerra Mundial em destaque no Estoril 

A 2ª edição do Ciclo de Cinema Imagem e Memória, promovido pela Câmara Municipal de Cascais e a Memoshoá – Associação Memória e Ensino do Holocausto, prossegue este fim de semana no Espaço Memória dos Exílios.

Os filmes exibidos realçam as histórias verídicas de dois heróis da Segunda Guerra Mundial, que se destacaram por terem salvado milhares de judeus do Holocausto.

No final de cada exibição há lugar a uma sessão de cometários protagonizada, respetivamente nesta semana por José Carlos Vasconcelhos, diretor do Jornal de Letras e Fernanda Rollo, historiadora. Na sexta-feira, 16 de março, às 21h00, é projetado o filme “O Outro Lado do Holocausto” (“Varian’s War”), de Lionel Chetwynd, que no final será comentado pelo jornalista José Carlos Vasconcelos, diretor do jornal de Letras.

Neste filme, o ator William Hurt veste o papel de Varian Fry, um jornalista americano que, em novembro de 1938, assistiu em Berlim aos primeiros sinais de uma tragédia que previu vir a ser de “proporções inimagináveis”.

Em 1940, Fry chegou a França com uma lista de cerca de 200 nomes e uma elaborada rede de fuga, sendo rapidamente contactado por milhares de outros refugiados que ansiavam em escapar à Gestapo. No ano que se seguiu, Fry conquistou a liberdade para milhares de homens e mulheres que enfrentavam a morte certa.

Com o passar dos anos, Fry foi esquecido; contudo entre os nomes que ajudou a salvar contam-se consagrados artistas e intelectuais como Marc Chagall, André Breton, Max Ernst, Jacques Lipchitz, Heinrich Mann e Hannah Arendt. sábado, 17 de março, é exibido às 16h00, o filme “A História de Irena Sendler” (“The Courageous Heart of Irena Sendler”).

Protagonizado por Anna Paquin, o filme baseia-se na vida de Irena Sendler, assistente social polaca que salvou mais de 2500 crianças judias no Gueto de Varsóvia, durante a ocupação alemã da Polónia. Com grande risco pessoal, Irena arquitetou esquemas extraordinários para passar as crianças pelos guardas nazis.

Muitas vezes comparada a uma “versão feminina” de Oskar Schindler Irena Sendler não só salvou milhares de vidas, como incontáveis gerações dos seus descendentes. Esta sessão contará com comentários da historiadora Fernanda Rollo.

O Ciclo de Cinema Imagem e Memória tem entrada livre e decorre até 28 de abril no Espaço Memória dos Exílios.

As próximas sessões incluem a exibição dos filmes “Flame & Citron - Os Resistentes” e “O Exército do Crime”. O Espaço Memória dos Exílios fica no 1.º piso do edifício da Estação dos CTT no Estoril, Av. Marginal, 7152-A, Estoril.


Bom fim-de-semana e melhores filmes
Carlos Guerreiro

terça-feira, 13 de março de 2012

Quando o S. Vicente se afundou

A passagem de aviões de guerra sobre as águas portuguesas era tão normal que ninguém ligou muito ao aparelho de “grandes dimensões” que seguia de norte para sul, perto do Cabo Roca. O comandante do “Açor” lembrava-se que isso acontecera – talvez - por volta das 18 horas. A alguma distância, no “Cabo de S. Vicente”, também pouco se ligou à passagem da enorme silhueta, mas isso iria mudar depressa.

Apesar de todas as medidas a marinha mercante portuguesa foi muitas vezes alvo de ataques.
(Foto revista "Defesa Nacional", reportagem sobre Marinha Mercante Portuguesa, Outubro 1944)


Depois de passar, o avião voltou para trás e, sempre a baixa altura, dirigiu-se de novo ao “S. Vicente” onde, perante o espanto dos tripulantes, abriu fogo, varrendo a coberta com metralha, e, de seguida, largou duas bombas que caíram muito perto do casco causando uma série de avarias que levaram ao seu afundamento. 

Por sorte nem os tiros nem as explosões causaram vítimas e o comandante, acompanhado dos 18 tripulantes, conseguiu saltar para um salva-vidas de onde foram recolhidos pelo “Açor”, que aportou no cais de Santos, em Lisboa, na manhã seguinte, depois de cobrir as cerca de 30 milhas que separavam terra do local do afundamento. 

Durante o inquérito, promovido pela marinha, nenhum dos capitães conseguiu identificar quaisquer marcas no avião. Garantiram que era grande, um quadrimotor, de cor cinza escuro mas nada podiam dizer quanto à sua nacionalidade ou outro pormenores. Ao contrário de outros casos envolvendo navios portugueses afundados, este caso chegaria ao final do conflito como mais um mistério por resolver. Não só ficou na obscuridade a autoria do afundamento, mas também as razões que a enquadraram.

O navio encontrava-se identificado, tanto com as marcas que o identificavam como barco de pesca, mas também como português. As cores nacionais estavam pintadas nas amuras e por cima da casa de navegação. Uma bandeira "nova", de dois panos, encontrava-se içada no penol".

“Porque razão teria esse avião passado junto do Açor sem o molestar, para logo a seguir (…) ir atacar o S. Vicente. E para que fez uma guinada para Oeste e só depois (…)o foi atacar a rumo perpendicular, quando o bombardeamento é mais certeiro (…) segundo a linha de rumo ao alvo? Não andaria à procura do S. Vicente por razões impossíveis de prever?”, referia um primeiro relatório enviado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo Ministério da Marinha.

O relatório refere também que já tinha sido questionada a Embaixada Britânica sobre a presença de aparelhos britânicos naquelas paragens, e que esta tinha negado que qualquer avião aliado voasse por aquelas paragens no dia 10 de Março de 1942. A verdade é que estas informações eram tudo menos fidedignas.

Só quando era inegável – devido ao número de testemunhos ou a existência de provas físicas – qualquer uma das partes reconhecia uma violação do espaço aéreo ou o ataque à neutralidade de um país.

No final do conflito, e num relatório da marinha que faz o levantamento sobre os diversos afundamentos de navios portugueses, foi avançada uma explicação que pode ter algum fundamento. O arrastão S. Vicente tinha sido construído em Inglaterra, onde era chamado um “trawler”, um tipo de navio que teve extensa utilização durante a Guerra.

A Marinha Real requisitou vários destes arrastões aos seus armadores civis, armou-os e colocou-os em patrulha ou em protecção de comboios. Não eram por isso estranhos aos FW200, o tipo de avião que terá provavelmente protagonizado o ataque, já que se encontravam muitos activos na nossa costa durante o ano de 1942.

A imprensa lamentou-se nos dias seguintes por mais um ataque “à neutralidade”.

O Diário de Lisboa recordava que já se elevava a seis o número de navios que tinham ido a pique em resultado de ataques desde o início da guerra. Na sua reportagem de 11 de Março continuava: “Não podemos deixar de lavrar o nosso o nosso veemente protesto contra mais esta violência inútil e brutal praticada contra um barco indefeso tripulado por humildes trabalhadores que grangeavam o pão de suas famílias, contribuindo ao mesmo tempo para o abastecimento da população, já difícil em virtude da crise provocada pela guerra”.

 Carlos Guerreiro

quinta-feira, 8 de março de 2012

Sobre a luz de Lisboa (Livros em inglês)

Durante a II Guerra Mundial as luzes de Lisboa iluminaram mais do que apenas as ruas da cidade. Numa Europa mergulhada no “blackout”, o brilho da capital portuguesa atraiu milhares de refugiados, mas também espiões e oportunistas que transformaram este extremo do continente no centro do mundo.

Ao longo de seis anos Portugal seria palco de todas as intrigas, tráficos e histórias. É este o retrato que dois livros editados o ano passado apresentam.

Tanto um como outro não têm ainda edição em português, mas as edições originais em inglês têm merecido atenção por parte dos críticos.

Não tive ainda oportunidade de ler qualquer deles, mas após diversas referências positivas na imprensa ficam aqui as transcrições de algumas das suas linhas e também as sinopses oficiais…


Lisbon: War in the Shadows of the City of Light, 1939-1945
De Neill Lochery
(Lisboa: A Guerra nas Sombras da cidade da Luz, 1939-1945)


“No final do filme Casablanca, quando Rick Baline e o Capitão Louis Renault partem para iniciar a sua a “maravilhosa amizade”, juntando-se aos Franceses Livres na guarnição em Brazzaville, o avião levando Victor Laszlo e Ilsa Lund levanta no nevoeiro. É para a “neutral” Lisboa que eles partem com os seus vistos de trânsito. Na vida real, a cidade de Lisboa durante a II Guerra Mundial mais do que se assemelhava ao filme; para muitas pessoas que trabalharam na cidade durante as fases finais da guerra Lisboa ficou conhecida, de modo, “afectivo” como “Casablanca II”. A versão da vida real tinha todos os ingredientes da história de ficção: romances acabados; refugiados desesperados procurando a documentação certa enquanto vendiam as joias da família para financiar o resto da viagem; um crescente mercado negro que fez cair para valores recorde os preços dos diamantes e de outras pedras raras; cafés e bares de hotéis cheios de refugiados e espiões espalhados pelo centro e ao longo da linha de costa da área Lisboeta”
In “Lisbon: War in the Shadows of the City of Light, 1939-1945” (Tradução livre)

Sinopse:
Data de publicação: Novembro de 2011
Lisboa teve um papel essencial na história da II Guerra Mundial, apesar de ali não se ter disparado um tiro. Foi a única cidade europeia onde tanto os Aliados como o Eixo operaram às claras, foi morada temporária de muitas cabeças coroadas no exílio, mais de um milhão de refugiados procuraram passagem para os EUA, e ainda hospedou espiões, polícia secreta, chefe das industria, banqueiros, judeus proeminentes, escritores e artistas, prisioneiros de guerra fugidos e gente do mercado negro. Um oficial de operações, escrevendo em 1944, descreveu o dia-a-dia de Lisboa como sendo Casablanca vezes vinte.



“The Lisbon Route: Entry and Escape in Nazi Europe”
De Ronald Weber
(A Rota de Lisboa: Entrar e Escapar da Europa Nazi)


“Hoje Lisboa está uma vez mais no centro de grandes acontecimentos. Assim começava um longo artigo no National Geographic Magazine de Agosto de 1941. Num ilustre passado, aventureiros tinham partido daquela cidade portuária navegando a partir da ponta sudoeste do Velho Mundo para reclamar novas terras e um império mundial; agora, numa período de proeminência invertida, Lisboa está no extremo contrário recebendo uma enchente de refugiados que tenta escapar de um Velho Mundo em guerra. A geografia e a neutralidade portuguesa atraiu a atenção mundial como a última porta de fuga do terror Nazi.”
In The Lisbon Route: Entry and Escape in Nazi Europe (Tradução livre)



Sinopse:
Data de Publicação: Março de 2011
A Rota de Lisboa conta a história extraordinária da transformação da tranquila cidade portuguesa, numa das maiores portas de saída da Europa Nazi durante a II Guerra Mundial. Realeza, celebridades, diplomatas, militares em fuga, e cidadãos ordinários percorreram desesperadamente os caminhos através de França e Espanha para chegar a esta nação neutral. Aqui os exilados encontraram paz e fartura apesar de muitas vezes enfrentarem desesperados atrasos e incertezas antes de conseguirem reservar passagens em barcos ou aviões que os levariam ao seu destino final. Para além de oferecer a paz da guerra, Lisboa fornecia a espiões, contrabandistas, assistentes de socorro, militares e aventureiros uma porta para as oportunidades oferecidas pelo conflito. Ronald Weber esboça um retrato da passagem de muitos destes transeuntes enquanto desfrutavam do charme e do clima benigno da cidade, da sua abundante comida e bebida, do seu jogo no casino e das suas praias atlânticas. No entanto, e apesar do ar jovial, pairou sempre uma sombra sobre a frágil natureza da neutralidade portuguesa, pois tanto o eixo como os aliados poderiam decidir – a qualquer momento – acabar com ela.


Ficamos à espera de edições portuguesas.

Até lá, boas leituras…
Carlos Guerreiro

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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Internamento de pilotos... na Irlanda

O internamento de pilotos durante a II Guerra Mundial não foi um exclusivo de Portugal. Na Suécia, Suíça, Espanha ou Irlanda também aterraram centenas de pilotos e aviões...

Fica um vídeo que me foi mandado por Yann Araújo e que mostra o que aconteceu na Irlanda... um filme muito interessante - e bem feito - para quem gosta da aviação daquele período. O combate aéreo está excelente...


The German from Nick Ryan on Vimeo.

Deixo também um link para um site muito semelhante ao Aterrem em Portugal, mas que se dedica aos aparelhos que aterraram na Irlanda durante o mesmo período. Um trabalho muito bem feito do Dennis Burke...



Bons voos
Carlos Guerreiro

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

«Ministério das Propagandas» FÁBRICAS DA LIBERDADE

O folheto tem cerca de trinta páginas dedicadas ao que chama o “exército civil da Grã-Bretanha”. Uma força que inclui os milhares de operários e trabalhadores que contribuem para o esforço de guerra.
O folheto é quase de certeza de 1941, numa altura em que a batalha de Inglaterra já tem um vencedor claro, e o objectivo é mostrar o poder industrial e capacidade de trabalho britânico. 

O complexo industrial alemão tinha sido arrasado depois da I Guerra Mundial e, especialmente, após a crise de 1929. Com a subida de Hitler ao poder a produção industrial disparou, o que foi usado como propaganda mesmo antes do conflito. 

O partido Nazi investiu também no turismo do operariado através de organizações próprias. A Portugal, antes da guerra, chegaram diversos navios com estes novos turistas que vinham desfrutar das paisagens de Sintra ou da vida lisboeta.

Este panfleto – onde claramente foi feito um grande investimento – parece ser uma resposta britânica à imagem que o Nacional-Socialismo foi passando ao longo dos anos.


O folheto faz referência a Ernest Bevin - nomeado por Churchill para reestruturar a indústria britânica em tempo de guerra – e compara o trabalho realizado por ele com o que diz acontecer na Alemanha:  “Viu-se por acaso Bevin constrangido a ameaçar, forçar ou empunhar uma pistola? Não. O povo britânico deu-lhe logo sem hesitação o seu melhor esforço, com um entusiasmo que seria impossível de obter em qualquer país escravizado à maneira nazi.”





















O folheto destaca também a capacidade de sacrifício e o engenho dos trabalhadores Britânico.


A “Indústria da liberdade” destaca também o contributo da Comonwealth para o esforço de guerra: “o entusiasmo não se limita, porém, às ilhas britânicas. Manifesta-se através de todo o esforço bélico das nações dos povos que constituem a Comunidade Britânica.”



“Ao terminar o ano de 1940 já as encomendas de guerra, feitas ao Canadá, se cifravam em 50 milhões de contos. As suas fábricas produzem canhões, «tanks», carros, navios e aviões.”
“Construiu a Austrália milhares de carros para o exército e está enviar aeroplanos não só para a Índia, mas também para outras frentes, cujo apetrechamento se faz em condições mais fáceis, vindo das regiões do Pacífico.”



“Também a África do Sul está a produzir em vasta escala toda a classe de munições.”

































Para mostrar a superioridade dos “recursos do Império” fica também uma lista das principais matérias-primas que estão disponíveis para o esforço de guerra e o olhar calmo e confiante dos operários britânicos.
 



Um olhar para um poderio económico que viria a ser reforçado com a entrada - em pleno - do aliado americano - e o seu "Arsenal da Democracia" -  em finais de 1941...
Carlos Guerreiro

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Japoneses desafiaram Salazar há 70 anos com invasão de Timor

Fica a história publicada pela Agência Lusa:


"A invasão japonesa de Timor-Leste aconteceu há 70 anos, deixando em três anos um rasto de destruição e 50 a 70 mil mortos na única parte do território português que, apesar da neutralidade de Salazar, viveu a II Guerra Mundial.


Investigadores portugueses contactados pela Lusa consideraram «trágica» e «catastrófica» a invasão, já que a resistência transformou Timor-Leste num teatro de guerrilha, estimando-se que 50 mil pessoas tenham morrido directamente devido à guerra e outras devido à fome, às doenças e aos trabalhos forçados pelos japoneses. No total, estima-se que mais de 10 por cento da população timorense tenha desaparecido naquele período.   



Folhetos Australianos lançados de avião sobre Timor durante a II Guerra Mundial. 
(Australian War Memorial, http://www.awm.gov.au/atwar/timor.asp)

 Há também registo da morte de 75 pessoas de origem europeia, 10 em combate, 37 assassinadas e oito em detenção, contou investigador António Monteiro Cardoso.

Além disso, acrescentou, «a destruição foi imensa», devido aos bombardeamentos efectuados, tanto pelos japoneses, como pelos aliados que tentavam expulsá-los. «Díli sofreu 94 ataques aéreos», disse o investigador, autor do livro Timor na 2.ª Guerra Mundial — O Diário do Tenente Pires, acrescentando que poucas foram as casas que ficaram de pé e a maioria das povoações timorenses desapareceu neste período.
A invasão, que ocorreu a 20 de Fevereiro de 1941, um dia depois de um bombardeamento a Darwin, «foi facilitada» porque não havia tropas portuguesas no território, contou o investigador. As tropas vinham de Moçambique e estavam já próximo de Timor-Leste quando os japoneses desembarcaram em Díli.

Apesar de a data não ter sido assinalada oficialmente hoje em Timor-Leste, na segunda-feira o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, referiu-se a estes acontecimentos históricos, durante uma visita que efectua à Austrália.

«Foi um momento definidor na relação entre timorenses e australianos», disse num memorial da guerra, em Sydney, considerando-o também «uma época em que a nacionalidade foi transcendida e, como seres humanos, os nossos povos não só sofreram uma dor profunda mas também fizeram actos de grande altruísmo, o que resultou numa ligação de amizade e de honra numa herança duradoira».

No mesmo dia 20 de Fevereiro de 1941, militares japoneses desembarcaram também em Kupang, no lado holandês da ilha, mas as autoridades do lado ocidental renderam-se ao fim de cinco dias. No lado oriental, tropas australianas preparadas para a guerra de guerrilha infiltraram-se nas montanhas e lançaram emboscadas logo que os japoneses começaram a sair de Díli.

Cedo estes militares contaram com o apoio dos timorenses, chocados com a violência da ocupação dos japoneses, que fizeram pilhagens e violaram mulheres. Também muitos dos portugueses que haviam sido deportados para Timor, sobretudo por questões políticas, se juntaram à guerrilha.

Segundo o investigador Moisés Fernandes, os portugueses não eram mais de 350 a 400 e havia uma divisão entre a elite da administração, que era pró-japonesa, e os restantes, pró-aliados.

Esta ideia é refutada por António Monteiro Cardoso, que defende que os principais administradores do território tomaram partido pelos aliados, contra a vontade do governo do chefe do governo português, António Oliveira Salazar, que exigia a manutenção da neutralidade e manteve relações diplomáticas com o Japão ao longo de toda a guerra.

Para António Monteiro Cardoso, Portugal «esqueceu» a invasão japonesa de Timor durante anos porque «a Salazar não interessava dizer que havia uma zona tocada pela guerra» e também porque a ausência de tropas em 1941 - destinada a garantir a neutralidade portuguesa - poderá ter facilitado a entrada das tropas nipónicas.

FPA/ Lusa"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Roubando vidas ao mar

A roupa encontrava-se rasgada, muitos apresentavam-se feridos e com fracturas. A exaustão era geral. Distribuídos por cinco salva vidas cerca de 200 sobreviventes do paquete “Ávila Star”, estavam numa situação preocupante desde que tinham sido torpedeados pelo submarino alemão U-201, no dia 5 de Junho de 1942.

Os dois torpedos inutilizaram um salva-vidas e, dos sete que conseguiram baixar, dois foram abandonados no dia seguinte porque metiam água. Apertados e em dificuldades tinham visto as cinco embarcações separarem-se e tentaram, cada uma à sua maneira, procurar salvação.

 O contratorpedeiro Lima. 

É só na noite de 7 para 8 de Julho que o contratorpedeiro da marinha portuguesa “Lima” – em trânsito de Lisboa para Ponta Delgada - se apercebe da existência de uma luz à distância. É um dos salva vidas. Os primeiros sobreviventes que sobem a bordo indicam ao comandante Sarmento Rodrigues a zona onde se encontram outros. Ao fim da noite já tinham recolhido 110 pessoas, de três embarcações.

“Estava tudo cheio, por toda a parte escorria nafta dos andrajos que iam sendo substituídos. Oficiais, sargentos, marinheiros, cedem as suas camas, emprestam as suas roupas, multiplicam-se em caridades para com os náufragos, cujo estado metia compaixão”, conta a Revista da Marinha, na sua edição de Janeiro de 1943.
A publicação traz uma reportagem épica sobre o trabalho feito pela marinha portuguesa no salvamento dos sobreviventes do “Ávila Star. O Lima continuou a sua busca enquanto pode, mas quando combustível escasseou, foi obrigado a abandonar as buscas.

Os responsáveis da marinha portuguesa não desistem dos outros sobreviventes e com recurso a aviões procuram as duas balsas desaparecidos.



 Algumas fotografias tiradas a bordo do "Lima", publicadas na "Revista da Marinha" em Janeiro de 1943.

 Três semanas depois do afundamento do navio é descoberta uma nova balsa. O avião larga viveres atados a coletes salva-vidas e reacende a esperança dos que se encontram a bordo. O navio “Pedro Nunes” acorre à zona, mas só três dias depois -no dia 25 - localiza e iça para bordo os últimos sobreviventes do “Ávila Star”. No pequeno barco tinham morrido 10 dos 39 ocupantes.
 
“O estado em todos os que vinham era indiscritível. Inanimados, moribundos quási. As senhoras choravam. Muitos foram retirados inertes, debaixo das bancadas onde jaziam. Um deles agonizava ao chegar ao convés do navio salvador. Outros devem a vida ao extraordinário esforço que o 2º tenente médico Nobre Leitão, desenvolveu durante longas horas, em que até uma transfusão de sangue teve de ser feita, com as mais rudimentares disposições para tal”, continua o relato da Revista da Marinha. Esta reportagem não refere, no entanto, que a bordo do “Pedro Nunes” se registou mais uma morte e que dois outros pereceram já em Lisboa, no Hospital.


O "Pedro Nunes" também mereceu o agradecimento da comunidade britânica pela participação na operação de salvamento dos sobreviventes do "Ávila Star". Fotos publicadas na "Revista da Marinha".
Apesar do empenho o quinto salva-vidas nunca foi encontrado. Dos 199 passageiros e tripulantes do Ávila Star, 73 não sobreviveram…


Um obrigado americano 
           
“No cumprimento de instruções do meu Governo, desejo apresentar (…) a expressão do profundo apreço do Governo dos Estados Unidos pela heróica acção praticada pela tripulação do contratorpedeiro Lima, salvando numerosos náufragos de navios americanos afundados na região dos Açores. Este acto, que foi praticado com extraordinária coragem e perícia, nas mais difíceis condições de tempo, fará, estou certo, uma profunda impressão no público americano quando se tornem conhecidas todas as suas circunstâncias”.

Esta é apenas parte da nota entregue no dia 3 de Fevereiro de 1943 por Robert Fish, Ministro dos Estados Unidos em Lisboa, ao Governo português depois de nova operação de salvamento do “Lima” que recuperou 119 pessoas pertencentes a dois navios americanos.

Através de um relatório oficial, guardado na Torre do Tombo, sabemos que o pedido de socorro chegou através de uma mensagem de rádio, no dia 26 de Janeiro. O Lima zarpou de Ponta Delgada, à procura dos sobreviventes do navio americano “City of Flint”, afundado por um submarino alemão.


 Notícia Publicada no jornal "Diário de Lisboa" de 04 Janeiro de 1943.

O navio português teria de percorrer cerca de 300 milhas para chegar ao local, mas iria começar a trabalhar antes disso.

Na madrugada do dia 28, por volta das cinco da manhã, avistaram duas jangadas transportando 71 pessoas, mas não eram do navio que procuravam. Pertenciam ao “Julia Ward Howe” que também fora metido a pique por um submarino alemão.

Tanto este, como o “City of Flint”, pertenciam ao mesmo comboio. Tinham saído de Nova Iorque no dia 13 de Janeiro de 1943, mas uma forte tempestade separou-os dos restantes navios.

O “Howe” seria atingido, no dia 27, por um torpedo do submarino U-442. A explosão abriu-lhe um rombo, destruiu dois salva-vidas e o rádio. Mesmo com o navio a inclinar-se, a tripulação tentou responder ao ataque disparando três tiros na direcção do submarino, sem resultados.

Já nos salva-vidas viram um segundo torpedo partir o navio ao meio. O mestre, um guarda e um passageiro morreram durante o ataque. Todos os sobreviventes foram recolhidos pelo “Lima”. A bordo ainda iria falecer o chefe maquinista, ferido com gravidade durante o ataque.


A proa do "Lima", numa fotografia da "Revista da Marinha".

O “Flint”, por seu lado, afastou-se do resto do comboio porque a carga, mal acondicionada, se deslocou com o temporal, deixando-o desequilibrado. Sozinho continuou a progressão em ziguezague para tentar escapar aos submarinos, mas às 22 horas do dia 25 encontrou o U-575.

Um torpedo incendiou a carga de óleo e gasolina transformando a proa numa tocha. A tripulação mal teve tempo para chegar aos quatro salva vidas, antes de outro torpedo confirmar o afundamento do navio. Dois tripulantes e quatro guardas perderam a vida.

O cozinheiro, Robert Daigle, foi recolhido pelo submarino e levado como prisioneiro. Os restantes 58 sobreviventes ficaram à espera de salvação.

Três salva-vidas conseguem manter-se juntos, mas o quarto afasta-se. Os primeiros tentam rumar aos Açores, navegando à vela, e acabam por ser encontrados pelo Lima. 48 homens são retirados da água.


Um difícil regresso

O Lima tem 119 náufragos a bordo e ainda procura a quarta embarcação. A aviação Naval volta a colaborar, mas sem resultados.

A 30 de Janeiro há notícias de mais um afundamento, 150 milhas a sudoeste do Faial e o “Lima” ainda se dirige-se para a zona, sem resultados. “O mau tempo e a escassez de combustível obrigaram-no a suspender a busca e a regressar a Ponta Delgada na tarde de 30, ao fim de 108 horas de esforços feitos em condições de sacrifício para toda a guarnição, cujos mantimentos eram escassos em virtude da urgência da saída e de ter a bordo grande número de náufragos, aos quais foram cedidos alojamentos e roupas”, esclarece o relatório do Ministério da Marinha enviado a Salazar.

O regresso seria complicado. Uma tempestade e uma avaria nas caldeiras, quase causaram o naufrágio do próprio Lima. Sem máquinas, o navio esteve exposto às ondas, “durante 45 minutos, atravessado ao mar, chegando a dar 67 graus de balanço e adormecendo apesar de ter, por precaução, enchido de água os tanques de nafta”, continua o relatório.

O "Lima" inclinado a mais de 60 graus no regresso a Ponta Delgada.
(Imagem cedida por  http://velhosnavios.blogspot.com/)

Quando chega a Ponta Delgada o relatório apresenta um extenso número de estragos: “uma baleeira perdida, outra avariada, o bote arrombado, um turco retorcido, toda a balaustrada de bombordo arrasada, o portaló do mesmo bordo levado pelo mar, grande parte do mobiliário das câmaras dos oficiais e sargentos e da enfermaria partida, telefonia completamente destruída, o rádio goniómetro avariado, um dos tanques de nafta fazendo água e vários cunhetes de munições levados pelo mar. Um dos marinheiros da guarnição teve uma perna partida em dois pontos e vários náufragos tiveram também ferimentos.”

Os últimos dez sobreviventes do “City of Flint” seriam recolhidos por um navio britânico e levados para Gibraltar. 

Carlos Guerreiro

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Para ler sobre outros Naufrágios clique AQUI.

Clique para saber mais sobre os navios:
                                                                "ÀVILA STAR"
                                                                "CITY OF FLINT"
                                                                "JÚLIA WARD HOWE"