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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Algumas perguntas a Avelãs Nunes (1)

João Paulo Avelãs Nunes é professor de história da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e é também autor do livro “O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)", onde faz um estudo não só sobre o impacto económico, mas também sobre o impacto social que a exploração do volfrâmio teve em Portugal durante a 2ª Guerra Mundial.

O "Aterrem em Portugal!" publica hoje a primeira parte de um longa entrevista feita a Avelãs Nunes sobre este tema.


Aterrem em Portugal: Como é que o volfrâmio assume uma importância central nas exportações portuguesas durante o período da Segunda Guerra Mundial?

J.P. Avelãs Nunes: O volfrâmio ou tungsténio, combinado com outros metais, tem diversas utilizações, sendo as mais significativas em contexto de guerra o reforço de blindagens e de projécteis, de componentes de máquinas destinadas a escavar, cortar ou perfurar.

Desde o último quartel do século XIX que o volfrâmio é utilizado nessas funções e, por isso, sempre que existem conflitos militares aumenta a sua procura. Na Segunda Guerra Mundial a procura é superior à de qualquer outro período porque a utilização de blindagens se generalizou e também porque, a partir de meados de 1941, um dos lados do conflito passou a depender, quase na totalidade, da produção ibérica de concentrados.

Para a Alemanha era decisivo comprar tungsténio a Espanha e a Portugal porque não tinha acesso a outras reservas. O Reino Unido e, mais tarde, os EUA queriam impedir ou, pelo menos, reduzir a quantidade de minério a que os alemães acediam para assim diminuir a sua capacidade de produção de armamento.

Numa lógica essencialmente preemptiva, pois não necessitavam do volfrâmio ibérico, os Aliados compravam todo o volfrâmio que podiam, desequilibrando completamente a relação entre a oferta e a procura. O preço da tonelada disparou e fez com que a importância das vendas de concentrados de tungsténio na balança comercial portuguesa também aumentasse brutalmente.


Aterrem em Portugal: Para além da importância comercial o volfrâmio assume também grande importância no jogo diplomático ao longo de todo o conflito?

J.P. Avelãs Nunes: É melhor dizer que o volfrâmio está no centro do jogo diplomático. Uma das razões que terá dissuadido a Alemanha de invadir a Península Ibérica e, especialmente, Portugal foi a importância das reservas nacionais de volfrâmio.

Cartoon britânico publicado no jornal "Daily Mail" de Maio de 1944.

As maiores minas de tungsténio em Portugal estavam concessionadas a britânicos e a franceses ou eram controladas por técnicos ligados a estes dois países. Uma invasão alemã — que arrancaria dos Pirenéus — daria tempo para destruir ou sabotar as concessões mais importantes, anulando a produção durante muitos meses.

Desde que Portugal continuasse a assegurar o fornecimento de concentrados e numa altura em que a guerra ainda se encontrava equilibrada, os alemães não arriscaram uma interrupção da produção de volfrâmio.

As maiores pressões surgiram quando os Aliados começaram a ter vantagem e exigiram a diminuição ou a suspensão do fornecimento de tungsténio à Alemanha. O Reino Unido chegou, em fins de 1943 e princípios de 1944, a conceber apoiar o derrube de António de Oliveira Salazar ou do Estado Novo devido à recusa inicial de cortar as vendas de concentrados à Alemanha.

Os Aliados preparavam já o desembarque na Normandia e continuavam sem ter resposta às suas exigências e propostas. Foi talvez a única altura em que o regime correu o risco de ser derrubado por uma acção interna que contaria com apoio por parte de Londres. Salvou-se o regime nomeadamente porque a decisão de interromper as exportações de tungsténio para Berlim surge na noite de 5 para 6 de Junho de 1944, na véspera do desembarque Aliado na Normandia.


Aterrem em Portugal: Em diversos documentos oficiais surge a expressão “faroeste” para caracterizar o ambiente nas zonas do volfrâmio. Justifica-se esta expressão?

J.P. Avelãs Nunes: “Faroeste” ou “corrida ao ouro” na Califórnia são alguns dos termos comparativos que surgem. O volfrâmio alcançava preços elevados mesmo no mercado tabelado imposto pelo governo português. A partir de certa altura a Comissão Reguladora do Comércio dos Metais deveria comprar toda a produção e disponibilizá-la para exportação nos termos estabelecidos pelos acordos assinados com os beligerantes.

Anúncio publicado no Jornal de Notícias em 12 de Fevereiro de 1942.

Enquanto que, no centro e norte de Portugal continental, durante a Segunda Guerra Mundial, o salário de um trabalhador rural qualificado era de cerca de 10 a 12 escudos por dia, um quilo de volfrâmio no mercado tabelado valia bastante mais do que isso e no mercado negro chegou a atingir preços de 500, 750 e, mesmo, 1000 escudos.

A expressão “corrida ao ouro” surge, pois, naquele tempo, no sentido literal. Em princípios de 1942, ainda sem a intervenção do Estado português e com a guerra económica entre os dois blocos militares no seu ponto mais alto, encontrar uma pedra de volfrâmio representava o equivalente à remuneração de muitos dias de trabalho.

Quem necessitava e quem podia envolvia-se no processo de extracção, concentração e comercialização com grande empenho. Houve uma gigantesca mobilização porque as condições de vida eram muito difíceis. Em diversos sectores de actividade a guerra agravou o desemprego e alguns cessaram mesmo a actividade.

Outra razão para se utilizar estas expressões prende-se com o facto de a exploração do volfrâmio ser feita em regimes diversos. Existiam minas organizadas (com galerias, poços, cortas e/ou sanjas) que implicavam empresas estruturadas e acompanhamento técnico permanente. Nestes casos, devido ao aumento da procura, os ordenados subiram um pouco, mas a situação sociolaboral podia-se considerar como normal.

Havia, ainda, um tipo de exploração apenas realizada a céu aberto, que exigia menos condições, que implicava menor enquadramento técnico, mas que envolvia mais pessoas. Tratou-se da modalidade do “Kilo”, em que pequenos grupos de mineiros estabeleciam um contrato com o concessionário. Trabalhavam “à tarefa”, cabendo o manusear de explosivos e o acompanhamento técnico aos agentes económicos formais. Toda a produção deveria ser vendida aos concessionários.

Antes de serem proibidas pela censura vários jornais avançaram com notícias sobre o que estava a acontecer no país devido à exploração do volfrâmio.
Diário de Noticias, 12 de Março de 1941

Por fim havia a exploração completamente informal (o “Pilha”) e o roubo de minério ou de concentrados. Dado o preço dos minérios de tungsténio e o montante dos salários, a tentação de furtar, de desviar parte da produção para o “mercado negro” ou de extrair ilegalmente era muito grande. Mesmo alguns guardas das minas roubavam. Conta-se, por exemplo, que enchiam os canos das armas (por norma espingardas de caça) com minério de volfrâmio já concentrado que depois vendiam “na candonga”.

Há, também, notícias de roubos envolvendo dezenas de pessoas. Nas Minas da Panasqueira relatam-se assaltos ao cabo aéreo, um sistema de transporte de minério que utilizava grandes baldes metálicos suspensos por cabos que ligavam as zonas de extracção à Lavaria do Rio. As pessoas subiam aos postes, saltavam para as vagonetas e atiravam fora o minério que outros recolhiam. Muitas vezes apareciam os guardas da mina e a GNR, gerando-se situações de grande tensão.

Outros fenómenos ajudariam a criar um ambiente de “faroeste”. Atraídos pelo dinheiro e oriundos das cidades do litoral ou de outras regiões do país, chegavam às zonas de exploração de volfrâmio grupos de migrantes e de prostitutas. Fala-se de comboios cheios num vaivém de gente.

Haveria dinheiro em circulação e armas, incumprimento quase sistemático da legislação e relativização de interditos morais; esbanjamento de riqueza e acumulação de recursos financeiros ou, mesmo, de algumas fortunas; alteração, mesmo que apenas temporária, de regras e de hierarquias sociais. Muitas pessoas antes pobres adquiriram bens e serviços a que por norma não tinham acesso.

Ocorriam situações pouco habituais em zonas do país — o centro e o norte — habitualmente conservadoras. Com a subversão parcial das hierarquias e dos valores, ficou das áreas mineiras a imagem de um mundo à parte, de uma “Califórnia” ou de um “faroeste”, onde tudo era estranho mas possível.

Carlos Guerreiro
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Leia AQUI a segunda parte da Entrevista
Leia Aqui mais sobre VOLFRÂMIO.

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