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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Há bombas no Entroncamento

O caixote de madeira era relativamente pequeno.

No interior encontrava-se uma segunda caixa de um material isolante que envolvia duas cargas explosivas, uma de 500 e outra de 200 gramas.

Os caminhos de ferro na zona do Entroncamento eram o alvo da sabotagem.

Encontravam-se também instruções em inglês e uma rude tradução portuguesa dactilografada. Dava instruções precisas sobre a forma de utilizar os explosivos para levantar carris, detalhando inclusive a dimensão dos rastilhos que deveriam ser utilizados.

Apesar de ter sido afastado da investigação, pela entrada em cena de dois elementos da Policia de Vigilância e Defesa do estado (PVDE), o tenente António Antunes Basílio, comandante da Polícia de Segurança Pública do Entroncamento, avança com diversos detalhes sobre a descoberta no seu relatório de 2 de Maio de 1943.

No documento, que se encontra entre os arquivos do Ministério do Interior, na Torre do Tombo, o oficial de polícia não tem dúvidas de que se trata de “uma coisa perfeita no género se os técnicos não concluírem o contrário”.

A proximidade das linhas de comboio do Entroncamento também não deixa dúvidas sobre o objectivo de uma potencial sabotagem. O caixote tinha sido encontrado perto da estrada que liga o Entroncamento a Torres Novas por alguns miúdos.

“Uns garotos viram (…) um automóvel estacionado com dois indivíduos, que usavam óculos escuros e descascavam e comiam laranjas. Os garotos afastaram-se mas observando depois, viram que esses indivíduos faziam, no local uma cova no chão. Voltando (…) e, lembrando-se do que haviam visto, notaram a terra mexida e escavando depararam com um caixote pequeno que conduziram para sua casa. Ali, o pai, julgando tratar-se de coisa que ele pudesse aproveitar, abriu o caixote e deparou com explosivos e uns papéis com instruções dactilografadas para a sua utilização como arma“, relata o comandante da PSP que explica também que foi o pai dos miúdos a informar as autoridades sobre o achado.

“Pelo que dizem os garotos, trata-se de um automóvel azul-escuro, pequeno, aberto com capota, e de dois indivíduos; um bastante novo, alto e magro, usando chapéu cinzento e outro de meia-idade, baixo, um pouco calvo, trajando casaco branco de linho e calças cinzentas. Ambos traziam luvas calçadas e óculos pretos contra o sol” continua o relatório.

 Apesar dos miúdos terem detetado as movimentações dos dois homens, não lhes foi fácil descobrir onde e o que tinham enterrado.

A cova tinha sido coberta e camuflada “lançando a terra sobejante numa vala próxima cobrindo-a com retraços de arbustos, ervas e até de cascas das laranjas que estiveram comendo”.

Apesar da intenção de encobrir a actividade o tenente Basílio revela um detalhe que salienta como curioso. “No local existem uns blocos de pedra facilmente referenciáveis e foi junto de um deles, o de melhor indicação, que a caixa foi enterrada”.






Desenho com a localização dos explosivos descobertos no Entroncamento. 
Este "croqui" faz parte de um conjunto de mapas desenhados por um agente que montou uma rede de sabotagem em Portugal.








Com base nos dados que recolheu este oficial da PSP não tem dúvidas de que se trata de “uma acção dirigida e com plano prévio, sendo credível que outros depósitos semelhantes ao encontrado hajam sido estabelecidos para actuação no momento próprio”.

Tem ainda menos em dúvidas em atribuir a propriedade dos explosivos a sabotadores comunistas. Apesar de ser “uma impressão pessoal” acredita que “a organização comunista recrudesceu de actividade, parecendo-me recomendável a mais apertada vigilância e ligação entre os organismos policiais”.

António Basílio baseia a sua “impressão” no facto de serem relatados há algum tempo movimentações de elementos identificados como comunistas ou como democratas na zona.

O facto das instruções contidas na caixa dos explosivos estarem em inglês, ainda reforça mais esta impressão. A ligação dos serviços secretos britânicos a grupos do “reviralho” há muito que era comentada…

O oficial tinha razão, mas apenas de forma parcial.

Não se tratava de facto de uma situação isolada. Várias destas caixas ficarem escondidas perto de pontos estratégicos em país como pontes, cruzamentos ou bases militares e só seriam reveladas já depois do fim do conflito…

Já em relação aos proprietários do caixote António Antunes estava muito longe da verdade. Os explosivos não pertenciam a movimentos do reviralho ou aos serviços secretos britânicos.

Tinham de facto origem em Inglaterra e haviam sido fornecidos à resistência Francesa… mas acabaram nas mãos dos alemães que os queriam utilizar numa campanha de sabotagem, caso Portugal fosse invadido pelos aliados.

 Mas essa é uma história que o “Aterrem em Portugal” já tinha contado em Maio de 2011, quando revelou documentos do interrogatório de Rudolf Blaum, um agente alemão em Portugal, em “A REDE DE SABOTAGEM ALEMÔ, numa altura em que não tínhamos conhecimento destes relatórios da PSP.

As histórias da História são mesmo assim... vão-se construindo.

Carlos Guerreiro 

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