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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Algumas perguntas a Ronald Weber

Ronald Weber é professor emérito da Universidade Notre Dame, no Indiana, nos Estados Unidos.

Tem vários livros publicados entre romances e obras de não –ficção.

O seu mais recente trabalho “Passagem Por Lisboa” conheceu em princípios de Abril uma versão portuguesa, editada pelo “Clube do Autor”.

 A versão original – em inglês – foi editado em 2008 “The Lisbon Route: Entry and Escape in Nazi Europe” (ver "Sobre a luz de Lisboa") e conta a história de Lisboa como porta de entrada e de saída de uma Europa envolvida na II Guerra Mundial.

Ainda se mantém a discussão sobre o número de  refugiados que terão chegado a Portugal. Os números divergem entre os 50 mil e mais e meio milhão de pessoas.

Certo é que muitos encontraram no porto de Lisboa a oportunidade de escapar ao avanço das forças nazis.

Ricos, pobres, intelectuais ou gente comum chegaram de carro, de comboio, de bicicleta e até a pé.

Aterrem em Portugal: Como se interessou pela história dos refugiados e outros que passaram por Portugal para entrar ou sair da Europa?

Ronald Weber: Fui professor convidado de cultura americana na Universidade de Coimbra em 1968-69.

Foi nessa altura que ouvi as primeiras histórias sobre pilotos alemães que vinham a Portugal para descansar e se divertirem.

Mas foi só em 2006, quando publiquei “NEWS OF PARIS: AMERICAN JOURNALISTS IN THE CITY OF LIGHT BETWEEN THE WARS” (Notícias de Paris: Jornalistas americanos na cidade Luz entre guerras – não há edição portuguesa) que recordei essas primeiras histórias quando descobri que muitos desses jornalistas e outros fugiram da Europa através de Lisboa depois da queda da França em 1940.

Decidi então que o meu livro seguinte seria sobre Lisboa como a grande porta de emergência durante a II Guerra Mundial. 







Passagem para Lisboa, editado pelo Clube do Autor, com o ISBN: 978 989 668 1517. Pode ler mais sobre o livro AQUI.
Aterrem em Portugal: Apesar de fisicamente ocuparem o mesmo espaço descreve dois países diferentes no seu livro. Um dos portugueses e outro dos restantes. Como foi isso possível? 

Ronald Weber: Aos refugiados e aos outros que chegavam a Portugal era pedido pelo regime de Salazar para que seguissem o mais depressa possível para outros países dispostos a recebê-los. 

Em resultado disso os recém chegados tinham pouco contacto tiveram com portugueses exceptuando os que trabalhavam nos hotéis, nos restaurantes, agentes de companhias de navegação ou de aviação e polícias. 

Para além disso os refugiados foram reunidos em Lisboa e noutras pequenas cidades, como as Caldas da Rainha ou a Ericeira, onde eram autorizados a ficar pelas autoridades enquanto esperavam por um novo país de residência. 

Portugueses noutros pontos do país teriam pouca ou nenhuma noção dos milhares de pessoas que escapavam através do país. 

Mas é preciso ter atenção a uma coisa. Eu estudei aqueles que iam e vinham através do país e o ponto de vista deles. Foi a história deles que tentei contar. 

 Uma outra coisa é a história do que pensaram e sentiram os portugueses com a chegada destas pessoas. Para chegar a essa história era preciso estudar material português na forma de cartas, diários, memórias, novelas etc… 

Aterrem em Portugal: Chegar a Portugal não era – para a maioria dos refugiados – o fim da linha ou fim do medo? 

Ronald Weber: Chegar a Portugal foi o fim da linha para muito poucos (Calouste Gulbenkian foi um dos poucos) pois o país não permitia a criação de uma colónia permanente de refugiados. 

Muitos ficaram com uma enorme sensação de liberdade quando chegaram ao país, mas houve sempre a sensação de que a Alemanha poderia acabar com a neutralidade portuguesa sempre que quisessem. 

Houve sempre histórias dos alemães a raptarem quem quisessem nas ruas Lisboa, especialmente judeus antinazis. 

Os recém-chegados compreendiam desde o princípio que uma liberdade plena só seria conseguida se deixassem Lisboa para trás. 

Aterrem em Portugal: Tem um capítulo dedicado às luzes de Lisboa. Isso era realmente uma coisa que fascinava os refugiados? 

Ronald Weber: As luzes brilhantes de Lisboa deslumbravam os recém-chegados de uma Europa em Blackout. Não parecia possível que o pequeno Portugal conseguisse viver como se a guerra não existisse. Não era menos deslumbrante, especialmente no princípio da guerra, a abundância de comida depois dos cortes e do racionamento que muitos refugiados tinham vivido na europa. 

Aterrem em Portugal: Houve alguma história que o tivesse fascinado mais que as outras? 

Ronald Weber: Sabia que Lisboa tinha sido um centro activo de espionagem durante a Guerra, mas nunca imaginei a verdadeira extensão dessa actividade – incluindo grane número de portgueses utilizados em pequenas tarefas como vigilantes ou informadores . 

Julgo que uma verdadeira história de Lisboa como centro da actividade de espionagem ainda está por escrever. 

Tive uma outra surpresa com as actividades dos grupos de auxílio (Judeus, Unitários etc…) que mudaram os seus centros de operações para Lisboa durante guerra e fizeram esforços heroicos para ajudar os refugiados com fundos, habitação e aconselhamento. 

Carlos Guerreiro

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