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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma guerra acaba, outra se adivinha

Nos princípios de 1939 o semanário “Século Ilustrado”, conhecido pelas suas capas com rostos femininos, destacou dois momentos da actualidade. A 28 de Janeiro Francisco Franco espreitava, às portas de Barcelona, o fim da guerra civil espanhola e uma semana depois, a 4 de Fevereiro, era Hitler que olhava o mundo do alto do seu púlpito.




Franco às portas de Barcelona. Capa do “Século Ilustrado” de 28 de Janeiro de 1939.




Hitler discursa no sexto aniversário da subida ao poder na Alemanha do Nacional Socialismo. Capa do “Século Ilustrado” de 4 de Fevereiro de 1939.









No primeiro número os “clichés do correspondente particular” da revista, Enrique Gartner, sobre a ofensiva de Barcelona começam por ocupar as páginas centrais da publicação.

Franco está no centro da acção, rodeado de fotografias dos seus principais generais, da cidade, da frente de combate e também de “provas” da presença e das atrocidades dos “vermelhos”.

Estamos em vésperas da vitória total dos nacionalistas comandados por Franco o que, segundo o “Século Ilustrado”, “corresponde a dizer que a Espanha está prestes a ver-se (…) senhora dos seus próprios destinos (…) sem influências alheias à sua própria vontade”.


As páginas centrais (em cima) dedicadas à batalha de Barcelona. Em baixo, algumas imagens e o texto dessa página.







Mas o destaque dado à guerra de Espanha não termina nas centrais. Oito páginas mais à frente mostram-se fotografias de “milhares de prisioneiros de todas as raças feitos no assalto a Barcelona”.

A notícia refere que “entre essa mocidade não se encontram apenas espanhóis batendo-se contra os próprios irmãos. Há gente de todas as raças, novos e velhos, que o chamado governo de Negrin contratara para cumprir as nefastas e terminantes ordens de Moscovo”.

Página com “clichés” sobre os prisioneiros estrangeiros feitos às portas de Barcelona: “estrangeiros que sem a ideia de Pátria se batiam numa pátria que não era deles”.

Não há qualquer referência ao facto da agressão ter sido conduzida inicialmente pelos nacionalistas que desencadearam a guerra contra um governo eleito democraticamente. A intervenção dos Soviéticos e das chamadas brigadas internacionais, que trouxeram gente de todos os continentes para combater ao lado dos republicanos, são posteriores ao ataque que partiu de Marrocos em Julho de 1936.

Uma semana depois o grande destaque é o discurso de Hitler durante a comemoração dos seis anos da subida ao poder do partido Nacional Socialista. Um grande destaque para uma notícia que ocupa… meia página.

Só a tensão da hora justifica a importância dada ao discurso onde, garante o “Século Ilustrado”, o “Fuhrer” falou “claro, com senso e com calma, como homem que sabe as responsabilidades que pesam sobre os seus ombros”.



Em poucas linhas e meia página o “Século Ilustrado” conta os pormenores sobre o discurso de Hitler.

Em poucas linhas e meia página o “Século Ilustrado” conta os pormenores sobre o discurso de Hitler.
Setenta anos depois da publicação um olhar para as últimas linhas da notícia deixa uma estranha sensação: “Aos que esperavam que o fuhrer soprasse o clarim anunciador das grandes batalhas – o discurso de Hitler causou, possivelmente, decepção. Mas agradou e bem dispôs a todos que crêem que na estabilidade da Paz está a melhor maneira de os povos se engrandecerem e dignificarem!”

Oito meses depois as tropas alemãs cruzavam a fronteira polaca e davam os primeiros disparos naquela que viria a ser chamada a II Guerra Mundial…

Carlos Guerreiro

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